Num momento em que a presença de treinadores estrangeiros em atividade no futebol brasileiro novamente vira pauta, desencadeando as mais diversas reações, uma história esquecida merece ser relembrada: a passagem do húngaro Gyula Mandi, treinador do lendário esquadrão magiar vice-campeão na Copa de 1954, pelo comando do America do Rio, três anos depois, é um retrato da relação do futebol brasileiro com seus técnicos, em especial os vindos do exterior.

Os fatos ocorridos no período em que Mandi dirigiu os rubros (agosto de 1957 a abril de 1958) são emblemáticos da cultura do jogo no país. Neles transparecem a atração da novidade, as grandes expectativas, o complexo relacionamento com o elenco, a interferência de dirigentes, a cobrança urgente de resultados, a falta de continuidade dos projetos. Mais de 60 anos depois, muitas das situações vivenciadas pelo húngaro permanecem atuais.

O CONTEXTO PRÉVIO

Naqueles meados de anos 50, o America era uma das potências do futebol do Rio. Nos três anos anteriores ao da chegada de Gyula Mandi, o time havia sido vice-campeão carioca em 1954 (quatro pontos atrás do Flamengo) e também em 1955 (após uma melhor-de-três com os rubro-negros). E em 1956, virara o primeiro turno na liderança, antes de acumular tropeços no returno e acabar em quinto lugar. Mas contava com um time inegavelmente forte.

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Em junho de 1956, a Seleção Brasileira jogaria a Taça Oswaldo Cruz, tradicional troféu disputado com o Paraguai. Já que muitos dos grandes clubes do país estavam excursionando pelo exterior e não teriam como ceder jogadores, a CBD recorreu aos que ficaram por aqui. Estava formada a “Seleção da Esperança”, que tinha por base o America, completada por nomes como Djalma Santos (Portuguesa), Formiga (Santos) e os banguenses Zizinho e Zózimo.

Jogando no alçapão do Libertad, em Assunção, o Brasil dirigido por Flávio Costa venceu os dois jogos contra os paraguaios (2 a 0 e 5 a 2) escalando nada menos que seis jogadores do America: o zagueiro central Edson, o lateral-esquerdo Hélio, o meia-armador Romeiro, os pontas Canário e Ferreira (autor dos dois gols na primeira partida) e o centroavante Leônidas (na época apelidado “da Selva”, para não confundir com o velho Diamante Negro).

A coisa deu tão certo que, nas duas semanas seguintes, o America seguiu como base da Seleção que derrotou o Uruguai e a Itália, ambos por 2 a 0, em amistosos no Maracanã. Canário marcou o segundo gol na vitória sobre a Celeste. Ele e Ferreira anotaram os tentos da vitória diante da Azzurra. E dali a mais uma semana, outra vez tendo os rubros como base, o escrete canarinho arrancou um 0 a 0 com a Argentina em Avellaneda pela Taça do Atlântico.

No primeiro semestre de 1957, porém, o futebol do America vivia período instável. A reta final ruim no Carioca do ano anterior havia tirado o técnico Plácido Monsores do cargo e seu sucessor, o argentino Carlos Volante (ex-médio do Flamengo nos anos 40), não vinha agradando e seria demitido antes do meio do ano. Para o posto, o presidente do clube, Giulite Coutinho, tinha planos ambiciosos, visando a uma verdadeira revolução no futebol dos rubros.

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A ideia era trazer um nome europeu, em especial de algum país entre os mais avançados taticamente do continente, e surgiu da constatação de que não havia no mercado brasileiro técnicos disponíveis que se adequassem ao perfil renovador de métodos e conceitos desejado pelo mandatário. Ainda que, naquela época, o futebol do Rio de Janeiro contasse com um grupo de treinadores renomados em atividade, com os mais variados perfis e bagagens.

