O talento estrangeiro sempre foi influente no futebol inglês. Durante muitas décadas, era cultivado de maneira mais modesta e culturalmente próxima, dentro da união do reino, com escoceses como Kenny Dalglish ou galeses como Mark Hughes. Até porque, até 1978, os portos ainda estavam fechados a outros países. A verdadeira internacionalização começou nos primórdios da Premier League, fundada em 1992, época em que vários fatores coincidiram para favorecer a abertura das fronteiras inglesas. Houve a Lei Bosman, o estabelecimento da cidadania europeia e uma injeção de dinheiro sem precedentes aos clubes do país. Um processo paulatino que pegou no tranco de vez na temporada 1995/96, que culminaria com a Eurocopa em solo inglês, e, naquele simbólico mercado, o nome mais importante foi o de Ruud Gullit, cuja contratação pelo Chelsea completou 25 anos esta semana.

A forte presença do alto holandês com mais de 1,90 metros não foi a pioneira. O primeiro estrangeiro a realmente encantar os jogos da Premier League foi Eric Cantona, que havia sido campeão inglês com o Leeds antes da fundação da nova liga e seguiu empilhando troféus com o Manchester United. Conquistou o campeonato nacional cinco vezes em suas sete temporadas na Inglaterra e a classe com a qual exercia a função de camisa 10 influenciou Alex Ferguson a favorecer um estilo com mais bola no chão e jogadas pelo meio. O próprio United tinha Peter Schmeichel debaixo das traves – a Escandinávia era uma fonte importante de talento para os clubes ingleses – e o Tottenham havia feito uma contratação que rivaliza em importância com a de Gullit ao trazer Jürgen Klinsmann do Monaco, após brilho na Internazionale.

Klinsmann era também um jogador famoso e de sucesso internacional, mas passou apenas uma temporada no norte de Londres e não seria absurdo dizer que Gullit estava um patamar acima. Havia sido bicampeão europeu pelo Milan e capitão da Holanda no título da Eurocopa. Ganhou a Bola de Ouro em 1987 e foi segundo colocado na edição seguinte. Era o primeiro jogador premiado pela revista France Football a atuar em solo inglês desde que Kevin Keegan trocara o Hamburgo pelo Southampton, em 1980, e, como Cantona, causaria impacto importante na maneira como o Chelsea tentaria jogar.

Gullit explodira como meia-atacante, mas seu começo de carreira havia sido na zaga. Um fator importante na sua escolha pelo Chelsea foi o então treinador Glenn Hoddle, pelo qual nutria grande admiração, e aceitava utilizá-lo como líbero. Em uma época na qual zagueiros na Inglaterra ainda eram majoritariamente jogadores fortes, bons pelo alto e com predileção a sair jogando com chutões, Gullit matava a bola no peito, buscava tabelas, soltava em diagonal para o lateral, arrancava ao campo de ataque e ninguém entendia direito por quê.

“Eu dominava uma bola difícil, abria espaço e dava um bom passe em profundidade para o lateral direito. Exceto que ele não queria aquele passe”, contou, segundo a ESPN.  Em um texto para a BBC, comemorando os 25 anos da sua contratação, Gullit expandiu sobre o assunto, sem muita modéstia. “Acontece que eu era um jogador bom demais para atuar naquela posição na Premier League. Quando uma bola longa chegava na nossa área, eu matava no peito e tentava sair jogando dali. Glenn disse: ‘Rudi, não, não, não. Eu entendo o que você está tentando fazer, mas assim você coloca meus defensores em dificuldades’”, disse.

“Hoje em dia, funcionaria. Veja quantos times da Premier League tentam jogar a partir da defesa. Naquela época, eles estavam acostumados a cabecear ou afastar a bola o mais longe possível, e eu queria trocar passes na defesa. Eles não queriam aquele passe, Glenn disse não e pediu para que eu mudasse de posição”, completou. O experimento durou pouco.  Gullit foi avançado ao meio-campo, onde seus passes representariam menos riscos e os companheiros estavam mais acostumados a bolas criativas.

A primeira temporada de Gullit na Inglaterra terminaria com um mero 11º lugar. Ao fim dela, Glenn Hoddle saiu para treinar a seleção inglesa, o holandês assumiu como jogador e técnico ao mesmo tempo. E com sucesso. Levou o Chelsea ao sexto lugar e ao seu primeiro título desde 1970. No mercado, contribuiu ativamente para a internacionalização da liga com nomes como Gianluca Vialli, Gianfranco Zola, Roberto di Matteo, Frank Lebouf, Graeme Le Saux e Gustavo Poyet. Quando deixou o cargo, foi sucedido por Vialli, que simbolicamente comandou o primeiro time titular da história da Premier League sem britânicos, em 1999.

Antes havia participado do processo de maneira passiva. Sua contratação da Sampdoria, sem taxa de transferência, mas com £ 3 milhões entre salários e luvas por dois anos de contrato, segundo a matéria do Independent na época, foi fechada em 31 de maio e serviu de senha para outros clubes se mexerem. Três semanas depois, o Arsenal anunciaria Dennis Bergkamp. Aquele mercado também levou o georgiano Giorgi Kinkladze ao Manchester City, o brasileiro Juninho Paulista ao Middlesbrough, Slaven Bilic ao West Ham, e David Ginola ao Newcastle.

“Quando cheguei ao Chelsea, em junho de 1995, a Premier League era muito diferente do que é agora. Eu não fui o primeiro jogador de fora a vir para cá, mas fui um dos primeiros a chegar com um grande nome, de uma liga maior, como a Serie A”, lembrou, no texto para a BBC. “Olhando para trás, aquele verão foi provavelmente o momento em que a Premier League realmente começou a se transformar na competição que é hoje. E precisava fazer isso. A Itália reinava naquela época – todos os melhores jogadores estavam lá. O futebol inglês era muito básico em comparação, e a Inglaterra queria pessoas de fora para tentar fazer com que seu futebol voltasse ao nível europeu”

“Dennis Bergkamp, David Ginola, Juninho. Todos chegaram ao mesmo tempo que eu. Para mim, era uma aventura. Pessoal e profissionalmente, eu precisava sair da Itália após oito anos com Milan e Sampdoria e, com a Premier League decolando, pareceu que era o lugar certo para um novo começo, no momento certo de fazer algo novo”, acrescentou.

Na temporada seguinte, quase todos os clubes trariam jogadores de fora da ilha. A Premier League começou, segundo levantamento da CNN, com 71% de jogadores ingleses e apenas 55 de fora do Reino Unido. Em 2007/08, já eram mais de 350 atletas de 60 nações diferentes, total parecido ao da atual temporada, e Gullit foi um marco importante nesse processo de abertura, um dos mais decisivos para que a Premier League se tornasse a liga mais rica do mundo e, para muitos, também a mais atraente.

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