A 60ª edição do Campeonato Holandês tinha o horário de seu pontapé inicial marcado: às 15h desta sexta, Heerenveen e De Graafschap abririam a Eredivisie da temporada 2015/16. Abririam… Desde junho, a polícia holandesa está em greve por melhores condições de trabalho (uma paralisação já atrapalhara o início da Volta da França, em Utrecht). E os policiais ficarão parados de novo neste fim de semana, em várias cidades.

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Resultado: após advertência das prefeituras municipais, quatro jogos desta 1ª rodada tiveram um adiamento forçado, e só ocorrerão na terça (ADO Den Haag x PSV e Heerenveen x De Graafschap) e quarta (Groningen x Twente, Zwolle x Cambuur e NEC x Excelsior). E a Eredivisie só começa neste sábado, com Roda x Heracles, às 14h45. Pelo menos, Ajax e Feyenoord tiveram seus jogos autorizados já neste fim de semana.

De certa forma, é mais um baque a impactar o futebol holandês, já atingido com a eliminação vexatória do Ajax na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado (ou sobre a incompetência apresentada em campo). É hora de ver a condição daqueles que prometem ser os melhores times do Campeonato Holandês, na última parte do guia.

Groningen

Técnico: Erwin van de Looi

Destaque: Michael de Leeuw (atacante)

Fique de olho: Albert Rusnák (atacante) e Simon Tibbling (meio-campista)

Temporada passada:

Copas europeias: Liga Europa (disputará a fase de grupos)

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa/meio de tabela

Principais chegadas: Abel Tamata (D, PSV) e Bryan Linssen (A, Heracles Almelo)

Principais saídas: Maikel Kieftenbeld (D, Birmingham City-ING), Nick van der Velden (M, não renovou contrato), Género Zeefuik (A, Balikesirspor-TUR) e Tjaronn Chery (A, Queens Park Rangers-ING)

A rigor, o “Orgulho do Norte” não traria nenhum tipo de atração. Afinal de contas, terminou a Eredivisie passada em oitavo lugar. Ainda assim, sua equipe pode ser considerada das mais entrosadas do futebol holandês, com um nível razoável o suficiente (dentro do país, bem entendido) para assemelhar-se ao Heerenveen – e brigar de igual para igual com Vitesse e AZ. Prova disso foi o título da Copa da Holanda. Além do mais, tendo em vista a janela de transferências, o elenco passa relativamente ileso por ela.

Perdeu Chery, o maior destaque da equipe. Mas ainda mantém De Leeuw e Rusnák, que mantêm a velocidade do ataque. Além disso, Linssen promete ser a referência no meio da área. No meio-campo, convém prestar atenção em Simon Tibbling, pilar da seleção sueca campeã europeia sub-21. E a defesa apresenta solidez notável, por mais que a provável saída de Eric Botteghin force leves mudanças. Como de praxe, o Groningen deverá fazer mais uma temporada digna.

Vitesse

Técnico: Peter Bosz

Destaque: Valeri “Vako” Qazaishvili (atacante)

Fique de olho: Nathan (atacante)

Temporada passada: 4 º

Copas europeias: Liga Europa (já eliminado pelo Southampton-ING, na terceira fase preliminar)

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa/vaga direta na Liga Europa

Principais chegadas: Maikel van der Werff (D, Zwolle), Danilo Pantic (M, Partizan-SER), Sheran Yeini (M, Maccabi Tel Aviv-ISR), Lewis Baker (M, Chelsea-ING), Nathan (A, Chelsea-ING), Isaiah Brown (A, Chelsea-ING) e Milot Rashica (A, Kosova Vushtrri-KOS)

Principais saídas: Jan-Arie van der Heijden (D, Feyenoord), Wallace (D, Chelsea-ING), Josh McEachran (M, Chelsea-ING), Marko Vejinovic (M, Feyenoord), Davy Pröpper (M, PSV), Zakaria Labyad (A, Sporting-POR) e Bertrand Traore (A, Chelsea-ING)

Até que o Vites surpreendeu na temporada passada. Se se imaginava uma queda brusca após os problemas internos enfrentados em 2013/14 – e isso até aconteceu no primeiro turno -, a equipe se recuperou brilhantemente no returno, passou pelos play-offs e até assegurou vaga na Liga Europa (se bem que o Southampton já despachou o time sem problemas). E bem ou mal, a parceria oficiosa (?) com o Chelsea continua, após todas as tormentas. Além do mais, o time não perdeu nos jogos de pré-temporada – certo, enfrentou adversários de medianos para baixo… O que não quer dizer que as coisas estejam boas.

E não estão boas porque se o Chelsea continua dando com uma mão (Baker, Brown e o brasileiro Nathan são os emprestados da vez para passarem a temporada em Arnhem), também segue tirando com a outra (Wallace, McEachran e Traore retornaram após o empréstimo). Mas agora, o escambo com Stamford Bridge teve agravantes externos. Saíram do clube gente que era parte de uma base já entrosada, como Van der Heijden, Vejinovic e, principalmente, Pröpper. Caberá a Bosz comandar um grupo de jogadores que terá de se reorganizar. Isso é possível, os aurinegros podem fazer um bom papel. Mas talvez demore algumas rodadas até se entrosarem.

