Por que acompanhar o grupo

Pela primeira vez na história da Copa Libertadores, o tão aguardado Gre-Nal acontecerá. Não será com as pompas que se imaginou em outras ocasiões, em plenos mata-matas. Ainda assim, os duelos na fase de grupos servirão de ótimo termômetro aos times, que se reconstroem neste momento – entre a renovação do Inter com Eduardo Coudet e as mudanças necessárias no Grêmio de Renato Portaluppi. Será uma pressão a mais, dentro destes primeiros passos. E não que a chave se resuma à dupla. Muito pelo contrário, o América de Cali retorna ao torneio continental após 11 anos e será uma atração à parte, por tudo o que representa à história do certame. Enquanto isso, a Universidad Católica se estabeleceu como o melhor time chileno na década, mas ainda precisa corresponder com desempenhos mais consistentes além das fronteiras. Deve complicar aos gaúchos.

Ambição na Libertadores

Grêmio

Por toda a sua história na Libertadores, o Grêmio pode se considerar um constante postulante à taça continental. O desempenho nas últimas edições prova essa relevância, com três aparições consecutivas nas semifinais. Todavia, a goleada sofrida para o Flamengo em 2019 e mesmo as dificuldades apresentadas pelos tricolores neste início de ano diminuem a confiança sobre o que acontece na Arena. E este não é o momento de testes, considerando o caráter decisivo que o Gre-Nal precoce possui. A liderança da chave e as vitórias nos clássicos é o objetivo inicial, antes de pensar mais à frente. A competição começa pra valer mais cedo.

Internacional

Da mesma forma, o Internacional estabelece o Gre-Nal como o seu principal objetivo neste primeiro semestre. A equipe passou pelas preliminares superando dois adversários que não deram vida fácil, mas também apresentando um futebol aquém de agradar totalmente a torcida colorada. Enquanto fica claro que Eduardo Coudet ainda busca sua direção nestes primeiros meses no Beira-Rio, os embates estratosféricos na fase de grupos necessitam de uma resposta contundente desde já. Considerando a relevância maior do Grêmio nas últimas edições da Libertadores, os clássicos serão vistos como duas oportunidades para o Inter virar o tabuleiro continental a seu favor.

América de Cali

A mera presença do América de Cali na fase de grupos é uma representação da tradição e da história do clube, há tempos adormecida. A quem sofreu durante a última década, com uma imensa crise financeira e cinco temporadas consecutivas na segunda divisão colombiana, a Libertadores surge como um sinal de que a normalidade retorna ao Estádio Pascual Guerrero. E a quem já vem do título recente no Finalización, não custa sonhar com uma história um pouco mais longa no torneio continental. A repescagem à Copa Sul-Americana, de qualquer maneira, não parece algo ruim ao time de Alexandre Guimarães.

Universidad Católica

O futebol chileno perdeu representatividade nos torneios continentais ao longo da década. Os clubes do país enfrentam dificuldades na fase de grupos e muitas vezes não conseguem se impor, mesmo com a badalação ao redor do que fazem no cenário doméstico. A Universidad Católica é um bom exemplo neste sentido. Esta será a terceira participação na Libertadores durante os últimos quatro anos, mas os Cruzados não avançam às oitavas de final desde 2011. Os quatro títulos nacionais recentes fizeram com que a Católica fosse apontada como “clube da década” no Chile. Mesmo assim, sem projeção internacional, essa supremacia perde peso. Este seria um bom momento à resposta, por mais que o chaveamento seja duro. A aposta se concentra em Ariel Holan, um treinador de primeira linha à empreitada.

Como foram os últimos meses

Grêmio

O Grêmio veio de uma campanha satisfatória no Campeonato Brasileiro, mas precisa tratar a competição mais a sério e voltar a brigar pela taça. Por mais que a Libertadores permaneça como obsessão na Arena, não dá para ficar suscetível aos mata-matas. E a eliminação para o Flamengo deixou um clima de fim de feira, também pela falta de rendimento de diversos jogadores. O momento é de mudança, como se percebe pelo próprio mercado movimentado. O Gauchão pode não servir de parâmetro, mas proporcionou certa pressão por apresentações ruins da equipe, com a derrota na final do primeiro turno ante o Caxias. A Libertadores será um teste de fogo. Ao menos, a classificação permanece ao alcance.

