Em outros tempos, o Atlético de Madrid x Liverpool seria fortíssimo candidato a jogo mais equilibrado dessas oitavas de final da Champions League. O “futebol rock ‘n’ roll” de Jürgen Klopp ainda enfrentará um teste e tanto contra as estratégias defensivas de Diego Simeone. Todavia, o momento é fundamental, e isso tira peso do confronto. Enquanto os ingleses voam baixo na temporada, os espanhóis encaram sua maior instabilidade nesses meses de reformulação. A capacidade do Atleti em realmente providenciar um desafio à altura dos Reds será a chave neste embate, assim como o foco em Anfield, diante da campanha histórica que se encaminha na Premier League.

Liverpool

Por Felipe Lobo

Como foi a campanha na fase de grupos

O Liverpool passou mais sufoco do que se imaginava. O time acabou na liderança no Grupo E, com 13 pontos, um à frente do Napoli. Isso, porém, não dá a dimensão que o clube teve sim algumas dificuldades, mesmo sendo o favorito, até por ser o campeão.

Começou perdendo para o Napoli, no San Paolo, e depois fez um jogo maluco contra o Red Bull Salzburg, em um 4 a 3 em Anfield. Vieram então os confrontos com o Genk, vitórias por 4 a 1 fora e 2 a 1 em casa. O reencontro com o Napoli era crucial e poderia garantir a classificação. O empate por 1 a 1 em Anfield deixou tudo em aberto. Por fim, o Liverpool precisaria vencer o Red Bull Salzburg fora de casa. Ao menos empatar. E conseguiu uma vitória por 2 a 0, que assegurou a classificação em primeiro, com quatro vitórias, um empate e uma derrota.

Como vem desde então

O Liverpool vinha de maneira impressionante na primeira metade da temporada e assim segue: nos 26 jogos do Campeonato Inglês, são 25 vitórias, em uma campanha histórica. O time permanece em um ritmo impossível de ser acompanhado.

É o segundo melhor ataque da Premier League com 61 gols, atrás apenas do Manchester City, que tem 65. Em compensação, é também a melhor defesa do campeonato por muito: sofreu apenas 15 gols nos 26 jogos disputados, sendo que a segunda melhor defesa, do Sheffield United, sofreu 24.

Como se não bastasse, o time segue em frente na Copa da Inglaterra, o que significa que ainda tem chances de uma dobradinha (copa e liga no mesmo ano) ou até mesmo a chamada Tríplice Coroa (copa, liga e Champions League).

As novidades do mercado de inverno

O Liverpool trouxe um jogador que foi seu adversário na fase de grupos, o japonês Takumi Minamino. O atacante, de 24 anos, mostrou boas qualidades e oferece uma boa opção no banco de reservas. Uma das coisas que mais chamou a atenção foi o valor pago: € 8,5 milhões, baixo para os padrões atuais. O jogador atua preferencialmente pelo lado esquerdo, onde normalmente aparece Sadio Mané.

O cara do time no momento

O time do Liverpool segue brilhando, mas para destacar um, Jordan Henderson conseguiu aumentar ainda mais a sua importância. Seu futebol tem sido tão bom e eficiente que não seria uma surpresa ele estar listado como um dos melhores da temporada na Inglaterra. Quando Fabinho se machucou, no fim do ano, ele foi recuado para a posição do brasileiro e permaneceu em alto nível.

Dá para defender que Henderson é, atualmente, o meio-campista jogando mais bola no mundo. É intenso, tem um passe longo excelente, sabe dar ritmo ao time também nos passes curtos e é muito bom no posicionamento. Henderson é, hoje, um símbolo do time: intensidade física, eficiência e muita técnica.

Um nome para ficar de olho

Roberto Firmino é um jogador que faz muita diferença para o time, mesmo que ele não anote tantos gols. Ele é o camisa 9, mas muitas vezes atua como 10: recua, abre espaços e dá passes. Não por acaso, já fez 12 assistências até aqui, em 37 jogos, mesmo número de Trent Alexander-Arnold, em 35 jogos. Ele tem 10 gols na temporada, o que também não é um número desprezível.

Firmino é uma espécie de Evair do futebol atual: é um 9 com todos os predicados de um meia criativo. Ele abre espaço para seus companheiros de ataque. Não por acaso, Sadio Mané e Mohamed Salah têm 16 e 18 gols, respectivamente. Quando Firmino joga bem, em geral o Liverpool vai bem também.