Havia estrategistas desde veteranos, como o “Velho Marinheiro” Gentil Cardoso (que já contava quase três décadas de carreira) no Bangu, até de ascensão mais recente, como o mineiro Martim Francisco, atual campeão no comando do Vasco. E mesmo estrangeiros, como o paraguaio Fleitas Solich, que revolucionara o futebol do Flamengo, levando o clube a um tricampeonato em 1953/54/55 aplicando um futebol rápido, objetivo e sem firulas.

Fluminense e Botafogo tinham técnicos de perfil mais boleiro, ainda que também grandes conhecedores de tática: Sylvio Pirillo (ex-atacante de Inter, Flamengo e Botafogo) comandava os tricolores, enquanto João Saldanha havia sido alçado ao posto em General Severiano. E até um time pequeno como o Canto do Rio contava com um nome do quilate de Zezé Moreira, que apenas três anos antes havia comandado a Seleção na Copa da Suíça.

A CHEGADA DO ‘MESSIAS’ HÚNGARO

O nome na mira de Giulite também havia participado daquele Mundial. Mais: havia derrotado e eliminado exatamente o Brasil de Zezé Moreira. Era Gyula Mandi, treinador desde 1950 daquela fabulosa seleção húngara (o “Aranycsapat”, ou “Time de Ouro”) de Ferenc Puskás, József Bozsik, Sándor Kocsis, Zoltán Czibor e outros craques, e que saíra aclamada da Copa do Mundo, com um lugar na história, mesmo tendo perdido a final para a Alemanha Ocidental.

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Em que pese a violência em que se transcorreu o confronto entre as duas seleções, desde aquela Copa o futebol húngaro exercia enorme fascínio sobre os brasileiros. A visita do Honvéd, no começo daquele ano de 1957, contribuiu ainda mais para essa aura. Assim, a chegada de Mandi assemelhava-se à vinda de um Messias, ainda que ele (embora qualificado) tivesse sido apenas um treinador de campo na seleção, subordinado à palavra final de Gusztáv Sebes.

De todo modo, Mandi inegavelmente traria uma outra cultura do jogo. Em 20 de abril, ele havia assinado um extenso artigo publicado na Gazeta Esportiva paulistana, no qual repassava os nove pontos que norteavam a preparação dos times húngaros. Entre os quais, os treinos durante todo o ano, a busca do jogo ofensivo moderno com movimentações constantes, o aperfeiçoamento do jogo de conjunto e até a melhoria do nível cultural e educacional dos jogadores.

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As tratativas com o America começaram em meados de junho e foram rapidamente acertadas. O que acabou atrasando sua chegada em quase dois meses foram os trâmites burocráticos. Nesse meio tempo, que incluiu as primeiras partidas pelo Campeonato Carioca daquele ano, o time foi comandado interinamente por Oscar Saraiva, auxiliado por Osni do Amparo, ex-goleiro do clube e que acumulava também o cargo de preparador físico.

Ao desembarcar no aeroporto do Galeão, no Rio, em 10 de agosto, Gyula Mandi teve sua primeira conversa mais extensa com o jornalista Janos Lengyel, seu compatriota, que trabalhou por décadas para a imprensa carioca. Afirmou que não vinha para revolucionar o futebol brasileiro, mas apenas para “trabalhar em prol do America”, embora pensasse em adotar os mesmos procedimentos utilizados na seleção húngara.

A primeira semana foi de observação, na qual o treinador anotava tudo em um inseparável caderno, e sempre acompanhado de seu intérprete, Américo Hadel. Entre os pedidos para os treinos – considerados inusitados pela imprensa – estavam 22 bolas (uma para cada jogador), alteres, “medicine balls” e cordas para pular, além da construção de um “corredor de chutes”, para que os jogadores treinassem a pontaria em bolas rebatidas.