Internacional

Odair Hellmann saiu pela porta dos fundos, com a passagem pouco compreensível de Zé Ricardo no fim do Brasileirão, e Eduardo Coudet veio como um sonho de consumo ao Internacional, por tudo o que realizou à frente de Rosario Central e Racing. Sem dúvidas, é um dos treinadores mais qualificados do futebol sul-americano, mas a torcida já percebeu que dependerá de paciência. Não são todas as escolhas na montagem do time que agradam e, por mais que o Inter tenha feito sua parte nas preliminares da Libertadores, com um futebol de posse de bola, foi menos incisivo do que se pediria. Em compensação, a prioridade ao torneio continental se pagou e a queda no Gre-Nal do Gauchão ficou em segundo plano.

América de Cali

O América de Cali vive uma fase de crescimento desde a chegada do técnico Alexandre Guimarães e reconquistou o Campeonato Colombiano após 11 anos. A equipe melhorou seu rendimento durante o Finalización e correspondeu bem nas fases decisivas, sobretudo nos jogos dentro de seus domínios. Eliminou Deportivo Cali e Independiente Santa Fe no quadrangular semifinal, antes de superar o então campeão Junior de Barranquilla na decisão. Só que o desempenho no início do atual Apertura não impressiona tanto assim. Oscilando, com 11 pontos em sete rodadas, os Diabos Vermelhos se encontram fora da zona de classificação.

Universidad Católica

O Campeonato Chileno deixou uma grande lacuna por conta da situação política no país e não permitiu que a Universidad Católica consumasse seu título em campo. Os Cruzados lideravam com sobras a competição e, até por isso, ninguém questionou a antecipação da conquista. E nem a longa paralisação custou o ritmo da equipe, que continua nadando de braçada no cenário nacional. Não deu para superar o Colo-Colo na semifinal da Copa Chile, com a queda nos pênaltis. Mesmo assim, a Católica permanece invicta em 2020, com cinco vitórias e dois empates. É o único time que ainda não perdeu após seis rodadas do Campeonato Chileno, liderando a competição, com destaque à ótima produtividade ofensiva. A média de gols é de 2,5 tentos por rodada.

Destaques individuais

Grêmio

Os destaques do Grêmio não mudam muito em relação ao que se viu nos últimos anos, apesar dos novos contratados. O equilíbrio do time começa pela linha defensiva, formada por Geromel e Kannemann – este, em recuperação. No meio, Maicon e Matheus Henrique ganharam a companhia de Lucas Silva para dar mais estabilidade ao setor, algo necessário. Alisson é uma peça importante por seu trabalho pelos lados do campo, enquanto Pepê cada vez mais pede passagem. Ainda assim, poucos jogadores em atividade no futebol brasileiro fazem tanta diferença quanto Everton Cebolinha. É um privilégio aos gremistas seguirem contando com seu craque, mesmo com propostas do exterior.

Internacional

Não são poucos os jogos em que Marcelo Lomba salva o Internacional, e sua presença é um ponto de tranquilidade. Da mesma maneira, Cuesta e Moledo formam uma das melhores duplas de zaga do futebol brasileiro, com o crescimento dos jogadores após o início da parceria. No meio, o nome obrigatório no Internacional é Edenílson, um dos melhores do time desde o acesso na Série B, com muito dinamismo e importância por suas chegadas à frente. Já no comando de ataque, Paolo Guerrero permanece como a peça central para guardar seus gols e servir na abertura de espaços aos companheiros que chegam mais de trás. Boschilia e Marcos Guilherme podem crescer.

América de Cali

A grande figura do América de Cali na conquista do último Campeonato Colombiano foi o atacante Michael Rangel. Com bom porte físico e experiência em quase todos os grandes do país, anotou gols decisivos no Finalización e começou 2020 voando, com cinco tentos em seis rodadas. Ganhou a companhia de Adrián Ramos no setor, mas o centroavante se lesionou recentemente. Duván Vergara e Matías Pisano são dois nomes importantes pelas pontas. No meio, outro desfalque por lesão é o volante Luis Paz, embora o setor permaneça bem guardado com a presença de Rafael Carrascal.

