Dois meses bastaram para que o Paris Saint-Germain x Borussia Dortmund ganhasse novas proporções na Champions League. O duelo subiu alguns degraus entre os mais interessantes destas oitavas de final. Os franceses já tinham feito uma ótima fase de grupos e aumentaram sua rotação desde então, com Neymar recuperando sua melhor forma. Do outro lado, os alemães providenciam uma dose cavalar de emoção a cada partida, inclusive pelo potencial de seu ataque – com a fenomenal adição de Haaland nesta janela de inverno. A intensidade parece garantida para os dois jogos, especialmente quando as defesas encaram problemas.

Borussia Dortmund

Por Leandro Stein

Como foi a campanha na fase de grupos

Considerando o nível de desafio esperado no Grupo F, o Borussia Dortmund cumpriu satisfatoriamente sua missão ao arrancar a segunda colocação. O clube estava em uma chave difícil, contra dois adversários de camisas pesadas e um azarão que surpreendeu a todos. É verdade que a classificação só veio com uma ajudinha da garotada do Barcelona, que bateu a Internazionale na última rodada em Milão. Ainda assim, o desempenho dos aurinegros foi de razoável para bom.

Ter cumprido a própria parte contra o Slavia Praga contou bastante ao Dortmund, único time a garantir os seis pontos contra os tchecos. Além disso, a equipe aproveitou bem o seu mando de campo – algo essencial também na Bundesliga. Contra a Inter, os aurinegros devolveram a derrota em Milão com uma eletrizante virada por 3 a 2. E mesmo o empate contra o Barcelona na primeira rodada, que só não rendeu os três pontos por causa da atuação brilhante de Marc-André ter Stegen, teve a sua serventia. Os dez pontos foram suficientes para não onerar os alemães, apesar de suas oscilações ao longo do semestre.

Como vem desde então

O fim da fase de grupos da Champions coincidiu com a melhor sequência do Dortmund na temporada. Foram quatro vitórias consecutivas naquele intervalo, que pareciam colocar os aurinegros na rota pela liderança da Bundesliga. No entanto, quando poderia encurtar as distâncias em relação ao RB Leipzig, o time cedeu o empate dentro de casa no confronto direto. E a derrota para o Hoffenheim na última rodada do primeiro turno deixou reticências.

Uma mudança importante aconteceu na forma de jogar do Borussia Dortmund. Lucien Favre assumiu de vez o 3-4-3 como esquema tático, dando liberdade aos seus alas e contando com uma dupla de volantes mais móvel. Da mesma maneira como alguns jogadores cresceram nesta nova ideia de jogo, a sonhada estabilidade não se consumou, com tropeços sentidos se misturando às goleadas sonoras. O BVB continua tentando se acertar, irregular sobretudo nos compromissos fora de casa. Prova disso está no desempenho desde janeiro.

Ofensivamente, o Dortmund está sedento. Foram 24 gols anotados nas seis partidas realizadas neste início de ano. O problema é o desequilíbrio, de um time que registrou goleadas acachapantes no Signal Iduna Park, mas também cedeu muitos gols fora de seus domínios e precisou buscar o prejuízo. Nem sempre a voracidade de seu ataque compensou as dificuldades para se defender. Mesmo tornando as vitórias mais frequentes em 2020, a roleta russa provocou a eliminação na Copa da Alemanha e a sentida virada contra o Bayer Leverkusen, que impediu o BVB de se aproximar mais dos líderes na Bundesliga.

As novidades do mercado de inverno

Neste mercado, talvez nenhum outro concorrente da Champions tenha dado um salto de qualidade tão grande quanto o Dortmund. Os aurinegros “ofereceram a oportunidade” para que Erling Braut Haaland continue brigando pela artilharia do torneio, num negócio de custos baixos, mas que também ficou sob as vontades do empresário Mino Raiola. Com oito gols na fase de grupos pelo Red Bull Salzburg, o norueguês chegará babando. Além dele, o BVB também buscou Emre Can, encostado na Juventus. O alemão chega para dar mais solidez ao sistema defensivo e, pelo menos de início, deixou impressões positivas na Bundesliga. Durante os últimos compromissos, vem ocupando a vaga do lesionado Julian Brandt e, sem tanta dinâmica, compensa pela proteção extra ao lado de Axel Witsel.

O cara do time no momento

Seria um crime citar apenas um nome do Dortmund neste momento. Afinal, diante das ausências de Marco Reus e Julian Brandt, o protagonismo todo recai sobre a dupla formada por Haaland e Sancho. O artilheiro chegou ao Signal Iduna Park apresentando todas as suas virtudes, com uma fome de gols descomunal – oito tentos em cinco partidas pela Bundesliga, mais um pela Copa da Alemanha. Melhor ainda quando conta com um garçom do nível do inglês, em sua evolução paulatina.

