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Cidade: Manchester
Estádio: Old Trafford (74.994 pessoas)
Técnico: Ole Gunnar Solkjaer
Posição em 2019/20:
Projeção: Brigar por Champions League
Principais contratações: Donny van de Beek (Ajax-HOL)
Principais saídas: Alexis Sánchez (Internazionale-ITA), Cameron Borthwick-Jackson (Oldham), Tahith Chong (Werder Bremen-ALE), Joel Pereira (Huddersfield)

Houve um intervalo em que o Manchester United foi o melhor time da Inglaterra. Fazia tempo que isso não acontecia. Mesmo antes da pausa, havia vencido Manchester City e Chelsea. O tempo em quarentena serviu para recuperar fisicamente jogadores como Marcus Rashford e Paul Pogba. Quando o futebol voltou, Ole Gunnar Solskjaer colocou todo mundo no time ao mesmo tempo: esses dois, Bruno Fernandes, Mason Greenwood e Anthony Martial. Empatou com o Tottenham e depois emendou quatro vitórias seguidas e confortáveis. Encerrou a Premier League com 13 rodadas de invencibilidade e arrancou ao terceiro lugar ao vencer o Leicester no último fim de semana. Mas cruzou a linha de chegada cansado, o que ficou visível posteriormente na Liga Europa. A questão, portanto, é: o United consegue manter o nível alto de desempenho que demonstrou em curto período durante um longuíssimo período e acompanhar Manchester City e Liverpool? A resposta dessa pergunta depende da resposta de uma série de outras perguntas.

Como será o restante do mercado? O primeiro reforço foi excelente. Donny van de Beek foi o George Harrison daquele Ajax semifinalista da Champions League. Enquanto todo mundo se encantava com Frenkie de Jong e Matthijs de Ligt (fica a seu critério qual é Paul e qual é John), fez sua música com a mesma qualidade, às vezes até superior, e sabe-se lá como acabou ficando para mais uma temporada em Amsterdã. Estava ligado ao Real Madrid, obrigado a mudar de planos por causa da pandemia. O próximo pode ser Jadon Sancho. O United fez uma primeira abordagem, desistiu, o Borussia Dortmund comemorou o fim do negócio, e aí o clube inglês desistiu de desistir e voltou à tona pela jovem estrela. As últimas notícias informam que houve avanços nas tratativas.

Parece, porém, uma extravagância. Claro que Sancho melhora o Manchester United. É um jogador mais pronto que Greenwood e daria a Solskjaer mais opções de rotação no trio de ataque. Mas a última temporada mostrou que não é esse o setor que mais precisa de investimentos. A defesa parece mais urgente. O United mais torcia do que esperava que Harry Maguire fosse o zagueiro de € 80 milhões que melhora todos ao seu redor e resolve todos os problemas da retaguarda, como fez Van Dijk no Liverpool. Por enquanto, é apenas um zagueiro de € 80 milhões, bom e não tão dominante assim e que provavelmente passará a temporada inteira distraído pelo sistema judiciário grego. Um parceiro do mesmo nível, ou melhor, para a vaga de Lindelöf seria interessante, assim como outro lateral esquerdo. A ressurreição de Luke Shaw foi notável, mas ainda tem um físico pouco confiável.

E como será o nível de desempenho quando Solskjaer começar a rodar os titulares? Em seu melhor momento na temporada, o United repetiu a escalação o máximo que conseguiu. É, porém, uma estratégia insustentável ao longo de toda a temporada, especialmente uma que será condensada em menos tempo. Foi insustentável também na mini-maratona pós-paralisação porque o time chegou claramente cansado aos jogos finais. E o grande ponto de interrogação é se, com Van de Beek e eventuais outras contratações, Solskjaer conseguirá manter o alto nível de desempenho mesmo trocando peças todas as semanas, como fazia seu mestre Alex Ferguson. O primeiro passo para isso é depender menos de qualidades individuais e mais de mecanismos coletivos. O primeiro salto de qualidade da temporada foi dado com a chegada de Bruno Fernandes. O segundo com a reintegração de Paul Pogba, o que nos leva à terceira questão.

