Atalanta e Valencia não têm as camisas mais pesadas desta Champions League ou os maiores astros, mas oferecem um dos jogos mais imprevisíveis e interessantes do torneio. Apesar da falta de experiência na competição, a Atalanta carrega ligeiro favoritismo consigo, sobretudo pelos recursos ofensivos do time de Gian Piero Gasperini. A Dea mostra como dá para exibir um futebol extremamente atrativo com um orçamento mais baixo. Do outro lado, o Valencia oscilou durante os últimos meses, embora tenha conquistado grandes vitórias pautadas em sua solidez defensiva. Desta maneira, superou Chelsea e Ajax em sua chave. Até pelo contraste de posturas, será um confronto no qual as opções táticas pesarão bastante.

Valencia

Por Leandro Stein

Como foi a campanha na fase de grupos

Considerando os problemas enfrentados pelo Valencia durante o semestre passado, que incluíram uma turbulenta troca no comando técnico, o saldo na fase de grupos foi surpreendentemente positivo. Os Ches terminaram com a primeira colocação do Grupo H, somando 11 pontos, para superar Chelsea e Ajax na reta final. Neste sentido, o triunfo dentro de Stamford Bridge na primeira rodada valeu bastante. Era apenas a segunda partida de Albert Celades à frente dos valencianos, mas o bloqueio defensivo garantiu os três pontos.

Em meio à má fase que afetou o Valencia nos meses seguintes, o time sentiu em campo, atropelado pelo Ajax no Mestalla e sem ir além do empate na visita ao Lille, em resultado cedido nos acréscimos do segundo tempo. Assim, a recuperação precisou acontecer na metade final da campanha. Os Ches golearam o Lille na Espanha e buscaram um difícil empate contra o Chelsea no Mestalla. Mas nada se compara ao “mata-mata” vencido contra o Ajax durante a sexta rodada. Em plena Johan Cruyff Arena, Rodrigo Moreno possibilitou o resultado emblemático, que despachou os holandeses e, paralelamente, valeu a ponta da chave.

Como vem desde então

Os entraves pela saída de Marcelino García Toral ficaram (teoricamente) para trás. O Valencia tenta se reencontrar com Albert Celades, apesar da inconstância. A vitória em Amsterdã foi o ponto alto do novo treinador. Desde então, as oscilações marcam os valencianos, que não engrenam no Campeonato Espanhol, enquanto amargaram eliminações na Copa do Rei e na Supercopa da Espanha.

O Valencia não consegue apresentar a mesma capacidade de seu jogo em diferentes partidas. O time goleado pelo Mallorca é o mesmo que, uma semana depois, faz uma atuação impecável para vencer o Barcelona e derrubar o tabu contra os catalães. A atual sétima colocação reforça a campanha morna em La Liga, por mais que o sonho de conquistar novamente a vaga na Champions não esteja distante. O G-4 aparece a apenas dois pontos dos valencianos neste momento.

Menos animador foi o comportamento do Valencia nos mata-matas deste início de ano. A equipe caiu para o Real Madrid na semifinal da Supercopa, sem fazer muita frente aos merengues. Já na Copa do Rei, sofreu para eliminar adversários de divisões inferiores. Após o aperto contra o Logroñes e a Cultural Leonesa, o Granada se tornou algoz nas quartas de final, encaixando seu jogo contra os Ches. E a Atalanta, obviamente, tende a atormentar muito mais a defesa valenciana.

As ideias de jogo também não mudam muito em relação ao que se via com Marcelino. Após esboçar algumas adaptações, Albert Celades segue confiando no 4-4-2, com duas linhas de marcação fixas na proteção defensiva. Nem sempre o time é eficaz, vide o estrago feito recentemente pelo Getafe. Em contrapartida, possui uma bola parada muito forte com Dani Parejo e uma imposição física mais marcante durante os últimos meses.

As novidades do mercado de inverno

O Valencia praticamente passou em branco no mercado. A volta de Paco Alcácer foi aventada, assim como Rodrigo Moreno outra vez quase saiu. No fim das contas, nenhuma das movimentações aconteceram. A única novidade foi a chegada de Alessandro Florenzi por empréstimo, em negócio de ocasião com a Roma. Também saiu Jeison Murillo, vendido à Sampdoria, mas o zagueiro colombiano pouco vinha jogando.

O cara do time no momento

O nome mais quente no ataque do Valencia é o de Maxi Gómez. O uruguaio possui números interessantes no Campeonato Espanhol, com nove gols anotados até o momento, embora não tenha desabrochado na Champions League ainda. Apesar disso, providencia resultados importantes aos valencianos. O jovem de 23 anos brilhou, sobretudo, na vitória recente sobre o Barcelona. Anotou dois gols e abriu a defesa blaugrana com sua potência.