Universidad Católica

A Universidad Católica se vale bastante dos jogadores argentinos entre seus destaques. Alguns atletas do país são imprescindíveis aos Cruzados, com menção ao goleiro Matías Dituro e ao novo artilheiro Fernando Zampedri. Já no meio, uma liderança importante é a do rodado Luciano Aued, que contribui com gols e domina o lado esquerdo da equipe. Mas não que os chilenos sejam irrelevantes. O ponta Edson Puch e o veterano lateral José Pedro Fuenzalida providenciam mais força à Católica no apoio. Vale prestar atenção ainda em Ignacio Saavedra, de 21 anos, entre as revelações na cabeça de área, e em César Piñares, outra peça importante, pela criação no meio.

Señor Libertadores

Grêmio

Pedro Geromel se firmou como um dos maiores símbolos da era vitoriosa estabelecida pelo Grêmio ao longo dos últimos anos. De zagueiro desacreditado por parte da torcida tricolor quando chegou, virou liderança e homem de confiança em conquistas inesquecíveis do clube. Aos 34 anos, a idade começa a pesar mais sobre as pernas. Todavia, com seu ótimo senso de posicionamento e sua leitura de jogo, o beque ainda pode valer demais na campanha dentro da Libertadores – em especial, com um Gre-Nal pela frente. O fato de não contar por enquanto com o parceiro Kannemann, lesionado, também aumenta a responsabilidade sobre Geromel. Esta será a sua sexta Libertadores desde que desembarcou em Porto Alegre.

Internacional

Andrés D’Alessandro personifica o espírito da Libertadores. Afinal, não é para qualquer um ser o jogador argentino que mais partidas disputou pelo torneio continental, boa parte desta história construída pelo Internacional. D’Ale não é mais um garoto que aguenta manter o ritmo em todos os momentos, mas pode fazer o time orbitar ao seu redor, tanto pela qualidade técnica extraordinária quanto também pela capacidade em impor as suas vontades na condução do jogo. Por vezes perde a mão, como visto na expulsão contra o Tolima. Ao menos, já tinha decidido a favor dos colorados antes disso.

América de Cali

Num elenco de parca experiência internacional, a rodagem de Adrián Ramos é importante. Artilheiro do América de Cali em suas primeiras passagens pelo clube, ele também estava presente na última participação dos Diabos Vermelhos na Copa Libertadores, em 2009. Na Europa, suas principais campanhas continentais se concentraram pelo Borussia Dortmund, incluindo duas Champions League. Agora, retorna à competição continental para ampliar as esperanças dos alvirrubros em busca da classificação. É o elo com o passado, ainda que vá perder os primeiros jogos por lesão muscular.

Universidad Católica

Pela experiência na meia-cancha, a Universidad Católica possui vários candidatos ao posto de “Señor Libertadores”. Diego Buonanotte merece seu destaque, até pela tarimba adquirida nos tempos de River Plate, onde surgiu como grande promessa. O armador disputou duas edições do torneio continental pelos millonarios, antes de tentar a sorte na Europa, sem ver a carreira corresponder como o esperado – também por sofrer um grave acidente. Virou uma das principais figuras da Católica nos últimos títulos chilenos, embora não mais como titular absoluto. Aos 31 anos, ainda assim, pode oferecer seu toque de talento na organização dos Cruzados.

Novos reforços

Grêmio

O Grêmio esteve entre os times que mais contrataram na pré-temporada brasileira. E parecia um mercado interessante dos tricolores, considerando alguns bons negócios pontuais em posições necessitadas. Vanderlei, Lucas Silva, Orejuela, Victor Ferraz e Caio Henrique aumentava o nível geral do conjunto, que se desfez de diversos medalhões que não vinham rendendo. Porém, as chegadas de Thiago Neves e Diego Souza geraram desconfiança, sobretudo pelo histórico recente. Renato aposta em sua capacidade para recuperar os veteranos.

