Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Alain Giresse, campeão europeu pela França em seus tempos de jogador, comandou a campanha classificatória para a Copa do Mundo do Brasil. Assumiu em janeiro de 2013 e chegou à última rodada das Eliminatórias Africanas, mas perdeu o playoff decisivo contra a Costa do Marfim. Foi mantido para a disputa da Copa Africana de Nações de 2015, e Senegal chegou à última partida ainda podendo se classificar às quartas de final. No entanto, a derrota para a Argélia, por 2 a 0, decretou a eliminação. Giresse foi severamente criticado pela imprensa senegalesa. Chegou a dizer que a entrevista coletiva pós-jogo quase descambou para a violência, que os jornalistas “passaram dos limites da decência”, que seria “impossível e intolerável” continuar no cargo. Seu contrato já estava no fim, e ele decidiu, junto com a federação, não o renovar.

A Federação Senegalesa optou pelo treinador do time sub-23, um dos heróis daquela campanha mágica de 2002. O ex-meio-campista Aliou Cissé, capitão da seleção na Copa do Mundo da Coreia do Sul e no Japão, foi promovido. Levou Senegal à Copa Africana de Nações de 2017. Nela, liderou o seu grupo, mas foi eliminado nas quartas de final, nos pênaltis, contra Camarões, que viria a ser o campeão. A missão seguinte de Cissé seria conseguir o que eles e seus companheiros não conseguiram quando ainda eram jogadores: devolver Senegal à Copa do Mundo.

Depois de ficar fora dos Mundiais de Alemanha, África do Sul e Brasil, Senegal classificou-se para a Rússia com certa tranquilidade. Passou por Madagascar na segunda rodada e caiu no grupo de Burkina Faso, Cabo Verde e África do Sul. Equipes com participações recentes em torneios africanos, mas sem muita tradição em Copas. O começo da campanha, porém, foi complicado. Senegal ganhou de Cabo Verde, mas perdeu da África do Sul e empatou duas vezes com Burkina Faso. A derrota para os Bafana Bafana, porém, foi anulada, depois de o árbitro ser banido por manipulação de resultados – naquele duelo, assinalou um pênalti inexistente para os sul-africanos. No jogo remarcado, Senegal ganhou por 2 a 0 e conseguiu a classificação com uma rodada de antecedência, candidatando-se a fazer história de novo na Rússia.

Como joga

Senegal chegou às quartas de final da Copa do Mundo de 2002 com uma geração que entrou para a história, mas não eram jogadores de primeira linha do futebol europeu, como ficou provado nos anos seguintes. A história agora é diferente. O elenco conta com dois titulares de grandes clubes da atualidade (Liverpool e Napoli), além de um meio-campo inteiro da Premier League e mais alguns nomes interessantes, como o zagueiro Salif Sané, do Hannover, Moussa Sow, do Bursaspor, e M’Baye Niang, do Torino.

O técnico Sissé tem talento à disposição, o que torna algumas críticas que recebeu compreensíveis. Apesar de bons jogadores de ataque, é acusado de favorecer um estilo de jogo muito defensivo. Houve certa histeria, em março, quando ele experimentou um esquema com três zagueiros. Mas na Copa do Mundo deve mesmo usar uma linha de quatro, comandada por Sané e Kalidou Koulibaly, a estrela do setor. Nas laterais, Saliou Ciss, do Valenciennes, e Lamine Gassama, do Alanyaspor, jogaram mais vezes nas Eliminatórias Africanas, embora Youssouf Sabaly e Moussa Wagué tenham sido bem testados nos amistosos de preparação. De qualquer jeito, há uma queda de qualidade nos flancos em relação ao miolo de zaga.

O meio-campo está recheado de jogadores da Premier League, todos fortes fisicamente e bons na ocupação de espaços. Idrissa Gueye, do Everton, é titular absoluto. Ao seu lado, nas Eliminatórias Africanas, o que mais atuou foi Cheikhou Kouyaté, do West Ham, mas a temporada de Badou N’Diaye não pode ser ignorada. Apesar do rebaixamento do Stoke City, ele foi um dos destaques da liga inglesa em quesitos defensivos. Até mesmo os três podem jogar, caso Cissé opte por um 4-3-3. No entanto, o que sobra em imposição, falta em criatividade com a bola nos pés. É um meio-campo que favorece o contra-ataque e a chegada à área, nem tanto a posse e a criação de jogadas.

