Um dos duelos mais esperados das oitavas de final da Champions League é entre o bicho-papão Real Madrid e o ascendente Manchester City. Os merengues são os maiores campeões do torneio, campeões em 2013/14, 2015/16, 2016/17 e 2017/18. Estes três últimos com Zinedine Zidane como técnico – e no primeiro deles, o francês era assistente de Carlo Ancelotti. Zidane está no comando do Real Madrid e tem pela frente um dos maiores técnicos do mundo, Pep Guardiola, que tenta levar o Manchester City a outro patamar na Europa com a conquista do título – ele mesmo conquistou pela última vez em 2010/11, ainda com o Barcelona.

Manchester City

Por Bruno Bonsanti

Pep Guardiola, do Manchester City (Foto: Getty Images)

Como foi a campanha na fase de grupos 

Bem tranquila. Superior a seus adversários, o Manchester City encaminhou a classificação derrotando todos eles na primeira rodada de jogos. A Atalanta foi a que levou a maior goleada (5 a 1), mas também a que causou mais problemas. No returno, os italianos conseguiram arrancar um valioso empate por 1 a 1, em partida que Gabriel Jesus perdeu pênalti, Ederson saiu machucado e Claudio Bravo foi expulso, levando Kyle Walker ao gol. Outra igualdade contra o Shakhtar Donetsk garantiu a vaga e o primeiro lugar, com uma rodada de antecedência. Ainda goleou o Dínamo Zagreb, com três gols de Gabriel Jesus, e ajudou a Atalanta a passar às oitavas de final.

Como vem desde então

Não dá para dizer que vem mal, com 13 vitórias em 19 partidas, mas, como tropeçou cinco vezes pela Premier League e o Liverpool continuou ganhando, o sonho do tricampeonato inglês ficou praticamente impossível. Está a 22 pontos da liderança, com 36 em disputa. Segue na briga para defender seus títulos nas duas copas inglesas, após passar pelo Manchester United na semifinal da Copa da Liga (enfrenta o Aston Villa na decisão) e golear Port Vale e Fulham no começo de sua campanha na FA Cup.

Fora de campo, o anúncio de que está suspenso das próximas duas temporadas do futebol europeu obscureceu o seu futuro, no aguardo da apelação junto à Corte Arbitral do Esporte. De qualquer maneira, o rendimento parece cada semana mais próximo ao nível fabuloso que esta equipe já apresentou. Será que está apenas aguardando o momento certo de explodir em um grande palco como, por exemplo, o Santiago Bernabéu?

As novidades no mercado de inverno

Bem que precisava de alguns reforços, depois dos problemas com zagueiros (os três tiveram lesões de menor ou maior gravidade) que levaram Fernandinho a se deslocar à a defesa e a lesão séria de Leroy Sané que encerrou sua temporada precocemente. Mas, como o próprio Guardiola disse, se não dava para contratar ninguém no verão (europeu), também não dava no inverno.

Especialmente em meio à briga com a Uefa por causa do Fair Play Financeiro, não seria inteligente testar os limites da contabilidade criativa. Os negócios foram meramente marginais. Patrick Roberts estava emprestado ao Norwich e foi repassado ao Middlesbrough, e Angeliño saiu temporariamente para o RB Leipzig.

O cara do time no momento

O cara do time no momento é o cara do time nos últimos anos. Kevin de Bruyne está em uma fase estupenda, com quatro gols e oito assistências nas últimas dez rodadas da Premier League. Aliás, lidera a tabela de garçons com 16 passes para gols, em busca do recorde de 20 na era moderna do Campeonato Inglês, que pertence a Thierry Henry. A sua mistura de passe apurado, visão de jogo, inteligência, potência física e mísseis indefensáveis poucas vezes esteve tão afiada.

Um nome para ficar de olho

Laporte ainda está recuperando ritmo de jogo, após perder praticamente toda a primeira parte da temporada por lesão, e Otamendi não passa mais nenhuma confiança, então Fernandinho segue como zagueiro, o que abre espaço para Rodri continuar sendo volante.

O espanhol foi o principal investimento do Manchester City nesta temporada porque Guardiola o identificou como sucessor do envelhecido brasileiro para uma posição crucial do seu estilo de jogo. E ele tem correspondido. É o responsável por ditar o ritmo da equipe, com 92,3% de acerto nos passes, o que é significativo porque muitas vezes depende dele quebrar as famosas linhas na saída de bola. De vez em quando, faz uns gols também, como na vitória por 2 a 0 sobre o West Ham, semana passada. 

Calcanhar de Aquiles

A defesa se ajustou com a improvisação de Fernandinho, mas ainda está abaixo do padrão que o Manchester City já apresentou. Em boa parte, porque um dos zagueiros passou quase a temporada inteira machucada, outro passou quase a carreira inteira como volante e outro é o Otamendi. O setor precisa de uma boa renovada.