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O primeiro treino comandado pelo húngaro no estádio americano de Campos Sales, em 20 de agosto, chamou muita atenção na imprensa. Além de orientar o posicionamento dos defensores e o trabalho ofensivo dos ponteiros, ele exigiu bastante da pontaria dos homens de frente, chegando a parar diversas vezes os treinos para aperfeiçoar os chutes a gol, e fez questão de imprimir um jogo rápido, de toques curtos e sempre de primeira.

Para Mandi, o saldo final do primeiro encontro com o elenco havia sido positivo: “Gostei da prática que acabamos de realizar. Os jogadores do America são jovens e valorosos. Não encontrei dificuldades para o meu trabalho”, afirmou à imprensa, antes de fazer uma ressalva: “A maioria dos jogadores ainda está necessitando de maior preparo físico e de maior adaptação no corpo a corpo, quando da disputa da pelota”.

Embora o esquema 4-2-4 já fosse utilizado há alguns anos no futebol carioca por Fleitas Solich no Flamengo e por Martim Francisco em suas passagens pelo próprio America e pelo Vasco, Mandi preferiu manter a utilização do WM, ainda que liberando os dois médios defensivos do sistema para o apoio constante ao ataque. A ordem era jogar sempre para a frente. Começava a tomar forma o que a imprensa já batizava de “Diabo húngaro”.

Na estreia oficial de Mandi, o time empatou em 1 a 1 com o Fluminense em São Januário, pela quinta rodada do Carioca, no dia 25. Mesmo sem vencer, a atuação dos rubros agradou pela fibra e pelo entusiasmo. O zagueiro Edson era a imagem do otimismo ao fim da partida: “O America não perderá mais. Iniciamos hoje a grande arrancada, visando ao título. Pelo trabalho que Mandi realizará, o America será o quadro sensação do segundo turno”.

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O time, porém, oscilou até o fim da primeira metade do campeonato. Goleou a Portuguesa (5 a 2) e o Olaria (6 a 0), mostrando certa melhora nas finalizações. Mas não venceu os clássicos, embora mostrasse bom futebol: perdeu para o Vasco (1 a 0) num gol de Almir aproveitando uma bola mal atrasada de Edson para o goleiro Pompéia, e para o Botafogo (3 a 1), depois de sair na frente, perder um pênalti e sofrer a virada no segundo tempo.

Na penúltima rodada, com o time desfalcado por uma epidemia de gripe asiática, arrancou um empate em 1 a 1 com o Bangu. E fechou o turno num jogo movimentado contra o Bonsucesso em Campos Sales: ainda com alguns titulares de fora, chegou a estar perdendo por 2 a 0 no começo do segundo tempo, mas reagiu e venceu de virada por 5 a 2, com dois gols do ponteiro Miguel (substituto de Canário), dois de Leônidas e um de Alarcón.

Por essa época, o treinador concedeu longa entrevista ao jornal Última Hora, na qual explicou seu método curioso para aprender português – andar de transporte público – e fez considerações sobre o jogador brasileiro, ao qual teceu muitos elogios, mas fez a ressalva de que faltava calma em situações adversas e um pouco de rapidez de raciocínio. Entretanto, afirmou que o nível havia melhorado desde 1954 e que era uma honra para ele trabalhar por aqui.

A PRIMEIRA CRISE, CONTORNADA

A irregularidade dos resultados do America – agravada pelos tropeços de antes da chegada de Mandi – fez com o que o time acabasse o turno em sexto, empatado com o Bangu e atrás do surpreendente Canto do Rio. Na abertura do returno, uma derrota por 2 a 0 diante dos alvirrubros deu início a especulações sobre a posição do treinador em Campos Sales. O diretor de futebol Abelardo Azevedo foi enfático em dar total cobertura ao trabalho do húngaro.

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“Venho acompanhando com carinho o trabalho de Mandi entre nós, e posso assegurar, sem medo de errar, que o America possui um grande técnico. E o trabalho que está realizando é só digno de elogios. Sei que ainda este ano, nas mãos de Gyula Mandi, o America acertará”, apostava o dirigente. No entanto, outro revés logo em seguida, uma decepcionante derrota em casa para o São Cristóvão por 2 a 1, atirou o clube em sua primeira crise.

