Na última quarta-feira, o futebol holandês começou a participação mais importante dos últimos tempos nas competições continentais. Afinal de contas, a conta das eliminações precoces e sucessivas já começa a chegar: na tabela de coeficientes da Uefa, Bélgica e Ucrânia já ultrapassaram o país, e a Turquia não está tão longe. Bastará mais uma temporada ruim, e os clubes batavos perderão a vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões.

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Pior: o Ajax não deu muitas razões para esperança. No jogo de ida da terceira fase preliminar da Liga dos Campeões, com a mais jovem equipe que já representou o clube em sua história nos torneios europeus (média de idade de 21,2 anos!), abriu 2 a 0 contra o Rapid Viena, na Áustria, viu o adversário ficar com um a menos… e ainda permitiu o empate. Certo, decidir em Amsterdã deve favorecer os Ajacieden. Ainda assim, exemplos anteriores deixam o time de sobreaviso, para afastar a Liga Europa. Pelo menos, por enquanto. Falando nela, os próximos seis clubes a serem esmiuçados no guia da Eredivisie a têm como horizonte máximo. Vamos a eles.

Cambuur

Técnico: Henk de Jong

Destaque: Bartholomew Ogbeche (atacante)

Fique de olho: Leonard Nienhuis (goleiro)

Temporada passada: 12º

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa/ficar no meio da tabela

Principais chegadas: Kai Heerings (D, Utrecht), Marvin Peersman (D, Dordrecht), Sjoerd Overgoor (M, Go Ahead Eagles), Dominik Masek (M, Hamburg-ALE) e Valmir Berisha (A, Roma-ITA)

Principais saídas: Wout Droste (D, Heracles Almelo), Lucas Bijker (D, Heerenveen), Mohamed El Makrini (M, Odense-DIN), Mart Dijkstra (A, Sparta Rotterdam), Michiel Hemmen (A, Hacken-SUE) e Daniël de Ridder (A, não renovou contrato)

Os auriazuis fizeram uma temporada mais do que razoável em 2014/15. Para uma equipe que começou sob a sombra da ameaça de rebaixamento (e isso é comum para o clube de Leeuwarden), afastar o risco com algumas rodadas de antecedência já foi algo para ser relativamente celebrado. De quebra, o clube chegou a sonhar em ter um lugar na Liga Europa. Entretanto, teve um final ruim de Campeonato Holandês, caiu para o 12º lugar e viu o desafio: a equipe não poderia começar fraquejando.

É verdade que as perdas de Droste, Bijker e El Makrini forçam alterações sensíveis na base pensada por Henk de Jong. Todavia, para o nível dos times do meio da tabela, os reforços podem ajudar: Heerings terá o espaço que não encontrava no Utrecht, Peersman foi um dos raros motivos de alegria no rebaixamento do Dordrecht, Masek e Berisha se destacaram nos amistosos de pré-temporada. Além disso, jogadores mais experientes, como Ogbeche e Reijnen, podem acelerar a adaptação. E o goleiro Nienhuis foi dos melhores de sua posição na última temporada, na Holanda. Não será fácil para o Cambuur repetir o bom desempenho da última Eredivisie, mas não faltará esforço.

Willem II

Técnico: Jurgen Streppel

Destaque: Samuel Armenteros (atacante)

Fique de olho: Richairo Zivkovic (atacante)

Temporada passada:

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa/ficar no meio da tabela

Principais chegadas: Guus Joppen (D, VVV-Venlo), Dico Koppers (D, Twente), Ruben Ligeon (D, Ajax), Funso Ojo (M, Dordrecht), Erik Falkenburg (M, NAC Breda), Lesly de Sa (A, Ajax) e Richairo Zivkovic (A, Ajax)

Principais saídas: Frank van der Struijk (D, não renovou contrato), Mitchell Dijks (D, Ajax), Ali Messaoud (M, Vaduz-LIE), Samuel Armenteros (A, Anderlecht-BEL) e Ben Sahar (A, Hapoel Beer Sheva-ISR)

Conseguir o nono lugar foi um grande feito, para um clube que vinha da segunda divisão (ainda que como campeão dela) e que caíra de maneira melancólica em 2013/14. De certa forma, mostrou que o planejamento feito pelos Tricolores deu certo, ao arriscar a manutenção de Jurgen Streppel como treinador ainda na temporada da queda. E a preparação para a atual temporada dá mais alguns passos na direção da formação de um time que consiga se sustentar sem problemas na elite por mais temporadas. Sempre tendo em vista, claro, que passar ileso pela janela de transferências é difícil, no futebol holandês.

