Pep Guardiola às vezes é criticado por ter ganhado apenas duas Champions League, como se fosse fácil fazê-lo ano sim, ano não. Também é verdade que não chega sequer à final desde que sua residência e a de Lionel Messi passaram a ficar em países diferentes, embora nunca tenha lhe faltado recursos. Não precisa provar nada para ninguém, mas um profissional competitivo como ele quer sempre fazer mais um gol, ganhar mais um jogo, mais um título, e, claro, tem o peso extra de ser o cálice sagrado do clube em que ele trabalha.

A chance talvez nunca tenha sido tão boa. São quatro jogos e dá até para não vencer o primeiro. O atual campeão já foi eliminado, e nenhuma das potências do continente parece perto do seu nível, com exceção do Bayern de Munique. Não há grandes problemas de lesão, mas há um porém: primeiro tem que eliminar o Real Madrid de Zidane.

E isso costuma ser um grande problema porque o Real Madrid de Zidane nunca foi eliminado da Champions League, nem em um e nem em dois jogos. Não é o mesmo time tricampeão europeu, não conta mais com Cristiano Ronaldo, Sergio Ramos está suspenso, e os remanescente, tirando Benzema, cada vez mais rejuvenescido, estão alguns anos mais velhos. Ainda assim, alguém consegue duvidar que os merengues têm o que precisam para chegar lá?

Como foi o primeiro jogo

Pep Guardiola vinha com dificuldades para conseguir bons resultados em partidas fora de casa no mata-mata da Champions League – teoricamente os jogos mais difíceis que um clube europeu tem que disputar. Desde que fez 2 a 0 sobre o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, em 2011, eram 17 duelos eliminatórios pela competição e apenas quatro vitórias como visitante, contra Arsenal, Bayer Leverkusen, Basel e Schalke 04. Cada jogo tem a sua história e em alguns deles Guardiola foi acusado de fugir demais do convencional. Foi assim também em fevereiro, com a exceção de que deu certo. 

O Manchester City entrou em campo com Gabriel Jesus aberto pela esquerda, o que não costuma ser tão incomum, mas o que geralmente leva o brasileiro às pontas é a escalação de Sergio Agüero no comando de ataque. Para enfrentar o Real Madrid, Guardiola colocou Bernardo Silva na posição mais adiantada, com Kevin de Bruyne atrás dele, defendendo-se em um 4-4-2. As pernas frescas de Jesus e Mahrez fechavam os corredores, a inteligência de De Bruyne e Silva iniciavam a pressão. Com a bola, teriam liberdade para criar. 

Funcionou, pelo menos a ponto de o Manchester City dominar o primeiro tempo. Anulou o Real Madrid, com exceção de uma cabeçada de Benzema, e criou duas grandes chances, ambas com Gabriel Jesus. Uma parou em Courtois, a outra foi cortada em cima da linha por Casemiro. O problema é que os ingleses vacilaram na saída de bola, no começo do segundo tempo, e Isco abriu o placar para os merengues.

Guardiola não demorou a se mexer e acertou em cheio a substituição. Sterling entrou no lugar de Bernardo Silva e assumiu o lado esquerdo. Jesus voltou para o centro do ataque. O ponta inglês começou a jogada com De Bruyne, que invadiu a área, girou e cruzou perfeitamente para Jesus empatar de cabeça. Depois, Sterling sofreu pênalti, convertido pelo belga, e Jesus ainda cavou a expulsão de Sergio Ramos. 

Foi, ironicamente, quando retornou a uma escalação mais convencional que o Manchester City conseguiu virar a partida, e os gols saíram a partir da mudança, mas havia sido melhor desde o início do jogo e construiu uma vantagem importante fora de casa. 

O que aconteceu nos últimos meses

Manchester City

Foi um treino de luxo. Pep Guardiola havia aceitado a realidade de que o tricampeonato inglês estava fora de alcance muito antes da paralisação. Na retomada, apresentou um futebol exuberante, com vitórias folgadas contra Arsenal, Burnley, Newcastle, Brighton, Watford, Norwich e, claro, a carimbada na faixa do Liverpool. Houve tropeços, mas difícil avaliar os deméritos do time em jogos que não valiam nada. O único revés com consequência foi a derrota para o Arsenal na semifinal da Copa da Inglaterra, essa sim uma partida em que o City passou longe do seu melhor. No entanto, a impressão geral é que foi pegando velocidade pouco a pouco para chegar afiado à Champions League. 