O America de 1957: Rubens, Pompéia, Edson, Ivan, Agnelo e Helio. Canario, Romeiro, Leônidas, Alarcon e Alvinho

Os dirigentes suspeitavam de sabotagem para com o treinador entre os jogadores. Ao fim do jogo, a torcida vaiou o time e aplaudiu o treinador. Os cartolas anunciaram multas e afastamentos a alguns nomes do elenco, mas o treinador interveio: “Mandi pediu mesmo que não tomássemos tal atitude e déssemos outra oportunidade aos rapazes. O técnico se recusava a aceitar que alguns elementos estivessem agindo contra ele”, comentou Abelardo Azevedo.

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No entanto, era nítida a mudança de performance. Nos treinos, o futebol fluía harmoniosamente. Nos jogos, o time demonstrava certa displicência e falta de empenho. Em reunião com o elenco, os jogadores se defendem das acusações, e um remodelado time americano – mesmo já sem chances de título – consegue boas vitórias na reta final, apesar de, no fim das contas, terminar mesmo na sexta colocação, 14 pontos atrás do campeão Botafogo.

Ao fim da temporada, Gyula Mandi apresentou um extenso relatório sobre a equipe, avaliando o desempenho dos jogadores e propondo algumas mudanças para o ano seguinte, incluindo a promoção de vários juvenis (vice-campeões cariocas na categoria) e as posições que precisavam de reforços. Satisfeito e otimista com o trabalho do treinador, o presidente Giulite Coutinho reiterava o compromisso de mantê-lo no clube para 1958.

UMA GUINADA INESPERADA

Giulite, porém, não pretendia concorrer à reeleição no America. Assim, na virada do ano, foi substituído no cargo por Wolney Braune, eleito em 20 de dezembro de 1957 e empossado em 3 de janeiro. Junto com o antigo mandatário também saiu o diretor de futebol Abelardo Azevedo, um dos grandes responsáveis pela contratação de Mandi e um de seus grandes avalistas no clube, substituído pelo chileno Fernando Ojeda, ex-atacante do clube nos anos 1910.

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Embora se mostrasse satisfeito com a perspectiva da pré-temporada, na qual teria tempo o suficiente para elevar o time do America a um novo estágio de jogo, solidificando alguns de seus conceitos apresentados nos meses anteriores e incluindo novos nomes pinçados dos juvenis, Mandi não imaginava que não teria a partir dali o mesmo suporte da nova diretoria para levar seu projeto adiante. Mas não tardaria a descobrir.

Em 26 de janeiro, o America fez amistoso com o Bangu em Campos Sales, que terminou num 2 a 2. O time da Zona Oeste abriu o placar com Mário, os rubros viraram com um golaço de Canário e outro de pênalti de Romeiro, mas no último minuto o ponta uruguaio Peláez decretou o empate. Assistindo ao jogo no estádio, Wolney Braune passou toda a partida criticando as alterações de Mandi em voz alta, para que todos os presentes ouvissem.

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Perto do fim do jogo, o lateral-esquerdo Ivan se lesionou e teve de ser substituído. Da tribuna, Braune gritou ao dirigente Silvino Guimarães: “Diga ao Mandi para o Bob entrar”. O técnico não deu ouvidos. No começo do segundo tempo, o presidente já havia comentado também em voz alta a um dirigente ao seu lado: “Assim não é possível, o melhor é mesmo trazermos o Délio [Neves, ex-treinador do próprio America no começo da década]”.

Terminado o amistoso, os dirigentes se trancaram numa reunião com o treinador e seu novo intérprete (que também foi trocado na nova gestão). Do pouco que se soube do que foi dito, estava a crítica feita pelos cartolas a Mandi de que “o maior defeito do técnico é o de não ouvir os diretores”. Logo em seguida, a delegação americana embarcaria para uma excursão em Belo Horizonte. O clima pesado e as caras amarradas eram nítidas.