AZ

Técnico: John van den Brom

Destaque: Celso Ortiz (meio-campista)

Fique de olho: Sergio Rochet (goleiro) e Dabney dos Santos (meio-campista)

Temporada passada:

Copas europeias: Liga Europa (disputará play-offs após superar o Istambul Basaksehir-TUR, na terceira fase preliminar)

Objetivo: vaga direta na Liga Europa/vaga na Liga dos Campeões/título

Principais chegadas: Gino Coutinho (G, Excelsior), Jop van der Linden (D, Go Ahead Eagles), Joris van Overeem (M, Dordrecht), Fernando Lewis (A, Go Ahead Eagles) e Alireza Jahanbakhsh (A, NEC)

Principais saídas: Esteban (G, não renovou contrato), Wesley Hoedt (D, Lazio-ITA), Simon Poulsen (D, PSV), Nemanja Gudelj (M, Ajax) e Steven Berghuis (A, Watford-ING)

O guia da temporada passada comentou que os Alkmaarders eram o time mais forte, fora do Trio de Ferro, e que estavam destinados a fazer ótima campanha na Eredivisie. As crises perturbaram, e o desempenho foi irregular. Mas ao fim e ao cabo, o time se reergueu, aproveitou a queda brusca do Feyenoord para ganhar a terceira posição e ir à Liga Europa. Melhor: a situação não mudou para 2015/16. E com o baixo nível técnico do futebol holandês, mais a diminuição do abismo entre grandes e médios/pequenos, o AZ tem tudo para sonhar.

Se Esteban deixou o clube, como já queria há algum tempo, Gino Coutinho chega para trazer experiência ao gol – isto é, se necessário, já que o titular deverá ser o promissor uruguaio Rochet. E se a janela de transferências trouxe perdas pesadas (Hoedt, Poulsen, Gudelj, Berghuis – Áron Jóhannsson deve ser o próximo, rumo ao Werder Bremen), os reforços mantém o nível da equipe bastante satisfatório para os padrões do Holandês. Mattias Johansson, Jeffrey Gouweleeuw, Celso Ortiz, Guus Hupperts, Alireza Jahanbakhsh: todos podem formar a espinha dorsal de um time competitivo. E técnico não é mais problema, com o bom trabalho de John van den Brom. Se o Trio de Ferro bobear, o AZ parece pronto para pensar alto. Pensar até em título.

Ajax

Técnico: Frank de Boer

Destaques: Jasper Cillessen (goleiro) e Davy Klaassen (meio-campista)

Fique de olho: Anwar El Ghazi (atacante)

Temporada passada: vice-campeão

Copas europeias: Liga dos Campeões (eliminado pelo Rapid Viena-AUT, na terceira fase preliminar) e Liga Europa (disputará os play-offs)

Objetivo: título

Principais chegadas: John Heitinga (D, Hertha Berlin-ALE), Mitchell Dijks (D, Willem II), Amin Younes (M, Borussia Mönchengladbach-ALE) e Yaya Sanogo (A, Arsenal-ING)

Principais saídas: Niklas Moisander (D, Sampdoria-ITA), Ruben Ligeon (D, Willem II), Bas Kuipers (D, Excelsior), Niki Zimling (M, Mainz-ALE), Lesly de Sa (A, Willem II), Queensy Menig (A, Zwolle), Kolbeinn Sigthórsson (A, Nantes-FRA), Sheraldo Becker (A, Zwolle) e Ricardo Kishna (A, Lazio-ITA)

Seria ótimo caso a preguiça e a apatia mostradas pelo Ajax na temporada 2014/15, em todos os campeonatos disputados pelos Amsterdammers, tivessem ficado para trás. Aparentemente, não ficaram. O time ganhou somente um jogo na pré-temporada. E sequer mostrou sinais de melhora no seu principal ponto fraco, a insegurança defensiva. Que o diga a eliminação vexatória para o Rapid Viena, na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões. Nem mesmo a contratação de Heitinga, para ser o “orientador” de um elenco majoritariamente jovem, deu sinais positivos.

Pior: a falta de entrosamento dos zagueiros já se fez notar no jogo de volta contra o Rapid Viena. Bem como outro tormento, a troca estéril de passes sem a aceleração rumo ao ataque (para se ter uma ideia, dos passes trocados entre os três meio-campistas escalados contra o Rapid, apenas um – ! – foi em direção à grande área). Há gente com talento? Sim. Cillessen é dos bons goleiros europeus, Klaassen é ponta-de-lança promissor, El Ghazi é rápido e habilidoso pelas pontas. Só que o Ajax não corrigiu seus problemas já conhecidos, até agora. E isso costuma ser fatal. Entre o Trio de Ferro, o Ajax segue distante da primeira posição.