E, diante dos problemas no elenco de Celades, Maxi se torna ainda mais central. Rodrigo Moreno está indisponível, com uma lesão no joelho, e Kevin Gameiro também é dúvida com uma contusão na coxa. Como se não bastasse, Gonçalo Guedes volta de lesão. Até por isso, a capacidade do centroavante em brigar pelos espaços e impor sua força será importante contra a Atalanta. É um alvo natural às ligações diretas e que também se esforça ao máximo na pressão sem a bola. Devendo seu primeiro gol na Champions, terá uma oportunidade para apresentar suas credenciais.

Um nome para ficar de olho

O Valencia seguiu revelando bons jogadores durante os últimos anos. José Gaya frequenta a seleção espanhola e Carlos Soler vem em sua quarta temporada como titular. Já os últimos meses têm sido preciosos para a afirmação daquele que talvez se coloque como o mais talentoso do trio: Ferrán Torres. Aos 19 anos, o prata da casa aparece entre os melhores do time na temporada e faz atuações decisivas – inclusive, ao garantir a assistência para Rodrigo em Amsterdã e ao liderar a goleada sobre o Lille no Mestalla.

Ferrán vem de uma ótima atuação contra o Atlético de Madrid pelo Campeonato Espanhol. Bagunçou a zaga colchonera pela direita e forçou Diego Simeone a mudar seu lateral esquerdo duas vezes durante o segundo tempo. Com capacidade criativa e um toque de mágica nos dribles, o meia tentará aproveitar as subidas dos alas da Atalanta, dando profundidade aos espanhóis em seus avanços rumo à linha de fundo. Brilhar em grandes palcos, aliás, não parece ser grande problema ao novo xodó dos Ches.

Calcanhar de Aquiles

Como qualquer time inconstante, o Valencia não emenda grandes atuações defensivas. Alguns dos principais resultados na temporada vieram da solidez na marcação, como nos supracitados triunfos sobre Ajax e Barcelona. Todavia, nem sempre o foco do time está em seu máximo, sobretudo quando os valencianos precisam sair um pouco mais ao ataque.  E o problema aumenta contra a Atalanta, não apenas pela força dos adversários, como também pelos desfalques. Algumas das principais opções atrás estarão ausentes em Milão. A lista inclui titulares absolutos, como o zagueiro Ezequiel Garay e o volante Francis Coquelin, além do recém-contratado Florenzi. Jasper Cillessen é outro que permanece em dúvida, mas o substituto Jaume Domènech geralmente dá conta do recado.

A maior preocupação é lidar com a suspensão de Gabriel Paulista. O zagueiro aparece como o principal esteio da defesa e tem feito algumas atuações destacadas, ótimo no combate direto aos adversários. Todavia, a indisciplina do beque tem o seu preço e o Valencia precisará recorrer a Eliaquim Mangala, que não transmite muita confiança, especialmente por sua lentidão. Entre os poucos que se mantêm firmes, Geoffrey Kondogbia vem de boas aparições e deve ser sobrecarregado na cabeça de área, até porque Dani Parejo não é dos marcadores mais intensos.

A avaliação atual sobre o treinador

Albert Celades não é o técnico do sonhos da torcida valenciana e chegou ao clube em uma situação delicada, mas tem a chance de provar o seu valor. Ainda com pouca experiência, em carreira basicamente limitada às categorias de base, o antigo volante do Real Madrid ao menos consegue manter as bases de Marcelino. Contornou um clima conflituoso nos bastidores e superou o baixo rendimento do time durante os primeiros meses da temporada. Mas não que tenha emendado uma grande sequência de vitórias com os Ches até o momento.

Encontrar o melhor nível de desempenho do Valencia é um desafio, pelos costumeiros desfalques na temporada. Apesar disso, Celades cumpre seu papel. A classificação na Champions ajudou bastante em sua relação de confiança e na própria percepção do seu trabalho. Não é a canalhice da diretoria com Marcelino que torna o substituto um pária. De qualquer forma, o atual comandante não possui uma blindagem tão grande e precisa provar seus méritos jogo a jogo.

Atalanta

Por Felipe Lobo

Como foi a campanha na fase de grupos

A Atalanta viveu uma primeira fase conturbada. Começou com três derrotas, o que parecia ter tirado suas chances de classificação, ainda mais porque era a primeira participação da Dea na Champions League. Tomou 4 a 0 fora de casa do Dinamo Zagreb, depois perdeu em casa para o Shakhtar Donetsk e tomou um 5 a 1 do Manchester City. A trajetória parecia estar no fim.

