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Cidade: Liverpool
Estádio: Anfield Road (53.394 pessoas)
Técnico: Jürgen Klopp
Posição em 2019/20: 
Projeção: Brigar pelo título
Principais contratações: Kostantinos Tsimikas (Olympiacos-GRE)
Principais saídas: Dejan Lovren (Zenit-RUS), Ovle Ejarla (Reading), Adam Lallana (Brighton), Sheyi Ojo (Cardiff), Nathaniel Clyne (sem clube), Andy Lonergan (sem clube)

Não é tão importante em um campeonato de pontos corridos o quão bem um time consegue jogar em uma ou outra determinada partida. O que vale troféus é a quantidade de vitórias quando nem tudo está encaixando. Quantos pontos o seu jogo B ou C consegue somar. Em outras palavras, a regularidade. Ninguém foi mais regular do que o Liverpool nos últimos dois anos da Premier League. De 228 pontos, os Reds conquistaram 196, e não foram bicampeões apenas porque o Manchester City conseguiu inserir uma campanha espetacular na temporada anterior. Faz três edições que não perdem em Anfield. Parecem prontos para lutar novamente pelo título e, desta vez, se forem bem sucedidos, talvez levantar a taça diante de sua torcida. A taça que significaria igualar o recorde de conquistas nacionais do Manchester United. Mas há algumas preocupações.

O sarrafo foi elevado de tal maneira pelos times de Guardiola e Klopp, travando um dos mais fascinantes duelos entre treinadores de estilos diferentes da história do futebol, que os últimos três títulos foram conquistados com 32 vitórias para o campeão. Isso significa que são permitidos apenas seis tropeços em 38 rodadas, e apenas um ou dois podem ser derrotas. Claro que não é uma fórmula gravada em pedra, e o calendário condensado da próxima temporada pode diminuir a exigência em números absolutos. Ainda assim, ser campeão inglês se tornou uma tarefa sobre-humana. Mesmo com Manchester United e Chelsea melhorando, ainda é difícil imaginar que a disputa vá além de City e Liverpool.

Acontece que o Liverpool precisou recorrer um pouco demais aos seus jogos B ou C para vencer tantas partidas na última temporada. O que é ao mesmo tempo uma prova de coração e espírito de luta também custa muito ao físico, e a língua estava se arrastando pelo chão por volta de março, quando perdeu a invencibilidade na Premier League, foi eliminado da Copa da Inglaterra e da Champions League. Retornou da paralisação com um terrível empate com o Everton e fez uma grande apresentação contra o Crystal Palace para selar o título. Depois disso, para todos os efeitos, entrou em férias, e ainda conseguiu somar 99 pontos. Teve 18 de vantagem para o City. Foi alguma gordura, mas compete com um adversário tão formidável que até ficar claro que tinha o título no bolso tinha realmente que buscar somar todos os pontos possíveis. Em 2018/19, somou 97 e faltaram dois.

Por diferenças de estilo de jogo, é mais fisicamente exigente ao Liverpool manter o nível de desempenho necessário para ter um aproveitamento tão alto, e a grande questão entrando na próxima temporada é se Klopp conseguirá convencer os mesmos caras que o atingiram nos últimos dois anos a fazê-lo novamente. E se, mesmo convencidos, eles conseguirão fazê-lo. O City, por exemplo, não conseguiu.

São jogadores com ética de trabalho irrepreensível, até onde se sabe, característica central à política de contratações do alemão. Ele próprio é um craque da motivação e das relações pessoais. Mas jogadores são seres humanos, e seres humanos se cansam. Foi notável a regularidade que o Liverpool alcançou com um elenco de praticamente 18 jogadores – únicos que jogaram mais de 400 minutos na Premier League -, considerando que eles também disputaram duas copas, duas Supercopas, um Mundial de Clubes e tiveram que defender o título europeu.

Esse elenco ficou menor. Lallana ficou abaixo dessa nota de corte e foi substituído por Minamino, que começou a dar bons sinais na pré-temporada após uma chegada tímida à Inglaterra. O desfalque de verdade está na defesa. Com a venda de Dejan Lovren ao Zenit, restam três zagueiros adultos e dois deles, especialmente Joe Gomez, têm tendência a se machucar. O Liverpool está de olho em oportunidades no mercado, mas, se nenhuma aparecer, não comprará apenas por comprar, e Klopp deve olhar para Fabinho como quarta opção para a zaga. Kostas Tsimikas pelo menos dará algum descanso a Andrew Robertson pela esquerda.

Tsimikas, Minamino e o goleiro reserva Adrián são os únicos adultos que o Liverpool contratou desde 2018, quando fez altos investimentos para preencher furos no seu time titular com Naby Keita, Fabinho e Alisson, seis meses depois de quebrar a banca para ter Virgil Van Dijk. Não é que o clube se recusa a gastar. Não poupa esforços quando identifica o jogador certo, do perfil certo, com o salário certo e que considera bom suficiente para melhorar a equipe. E nesses dois anos de aparentes vacas magras, renovou o contrato de 11 jogadores importantes – Milner, Matip, Chamberlain, Origi, Arnold, Robertson, Gomez, Mané, Henderson, Salah e Firmino – garantindo-os para o médio prazo. Desde 2015, a folha salarial dobrou para £ 300 milhões.

Parecia preparado para contratar Timo Werner antes da pandemia afetar a economia do futebol europeu. Klopp falou mais de uma vez sobre como este é um momento de incerteza que exige cautela. Desistiu do negócio pelo atacante do RB Leipzig, que foi parar no Chelsea. Há interesse em Thiago, chegando ao fim de sua passagem pelo Bayern de Munique, mas parece que apertará o botão apenas se Wijnaldum, com apenas mais um ano de contrato, for vendido ao Barcelona. O treinador do Liverpool até cutucou clubes “geridos por Estados ou oligarcas”, uma clara cutucada nos Blues de Roman Abramovich e no Manchester City dos Emirados Árabes. A discussão sobre modelos de negócios de clubes de futebol é longa e meio filosófica. Há dois fatos, porém: o do Liverpool tem funcionado e não envolve loucuras financeiras.

Sem entrar em juízo de valor, a consequência é que o time terá que mirar os 100 pontos pela terceira vez seguida com os mesmos jogadores e algumas posições mais descobertas. Pode haver mudanças nesse panorama em caso de boas vendas. O diretor-esportivo Michael Edwards vêm conseguindo arrecadar um bom dinheiro por jogadores dispensáveis como Danny Ward, Dominic Solanke, Danny Ings, Jordon Ibe, Joe Allen e Ryan Kent. Os suspeitos da vez são nomes como Marko Grujic ou Rhian Brewster, que impressionou ao fazer um gol a cada dois jogos em seu empréstimo ao Swansea.

Ele pode se tornar uma alternativa, se ficar. Assim como Minamino, se continuar melhorando. Há um suíço fortinho que de vez em quando é avistado em Liverpool chamado Xherdan Shaqiri que bate bem na bola. Dá para tirar mais futebol de Naby Keita, e garotos como Curtis Jones e Harvey Elliott podem explodir. Mas são pontos de interrogação maiores do que seriam novos reforços mais estabelecidos para refrescar um pouco o ambiente e dar descanso aos titulares. Até segunda ordem, as armas do Liverpool serão as mesmas: uma defesa fortíssima liderada por Van Dijk e Alisson, dois laterais enérgicos e criativos, um meio-campo muito forte e coeso e um trio de ataque fantástico. São excelentes armas. Poucos possuem armas melhores, mas, ao mesmo tempo, todos sabem quais elas são e vai que o gatilho dá uma emperrada.