Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Já são 36 anos sem uma Copa do Mundo. E a caminhada do Peru neste período de estiagem contou com mais baixos que altos. De 1986 a 2010, em apenas duas ocasiões a Blanquirroja teve realmente chances de avançar ao Mundial. Em 1986, o sonho se encerrou com o gol derradeiro de Ricardo Gareca nos minutos finais do confronto direto com a Argentina, com o empate por 2 a 2 na última rodada encaminhando a Albiceleste ao bicampeonato no México. Já em 1998, o sonho foi destruído principalmente na penúltima rodada, quando o Chile goleou os rivais por 4 a 0 no Estádio Nacional de Santiago e passou à frente na tabela. Então, os peruanos até fizeram sua parte no último compromisso, superando o classificado Paraguai, o que pouco serviu. Com o triunfo sobre a Bolívia, os chilenos ficaram com a vaga na Copa graças ao saldo de gols superior ao dos vizinhos.

Neste século, as campanhas do Peru seguiram um padrão. Por mais que os Incas contassem com alguns bons valores individuais, o time não era suficientemente competitivo. Não à toa, sempre figurou nas últimas posições da tabela, variando entre as três últimas posições, sem nunca passar perto da vaga. O fundo do poço veio em 2010, quando os peruanos terminaram na lanterna. Marcaram míseros 11 gols e tomaram 34, indicando o desequilíbrio. Por mais que a equipe fizesse boas campanhas em Copas Américas, o fracasso no qualificatório era evidente.

O novo momento ao Peru acontece a partir de 2015. Acontece justamente a partir da contratação de Ricardo Gareca. O treinador se torna o principal responsável por, enfim, dar uma consistência à seleção peruana. Entre as saídas de alguns dos antigos decanos e a afirmação de novos jogadores, a equipe ganhou equilíbrio. A defesa ainda encontrou alguns momentos de dificuldades, embora o ataque compensasse mais. O time se tornou menos dependente de seus astros e isso se refletiu diretamente na tabela. Com mais opções, os Incas passaram a resolver mais partidas e a ganhar mais jogos.

A campanha nas Eliminatórias não começou bem. O Peru ganhou apenas um de seus sete primeiros compromissos, com direito a uma derrota em casa no clássico contra o Chile – embora tenha levado os pontos contra a Bolívia nos tribunais. A federação, ainda assim, bancou a sequência de Gareca, com os bons papéis nas duas Copas América ajudando a sustentá-lo. A partir do returno, no entanto, a Blanquirroja pegou embalo. E em uma disputa equilibrada, as vitórias na reta final fizeram a diferença. Bater Uruguai, Bolívia e Equador em sequência já valeu para garantir os peruanos no páreo.

Na penúltima rodada, o comemorado empate por 0 a 0 com a Argentina mantinha firmes as esperanças. E a comemoração já se concretizou com o empate final contra a Colômbia, que, combinado aos outros resultados da rodada, deixava os Incas na quinta colocação. De qualquer maneira, teriam a repescagem pela frente. Confrontos com a Nova Zelândia que viraram tema de prioridade nacional. Sob uma invasão alvirrubra em Wellington, o empate sem gols no Estádio Westpac levava certa vantagem a Lima. O que desatou em uma apoteose de milhões de pessoas com os gols de Farfán e Christian Ramos, que encerraram a longa espera dos Incas.

Já neste ano, os amistosos preparatórios possuem sua importância. Serviram para que o Peru se testasse contra seleções europeias, buscasse variações de jogo e reafirmasse seus laços com a torcida rumo à Rússia. Algo cumprido com êxito, seja pelas vitórias em casa ante Croácia, Islândia e Escócia, seja pela massa presente na Suíça para o confronto com a Arábia Saudita. O time não perde desde 2013, sustentando uma série invicta de 14 partidas, sendo nove empates. O momento não poderia ser mais favorável.

Como joga

Ricardo Gareca redescobriu a seleção peruana. Transformou a noção de uma equipe que possuía seus valores, mas era frágil taticamente, para montar uma alinhação bastante disciplinada e consciente de seu trabalho coletivo. É uma evolução que se percebeu ao longo das Eliminatórias, até chegar ao seu ápice a partir de 2017, entre a boa sequência final na campanha da classificação e os amistosos preparatórios. Há cartas na manga e um conjunto capaz de incomodar qualquer adversário.