Naquele início de temporada, Mandi começava a empreender uma reformulação no elenco. Após dispensar quase todos os jogadores da categoria de aspirantes (espécie de “time B” da época), promoveu juvenis como os laterais Jorge e Ivan, o zagueiro Djalma Dias e o atacante Antoninho. Além de trazer reforços pontuais como o centroavante Hílton, do Bangu (trocado pelo defensor Rubens), e o ponta-esquerda Nilo, do Bonsucesso.

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Além disso, os progressos vistos nos treinos e amistosos da pré-temporada haviam deixado o técnico otimista: “O quadro parece ter perdido um pouco de seu individualismo. Começamos também a aprender a jogar sem a bola, o que considero de grande importância. A grande notícia, no entanto, é a de que estamos chutando muito mais em gol. Devo acrescentar que alguns jogadores atingiram a plenitude de sua forma”, comemorou o treinador.

A CRISE SE AGRAVA

Porém, aos poucos Mandi viu a gestão do elenco fugir de suas mãos. Primeiro surgiu na imprensa a notícia de que Ferreira, Hélio e Canário – todos titulares – seriam dispensados. Procurado, o técnico negou que tivesse a intenção de se desfazer de jogadores. Até mesmo a inclusão de Rubens na troca por Hílton havia sido contrária à sua vontade. Em seguida, o clube contratou o atacante Nelsinho, do Vila Nova, o qual o treinador nunca havia visto jogar.

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Mas o caso que provocou a maior crise foi a venda do zagueiro Edson (um dos selecionáveis de 1956) para o Palmeiras por um valor que chegou a ser anunciado como superior a dois milhões de cruzeiros, recorde nacional. Gyula Mandi em momento nenhum foi informado da transação. Tanto que, no dia da confirmação da venda, chegou a relacionar o jogador para a partida contra o Santos pelo Torneio Rio-São Paulo. Só então foi avisado. Pelos atletas.

Wolney Braune desmentia qualquer desgaste com o treinador: “Nada existe entre Gyula Mandi e a direção do America. Sou franco em minhas atitudes. Quando o nosso treinador não estiver correspondendo será imediatamente afastado de suas funções”. Mas o processo de fritura do técnico parecia cada vez mais evidente. Como ficou desenhado numa extensa matéria publicada em 1º de março de 1958 na página de esportes do Correio da Manhã.

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“Estranhos fatos acontecem em Campos Sales”, dizia a reportagem. “Gyula Mandi cada dia que passa deixa transparecer sua intranquilidade. O plano de promoção e aproveitamento de juvenis, tão a seu gosto, já é coisa do passado”, prosseguia a matéria citando casos de jovens dispensados. A venda de Edson, referência da defesa, também repercutiu mal entre os jogadores, que se queixavam da intromissão de dirigentes no trabalho do treinador.

A escolha do time também sofria essa interferência. Jogadores eram incluídos pelos cartolas, sem consultarem o treinador, na lista de relacionados para os jogos. E até mesmo o novo intérprete de Gyula Mandi estava sob suspeita: os jogadores não acreditavam que as ordens do húngaro eram realmente transmitidas como o treinador as dava. “A verdade é que o ambiente em Campos Sales não deixa antever boas perspectivas para o futuro”, avaliava o jornal.

OS ÚLTIMOS CAPÍTULOS

Dentro desse contexto de guerra não-declarada dos dirigentes para com o treinador, e embora os jogadores tivessem se posicionado favoráveis a Mandi, a campanha no Torneio Rio-São Paulo foi compreensivelmente fraca. O time estreou perdendo para o Santos no Maracanã (5 a 3), venceu a Portuguesa também no Rio (2 a 1) e em seguida, nos clássicos contra Fluminense e Botafogo, foi derrotado pelos tricolores (3 a 1) e arrasado pelos alvinegros (7 a 3).