Calcanhar de Aquiles

Há poucos pontos fracos no time de Klopp, que se defende muito bem, com um posicionamento normalmente ótimo. O que é possível fazer contra o Liverpool é uma arma que o próprio time utiliza: recuperar a bola e inverter atrás de um dos dois laterais. Como o Liverpool marca em cima, com seus dois laterais sendo parte importante do jogo ofensivo, quando se recupera a bola e se procura o outro lado, há uma chance de encontrar um pouco mais de espaço. Fazer isso, porém, é bem mais difícil do que falar.

A avaliação atual sobre o treinador

Jürgen Klopp venceu o prêmio de melhor técnico do mundo pela Fifa, no prêmio The Best, em 2019, e com toda justiça. O alemão conseguiu aprimorar o atual campeão da Champions League, dando mais segurança e mais repertório ao time ao mesmo tempo. O Liverpool hoje consegue dosar energias dentro do jogo, se adaptar ao desafio enfrentado e não fazer muito além do que precisa. O comandante conhece a equipe como poucos e se identifica muito com o clube. Klopp e Liverpool é um casamento perfeito, que não por acaso teve o vínculo estendido até 2024.

Atlético de Madrid

Por Leandro Stein

Como foi a campanha na fase de grupos

Numa chave com dois claros favoritos, o Atlético de Madrid passou seus apuros. A campanha começou bem, mas minguou com o tempo. Durante um início de temporada no qual se esperava mais dos colchoneros, a equipe largou com um movimentado empate contra a Juventus no Wanda Metropolitano, em que recuperou a desvantagem e buscou o 2 a 2. Depois, ganharia de Lokomotiv Moscou e Bayer Leverkusen. Porém, as ameaças viriam depois disso. A derrota no reencontro com os alemães na BayArena deixava a posição do Atleti em risco.

O segundo jogo contra uma Juventus também instável não ajudou o Atlético, com a vitória por 1 a 0 em Turim definida por Paulo Dybala. Assim, na rodada final, a eliminação estava sobre a mesa. Ao menos a tabela contribuiu, com o previsível triunfo sobre o Lokomotiv no Metropolitano, enquanto a Juve ajudava na Alemanha, ao derrotar o Leverkusen. Com dez pontos, os espanhóis fizeram uma campanha morna, mas evitaram outra aparição na Liga Europa, como ocorrera em 2018.

Como vem desde então

A vitória sobre o Lokomotiv parecia desencadear um bom momento ao Atlético de Madrid. Os colchoneros ganharam as quatro partidas seguintes, três delas pelo Campeonato Espanhol. Também começaram a Supercopa da Espanha eliminando o Barcelona nas semifinais, com um triunfo de puro oportunismo e eficiência. Entretanto, não demoraria para a casa cair. A derrota na decisão da Supercopa, num dérbi modorrento contra o Real Madrid, nem era o pior dos mundos. Mas, desde então, o Atleti não se encontrou mais.

O Atlético venceu apenas um de seus últimos sete jogos, com quatro derrotas no período. Além do vice na Supercopa, os rojiblancos precisaram engolir a eliminação precoce na Copa do Rei. E a queda veio de maneira um tanto quanto vergonhosa, diante da Cultural Leonesa, atualmente militando na terceira divisão. Como se não bastasse, o time também trança as pernas na Liga e só não perdeu o seu lugar no G-4 ainda porque a concorrência anda igualmente cambaleante.

Durante o último final de semana, o empate contra o Valencia teve bons e maus sinais. A igualdade dentro do Mestalla sem dúvida é positiva, assim como o ritmo exibido pelo Atlético ao longo do primeiro tempo. Em contrapartida, a fortaleza defensiva de outrora não se nota mais e os colchoneros andam incapazes de segurar os seus resultados. Se a virtude em outros tempos de Diego Simeone era a matemática simples da vitória por 1 a 0, nos últimos meses os madrilenos quebram a cabeça para estudar suas porcentagens e probabilidades, ante as certezas que se perderam.

As novidades do mercado de inverno

Muito se falava sobre um mercado de inverno agitado no Atlético de Madrid, onde Edinson Cavani era o principal sonho de consumo. Por conta dos problemas físicos de Diego Costa, soava natural que os colchoneros buscassem um novo centroavante. Até tentaram, mas sem qualquer sucesso na empreitada. Sendo assim, o único novato é Yannick Ferreira-Carrasco, um velho conhecido. O belga vem de empréstimo do futebol chinês e oferece opções ofensivas, principalmente por sua aptidão em atuar pelos lados do campo. De positivo, pelo menos o Atlético não perdeu ninguém. Thomas Lemar era o principal especulado a sair do Metropolitano, mas terá mais alguns meses para tentar se redimir.