Não há mais Armenteros, a grande referência no ataque, que retornou ao Anderlecht após o empréstimo. Nem Sahar, braço direito de Armenteros. Na defesa, Van der Struijk e Dijks foram duas perdas pesadas. Mas a ida ao mercado foi bem promissora. Se Dijks foi comprado pelo mesmo Ajax onde se criara futebolisticamente, nada mais lógico que conseguir o empréstimo de outro lateral esquerdo Ajacied (Ligeon). Também no Ajax, Zivkovic entra na linha daqueles atacantes tão promissores quanto problemáticos? No empréstimo, o time lhe dará espaço para ele jogar e tentar mostrar talento no ataque. E Falkenburg foi um dos que mais ajudou o NAC Breda a retardar o rebaixamento, como bom ponta-de-lança. Ou seja, o Willem II está tentando formar um time mais forte, para seguir seguro na primeira divisão. E as possibilidades são boas.

Twente

Técnico: Alfred Schreuder

Destaque: Hakim Ziyech (meio-campista)

Fique de olho: Jesús Corona e Felipe Gutiérrez (meio-campistas)

Temporada passada: 10º

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa/ficar no meio da tabela

Principais chegadas: Daniel Fernandes (G, Panthrakikos-GRE), Bruno Uvini (D, Napoli-ITA), Giorgos Katsikas (D, PAOK-GRE) e Felitsiano Zschusschen (A, NAC Breda)

Principais saídas: Filip Bednarek (G, Utrecht), Rhuendly “Cuco” Martina (D, Southampton-ING), Darryl Lachman (D, Sheffield Wednesday-ING), Andreas Bjelland (D, Brentford-ING), Dico Koppers (D, Willem II), Tim Breukers (D, Heracles), Kasper Kusk (A, Kobenhavn-DIN), Bilal Ould-Chikh (A, Benfica-POR) e Luc Castaignos (A, Eintracht Frankfurt-ALE)

A lembrança ainda está fresca: na Eredivisie passada, o time de Enschede perdeu seis pontos por causa de seus graves problemas financeiros. Pior: vendo o barco afundar, o presidente Joop Munsterman renunciou. Acreditou-se que a decadência seria célere, mas os Tukkers tiveram desempenho elogiável e mantiveram-se no meio da tabela. Alfred Schreuder correu perigo, a torcida pedia sua saída, mas a nova diretoria preferiu apostar nele. Claro, o clube preocupou-se em minorar a crise. As vendas de Martina, Ould-Chikh e Castaignos renderam um dinheiro necessário, e os reforços que vieram foram empréstimos (Bruno Uvini), ou retornos de empréstimos (Daniel Fernandes e Zschusschen), ou jogadores a preço baixo (Katsikas).

Ainda assim, há razões para esperança. O meio-campo do Twente tem jogadores de bom nível para o padrão do futebol holandês: Ebecilio e Mokotjo para o desarme, e a armação fica a cargo de Ziyech (líder de assistências na Eredivisie 2014/15), Jesús Corona (consolidando-se na seleção mexicana) ou Felipe Gutiérrez (fortalecido pela colaboração no título chileno na Copa América). Há muito a melhorar: no amistoso mais recente de pré-temporada, os Tukkers sofreram 5 a 0 do Gençlerbirligi, nono colocado no Campeonato Turco. Só que o time com que o Twente estreará certamente não é ruim a ponto de ser rebaixado. Além do mais, a federação holandesa aprovou o plano de recuperação financeira apresentado pelo clube. Há luz no fim do túnel.

Utrecht

Técnico: Erik ten Hag

Destaque: Sébastien Haller (atacante)

Fique de olho: Robbin Ruiter (goleiro)

Temporada passada: 11º

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa

Principais chegadas: Filip Bednarek (G, Twente), Timo Letschert (D, Roda JC), Sean Klaiber (D, Dordrecht), Adam Sarota (M, Brisbane Roar-AUS), Fernando Quesada (M, Achilles’29 – clube amador), Leon de Kogel (A, Almere City) e Sébastien Haller (A, Auxerre-FRA)

Principais saídas: Jeroen Verhoeven (G, não renovou contrato), Kai Heerings (D, Cambuur), Kenny Teijsse (D, Go Ahead Eagles), Michael Zullo (A, Melbourne City-AUS), Tommy Oar (M, não renovou contrato), Danny Verbeek (A, NAC Breda) e Édouard Duplan (A, ADO Den Haag)

Não que o desempenho dos Utregs tenha sido terrível na última temporada: apenas foi apagado. O time ficou num completo limbo, e o trabalho de Rob Alflen pareceu nunca se encaixar. Logo, também não surpreendeu a falta de interesse da diretoria em renovar seu contrato. Assim, abriu-se espaço para uma renovação, começando pela vinda de Erik ten Hag, que estava nos aspirantes do Bayern Munique, para o comando. Felizmente, não foi preciso gastar muito para que ela ocorresse.