As coisas melhoraram no primeiro jogo do returno: 1 a 1 com o Manchester City na Itália. Veio a vitória sobre o Dinamo Zagreb, então, também em casa. E, por uma improvável combinação de resultados, com Shakhtar e Dinamo tirando pontos um do outro, a Atalanta chegou com chances à rodada final. Precisava vencer o Shakhtar fora. Fez 3 a 0, ficou com a improvável classificação e avançou. Talvez o time menos badalado das oitavas.

Como vem desde então

A Atalanta vai muito bem na Serie A. Na temporada passada, o time surpreendeu ao estar entre os primeiros colocados e terminar com a terceira posição. Desde que terminou a fase de grupos, são seis vitórias, dois empates e três derrotas. Tem mostrado um ataque envolvente, que é o melhor da Serie A até aqui, com 63 gols em 24 jogos. O segundo melhor ataque, da Lazio, tem 55 gols. Josip Ilicic e Luis Muriel estão brilhando com seus tentos (15 e 13, respectivamente). É de se esperar muitas bolas nas redes.

As novidades do mercado de inverno

A Atalanta fez muitos negócios no mercado de inverno, especialmente chegadas e saídas por empréstimo. O time é o que mais empresta jogadores na Itália. Mattia Caldara foi o principal nome da janela da Dea. O zagueiro de 25 anos volta depois de passar sem conseguir jogar por Juventus e Milan, atormentado por lesões. E chega para reforçar um setor onde o técnico Gian Piero Gasperini queria e precisava de novas peças.

Os outros negócios são menos relevantes. Devolveu Simon Kjaer ao Sevilla, que repassou ao Milan. Emprestou Roger Ibañez à Roma, com opção de compra, e vendeu Andrea Masiello ao Genoa. Também confirmou a contratação em definitivo de Duván Zapata, que pertencia à Sampdoria. O jogador estava emprestado e foi comprado por € 12 milhões.

O clube ainda fez algumas apostas. Bosko Sutalo, de 20 anos, que veio do NK Osijek por apenas € 5 milhões; Lennart Czyborra, 20 anos, alemão que estava no Heracles Almelo, e chega por € 4,5 milhões; Raoul Bellanova, lateral direito de 19 anos, que chega emprestado do Bordeaux; Adrien Temèze, 25 anos, que chega emprestado do Nice.

O cara do time no momento

O grande nome da Atalanta atende pelo apelido: Alejandro Gómez, o Papu. O camisa 10, de 32 anos, é o capitão do time e aquele que faz a equipe jogar. Criativo, rápido, inteligente, capaz de gerar muitas situações de gols, o argentino joga solta no time de Gasperini. Ele é o atleta que mais faz passes para finalizações e, portanto, bolas nos seus pés é sempre um risco para o adversário. É a referência que deve ser parada para evitar grandes problemas.

Um nome para ficar de olho

Josip Ilicic cresceu de produção nesta temporada, depois de já ter brilhado na anterior. Em 2018/19, foram 36 jogos, com 13 gols marcados e nove assistências. Tornou-se mais essencial, passou a participar mais e ser mais decisivo. Até aqui, são 26 jogos, 15 gols e seis assistências. Em meia temporada, já superou seus números. Atua como um segundo atacante, encostando em Luis Muriel ou Duván Zapata, quem deles for o titular. Com dois centroavantes de bom nível, é ele o artilheiro, pela dinâmica de um time que se acostuma a sempre estar em movimento.

Calcanhar de Aquiles

A Atalanta é um time que faz muitos gols, mas também sofre para evitá-los. Se por um lado o clube tem o melhor ataque da Serie A com sobras, é a pior defesa dos quatro primeiros colocados, com 32 gols tomados, mesmo número da Roma, quinta colocada. Lazio (21), Inter (22) e Juventus (23) estão bastante à frente nesse quesito. A equipe atua em um 3-4-1-2 e por vezes dá muito espaço pelos lados do campo. Isso pode causar problemas contra adversários que conseguem explorar bem os corredores.

A avaliação atual sobre o treinador

Gian Piero Gasperini vive o melhor momento da sua carreira aos 62 anos. Depois de chegar à Internazionale, em 2011, e ter durado poucos jogos, experimenta na Atalanta a sua plenitude. Faz o time jogar, conseguiu montar um grupo que joga um futebol atraente e que não tem piedade dos adversários. Por outro lado, é uma equipe vulnerável e que também pode acabar tomando muitos gols, como aconteceu nesta edição da Champions League. Manchester City e Dinamo Zagreb aproveitaram essas falhas para golear a Dea. Se não conseguir encurtar os espaços e montar um bom sistema de cobertura, o time pode acabar sofrendo.

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Atalanta x Valencia
Quarta-feira, 17h
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