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Um indício de recuperação veio em seguida com a vitória sobre o Flamengo (3 a 2) e as derrotas apertadas para o Vasco (1 a 0, num jogo em que teve o lateral Jorge expulso) e o Corinthians no Pacaembu (2 a 1). Em 29 de março, Mandi enfrentaria seu compatriota Bela Guttmann, no jogo contra o São Paulo no Pacaembu. Com muitos desfalques na defesa, que levaram a improvisações, o America foi derrotado facilmente por 4 a 0.

Na despedida, no dia 1º de abril, jogando outra vez no Pacaembu, o time ainda conseguiu fechar a campanha com um resultado honroso, vencendo o Palmeiras por 2 a 0, gols de Hilton. No dia seguinte, o conselho diretor do America se reuniu para decidir o futuro de Gyula Mandi no clube. Sabia-se, porém, que Martim Francisco (então no Internacional) já havia sido convidado para assumir o posto, mas recusara-se a romper seu compromisso com o Colorado.

No entanto, após alguns dias de conversas de Gyula Mandi com Wolney Braune, a diretoria do America decidiu estranhamente negociar a renovação de contrato com o húngaro, quando tudo indicava que seus dias no clube estavam contados. Mandi pensou, repensou e apresentou por escrito sua proposta salarial, que foi considerada alta demais pelos dirigentes. Até mesmo a multa pela rescisão saiu abaixo do valor pedido pelo técnico.

A sensação era a de que os dirigentes americanos queriam se livrar de Mandi, mas precisavam de um pretexto profissional para justificar o rompimento. Ao oferecerem a renovação de contrato e, em seguida, rejeitarem a pedida do treinador, os cartolas haviam conseguido um bom álibi para mascarar divergências pessoais e de projeto. Jorge Vieira assumiu o time como interino até a contratação do truculento e disciplinador Yustrich, no início de julho.

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Gyula Mandi ainda permaneceu no país por mais algumas semanas antes de seguir para a Suíça, onde fora contratado pelo Servette. No ano seguinte, assumiria o comando da seleção de Israel, sagrando-se vice-campeão da Copa da Ásia em 1960. Pouco tempo antes, chegou a receber proposta do Bangu para voltar ao Brasil, mas as negociações não avançaram. O treinador morreria em 18 de outubro de 1969, aos 70 anos, em Budapeste.

O America viveria dois anos de turbulência política, somente apaziguada com a escolha de Álvaro Waldyr Pereira da Motta como mandatário em junho de 1960. No meio do caminho, venderia o ponta-direita Canário ao galáctico Real Madrid de Alfredo Di Stéfano e de outro húngaro, Ferenc Puskás, por fabulosos sete milhões de cruzeiros. Ferreira também seguiria para a Espanha, onde defenderia o Murcia. E Romeiro seria negociado com o Palmeiras.

O time também enfrentaria constante troca de treinadores: Yustrich cederia o posto a Délio Neves (o favorito de Wolney Braune), que permaneceria apenas pelo segundo semestre de 1959. A situação só se estabilizaria com o apontamento definitivo de Jorge Vieira, em abril de 1960. Com ele, os rubros sairiam da fila, levantando o título carioca em dezembro daquele ano, ao bater o Fluminense na última rodada por 2 a 1 no Maracanã.

Dos 18 jogadores utilizados pelo America naquela conquista, 15 já estavam no clube durante a passagem de Gyula Mandi, incluindo dez dos 11 titulares. Muitos promovidos dos juvenis pelo húngaro (entre eles o lateral Jorge, autor do gol do título) e outros tantos trazidos durante seu período à frente da equipe. Jorge Vieira teve, porém, uma vantagem sobre o magiar: trabalhou em um clube pacificado e disposto a prestigiar seu treinador.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.