Pogba vai jogar a temporada inteira? Havia feito apenas sete jogos pela Premier League antes de retornar ao time após a paralisação e voltar a mostrar um ótimo futebol. Ficou fora por lesão, mas, ao mesmo tempo, seu empresário Mino Raiola criticava o United e dizia que não levou o cliente ao Real Madrid apenas porque os ingleses não deixaram. Agora, Raiola afirma que Pogba está “100%” incluído ao projeto do United que em janeiro ele próprio havia dito que não existia. Parece uma situação ainda um pouco volúvel e que dependerá da progressão dos Red Devils nesta temporada. Pogba também precisa ser mais consistente. Em seus melhores dias, é um meia fabuloso, capaz de fazer qualquer coisa em campo. Precisa que esses dias sejam mais frequentes e, se conseguir, será quase um reforço ao United.

Quem pega no gol? Quando David de Gea chegou ao Manchester United, foi recebido com críticas e contestações. Deu a volta por cima porque é um excelente goleiro, um dos últimos grandes acertos de Ferguson para substituir Van der Sar. Teve períodos de melhor do mundo quando teve que limpar a barra de José Mourinho.

A ruim Copa do Mundo que fez pela Espanha em 2018 parece ter afetado sua confiança porque se mostrou muito instável desde então, especialmente na temporada passada. Falhou muito mais do que costuma falhar. Acontece, porém, que Solskjaer tem Dean Henderson. De Gea tem um salário alto e ainda três anos de contrato. Não pode ser descartado, mas desempenho puro por desempenho puro, Henderson foi melhor na última Premier League, pelo Sheffield United.

Colocar De Gea no banco seria uma boa ideia para preservá-lo ou perder a titularidade para um garoto abalaria de vez a sua cabeça? Insistir com De Gea seria um voto de confiança que o levaria a se recuperar ou potenciais novas falhas piorariam a situação? Ainda bem que essa decisão não é minha.

Falando em garotos, quais deles darão um salto? Clubes que têm férteis categorias de base estão sempre suscetíveis a de repente encontrar soluções caseiras. O Manchester United tem uma categoria de base para lá de fértil, e Solskjaer tem dado bastante atenção a ela.

Entre os garotos, os mais utilizados foram Mason Greenwood, Brandon Williams e Scott McTominay. Os defensores Timothy Fosu-Mensah e Axel Tuanzebe ganharam alguns minutos também. Marcus Rashford e Wan-Bissaka não contam porque já estão estabelecidos. Daniel James foi trazido de fora, como Bissaka, mas cumpre o principal critério para esta seção porque, se conseguir ser mais regular, pode se tornar mais uma opção importante para a rotação do ataque.

A mesma coisa com Brandon Williams. O United pode não precisar de um novo lateral esquerdo se ele conseguir ser mais confiável. Substituiu até que bem Luke Shaw, mas não se mostrou pronto ao mais alto nível. E há Greenwood. Ele já foi um atacante relevante na Premier League, com dez gols, o mais jovem a chegar a dois dígitos desde Michael Owen, e o quanto ele ainda pode melhorar pode ser a diferença entre uma temporada boa, ótima ou espetacular.

Se o Manchester United encontrar respostas positivas para a maioria dessas questões, pode, enfim, avançar em um projeto. Há outra, sobre Solskjaer ser ou não o homem certo para comandá-lo, mas não parece relevante no momento. Houve momentos com motivos para demiti-lo, ninguém o fará agora que não há nenhum. Cobrar título ainda é cedo, mas talvez ficar a menos de dez pontos do campeão, confortavelmente em terceiro lugar, seja um objetivo palpável e um passo à frente. Pode ser acompanhado por boas campanhas nas copas e na Champions League, na qual não passa das quartas de final desde a decisão de 2010/11.