Real Madrid

Não dava para cobrar mais – em resultados, pelo menos. O Real Madrid parou dois pontos atrás do Barcelona na tabela do Campeonato Espanhol e voltou com uma arrancada impecável de dez vitórias consecutivas que lhe renderam o título com antecedência. Deu até para empatar a rodada final contra o Leganés sem nenhum dano. A defesa foi o principal destaque, com apenas quatro gols sofridos nessa sequência de dez jogos. Em seis deles, não foi vazado. Na criação de chances e fluidez ofensiva, o Real Madrid deixou a desejar e muitas vezes precisou de pênaltis – sem entrar na polêmica se foram bem marcados ou não – para arrancar os três pontos.  

Os problemas que surgiram 

Manchester City

O problema não é novo, foi o que mais atrapalhou a candidatura ao terceiro título inglês consecutivo, e é o ponto fraco do esquema de Guardiola. Quando o adversário supera a primeira linha de pressão, e consegue o passe por trás da defesa, quase sempre posicionada na altura do meio-campo, ele tem muito campo para correr e mesmo grandes zagueiros têm dificuldade de alcançar. E o único grande zagueiro que restou foi Aymeric Laporte. John Stones e Nicolás Otamendi não fizeram grandes temporadas. O jovem Eric García terminou a temporada como titular ao lado do francês, mas informou ao clube que não renovará seu contrato, com mais um ano de validade, e pode ficar fora das oitavas, obrigando Guardiola a voltar a improvisar Fernandinho. Os reforços para tentar solucionar o problema, como Nathan Aké, anunciado esta semana, são apenas para a próxima temporada. Sergio Agüero também está fora, machucado, mas com isso o City já está mais do que acostumado. Infelizmente. 

Real Madrid

A falta de inspiração ofensiva preocupa, especialmente porque os espanhóis precisam correr atrás do placar no jogo de volta, e isso tem a ver com Eden Hazard ainda muito longe da forma que o transformou em um dos melhores jogadores do mundo. Outros, que custaram muito menos do que € 100 milhões, como Isco e Asensio não estão conseguindo manter um rendimento consistente, e o meio-campo, o mesmo do tricampeonato europeu, ainda é bom, mas também mais velho. Gareth Bale acaba sendo sempre uma distração. Fez apenas dois jogos desde a retomada, somando 90 minutos no conjunto, e, segundo Zidane, pediu para não enfrentar o Manchester City, o que contesta um pouco o discurso oficial de que a relação com o galês é absolutamente normal e respeitosa. Ah, e Sergio Ramos está suspenso. 

Um cara que vem em alta

Manchester City

Raheem Sterling ajudou a decidir o jogo de ida, mas não estava na sua melhor temporada pelo Manchester City. Depois da paralisação, fez nove gols em nove partidas disputadas pela Premier League e parece estar pegando no tranco na hora certa.

Real Madrid

Cristiano Ronaldo foi embora, Bale não está afim, Hazard parece que continua em Londres e, no fim, quem assumiu a responsabilidade foi quem estava no Real Madrid há muito tempo. Karim Benzema fez uma temporada que deveria acabar com todas as contestações de que ele é um dos melhores centroavantes dos últimos dez anos. Fez 21 gols, atrás apenas de Lionel Messi na tabela de artilharia, e deu oito assistências. Decidiu jogos, foi o ponto focal de criação do ataque, envolveu os companheiros e fez tudo que se espera de um craque. 

As chances de sonhar com a Champions League 

Manchester City

A chance talvez nunca tenha sido tão boa. Foi um dos times que melhor futebol apresentou dentro deste formato acelerado e sem torcida pós-paralisação. Talvez o Bayern de Munique, potencial adversário na semifinal, seja o que mais se aproximou. Seu teto de rendimento pode vencer qualquer adversário e, se passar pelo Real Madrid, precisaria atingi-lo apenas mais três vezes. É uma faca de dois gumes também. Porque, com jogo único a partir das quartas, um dia ruim pode colocar tudo a perder. 

Real Madrid

Não está jogando o melhor futebol da sua história recente, mas como duvidar de um clube que ganhou a Champions League quatro vezes em cinco anos? E de um treinador que a conquistou todas as vezes que a disputou e nunca perdeu um duelo eliminatório na competição? Sem falar que um time que sofre poucos gols sempre tem chance de avançar no mata-mata. Não que depois será um passeio, mas o desafio mais difícil provavelmente será reverter a desvantagem contra o Manchester City.

Onde assistir

Manchester City x Real Madrid
Sexta, 7 de agosto, 16h (horário de Brasília)
TNT, Facebook Esporte Interativo, EI Plus

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