No ataque, Sadio Mané é um nome incontestável, seja próximo ao centroavante, no 4-2-3-1 ou no 4-4-2 testado nos últimos amistosos, seja pela ponta em um esquema com três atacantes. Keita Baldé, do Monaco, é outro jogador importante do elenco, apesar de não ter jogado bem na França como estava fazendo na Lazio. Pode ser o ponta pela esquerda ou um atacante mais centralizado. A camisa 9 é uma dúvida. Moussa Sow e Diafra Sakho já tiveram momentos melhores, o que pode abrir espaço para Niang ou para Ismaila Sarr. O goleiro também não está definido. Pode ser Khadim N’Diaye ou Abdoulaye Diallo.

Time base: N’Diaye (Diallo); Lamine Gassama (Moussa Wagué), Kalidou Koulibaly, Salif Sané e Saliou Ciss; Idrissa Gueye, Badou N’Diaye (Cheikhou Kouyaté); Keita Baldé, Sadio Mané e Ismaila Sarr (M’Baye Niang); Diafra Sakho. Técnico: Aliou Cissé.

O dono do time

Sadio Mané

No começo do ciclo da Copa do Mundo, Sadio Mané ainda era uma revelação que chegava à Premier League em busca de se firmar. Após dois anos de sucesso no Southampton, foi vendido ao Liverpool e explodiu como um dos grandes atacantes do futebol europeu. A primeira temporada foi espetacular, embora tenha sido interrompida precocemente por causa de uma lesão. Na segunda, marcou até mais vezes, mas oscilou o seu desempenho e adotou um papel mais de coadjuvante de Mohamed Salah e Roberto Firmino. Na final da Champions contra o Real Madrid, no entanto, teve a liderança de colocar a bola debaixo do braço e tentar uma reação inglesa. Não foi possível, mas é isso que se espera de Mané na seleção.

O bom coadjuvante

Kalidou Koulibaly

Koulibaly saiu do Metz, passou pelo Genk, da Bélgica, e chegou ao Napoli, em 2014, para virar um dos melhores zagueiros do mundo no time de Maurizio Sarri. Consegue se impor fisicamente, tem velocidade e um bom passe. Características essenciais para o estilo de jogo de posse de bola e linha alta do clube italiano. Foi muito bem na última temporada inclusive no ataque, ao marcar o gol da vitória sobre a Juventus, em Turim, que reacendeu a chance de título do Napoli. Na seleção, tem a missão de liderar um setor chave da equipe de Aliou Cissé. Se a defesa de Senegal é forte, isso tem muito a ver com Koulibaly.

Fique de olho

Keita Baldé

Surgiu como um excelente jogador para a seleção senegalesa. Voando pela ponta esquerda da Lazio, seria perfeito para complementar Sadio Mané, que prefere o lado direito do campo – embora no Liverpool tenha sido deslocado para dar lugar a Salah. Fez uma temporada 2016/17 de destaque na Itália, com 16 gols, e foi contratado por € 30 milhões pelo Monaco para suprir a saída de Bernardo Silva para o Manchester City. Mais pela direita ou como segundo atacante, não foi tão bem no Principado, com apenas oito gols e cinco assistências em 23 rodadas da Ligue 1. No entanto, o jovem ainda tem 23 anos e muito potencial para melhorar. Na seleção, estreou em 2016, nas Eliminatórias da Copa Africana de Nações, e jogou cinco partidas na campanha classificatória para a Copa do Mundo. Na vitória por 2 a 0 sobre Cabo Verde, em casa, foi o homem do jogo, com um tento e um passe decisivo.