O futuro de Sancho até foi colocado em xeque entre outubro e novembro, ao ter problemas internos em Dortmund. Entretanto, o garoto refutou os rumores sobre sua saída imediata com uma sequência impressionante desde então. A partir da última Data Fifa, o ponta colecionou 12 gols e nove assistências em 14 aparições – passando em branco em apenas dois compromissos. O duelo contra o PSG pode representar a afirmação do inglês como um dos melhores da temporada, sobretudo pela projeção na competição continental. Suas arrancadas em diagonal e a visão aos passes contam demais.

Quem se aproveita da parceria é Haaland. O norueguês não precisou de tempo para se adaptar ao futebol alemão – mal ele precisa de tempo em campo para balançar as redes, afinal. Com velocidade e inteligência no posicionamento, ele se encaixou no Dortmund instantaneamente. A lesão de Reus, de certa forma, também evitou discussões mais longas sobre mudanças de peças na linha de frente. E a aposta se paga com gols. O PSG pinta como uma oportunidade de peso para o matador enfatizar sua grandeza sob níveis elevados de pressão.

Um nome para ficar de olho

Aqui, dois nomes também são necessários. Achraf Hakimi e Raphaël Guerreiro se tornaram vitais para a mudança tática realizada por Lucien Favre, e não sem motivos. Se ambos não apresentam tantas qualidades na marcação, o sistema com três zagueiros confere mais liberdade aos avanços dos alas. Há, claro, um efeito colateral ainda sem remédio aos aurinegros – com a proteção pelos lados debilitada. Em compensação, o BVB conta com dois motores para abrir defesas e criar jogadas ofensivas, também aparecendo para finalizar.

A goleada sobre o Eintracht Frankfurt, na última sexta, reforçou o estrago que ambos podem causar. Guerreiro bate muito bem na bola e possui como predicado muitas vezes avançar em diagonal ao meio-campo, para auxiliar na armação. Enquanto isso, Hakimi garante uma dose extra de habilidade pela direita. Chega com frequência à linha de fundo e também contribui para puxar os contragolpes. Se vão dar conta do recado defensivamente é uma questão, mas certamente causarão dores de cabeça ao PSG.

Calcanhar de Aquiles

Não há como pensar no Borussia Dortmund sem temer um suplício na defesa. Lucien Favre tem praticado um jogo mais propositivo, com linhas altas e posse de bola. Todavia, a lentidão da zaga provoca constantes tormentos na torcida aurinegra. É fato que muitas vezes o trio da retaguarda se vê exposto, ante escalação quase sempre ofensiva. Mas também eles não se ajudam, entre a mobilidade parca e muitos erros de posicionamento que fazem Roman Bürki trabalhar dobrado – nem sempre da maneira mais feliz.

Por mais que existam outros piores ao seu lado, Mats Hummels é o retrato do Dortmund. O veterano, inegavelmente um dos melhores zagueiros da última década, ainda relembra seus momentos de brilhantismo. Os lançamentos e a leitura de jogos sempre permanecerão entre os seus trunfos. Contudo, o velho ídolo está mais suscetível aos erros e perdeu mobilidade com o passar dos anos – o que já não estava entre suas principais qualidades. Dentro das próprias partidas, o alemão varia bastante.

Poderia ser um alívio o fato de que o confronto com o PSG deve levar o Dortmund a atuar de uma forma mais resguardada, sem deixar tanto campo às costas da defesa. Só que a compactação e o recuo não significam necessariamente segurança, vide o resultado cedido contra o Leverkusen. Pegar um quarteto ofensivo como o dos parisienses será uma prova de fogo à qual, até agora, os aurinegros não se indicaram preparados.

A avaliação atual sobre o treinador

Lucien Favre está no segundo ano de contrato com o Borussia Dortmund, mas muita gente preferiria antecipar sua rescisão. Em teoria, o suíço chegou ao Signal Iduna Park para montar uma equipe mais equilibrada. Não é o que se nota. Muitas vezes, o treinador prefere se apegar às ideias e ignorar a aptidão de alguns jogadores. Teimosia esta que gera críticas, vindas não apenas da torcida, como também da própria diretoria.

Não é só de deméritos que a passagem de Favre é feita, claro. Afinal, ousadia não é muito o seu problema, como se vê na loucura que muitos de seus jogos se transformam. Porém, talvez os aurinegros preferissem um pouco menos de emoção, por um tanto a mais de confiança. O técnico pode até ter construído uma identidade no Signal Iduna Park, mas não exatamente uma consistência. E isso cobra seu preço em momentos decisivos, nos quais o BVB não vem conseguindo corresponder.