Resultado é que o City passou em branco aproximadamente um terço (9) dos seus 26 jogos pela Premier League até agora, abaixo da média próxima a 50% que registrou nas duas temporadas em que foi campeão inglês com Guardiola. Levou pelo menos um gol em 20 dos seus últimos 25 jogos, mas três clean sheets, os tais dos lençóis limpos quando o goleiro não é vazado, vieram nos últimos cinco.

A avaliação atual sobre o treinador

Ninguém em pleno uso de suas faculdades mentais contesta o trabalho de Pep Guardiola no Manchester City. A quantidade de títulos conquistados em tão pouco tempo e o futebol fabuloso que a equipe apresentou garantem o seu prestígio em alta, embora cresça cada vez mais a pressão por pelo menos uma campanha longa na Champions League. Nesta temporada, ela existe por diversos motivos. Primeiro porque, com a Premier League fora de alcance, a temporada terminaria cedo demais. Segundo porque, dependendo do que decidirem os engravatados da Corte Arbitral do Esporte, pode ser a última chance do inédito título europeu em um bom tempo. E, terceiro, porque Guardiola ainda não conseguiu passar das quartas de final desde que chegou à Inglaterra e sempre se espera muito mais de seus times. 

Real Madrid

Por Leandro Stein

Zinedine Zidane, do Real Madrid (Getty Images)

Como foi a campanha na fase de grupos

A derrota acachapante para o Paris Saint-Germain, durante a visita ao Parc des Princes na primeira rodada, ligou o sinal de alerta ao Real Madrid. E a situação até pareceu em risco quando o time sofreu para buscar o empate por 2 a 2 contra o Club Brugge, dentro no Estádio Santiago Bernabéu. No entanto, em uma chave nivelada por baixo e com Zinedine Zidane acertando o seu time, os temores de uma eliminação precoce caíram por terra logo cedo. Deu para os merengues ficarem com o segundo lugar do Grupo A.

Fazer dois jogos seguidos contra o fraco Galatasaray foi importante neste sentido, para garantir os pontos e dar confiança. O Real Madrid também realizou uma partida bem melhor contra o PSG no Bernabéu, em que Keylor Navas acumulou milagres e os parisienses só arrancaram o improvável empate por 2 a 2 no final. Classificados, os merengues terminaram de espantar os fantasmas com a vitória sobre o Club Brugge na Bélgica. Ganharam por 3 a 1 e somaram 11 pontos. Desempenho morno à sua média, mas compreensível pelo contexto.

Como vem desde então

Olhando apenas para os números, o Real Madrid parece muito melhor do que realmente está. A derrota para o Levante neste sábado encerrou uma invencibilidade de quatro meses no Campeonato Espanhol, sem sofrer gols em nove das 16 rodadas desde então. Apesar da queda na Copa do Rei para a Real Sociedad, o time também conseguiu conquistar a Supercopa Espanhola. Mas, ainda que o nível de desempenho inegavelmente tenha dado um salto em relação ao início da temporada, não é um esquadrão que passa tanta confiança como em outros anos. O potencial desta equipe será mesmo provado nos mata-matas da Champions.

O eixo da equipe de Zidane, agora, é a sua defesa. A recuperação do time começou a partir da consistência garantida pela marcação. Quase todos os jogadores do meio para trás vivem ótima fase. Thibaut Courtois, enfim, voltou a ser um goleiro que faz a diferença (apesar da falha contra o Levante); os laterais mantém a regularidade, assim como a dupla de zaga segue soberana; Casemiro é imprescindível no meio e Federico Valverde também virou um dos melhores nomes do setor. Mas não se vê a pujança ofensiva de outrora.

Um problema do Real Madrid é como os ditos “craques do time” não assumem o protagonismo esperado. Eden Hazard mal jogou nos últimos dois meses e seu retorno frustrado aumentou a sensação negativa ao seu redor. Gareth Bale virou um sósia de si mesmo. Luka Modric voltou a fazer grandes apresentações, mas não é o cara que decide tantas partidas. Assim, a responsabilidade recai sobre os ombros de Karim Benzema. Sem alarde, o francês continua como referência. Porém, com problemas físicos na Supercopa, não voltou bem para 2020 e só marcou dois gols no ano – muito embora um deles tenha decidido o clássico contra o Atlético de Madrid.

E há os garotos. O projeto futuro do Real Madrid, tantas vezes, acaba valendo demais ao presente de um time irregular. Se Rodrygo perdeu espaço nas últimas semanas, a recuperação de Vinícius Júnior foi uma das melhores notícias. De qualquer maneira, a definição das partidas recentes tem dependido bem mais do meio-campo do que do ataque. Neste ponto, Toni Kroos merece menção pela forma como conduziu os merengues em diversos triunfos. O alemão faz uma de suas melhores temporadas pelo clube.