Internacional

O Internacional alternou um mercado entre boas contratações e outros jogadores que não vieram com tanto moral. O setor ofensivo é o que mais ganhou, com as adições de Marcos Guilherme, Gabriel Boschilia e Thiago Galhardo, além da vinda mais recente de Gustagol – embora a maioria ainda busque seu espaço. No meio-campo, Damián Musto é o homem de confiança de Chacho Coudet. Já nas laterais, Moisés e Rodinei ganharam a posição, longe da unanimidade. Entre os que saíram, Rafael Sóbis e Nico López puxaram a barca entre os mais renomados.

América de Cali

Depois de um mercado bastante intenso para o Finalización 2019, o América de Cali se conteve um pouco mais rumo a esta temporada. Ainda assim, buscou um velho ídolo, ao acertar o retorno de Adrián Ramos, que estava no Granada. O centroavante ainda não balançou as redes pelo Campeonato Colombiano, mas inspira cuidados redobrados. O América ainda olhou bastante para o ótimo trabalho de formação do Envigado, comprando os laterais Cristian Arrieta e Nicolás Giraldo, enquanto também contratou Felipe Jaramillo junto ao Millonarios. Entre os que saíram, menção principal ao goleiro Neto Volpi.

Universidad Católica

Não foi dos mercados mais movimentados da Universidad Católica, sobretudo entre os novos contratados. Em compensação, os novos argentinos do elenco parecem elevar um pouco mais o nível dos Cruzados. Fernando Zampedri veio de passagens relevantes por Atlético Tucumán e Rosario Central, assumindo o comando de ataque e a artilharia do elenco. Trazido do Monarcas Morelia, Gastón Lezcano é mais um que fortalece a rotação titular. Suplantam, entre outros, o colombiano Duvier Riascos – que não fará tanta falta assim.

O técnico

Grêmio

Renato Portaluppi mantém a sua aura de “Messias Tricolor”, por mais que já tenha vivido momentos mais confortáveis nesta passagem de quatro anos pela Arena. Por vezes o comandante se perde no personagem e nem sempre suas palavras merecem tantos créditos assim, mas foi o cara que redescobriu a América com o Grêmio, e isso sempre merece muito respeito. Enfrenta o seu período mais difícil na velha casa, justamente porque a cobrança por resultados aumenta. Todavia, com bons talentos em sua mão e uma predisposição para exibir um futebol mais ofensivo, pode manter a competitividade dos gremistas rumo a mais uma boa campanha.

Internacional

Eduardo Coudet chegou ao Internacional para transformar o clube. Do defensivismo tão criticado nos tempos de Odair Hellmann, o novo comandante viria para colocar em prática um futebol bem mais agressivo e de bom trato com a bola. A melhora não é tão imediata e a formação com quatro volantes de origem fez muita gente torcer o nariz. Porém, não se nega que os preceitos do jogo colorado mudam e, mesmo com aperto, valeu para que a equipe se garantisse na fase de grupos da Libertadores. Há respaldo neste início de trajetória, até porque fica difícil imaginar uma opção melhor no mercado que Chacho. Começará a lidar agora com seus principais desafios.

América de Cali

Alexandre Guimarães pode ser considerado um belíssimo achado do América de Cali. Treinador da Costa Rica em duas Copas do Mundo, o alagoano de nascimento permaneceu a última década trabalhando majoritariamente em clubes da Ásia. Já no último mês de junho, virou uma aposta da diretoria do América de Cali, em meio a recorrentes mudanças no comando durante os últimos anos, e veio para ficar. A equipe ganhou consistência e se apresentou bem em partidas de maior exigência, o que explica a conquista do Finalización. Aos 60 anos, terá a chance de participar de sua primeira Libertadores, e já marcando a história a um clube tão tradicional.

Universidad Católica

Ariel Holan permanece como um dos treinadores mais incensados da América do Sul, sobretudo pelos grandes trabalhos que realizou à frente de Defensa y Justicia e Independiente. O argentino era pretendido por diferentes clubes do continente, inclusive brasileiros, mas foi a Católica que se deu bem. Os Cruzados acertaram a contratação após a saída do campeão Gustavo Quinteros, que aceitou uma proposta do Tijuana. E as primeiras semanas de Holan em Santiago agradam, não apenas pelos bons resultados acumulados, como também pela maneira como o time consegue reproduzir um futebol mais ofensivo. Serão interessantes os embates contra outros adversários que pretendem um futebol mais solto, em especial Grêmio e Inter.