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Cidade: Sheffield
Estádio: Bramall Lane (32.702 pessoas)
Técnico: Chris Wilder
Posição em 2019/20: 
 Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Aaron Ramsdale (Bournemouth), Max Lowe (Derby), Jayden Bogle (Derby), Wes Foderingham (Rangers), Ethan Ampadu (Chelsea), Ismaila Coulibaly (Sarpsborg 08-NOR), Oliver Burke (West Brom)
 Principais saídas: Dean Henderson (Manchester United), Mark Duffy (Fletwood), Jake Eastwood (Kilmarnock-ESC), Luke Freeman (Nottingham Forest), Callum Robinson (West Brom), Ricky Holmes (aposentado), Ben Heneghan (sem clube), Nathan Thomas (sem clube), Kieron Freeman (sem clube), Leon Clarke (sem clube), Ravel Morrison (sem clube), Ismaila Coulibaly (Beerschot-BEL)

Quando o Sheffield United subiu, muitos, como eu, o indicaram como o favorito ao rebaixamento. Foi um erro, mas havia motivo. Os Blades jogariam a Premier League pela primeira vez desde 2006/07, não haviam investido e contavam com um elenco com pouca experiência na elite não apenas da Inglaterra, como de qualquer outro lugar. Acontece que, sem muito dinheiro, a preferência foi por dar essa experiência aos jogadores que carregaram o clube degrau acima na pirâmide, muitos desde a terceira divisão, do que trazê-la de fora. Dizer que deu certo é subestimar o que o United fez na temporada passada.

O favorito ao rebaixamento, para muitos, como eu, chegou três vezes ao quinto lugar e passou as últimas 30 rodadas da Premier League na metade de cima da tabela. Terminou na nona posição, sua melhor campanha na primeira divisão desde 1975. E o fez com estilo e equilíbrio. Sabe defender, muito bem, e também sabe atacar, embora faça poucos gols. Tem um mecanismo que é só seu: a ultrapassagem dos zagueiros. A ideia é creditada ao auxiliar de Chris Wilder, Alan Knill. Trabalharam juntos no Bury, em 2008, quando Knill era o treinador principal e Wilder seu braço-direito. Eventualmente, trocaram de lugar.

A ideia dos overlapping centre-backs, ou zagueiros-laterais, é criar superioridade numérica. Os alas centralizam, abrem os corredores, e os zagueiros avançam, porque quantos atacantes acompanham os defensores adversários até o fim? Bem executado, o movimento coloca o ala George Baldock e o zagueiro Chris Basham juntos pela direita do ataque contra o lateral, e o ala Enda Stevens e o zagueiro Jack O’Connell contra o outro lateral pela esquerda. Pode também haver o apoio dos meias John Lundstram e John Fleck, criando triângulos. Quando há espaço, o cruzamento é colocado na área para os dois atacantes ou o camisa 10, Oliver Norwood.

Existiria a possibilidade de que, conhecida a novidade, ela se tornaria menos efetiva. É aquela história: um golpe não funciona duas vezes no mesmo cavaleiro. Mas o Sheffield United não estava jogando na Sibéria antes de chegar à Premier League. O dispositivo constava em todos os relatórios de observação porque é usado desde a chegada de Chris Wilder nas divisões inferiores da Inglaterra. E todos os outros 19 times enfrentaram os Blades duas vezes. É aquela outra história: saber o que o adversário faz é uma coisa, impedi-lo de fazer é outra.

E deve haver pouca coisa nova no Sheffield United na próxima temporada. Wilder usou uma espinha dorsal de dez jogadores em quase todas as partidas, e nove deles seguem no clube. A única saída foi de Dean Henderson, que estava emprestado pelo Manchester United e retornou. Esses foram os únicos que passaram de 2.000 minutos na Premier League. Os zagueiros O’Connell, Basham e John Egan, os alas Baldock e Stevens, os meias Lundstram, Fleck e Norwood, e o atacante Oliver McBurnie, contratado do Swansea na temporada passada.

A posição que resta é a que o United deveria dar mais atenção no mercado de transferências. Wilder não conseguiu definir o parceiro de ataque de McBurnie e dividiu os minutos entre Lys Mousset, o mais preciso, com seis gols, David McGoldrick, muito importante em vários movimentos, menos no chute que coloca a bola na rede, e o veterano Billy Sharp. Mousset e McBurnie foram os artilheiros do time na liga, com meia dúzia de tentos cada. A defesa foi a quarta mais segura, atrás dos times de Manchester e do Liverpool. O passo para uma campanha ainda melhor é encontrar mais gols. Seu sistema ofensivo foi melhor apenas do que os de Newcastle, Watford, Crystal Palace e Norwich.

Por enquanto, os reforços seguiram o mesmo perfil da temporada passada. O maior investimento foi feito no goleiro Aaron Ramsdale, para a vaga de Henderson. O garoto de 22 anos teve sua primeira temporada como titular na Premier Legue debaixo das metas do Bournemouth e foi bem, apesar do rebaixamento. Fechou um pacote com o Derby County para contratar os alas Max Lowe (esquerda) e Jayden Bogle (direita) para ter cobertura nessas posições. E trouxe o jovem Ethan Ampadu, por empréstimo do Chelsea.

Uma aposta interessante foi em Oliver Burke. Revelado pelo Nottingham Forest, teve algumas chances no RB Leipzig e chegou ao West Brom. Passou um tempo emprestado ao Celtic e a última temporada ao Alavés, no qual conseguiu ter uma boa sequência de partidas. Wilder disse que o propósito da contratação é dar um “toque de velocidade” ao time. “Estamos felizes que Oli está no prédio. Ele teve algumas grandes transferências que não funcionaram como ele queria, mas agora depende de nós lhe dar o pontapé inicial”, disse o comandante dos Blades.

O futebol inglês passou a temporada inteira esperando que o Sheffield United virasse abóbora. Não seria a primeira vez que um clube encaixaria alguns resultados, pegaria confiança e apareceria como surpresa, apenas para eventualmente perder o gás. Aconteceu um pouco disso depois da paralisação, da qual o United voltou perdendo duas seguidas e, mais notável, levando três gols em ambos os jogos. Não havia sido vazado três vezes em nenhuma rodada até aquele momento. Depois se recuperou, antes de outra sequência negativa no fim, que lhe tirou a possibilidade de vaga na Liga Europa. Mas não dá para falar a meia-noite chegou.

O United ainda tende a ser um time forte porque manteve a sua espinha dorsal e, principalmente, os seus princípios: a continuidade do trabalho, a união, a luta. É na base deles que tentará se assegurar de que o relógio nunca dê a décima segunda badalada.