Feyenoord

Técnico: Giovanni van Bronckhorst

Destaque: Dirk Kuyt (atacante)

Fique de olho: Calvin Verdonk (zagueiro) e Anass Achahbar (atacante)

Temporada passada:

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: vaga na Liga dos Campeões/ título

Principais chegadas: Warner Hahn (G, Zwolle), Jan-Arie van der Heijden (D, Vitesse), Simon Gustafson (M, BK Hacken-SUE), Marko Vejinovic (M, Vitesse), Eljero Elia (A, Werder Bremen-ALE) e Dirk Kuyt (A, Fenerbahçe-TUR)

Principais saídas: Ronald Graafland (G, não renovou contrato), Erwin Mulder (G, Heerenveen), Khalid Boulahrouz (D, não renovou contrato), Joris Mathijsen (D, não renovou contrato), Jordy Clasie (M, Southampton-ING), Wesley Verhoek (A, não renovou contrato) e Jean-Paul Boëtius (A, Basel-SUI)

Caso o clube de Roterdã tivesse mantido a terceira posição que ocupava no final da temporada passada, entraria com tudo para 2015/16. Afinal, tem agora um ídolo comandando a equipe do banco (Van Bronckhorst), trouxe de volta outro jogador marcante em sua história (claro, Kuyt), teria vaga em uma competição europeia… mas o time caiu, teve de ir aos play-offs, não avançou muito neles, e ficou sem lugar na Liga Europa (cá entre nós, nem merecia, diante dos atos bagrecefálicos em Roma). E virou uma incógnita para a temporada. Incógnita que ficou ainda mais intensa na pré-temporada, seja pelas derrotas inapeláveis para Southampton e Olympiacos, seja pela perda de Clasie.

O que se pode dizer é que as contratações (Van der Heijden, Vejinovic, Elia, Kuyt), somadas à base já existente (Vermeer, Kongolo, El Ahmadi, Immers, o contratado em definitivo Kazim-Richards), formam um time de nível razoável o suficiente para focar-se na Eredivisie e, enfim, acabar com o jejum que já dura 16 anos. Um time que pode ser melhor do que o Ajax está, e que pode se igualar ao PSV. Em seu primeiro trabalho como técnico profissional, Van Bronckhorst tem de organizar o caminho para isso. A fanática torcida do Stadionclub confia. Desconfiando.

PSV

Técnico: Phillip Cocu

Destaque: Luuk de Jong (atacante)

Fique de olho: Jürgen Locadia e Steven Bergwijn (atacantes)

Temporada passada: campeão

Copas europeias: Liga dos Campeões (classificado para a fase de grupos)

Objetivo: título

Principais chegadas: Luuk Koopmans (G, FC Oss), Menno Koch (D, Dordrecht), Simon Poulsen (D, AZ), Davy Pröpper (M, Vitesse), Maxime Lestienne (A, Al Arabi-CAT) e Gastón Pereiro (A, Nacional-URU)

Principais saídas: Nigel Bertrams (G, Willem II), Przemyslaw Tyton (G, Stuttgart-ALE), Karim Rekik (D, Manchester City-ING – revendido ao Olympique Marseille-FRA), Abel Tamata (D, Groningen), Georginio Wijnaldum (M, Newcastle-ING), Mohamed Rayhi (A, NEC) e Memphis Depay (A, Manchester United-ING)

Todos os campeões holandeses dos últimos anos já se acostumaram: é ganhar o título e perder seus principais destaques. Não seria diferente com os Boeren, que já previam as saídas de Memphis Depay e Wijnaldum. Mas aí também veio a grande distinção que manteve o nível do elenco bom o suficiente para manterem-se como principais favoritos à conquista do Campeonato Holandês: a preparação antecipada dos reforços. Já durante a temporada passada, a diretoria agiu rapidamente e garantiu a contratação em definitivo de Isimat-Mirin (antes opção, o zagueiro francês haverá de ser titular com a saída de Rekik) e, principalmente, do fundamental Andrés Guardado.

De resto, bastaram contratações pontuais, mas bastante úteis. Jetro Willems está lesionado e perderá as primeiras rodadas? O experiente Simon Poulsen está mais do que capacitado para ocupar a lateral esquerda. Não há mais Wijnaldum, o elemento surpresa no ataque? Pröpper é um talento crescente no futebol holandês, que pode desabrochar em Eindhoven. Narsingh e Luuk de Jong precisam de parceiros no ataque? Pois bem, Lestienne é aposta que ainda pode funcionar, e Pereiro é promessa no futebol uruguaio. Sem contar os remanescentes do título que ainda têm muito a dar: Zoet, Bruma, Maher, Locadia (que até pretendia sair, mas aprovou na pré-temporada), o novato Steven Bergwijn… enfim, o PSV sabe que não tem nível para disputar de igual para igual com europeus (perdeu para Basel, Monaco e Valencia na pré-temporada…). É o que há para hoje. Mas, mesmo com menos destaque do que em 2014/15, larga na frente para este Campeonato Holandês.