O cara do time no momento

A força da retaguarda do Atlético não é mais tão determinante aos resultados como antes. Os principais líderes do passado já não estão mais no Metropolitano e o principal herdeiro na linha de zaga, José María Giménez, passa mais tempo no departamento médico do que em campo. Quando o sistema defensivo garante pontos ao Atleti, tantas vezes, é pelas grandes atuações de Jan Oblak. O goleiro permanece como um dos melhores do mundo e também como a principal resistência dos colchoneros aos bombardeios adversários.

Num time que carece de protagonistas, Oblak faz valer o seu lugar. Já são mais de cinco anos brilhando na meta do Atleti. O esloveno se coloca entre os mais completos do mundo na posição – entre suas excelentes saídas de gol, a agilidade sob as traves e a segurança que transmite. Os colchoneros sabem que o seu arqueiro fará pelo menos uns dois milagres por partida, num diferencial imenso – ainda mais para uma equipe em crise. É quem mais pode se colocar no caminho do Liverpool como uma barreira.

Um nome para ficar de olho

Desde que Antoine Griezmann deixou o Atlético de Madrid, há uma lacuna no ataque. Falta um nome que chegue e intimide os adversários. João Félix veio para isso, mas não engrenou como esperado e atualmente está machucado. Diego Costa também poderia ser esse cara, impossibilitado pelos problemas físicos – permanece como dúvida para os compromissos com o Liverpool. Assim, quem tem feito melhor o seu trabalho na linha de frente é Ángel Correa. O argentino não é um craque, embora se firme como o principal incômodo aos oponentes.

Seja como segundo atacante ou aberto como meia, Correa tem uma qualidade técnica individual que vale bastante ao Atlético. É um jogador incisivo e que parte para cima das defesas, como manda a melhor cartilha de Simeone. Nem sempre vai acertar as jogadas, mas suas arrancadas acabaram se tornando um escape. Das 14 vitórias conquistadas pelo Atleti na temporada, sete contaram com gol ou assistência do argentino.

Calcanhar de Aquiles

A falta de um jogo mais consistente é um problema ao Atlético de Madrid. A filosofia de Diego Simeone continua professada da mesma maneira no Wanda Metropolitano, sem que as respostas sejam dadas no nível de antes. Os colchoneros terminaram 14 jogos desta temporada sem sofrer gols, um número alto, mas nove deles aconteceram até outubro. Com a lesão de peças importantes, a constância não é mais uma marca. Da mesma maneira, algumas dessas partidas rendem desanimados empates sem gols, em que a nulidade ofensiva não compensa o esforço realizado atrás. Mesmo a capacidade no jogo aéreo de outros tempos não é mais a regra.

E talvez a principal resposta ao que (não) acontece no Atlético esteja no meio-campo. Alguns jogadores que deveriam se colocar como os principais destaques do time, hoje, não seguiram a curva ascendente esperada. Muitos deles são fundamentais, a exemplo de Thomas Partey e Saúl Ñíguez. Mas não é que conseguem segurar a onda dos colchoneros, repetindo o aproveitamento absurdo de outros tempos. Contra o Liverpool, esta primeira linha de quatro homens será bastante exigida. Precisará providenciar mais proteção, sobretudo para pressionar os adversários e se defender contra a amplitude dos ingleses em suas constantes inversões nas laterais. A sobrevida dos colchoneros depende que esse sistema não desmonte.

A avaliação atual sobre o treinador

Diego Simeone já teve uma reputação bem mais aclamada à frente do Atlético de Madrid. Após mais de oito anos com os colchoneros, os desgastes são naturais e a falta de resultados gera questionamentos no Metropolitano. Em um momento de reformulação, a diretoria banca a continuidade de seu ídolo, responsável por um evidente crescimento do clube na última década. Mas a infalibilidade das táticas adotadas pelo comandante não é mais a mesma de outros tempos e o adeus de muitos de seus homens de confiança nos últimos meses o tornam alvo principal às críticas, por aquilo que não se nota mais no Atleti.

Simeone, no entanto, impõe respeito. Sua história com o Atlético fala por si e nem mesmo o Liverpool tratará de menosprezar a capacidade do argentino em montar defesas sólidas. Na véspera do jogo, Jürgen Klopp reservou muitos elogios a Cholo e também à sua costumeira energia à beira do campo. “Perto dele sou um tira no jardim de infância”, brincou o alemão. É nessa esperança que os rojiblancos ainda se agarram, por mais que a eficácia tenha se diluído. Com a vaga à próxima Champions em risco no Campeonato Espanhol, o duelo contra os Reds será uma oportunidade para Simeone tirar o coelho da cartola e, quem sabe, se proteger das desconfianças em meio à transição do elenco.