O causo é verídico e contado pelo próprio Guiñazú. Quando o Talleres conquistou o acesso à primeira divisão do Campeonato Argentino em 2016, após 12 anos longe da elite e com duas passagens pela terceirona neste intervalo, o volante achou que bastava. Já tinha cumprido sua palavra ao falecido pai, de que jogaria no clube de coração, e ainda conseguiu dar uma alegria plena à torcida cordobesa, anotando o gol decisivo à promoção. Aos 38 anos, o veterano estava resoluto de que sua carreira se encerrara ali. Conversou com a diretoria e deixou para avisar a esposa já de férias, em viagem a Punta Cana. Um diálogo que mudou seus planos.

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“Ela estava em desacordo, porque me via bem e conhecia o clube, as pessoas e tudo o que é o Talleres. Então vieram as palavras mágicas: ‘Você nunca foi um cagão’. Foi o pior que poderia ter me dito, tirou o pior de mim. Contei até cem e ela voltou a dizer. Então peguei o telefone e liguei para o técnico. Três dias depois, já estava de volta ao clube”, revelou o argentino. em entrevista ao jornal Día a Día. Érica, a mulher de Cholo, tinha toda a razão. Por quase três anos, o meio-campista continuou exibindo seu máximo. Foi eleito o melhor de sua posição na Superliga, fez La T sonhar com o título nacional, levou o clube de volta à Copa Libertadores. E se infelizmente não chegou à fase de grupos do torneio continental, não é por isso que abaixa a cabeça. Aos 40 anos, certamente em consenso com a esposa, Pablo Horacio Guiñazú anuncia sua aposentadoria. Sai aplaudidíssimo como um ídolo eterno do Talleres e como um exemplo de dedicação total ao futebol.

As preliminares da Libertadores ainda mostraram o que Guiñazú poderia render. O meio-campista teve atuações gigantescas contra o São Paulo, apresentando sua ótima forma física e sua interminável capacidade de roubar a bola. Mais do que isso, protagonizava a campanha de um time que dava exemplo pela maneira como tratou o torneio continental e pelo respeito evidente aos adversários. Nem sempre a vontade se faz suficiente em campo e o Palestino mereceu a classificação na última fase. E sem mais ambição pela frente, sem o esperado reencontro com o Beira-Rio, El Cholo preferiu sair de cena. Nesta sexta-feira, mesmo com o Campeonato Argentino em andamento, optou por se despedir do futebol.

“Meu pai queria que eu jogasse até os 52, mas os ossinhos não deixam mais. Realmente é um momento em que me encontro com uma felicidade plena”, declarou Guiñazú, durante o emotivo discurso feito aos presentes no Estádio de La Boutique. “Foi a decisão mais difícil da minha vida, porque o único que sei é jogar futebol. Continuarei por perto do Talleres. Seguirei enchendo a paciência dos meus companheiros, preparem os mates, preparem as conversas. Seguirei incomodando porque eles merecem, porque me deram três anos a mais de futebol”.

Além disso, Cholo deixou claro que seu objetivo nos próximos meses é a família: “A vida de jogador é totalmente distinta à de qualquer ser humano. Fui prejudicando de meus filhos inconscientemente, mas eles me bancaram. Aqui estão, em Córdoba, depois de praticamente serem brasileiros, ao meu lado, batalhando, sem dizer nada. Devo ter muitos defeitos como pai, como esposo. Este é o momento de começar a ser pai, de começar a ser esposo, filho, irmão, amigo. Porque me sustentaram durante 22 anos e agora é hora de começar a devolver um pouquinho a essa gente que realmente me bancou”.

No domingo, o Talleres promete uma enorme homenagem a Guiñazú. O clube enfrenta o Colón pelo Campeonato Argentino e deseja encher as arquibancadas de La Boutique para celebrar o ídolo. “Será o dia do torcedor. Queremos uma festa, que as pessoas digam obrigado a Cholo. Queremos agradecer a manifestação de carinho a este grupo de jogadores e a esta instituição, depois que 5 mil pessoas foram ao Brasil e outras 5 mil foram ao Chile. Por isso, os preços dos ingressos serão irrisórios. Pedimos desculpas ao sócio que paga o carnê em dia, mas este domingo queremos que estejam todos”, apontou o presidente Andrés Fassi. O dirigente também garante que haverá um amistoso de despedida ao volante: “Não há pressa. Pode ser em uma Data Fifa, durante a pré-temporada ou na metade do ano. O importante é que seja inesquecível, porque Guiñazú é inesquecível”.

Mesmo que negue se tornar dirigente, não será surpreendente se Guiñazú assumir um cargo em breve no Talleres. O veterano merece, pela forma como se doou ao clube e pela contribuição que pode trazer por sua vivência no futebol. Ainda assim, as portas de outros tantos lugares continuam abertas. Do Newell’s Old Boys, do Independiente, do Libertad, do Vasco. Sobretudo, do Internacional, onde participou de grandes conquistas e permanecerá como um verdadeiro ídolo por aquilo que suou com a camisa colorada. Se Cholo é praticamente uma unanimidade, afinal, isso se dá pelo espírito de luta inesgotável. Dedicou 22 anos de sua vida ao futebol e fez do futebol sua razão de viver. Seu amor vai além das camisas que vestiu e dos escudos que beijou. Ele se direciona principalmente à bola, e por isso seus admiradores independem dos clubes. É o cara que qualquer um gostaria de ver se esfolando pelo próprio time. É o cara que se torna um fiel representante dos torcedores em campo. É a essência do esporte.

Aos 40 anos, Guiñazú se dá o merecido descanso. Não precisará mais limitar seu churrasco a dois dias por semana, não precisará mais vestir agasalhos para suar mais durante os treinamentos, não precisará mais correr até o último instante dos 90 minutos. Vai sentir falta do futebol, da sede que norteou 24 horas de seu dia por tanto tempo. Mas a falta maior quem sentirá é o próprio futebol. Faltam mais exemplos como Cholo. A figura do veterano, por si, explica por que o esporte é tão apaixonante. Ele é a paixão encarnada, cobrindo cada metro de grama, mordendo os calcanhares dos atacantes e dando carrinhos como se valessem a sua existência. Valeram a eterna lembrança.