Paris Saint-Germain

Por Leo Escudeiro

Como foi a campanha na fase de grupos

O mata-mata da Champions League tem sido uma pedra no sapato do PSG nos últimos anos, mas, em relação à fase de grupos, a campanha na atual temporada foi quase irrepreensível. Em uma chave com Real Madrid, Galatasaray e Club Brugge, os parisienses venceram cinco e empataram um dos seis jogos disputados. Exibiram sua força ofensiva, marcando 16 gols, e sofreram apenas dois, ambos no empate em 2 a 2 com o Real Madrid na Espanha.

Foi a equipe que menos sofreu gols e teve também a segunda melhor campanha da fase, atrás apenas do Bayern de Munique, que teve 100% de aproveitamento no Grupo B. O desempenho foi ainda mais destacável porque a equipe contou com Neymar em apenas duas partidas, sendo desfalcado de seu camisa 10 em quatro confrontos seja por suspensão ou lesão. Na ausência do brasileiro, destacou-se Mauro Icardi, autor de cinco gols em seis jogos.

Como vem desde então

Desde a partida de encerramento da fase de grupos, em 11 de dezembro de 2019, o PSG disputou 16 jogos na França, entre Ligue 1, Copa da Liga Francesa e Copa da França. O saldo é mais do que positivo: 14 vitórias e dois empates, um deles o 4 a 4 no último final de semana com o Amiens, em jogo com escalação desfigurada.

Neste período, Neymar viveu um crescimento absurdo, apresentando um nível de futebol que o coloca ao menos no pódio de melhores jogadores da atual temporada europeia. Foram oito gols e oito assistências nas oito partidas em que o brasileiro esteve em campo desde o fim da fase de grupos da Liga dos Campeões.

Em termos mais gerais, o PSG aproveitou este intervalo para implementar e dar rodagem a um pedido insistente de sua torcida e também da crônica esportiva francesa: a escalação do quarteto mágico formado por Neymar, Di María, Mbappé e Icardi. Tuchel inicialmente era resistente, preocupado com o desequilíbrio que poderia causar à equipe, mas lançou mão do esquema, colheu frutos especialmente no jogo ofensivo e refinou a ideia, dando alguma segurança e estabilidade ao meio de campo ao escalar Gueye e Verratti atrás do quarteto.

O tempo de preparação para as oitavas de final da Champions League foi também uma via de mão dupla em termos individuais. Se Neymar explodiu em sua melhor versão desde chegar à capital francesa, Icardi viu os gols secarem, e Mbappé tem sido criticado pelo nível apresentado nas últimas semanas. De boa notícia, Pablo Sarabia reforçou sua boa temporada com atuações que reiteram a interessante peça de elenco que é o espanhol.

Em todo esse período, o aprendizado maior talvez tenha vindo do outro empate do time nesta sequência: o 3 a 3 com o Monaco pela Ligue 1, em 12 de janeiro. Jogando com seu quarteto ofensivo e em uma noite pouco inspirada da defesa, a equipe foi porosa como um Emmental – mas a lição foi rapidamente absorvida, com o PSG goleando o time do Principado por 4 a 1 apenas três dias depois.

Neymar passou longe de ser o único a ter problemas físicos nesta reta final de preparação, com o setor defensivo sofrendo bastante. Marquinhos, Thiago Silva e Bernat, todos eles, tiveram baixas de duas a quatro semanas e ainda buscam ritmo de jogo, e isso pode ser um diferencial no confronto – mas falamos mais disso nos itens abaixo.

As novidades do mercado de inverno

Com a permanência de Cavani, não houve grande necessidade de contratações a um elenco que havia se reforçado bem na janela anterior. Desta forma, o PSG foi uma das equipes sem movimentações no mercado de transferências de inverno europeu.

O cara do time no momento

Retomando o que descrevemos acima, não tem como dar o título de “cara do time” a outro senão Neymar. Antes da lesão que o tirou dos últimos quatro jogos do PSG, o brasileiro vinha em uma sequência espetacular. Os números citados anteriormente (oito gols e oito assistências em oito jogos) falam por si, mas não contam a história completa: o camisa 10 refinou ainda mais seu jogo de criação, destacando-se como um dos melhores do mundo na construção de jogadas, com sua capacidade quase singular de quebrar linhas com boa movimentação, dribles e, especialmente, passes em profundidade.