O esquema base é o 4-2-3-1, aperfeiçoado nos últimos meses. Conta com volantes empenhados, pontas participativos e um homem de referência que acaba sendo vital ao funcionamento do esquema. Além disso, Gareca chegou a observar outras modificações: o 4-1-4-1, dando ainda mais liberdade pelos lados do campo, e o 4-4-2, para segurar um pouco mais o resultado. Foi bem sucedido em suas observações.

A questão rondado a participação de Paolo Guerrero se tornou determinante ao Peru. E de um ponto de vista positivo. Se nas Eliminatórias o time insistia bastante nas bolas longas, acionando o centroavante, no semestre sem ele demonstrou que também pode trabalhar pelo chão, cadenciando mais os passes. De qualquer forma, a velocidade dos jogadores que se aproximam do camisa 9 acabam sendo fundamentais dentro do estilo proposto pela Blanquirroja. É uma equipe de ações rápidas e muita força física, algo preponderante para que também adiantem a marcação, forçando os erros dos adversários.

Guerrero é o dono do ataque, com boas companhias. André Carrillo e Jefferson Farfán são alternativas de velocidade pelas pontas, enquanto Farfán também pode acompanhar o velho amigo pela faixa central – não à toa, o substituiu muito bem durante a ausência, assim como empilhou gols na temporada redentora pelo Lokomotiv Moscou. Raúl Ruidíaz surge como opção no banco, embalado após boas aparições com o Monarcas Morelia. Christian Cueva se encarrega da criação. Já pela esquerda, muita atenção a Edison Flores, um ponta inteligente e que também aparece bastante para concluir na seleção.

Na cabeça de área, Renato Tapia foi a melhor notícia da seleção nos últimos tempos e tem a companhia de Yoshimar Yotún, que faz muito melhor a função por ali do que deslocado à ala. Miguel Trauco e Luis Advíncula são laterais com capacidade no apoio, cada um à sua forma. Já na zaga, Christian Ramos é o homem de confiança, acompanhado pelo veterano Alberto Rodríguez, talvez aquele que gere mais receios pela falta de sequência no Junior de Barranquilla – e, não à toa, Anderson Santamaría pode tomar a vaga, participando dos últimos amistosos. Por fim, Pedro Gallese salvou os peruanos em jogos importantes nas Eliminatórias, goleiro de agilidade e explosão. Expor-se na defesa pode ser uma temeridade, até pelas brechas que podem aparecer. Contudo, se conseguir atuar como um bloco sólido, o Peru será um time difícil de ser batido.

Time base: Gallese, Advíncula, Ramos, Rodríguez (Santamaría), Trauco; Tapia, Yotún; Carrillo (Farfán), Cueva, Flores; Paolo Guerrero. Técnico: Ricardo Gareca.

Dono do time

Paolo Guerrero e Jefferson Farfán

Guerrero e Farfán (Foto: Getty Images)

Aqui, abro uma concessão para quebrarmos a regra desse guia. Afinal, por mais que Guerrero seja preponderante, não dá para negar o que Farfán proporcionou durante a ausência de seu companheiro. Ambos são os decanos dos tempos de amarguras da Blanquirroja que assumiram as responsabilidades e carregaram as esperanças nas Eliminatórias. Guerrero centraliza o time, isso é claro. Seu trabalho de pivô acaba sendo uma arma importante no ataque, esperando a aproximação de quem vem de trás e abrindo espaços. O artilheiro tem presença de área e a precisão em suas finalizações, inclusive nas bolas paradas, valeram bastante na classificação ao Mundial. Farfán tem características distintas. É mais veloz, se infiltra, parte para cima das defesas. E reencontrou sua veia goleadora nesta última temporada, não apenas para botar os peruanos na Copa, como também para dar o título russo ao Lokomotiv Moscou. Chega aclimatado ao país onde acontecerá o torneio. Com a volta de Guerrero, é possível que Farfán vá para o banco, com André Carrillo mantendo a efetividade pela ponta direita. Não será um problema. Vaidade, ao que parece, já não é mais um entrave aos Incas como aconteceu em outras campanhas. O abraço de Farfán no camisa 9, quando ele se integrou na concentração, é um sinal contundente disso. Certamente farão o máximo para concretizar o sonho que perseguiram por mais de uma década atuando pela equipe nacional.