As novidades do mercado de inverno

O Real Madrid contratou apenas Reinier nesta janela de transferências. O meia chegou como um investimento caro, por € 30 milhões, e teve uma apresentação cheia de pompas. Ainda assim, deve demorar a se juntar ao primeiro time. Os planos iniciais são de que permaneça com o Castilla e se adapte ao futebol espanhol, até ganhar as primeiras chances com o time principal. Resta saber se o prodígio irá queimar etapas, como fizeram Vinícius Júnior e Rodrygo durante os últimos meses.

O cara do time no momento

Ninguém é tão preponderante ao Real Madrid atual quanto Casemiro. Há quem possa ver isso como um demérito do time, considerando as estrelas à disposição e o baixo rendimento ofensivo. Por outro lado, representa a liderança do volante e sua excelente forma. Além de trancar a cabeça de área, como de costume, ele também tem sido extremamente efetivo nas subidas ao ataque. Vive seu melhor momento desde que chegou a Madri.

Casemiro é o ponto central do time que cresceu graças à segurança defensiva e deve ter trabalho dobrado contra o Manchester City. Seu papel na contenção deverá ficar ainda mais em destaque no confronto. Já no ataque, suas aparições como elemento surpresa renderam alguns gols aos merengues. Não à toa, é o jogador que mais acumulou minutos em campo pelo time na atual temporada. Quando ganhou um descanso, fez falta na eliminação contra a Real Sociedad pela Copa do Rei.

Um nome para ficar de olho

Após tantos meses como titular absoluto do Real Madrid, Federico Valverde nem é mais uma novidade tão grande assim. Mas não deixa de impressionar. Aos 21 anos, o uruguaio apresenta uma maturidade enorme e também muita regularidade. De certa maneira, sua efetivação no time acertou os merengues a partir de outubro. Confere equilíbrio, em um meio-campo bem encaixado e com múltiplas virtudes, ao lado de Toni Kroos e Casemiro. O novato é quem mais oferece dinâmica pelo setor.

Geralmente escalado pela esquerda, Valverde providencia a profundidade e o apoio que não são tão constantes com o lateral Ferland Mendy. O uruguaio tem uma capacidade física muito grande e pisa bastante na área. Contribui com a construção do jogo e não tem receio às finalizações. Além disso, possui aquela garra tão marcante aos uruguaios, de quem não desiste do lance e se empenha até a última gota de suor. Unindo talento e esforço, é jogador para longos anos no Bernabéu.

Calcanhar de Aquiles

O Real Madrid não tem em campo o renome de outros tempos. E, sobretudo, aquela bola de confiança, o cara que vai resolver. Em suma, não tem mais Cristiano Ronaldo, e isso pode fazer uma falta danada na hora em que o calo doer. Falta um protagonista absoluto ao ataque. Benzema pode ser esse cara? É o mais propenso, e cresceu de produção nas duas últimas temporadas, mas funciona melhor abrindo espaços a quem vem ao seu lado. E aí é que se concentra o ponto de interrogação. Não há uma estrela para preencher os anseios dos madridistas.

Hazard foi contratado para isso, mas não terá condições físicas e mesmo a demora para deslanchar no Bernabéu custaram sua confiança. É difícil contar com Bale ou James Rodríguez, ao passo que Isco virou um mero jogador de elenco. Há garotos com potencial, mas também é querer jogar muito peso nas costas de quem deve se desenvolver com o tempo, como Vinícius Júnior. Os merengues terão que pensar bem a quem entregar a bola nos momentos de pressão. A saudade de Ronaldo por vezes aperta.

Avaliação atual sobre o treinador

Zinedine Zidane pode não ser um treinador revolucionário, mas também não é o mero entregador de coletes que alguns apontam. Os méritos de Zizou no tricampeonato continental são inegáveis e, ainda mais, na forma como o time se recupera nos últimos meses. Sabe montar uma equipe a partir daquilo que tem em mãos e não foi problema abdicar de um princípio mais ofensivo para melhorar os resultados recentes. Até por isso, seu dedo nos jogos é até mais perceptível.

Zidane também não é perfeito e tem seus problemas de relacionamento. Alguns jogadores importantes podem render mais e esse é o próximo salto que o treinador precisa dar até o final da temporada. O time do Real Madrid tem uma estrutura. Porém, para alcançar os títulos que a história do clube pede, necessitará crescer nas decisões. O velho ídolo já fez isso outras vezes, mas não tinha que conduzir uma renovação concomitantemente, como agora.

NA TV

Real Madrid x Manchester City
Quarta, 26/02, 17h
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Manchester City x Real Madrid
Terça, 17/03, 17h
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