O PSG de Tuchel, ao longo dos últimos meses, até por necessidade, aprendeu a se virar um pouco também sem Neymar, mas não resta dúvidas que o melhor do jogo ofensivo parisiense passa pelos pés do camisa 10, capaz de decidir partidas por conta própria. Contratado para fazer a diferença no mata-mata da Champions League e tendo estado ausente justamente desses jogos grandes em suas primeiras temporadas na França, o brasileiro deve chegar faminto ao confronto com o Borussia Dortmund – e louco para ver a equipe aurinegra deixando os espaços que têm deixado na Bundesliga.

Um nome para ficar de olho

Talvez por estar sempre cercado de craques geracionais ou pela temporada esquecível no Manchester United, não damos o devido reconhecimento a Di María. No futebol de alto nível da última década, o argentino foi dos nomes mais constantes por onde passou. Decisivo ao Real Madrid no título europeu que deu início à supremacia merengue e peça incontornável do PSG desde sua chegada à capital francesa, em 2015.

Especialmente depois da vinda de Mbappé e Neymar, Di María ganhou um status especial no conjunto parisiense. Com a natural enorme atenção atraída pela dupla, o argentino joga mais solto, vendo sua capacidade de decisão ser potencializada pelos espaços que os adversários costumam dar enquanto tentam conter o talento impetuoso do francês e do brasileiro.

Os números corroboram a excelente temporada do extremo direito do PSG. Em 24 partidas na Ligue 1, Di María esteve envolvido diretamente em 20 gols, com oito tentos e 12 assistências. Os valores totais da temporada são de 12 gols e 18 assistências em 33 partidas, e o que os números não contam são a qualidade com que executa seus gestos em campo.

Com sua velocidade e incisividade, Di María pode causar muitos danos a uma equipe que defende alto e dá tanto espaço como a do Borussia Dortmund.

Calcanhar de Aquiles

Se por um lado o ataque é a maior força do PSG, a defesa é a fraqueza que o Borussia Dortmund tentará explorar. E, sobretudo no primeiro duelo, pode pesar a falta de ritmo dos principais nomes do setor. Não há certeza sobre quem ocupará a lateral esquerda, e Bernat, melhor opção no papel, passou um mês no departamento médico e voltou apenas nas últimas duas partidas, com cerca de 30 minutos em cada jogo, contra Dijon e Amiens.

Na zaga, a questão pode pesar mais ainda. Thiago Silva, o principal nome do setor, passou duas semanas indisponível por lesão e pareceu fora de ritmo nos jogos em que atuou desde o retorno, também Dijon e Amiens. Especialmente no 4 a 4 com o Amiens, no fim de semana, quando atuou por 45 minutos, sentiu a perna pesar e esteve irreconhecível. Presnel Kimpembé, outra opção para a dupla de zaga, foi particularmente mal contra o Lyon há pouco mais de uma semana. Por fim, Marquinhos ficou três semanas no departamento médico e retornou só contra o Amiens. Peça importante ao jogo defensivo, deverá sentir falta de ritmo e poderá encontrar dificuldades.

Todas essas circunstâncias, aliadas ao ataque talentoso e veloz do Borussia Dortmund, são o grande ponto fraco do PSG para o duelo. Além de ter que superar as potenciais limitações físicas, o time parisiense precisará mostrar maior conforto sem a posse. Esta equipe de Tuchel é marcada pelo domínio da bola, mas, contra uma equipe que dá espaços como o BVB de Lucien Favre, precisará abrir mão dessa posse para machucar o oponente em contra-ataques. O duelo será um grande exercício de autoconhecimento e um pouco de concessão.

Avaliação atual sobre o treinador

No geral, Thomas Tuchel é bem respaldado em Paris. O sentimento generalizado é de satisfação com seu trabalho, com a percepção de que, ao longo da temporada, o alemão foi conseguindo imprimir certa identidade ao time, o que notavelmente faltava em momentos da primeira metade da campanha.

Tuchel viu sua aposta no quarteto mágico se pagar e deu alguma estabilidade à sua busca por maior equilíbrio entre os setores com a escalação de dois jogadores atrás deste quarteto, normalmente Gueye e Verratti, mas possivelmente com Marquinhos ocupando o lugar do senegalês.

Para além das táticas, Tuchel tem visto sua gestão de elenco ser desafiada com minicrises de relacionamento recentes, mais notavelmente a discussão na beira do campo com Mbappé durante a vitória por 5 a 0 sobre o Montpellier, em 1º de fevereiro – quando o francês foi substituído, saiu irritado e, ao ser parado pelo técnico, bateu boca com o comandante.

Em resumo, por mais que esteja em situação estável, Tuchel não atingiu status de intocável. Deverá sentir a pressão pelo resultado, especialmente pelo fracasso enorme diante do Manchester United nas oitavas de final da última Champions League. A quarta queda seguida do clube nesta fase poderia representar uma ruptura de projeto com o alemão.