Não devem ser poucas as vezes em que Kalidou Koulibaly olha o que tem pela frente e se sente desolado com a distância a que o futebol italiano está de lidar devidamente com seu problema de racismo. Vítima de cantos racistas e gritos de macaco vindos das arquibancadas em mais de uma oportunidade, o jogador do Napoli falou em entrevista ao Corriere dello Sport sobre a discriminação nos estádios do país, cobrou ação das autoridades e listou seus mentores no desafio social que enfrenta como jogador de futebol negro: Martin Luther King e Malcolm X.

O zagueiro pede que o governo italiano coloque em prática “medidas dissuasivas” para conter o problema e sugere que a Itália siga o exemplo da Inglaterra, que identifica e bane torcedores dos estádios por anos ou até mesmo pelo resto da vida. “Caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos prisioneiros de minorias (numéricas), que poderiam se multiplicar em tamanho”, alerta.

No início de 2016, Koulibaly foi vítima de insultos racistas por parte da torcida da Lazio no Estádio Olímpico de Roma. A partida foi paralisada, ainda que a atitude do árbitro tenha sido criticada pelo então técnico da Lazio, Stefano Pioli. Mais de dois anos mais tarde, no fim de 2018, em jogo no San Siro, o zagueiro foi mais uma vez alvo de ataques discriminatórios, desta vez por parte da torcida da Internazionale.

Koulibaly revela que o primeiro incidente foi rapidamente superado, porque achava que a atitude da arbitragem indicava uma mudança de rumos. Entretanto, o capítulo em Milão foi doloroso. “Se a ferida no (Estádio) Olímpico sarou rapidamente, porque pensei que estávamos diante de uma mudança, fiquei chocado com o racismo em San Siro: porque Milão é a cidade mais cosmopolita, a mais europeia das cidades italianas. Não conseguia entender por que havia essa atitude em relação a mim. Não consigo entender isso quando acontece com os outros.”

Guiado por figuras históricas, Koulibaly reforça que o caminho para enfrentar o problema tem que ser pela força das leis. “Cresci lendo Martin Luther King e Malcolm X, vendo-os como modelos, mentores e professores, símbolos de um desafio que devemos enfrentar juntos e, no nosso caso, acima de tudo, por meio de leis”, defende.

O zagueiro é também solidário com outros tipos de discriminação, lembrando episódios de preconceito contra Sinisa Mihajlovic, técnico do Bologna, e Lorenzo Insigne, companheiro de Napoli, por conta de suas origens – cigana e do sul da Itália, respectivamente.

“Tentei, por vezes, com o Insigne, tranquilizá-lo: ‘vamos lá, deixa passar’. Em vez disso, cometi um erro. Só passará se nos opusermos a isso, se houver intervenções sérias. Insultar Lorenzo, que é jogador de futebol e não apenas um dos nossos jogadores, que é um dos maiores trunfos da seleção nacional, significa insultar a própria Itália, estar zangado com o vizinho, que é um de vocês”, afirmou.

Insigne, no caso, foi alvo de discriminação em partida do Napoli em 2015 contra o Verona, sendo visado por ser o único napolitano da equipe. Nápoles é uma cidade do sul da Itália, e historicamente existe um problema de discriminação do norte do país em relação ao sul.

Com declarações cada vez mais frequentes de personagens importantes do futebol italiano, a pressão aumenta para que soluções sejam encontradas para um problema que viu seus capítulos mais recentes já nas primeiras rodadas da nova temporada da Serie A, com Lukaku vítima de insultos racistas da torcida do Cagliari.