O personagem

Badou N’Diaye

Papa Alioune N’Diaye, ou simplesmente Badou, começou a carreira na academia de Diambars, estabelecida em Senegal por grandes nomes do futebol, como Patrick Vieira. O sonho era aquele de sempre: ser jogador de futebol. Mas os seus pais não permitiram que focasse apenas nisso. Precisou manter os estudos em paralelo e, com os livros, foi quase tão bem quanto com as bolas. Formou-se no colégio com foco em literatura e começou cursos de direito e administração na universidade de Mbour, a 80 quilômetros da capital Dakar. Mas o chamado do futebol falou mais alto. Do clima quente da África, N’Diaye foi para o oposto. Fez um teste no Bodo/Glimt, da Noruega. “Quando eu levantei no primeiro dia e abri a porta, eu fiquei aterrorizado. Eu nunca tinha visto neve, pelo menos apenas na TV. Gradualmente, eu aprendi a não me importar com o clima. Se estava frio, estava frio. Recebi essa atitude dos meus pais. É importante se adaptar”, disse, em entrevista ao Stoke Sentinel.

N’Diaye eventualmente se transferiu em definitivo para o Bodo/Glimt e virou um dos favoritos da torcida. O grito de “Badou, badou, what you gonna do?” ecoava das arquibancadas. Conseguiu o acesso com o seu clube e se transferiu para o Osmanlispor. Na Turquia, encontrou sua veia artilheira, com 11 gols na campanha que valeu vaga na Liga Europa. Ao mesmo tempo, ganhou seu primeiro chamado para a seleção senegalesa. No começo da temporada 2017/18, foi vendido para o Galatasaray, mas só ficou seis meses no gigante turco. Em janeiro, o Stoke City apareceu com € 16 milhões para contratá-lo, na tentativa de escapar do rebaixamento. Era uma missão difícil demais para colocar nas costas de N’Diaye, embora ele tenha sido titular e um dos destaques daquele período da liga inglesa. Com a queda, apareceram interessados em seu futebol, e a Copa do Mundo pode ser o palco para se destacar e garantir mais um grande contrato. Sem nunca esquecer as suas origens: fundou uma instituição de caridade em Dakar para ajudar jovens que também querem ser jogadores de futebol. “Temos um ditado que diz que devemos mandar o elevador de volta. A educação é a melhor maneira de sair da pobreza”, afirmou.

O técnico

Aliou Cissé

O volante foi capitão da histórica campanha de Senegal na Copa do Mundo de 2002. Ganhou transferência para o Birmingham, mas ficou apenas duas temporadas na Inglaterra, e seu futebol nunca explodiu. Tem apenas 42 anos e pouca experiência como treinador. Comandou o sub-23 senegalês entre 2013 e 2015, quando foi promovido à equipe principal. Mas é um representante da geração mais celebrada do país e, apesar de ser acusado de ter um estilo muito defensivo, conseguiu classificação para a Copa, após 16 anos de ausência.

Uma história da seleção em Copas

Senegal disputou apenas uma Copa do Mundo em sua história. E todos sabem qual foi. Em 2002, estreou derrotando a França, por 1 a 0, na partida da caçula contra a então atual campeã. A classificação em segundo lugar veio com empates contra Dinamarca, que acabou líder, e o Uruguai. Nas oitavas de final, conseguiu derrotar a Suécia, com o gol de ouro na prorrogação.

Chegou às quartas para enfrentar a Turquia. Os turcos faziam uma Copa do Mundo boa, mas não davam medo como fariam seleções gigantes. Eram acessíveis para a equipe entrosada e empolgada de Senegal, que poderia se tornar a primeira africana a chegar às semifinais. Mas o que o gol de ouro dá o gol de ouro também tira.

A partida começou travada, com os dois lados ainda muito cautelosos. Senegal ameaçou primeiro, mas as melhores chances foram criadas pela Turquia. No entanto, Hakan Sukur estava em um dia bem ruim. Errou um domínio que o deixaria na cara do gol e não conseguiu completar cruzamento, quando qualquer contato o transformaria em 1 a 0 para a Turquia. Omar Daf ainda cortou cabeçada de Yildiray Basturk em cima da linha.

No segundo tempo, a Turquia voltou a atacar. E Hakan Sukur voltou a jogar mal. Foi substituído, aos 24 minutos do segundo tempo, por Ilhan Mansiz, que quase marcou um golaço tentando encobrir Tony Sylva. O 0 a 0 levou a partida para a prorrogação. Depois de apenas quatro minutos de tempo extra, Ilham Mansiz marcou o gol de ouro que colocou a Turquia nas semifinais. E encerrou o conto de fadas de Senegal.