Bom coadjuvante

Christian Ramos

Autor do gol que garantiu o Peru na Copa do Mundo, Christian Ramos não tem tanta badalação internacional, mas deveria ser mais respeitado além das fronteiras. É um bom zagueiro, que controla o espaço ao seu redor e oferece firmeza nos combates. Sua carreira inteira se empreendeu no próprio futebol peruano, passando por clubes como Sporting Cristal, Universidad de San Martín, Alianza Lima e Juan Aurich. Nos últimos anos, rodou um pouco mais, passando por Gimnasia y Esgrima, Emelec e Veracruz. Na seleção peruana, entretanto, conhecem a capacidade do defensor há tempos, nome constante nas convocações a partir de 2009 e um dos responsáveis por acertar o setor. Se há dúvidas quanto ao seu companheiro, sua liderança será ainda mais necessária. Além disso, é uma arma nas bolas paradas.

Fique de olho

Renato Tapia

Mais jovem entre os convocados, Renato Tapia pode ser considerado a maior revelação do futebol peruano nos últimos anos. Seu talento, porém, desperta atenção desde cedo. Arrebentava nas categorias de base do Esther Grande, a ponto de ser convocado às seleções de base e ser analisado por olheiros europeus. Chegou a ser sondado por Tottenham e Liverpool, mas acabou acertando com o Twente, juntando-se inicialmente ao segundo quadro. Ganhando sequência no time principal a partir de 2014/15, acabou levado pelo Feyenoord pouco depois. Investimento certeiro, no volante que começou a ganhar espaço entre os titulares principalmente nesta temporada. A seleção peruana, porém, foi ainda mais importante ao amadurecimento de Tapia. Convocado por Gareca desde a chegada do treinador, foi titular em toda a campanha nas Eliminatórias. É um jovem de presença física e leitura de jogo. A segurança do time passa por ele.

Personagem

Edison Flores

Edison Flores, do Peru (Foto: Getty Images)



Héctor Chumpitaz é um dos protagonistas da seleção peruana em seus tempos gloriosos na década de 1970. O zagueiro disputou duas Copas do Mundo, além de ter sido campeão da Copa América em 1975. O ‘Capitán América’ até buscou ser treinador depois de pendurar as chuteiras, mas sua maior contribuição veio mesmo com a escolinha criada para revelar talentos. De certa maneira, o veterano deu uma belíssima contribuição à Blanquirroja em sua caminhada rumo à Rússia.

Edison Flores nasceu em Lima, no bairro de Collique, e deu os seus primeiros passos na escola de Chumpitaz. Seu primeiro contato com o projeto aconteceu em um teste, no qual se misturou a meninos de 12 a 15 anos para buscar a sua chance. Aquele menino mirrado arrebentou na peneira e ganhou a aprovação do Capitán América. No entanto, só depois eles foram descobrir que o guri tinha apenas 10 anos de idade. Não foi a mentira que barrou o talento. Muito pelo contrário, triunfar contra garotos bem maiores só enfatizou a capacidade e a coragem do prodígio. Ficou.

‘Orejas’ passou quatro anos na escolinha de Chumpitaz, até que o velho capitão percebesse que o adolescente precisava de uma estrutura melhor. Então, o levou ao Universitário, onde havia sido ídolo – e precisou fazer a cabeça do então torcedor do Alianza por isso. Com a camisa crema, o jovem se estabeleceu como uma das maiores esperanças do país. Passou pelas seleções de base desde o sub-15. Em ascensão no clube, foi negociado com o Villarreal aos 18 anos, estreando na seleção principal aos 19. Não daria certo na Espanha, mas voltaria a La U para arrebentar no Campeonato Peruano e manter seu lugar cativo na Blanquirroja. Em 2016, voltou à Europa, defendendo o Aalborg.