E quando o clube gastou, foi bem gasto. Antes de mais nada, foi possível garantir a vinda definitiva de Sébastien Haller, a referência no ataque de que o Utrecht tanto se valeu na temporada passada. Haller foi bem a ponto de outro francês, Duplan, ter sido liberado sem muitos dramas. No gol, Ruiter é irregular, por vezes, mas quando atua bem, tem qualidades que já o fizeram ser cobiçado por times da Inglaterra. Além disso, as voltas de gente como Quesada e De Kogel – e a manutenção de promessas como Rubio Rubin e Yassin Ayoub – dá um bom material jovem para ser burilado por Ten Hag. Independentemente da posição do Utrecht, espera-se, pelo menos, um time mais aguerrido e animado dentro de campo.

Zwolle

Técnico: Ron Jans

Destaque: Stefan Nijland (meio-campista)

Fique de olho: Dirk Marcellis (defensor) e Lars Veldwijk (atacante)

Temporada passada:

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa

Principais chegadas: Dirk Marcellis (D, AZ), Josef Kvída (D, FK Pribram-TCH), Sheraldo Becker (A, Ajax), Queensy Menig (A, Ajax) e Lars Veldwijk (A, Nottingham Forest-ING)

Principais saídas: Warner Hahn (G, Feyenoord), Maikel van der Werff (D, Vitesse), Joost Broerse (D, encerrou carreira), Wout Brama (M, não renovou contrato), Jesper Drost (M, Groningen), Jody Lukoki (A, Ludogorets-BUL) e Tomas Necid (A, Bursaspor-TUR)

A temporada passada prometia ser um conto de fadas ainda mais bonito do que o já vivido pelos Dedos Azuis em 2013/14, quando o time venceu a Copa da Holanda. Afinal de contas, houvera novo título (a Supercopa da Holanda), a equipe chegou a ocupar o terceiro lugar na tabela do Campeonato Holandês, alcançou novamente a final da KNVB Beker… só que aí o cansaço venceu. Os Zwollenaren perderam a chance do bi na copa, para o Groningen; nos play-offs por vaga na Liga Europa, sequer tiveram chance contra o Vitesse; e as dívidas chegaram a um ponto em que vendas de jogadores eram inevitáveis. E elas ocorreram, com Necid e Jesper Drost.

Ainda assim, não é questão de achar que o destino é voltar à rabeira da tabela. Na zaga, o reforço Marcellis tem boa chance para voltar ao nível que ensaiou ter no PSV. E no ataque, o Ajax cedeu Menig, que atuou bem no amistoso contra o Wolfsburg, ainda pelos Amsterdammers – ainda há Veldwijk, que tem nova oportunidade de impulsionar a carreira. De resto, ficaram no elenco Sainsbury, Rienstra, Lam, Nijland: todos, destaques em algum momento dos útimos anos. E os resultados dos amistosos (só uma derrota, para o Levante, da Espanha) mostram que o Zwolle tem time para se firmar no meio da tabela. O sonho não acabou, apenas mudou. E isso não é necessariamente ruim.

Heerenveen

Técnico: Dwight Lodeweges

Destaque: Luciano Slagveer (atacante)

Fique de olho: Sam Larsson (atacante)

Temporada passada:

Copas europeias: nenhuma

Objetivo: play-offs por vaga na Liga Europa

Principais chegadas: Erwin Mulder (G, Feyenoord), Caner Cavlan (D, De Graafschap), Lucas Bijker (D, Cambuur), Branco van den Boomen (M, FC Eindhoven) e Pascal Huser (A, MVV Maastricht)

Principais saídas: Kristoffer Nordfeldt (G, Swansea-GAL/ING), Marten de Roon (M, Atalanta-ITA), Janio Bikel (M, NEC) e Mark Uth (A, Hoffenheim-ALE)

Já há algumas temporadas, os frísios podem ser considerados a equipe mais regular da Eredivisie. Desde 2011/12, nunca terminam acima do quinto lugar, nem abaixo do oitavo. O Heerenveen sabe que dificilmente será campeão, mas também que ficará longe da zona de rebaixamento. Ambiente ideal para desenvolver entrosamento elogiável, sem pressões da torcida, e até para revelar talentos. Tanto para times maiores da Eredivisie (Luciano Narsingh e Daley Sinkgraven são os exemplos atuais) quanto, até, para clubes europeus (Huntelaar e Van Nistelrooy são dois grandes símbolos).

Por isso mesmo, dá para suspeitar que mais uma temporada elogiável vem por aí. Se Nordfeldt saiu, Erwin Mulder veio para o gol, tendo a chance de ouro para mostrar se foi injustiçado no Feyenoord. De resto, mais reforços pontuais (Cavlan, Bijker, Huser) para uma base já entrosada. No meio-campo, há Joey van den Berg, Younes Namli, Simon Thern; no ataque, Luciano Slagveer, Henk Veerman e Sam Larsson têm tudo para minorar o impacto da perda de Uth. A estratégia de enfrentar equipes apenas “do mesmo tamanho” nos amistosos de pré-temporada resulta em vitórias razoáveis. Assim, o Fean chega com o mesmo ambiente ameno de outros anos. E isso pode ajudá-lo.