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Cidade: Manchester
Estádio: Etihad Stadium (55.017 pessoas)
Técnico: Pep Guardiola
Posição em 2019/20: 
Projeção: Brigar pelo título
Principais contratações: Ferrán Torres (Valencia-ESP), Nathan Aké (Bournemouth-ING), Yan Couto (Coritiba-BRA), Issa Kaboré (Mechelen-BEL)
Principais saídas: Claudio Bravo (Betis-ESP), Leroy Sané (Bayern de Munique-ALE), David Silva (Real Sociedad-ESP), Ante Palaversa (Getafe-ESP), Pedor Porro (Sporting-POR), Jack Harrison (Leeds)

Em outubro do ano passado, Pep Guardiola disse que Phil Foden merece jogar mais. Soa quase como um torcedor do Manchester City cornetando o treinador na mesa do pub, como se não fosse ele quem decide quantos minutos o garoto inglês fica em campo. Foi o jeito de explicar que Foden tem qualidade, mas, ainda muito jovem, estava atrás de nomes como De Bruyne, David Silva, Bernardo Silva, Gündogan e Rodri.

Após a boa apresentação de Foden na final da Copa da Liga Inglesa, na qual foi titular, Guardiola disse que ele “receberia o que merece”. E realmente atuou bastante nas dez rodadas pós-paralisação que efetivamente não valiam nada para o City. Na Champions League, porém, nem sentiu o cheiro da grama na eliminação para o Lyon, durante a qual foram feitas apenas duas das cinco trocas permitidas. Guardiola às vezes é difícil de entender. Gênios às vezes são difíceis de entender.

Foden ainda não é um jogador perfeito, mas mostra talento, potencial e disposição para aprender. É o que se pode cobrar de jovens. Ele poderia ter tomado o mesmo caminho de Jadon Sancho, que abandonou a base do City e hoje brilha pelo Borussia Dortmund. Preferiu ficar e ter paciência. Agora, espera assumir a vaga de David Silva no meio-campo. O ídolo saiu ao fim do seu contrato, para a Real Sociedad, e, se essa passagem de bastão for efetivada, será simbólica de algo que Guardiola nunca fez: um reajuste.

Nunca deu tempo de fazer. Ficou quatro anos à frente do Barcelona e três no Bayern de Munique. Montou um time, empilhou títulos e foi embora antes de precisar montar outro. Mas agora fará pela primeira vez a quinta temporada e parece comprometido com um trabalho de mais longo prazo no Manchester City, embora tenha apenas mais um ano de contrato por enquanto. A necessidade de renovação deriva de uma temporada que passou sinais evidentes de um certo desgaste. Levou cerca de dez gols a mais do que nas duas campanhas anteriores, venceu seis partidas a menos e a quantidade de derrotas aumentou em progressão quase geométrica: duas, depois quatro até chegar a nove.

Foi a edição de liga nacional em que mais foi derrotado em sua carreira. Com exceção da segunda temporada na Bundesliga, com quatro rodadas a menos, foi também a segunda campanha em que menos pontos somou e que mais sofreu gols. Qual foi a outra? A sua primeira na Inglaterra, quando assumiu um elenco inadequado às suas ideias, um pouco envelhecido e precisou se adaptar à velocidade da Premier League. Precisava dar sua cara ao time e o fez à perfeição. Ganhou dois títulos com quase 200 pontos. Agora, entrando nesse terreno ainda desconhecido, precisa inserir sangue novo para recuperar o alto padrão de exigência que ele próprio estabeleceu para ser campeão inglês.

Foram 18 pontos de desvantagem para o Liverpool. Não é uma régua tão precisa porque também é muito incerto se o seu principal adversário conseguirá manter um aproveitamento tão alto pela terceira temporada consecutiva em um calendário condensado pela pandemia. É provável que não. Mas entre 10 ou 12 desses pontos seriam tirados se o City contratasse Lionel Messi. Tinha uma obrigação quase moral de tentar, no momento em que o craque argentino anunciou seu desejo de sair do Barcelona e se reencontrar com Guardiola. Por questões mais jurídicas do que futebolísticas, acabou ficando. Uma pena para a Premier League, uma pena para o City, mas também permite ao clube tratar de assuntos mais urgentes na sua equipe.

O mais urgente de todos é a defesa. Começou bem com Nathan Aké, zagueiro de 25 anos que se destacou no Bournemouth, apesar do rebaixamento. Pelo passado na base do Chelsea, conta como jogador formado na Inglaterra, o que também é importante. Disse que pode atuar em três posições: no miolo da defesa, como lateral esquerdo ou primeiro volante. Como Guardiola trabalha com um elenco geralmente curto, polivalência tem muito valor. Está no mercado por mais um zagueiro e, pela especulação de Koulibaly, busca um jogador de um patamar mais alto para comandar a defesa ao lado de Aymeric Laporte.

O City faz agora o que deveria ter feito na temporada passada. A saída de Vincent Kompany deixou o setor desfalcado, com apenas três zagueiros adultos, e o dinheiro que tinha para investir foi gasto em um volante e um lateral. Riu na cara do perigo, e o perigo, ofendido, contra-atacou, com uma lesão séria em Laporte e outras menores em John Stones.

Emergencialmente, Fernandinho foi recuado para a zaga e fez um bom papel, mas seu deslocamento bagunçou todo o sistema. Rodri tem qualidade, mas a função que o primeiro volante executa no esquema de Guardiola é tão crucial e complexa que experiência conta mais. Não foi por acaso que o City se mostrou tão mais vulnerável às bolas lançadas em velocidade nas costas da sua defesa.

Como Fernandinho tem 35 anos, a evolução de Rodri será um ponto de interesse no meio-campo. Assim como a recuperação de Bernardo Silva, que teve uma temporada abaixo da anterior, e as chances dadas a Phil Foden. No entanto, esse é um setor que preocupa menos. Quem tem Kevin De Bruyne geralmente não precisa se preocupar.

No ataque, Sterling e Mahrez são nomes maduros, e Jesus mostrou um bom crescimento no final da última temporada. Agora, os dois potenciais problemas. Leroy Sané completou a transferência que tanto queria para o Bayern de Munique e, por mais que Ferrán Torres seja muito promissor, está em um estágio da carreira abaixo do alemão. E em algum momento, pode não ser agora, mas pode ser também, o City terá que decidir em relação a Sergio Agüero. Em forma, ainda é um atacante letal, como mostrou no começo da última temporada, com oito gols nas primeiras seis rodadas. O difícil tem sido ficar em forma. Sofreu duas lesões que o limitaram a 24 rodadas da Premier League e três jogos na Champions.

Foi um dos pontos que minou a campanha do Manchester City. Por mais que Jesus o tenha substituído bem, tem outras características. Não se sabe ainda o quão profunda será a movimentação do clube no mercado, com as finanças incertas, como a dos outros clubes, e, mesmo absolvido das violações do Fair Play Financeiro, também não pode abusar. O certo é que provavelmente veremos um time um pouco mais diferente ao bicampeão. Novos nomes na defesa, no meio-campo e no ataque, com a missão de recuperar a coroa da Inglaterra. O City não parece um time pronto como foi entre 2017 e 2019. Parece no começo de algo novo, e Guardiola nunca precisou reconstruir um time com o carro andando. Novidades trazem incertezas. E também são fascinantes de acompanhar.