Como o futebol explica o país

Em 2011, segundo o Banco Mundial, quase metade da população de Senegal era considerada pobre: 47%. No índice de desenvolvimento humano, o país não manda muito melhor, em 162º lugar entre 188 países. Há problemas sérios de saúde, principalmente com crianças. A mortalidade infantil leva 47 jovens com menos de cinco anos a cada 1,000 nascimentos, de acordo com a Unicef. A Economia está melhorando desde 2014. Ano passado, o crescimento foi de 6,8%, o terceiro ano seguido na casa dos 6%. As redes de segurança do governo já ajudam quase um terço das casas e o índice de desnutrição infantil é o menor da África subsaariana. A pobreza caiu de 4% a 7% desde aquela pesquisa de 2011. Mas Senegal ainda é um país bem pobre.

Diante desse cenário, os jogadores que se tornam milionários por causa do futebol tentam ajudar. Badou N’Diaye organizou uma instituição de caridade para tentar profissionalizar crianças que tem o sonho de ganhar a vida jogando bola. Um dos mais ativos é Sadio Mané, filho de imã em um país majoritariamente muçulmano. Pagou para reformar a mesquita da vila onde nasceu, em Bambali, com 2 mil habitantes. O local também recebeu 300 camisas do Liverpool para torcer na final da Champions League contra o Real Madrid, porque Mané se lembra de ter assistido à decisão de Istambul quando era jovem.

Em um futebol pobre, muito do dinheiro investido vem com o apoio de ex-jogadores. A academia do Diambars, formada por Patrick Vieira – que defendeu a seleção francesa, mas nasceu em Dakar – e pelo ex-goleiro Bernard Lama é uma das principais do país. A Genératión Foot foi fundada pelo ex-jogador senegalês Mady Touré e, desde 2003, tem uma parceria exclusiva com o Metz, da França. Sadio Mané fez essa trajetória, chegando ao futebol francês em 2011. As duas academias combinadas formaram sete jogadores dos convocados para a Copa do Mundo. E apesar de se concentrarem em jovens, também ganharam dois dos últimos seis títulos da elite de Senegal.

Mesmo com uma democracia sólida e sendo um dos países mais estáveis da África, muitos senegaleses deixam o país para fugir da pobreza. A taxa de desemprego entre os jovens não é das mais altas, em 5,5%, segundo o Banco Mundial, enquanto a média da região subsaariana é de 14,2%, e na África do Sul chega a 57%. Mas causa preocupações porque metade da população do país tem menos de 18 anos e, se já não estiver trabalhando, em breve entrará no mercado, sem identificar muita perspectiva de um bom emprego. De acordo com a Reuters, em 2015, 500 mil senegaleses moravam fora do país, que tem população estimada em 15 milhões de pessoas, e muitas famílias dependiam do dinheiro que vinha do estrangeiro. E esse dado ainda é do começo da onda que causou uma crise de imigração na Europa.

Jogadores de futebol são o retrato mais famoso desse processo. Dos 23 convocados para a Copa do Mundo, nove nasceram fora do país: Abdoulaye Diallo, Kalidou Koulibaly, Salif Sané, Youssouf Sabaly, Lamine Gassama, Alfred N’Diaye, Moussa Sow, M’Baye Niang e Keita Baldé. Todos na França, menos Baldé, natural da Espanha. E nenhum deles atua no pobre futebol senegalês. Como muitos de seus compatriotas, os jogadores da seleção saíram de Senegal em busca de uma vida melhor.

O que a Copa significa para a seleção

O fim de uma longa espera. A Copa do Mundo de 2002 foi uma festa sem precedentes no país e, com uma boa geração, os senegaleses imaginavam experimentá-la mais vezes. Precisaram, no entanto, esperar mais 16 anos para que isso acontecesse. Com um time que talvez seja até mais talentoso que aquele que abalou a Ásia, o povo acredita que pode viver mais uma vez uma campanha mágica.

Ficha técnica

Seleção senegalesa
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