Aos 24 anos, Edison Flores amadureceu bastante entre estas idas e vindas. É um jogador de capacidade tática, mas que também une a isso sua potência e sua qualidade técnica. Na seleção peruana, suas investidas pela esquerda são primordiais. Não à toa, acumula nove gols em 28 partidas. Na arrancada decisiva das Eliminatórias, anotou três gols em rodadas consecutivas, contribuindo para as vitórias sobre Uruguai, Bolívia e Peru. Chumpitaz sabe que seu legado estará muito bem representado na Rússia.

Técnico

Ricardo Gareca

Ricardo Gareca, técnico do Peru (Foto: Getty Images)

Em seus tempos de jogador, Ricardo Gareca foi um bom atacante. Não disputou a Copa do Mundo, mas defendeu a seleção argentina em 20 partidas e deixou sua marca em clubes, vestindo as cores de Boca Juniors, River Plate, América de Cali, Vélez e Independiente. Logo após pendurar as chuteiras, todavia, seguiu no futebol. Virou técnico e o título da Copa Conmebol com o Talleres seria um bom cartão de visitas. Rodou por diversos times até fazer um baita trabalho no Vélez Sarsfield, com três títulos nacionais – por mais que a Libertadores, assim como em seus tempos de jogador, insistisse em fugir de suas mãos. Teve aquela passagem agridoce pelo Palmeiras, até a seleção peruana acreditar que ele poderia ser o homem certo para resgatar o orgulho do país. Não poderia tomar decisão mais acertada. Os resultados são evidentes, com um treinador de predicados tanto na gestão do elenco quanto na montagem do time. Sabe tirar o melhor dos jogadores e aproveitar suas características para o coletivo. Tomou pancada no início, mas logo os resultados viriam e a confiança não poderia ser mais elevada. É daquela classe de heróis que continuarão sendo lembrados no país mesmo depois de deixarem o cargo. Uma boa campanha na Rússia pode reforçar estas memórias.

Uma história da seleção nas Copas

A história de Didi como melhor jogador da Copa de 1958 começa, de fato, antes da Copa de 1958. Nas Eliminatórias, o talento do camisa 8 valeu demais à classificação da Seleção. O Brasil fazia confrontos diretos contra o Peru e, depois do empate por 1 a 1 em Lima, a necessidade da vitória no Maracanã era clara. Ela foi magra, mas saiu de uma jogada genial do maestro. Da intermediária, um de seus chutes cheios de efeito tomou o caminho das redes adversárias. O tento que garantiu os brasileiros no Mundial da Suécia, mas também interrompeu o desejo dos peruanos.

O reencontro de Didi com o Peru aconteceu quando ainda calçava chuteiras. Na primeira metade da década de 1960, assinou com o Sporting Cristal para ser jogador-treinador. Sua experiência valia demais aos peruanos. O craque era tratado como sumidade e suas sugestões valeram para desenvolver o esporte no país. O veterano voltou ao Brasil para encerrar a carreira e, de chuteiras penduradas, assinou novamente com o Sporting Cristal em 1967, agora apenas para comandar. Conquistou o título nacional em 1968, o segundo do clube, e se tornou praticamente unanimidade.

Às vésperas da Copa de 1970, os peruanos buscavam um treinador para assumir a Blanquirroja. Adolfo Pedernera era o favorito, mas a alta pedida salarial assustou os dirigentes. Então, foram atrás de Didi. Não poderiam tomar decisão melhor. O maestro pediu liberdades totais para conduzir seu trabalho, e ganhou. Conduziu uma revolução à frente dos Incas. Foi praticamente o descobridor da grandeza do futebol local. Trabalhou principalmente para afastar qualquer complexo de inferioridade, adotando táticas que ofereciam um futebol solto, ainda que fizesse adaptações conforme os adversários. Além disso, focava seus esforços sobre o trato psicológico dos jogadores. Apesar de disciplinador, seus regimes de concentração e treinamentos ajudavam a fortalecer o grupo.

A primeira missão de Didi aconteceu nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970. Os Incas eram vistos como azarões em uma chave que tinha Argentina e Bolívia. Terminaram com a vaga no México. O emblemático jogo da classificação aconteceu em Buenos Aires. Os dois gols de Oswaldo Ramírez garantiram o empate por 2 a 2 e confirmaram a classificação inédita, garantindo os peruanos em seu segundo Mundial – após o convite em 1930. Era uma seleção que mereceria respeito, e Didi inspirava isso.

A preparação à Copa do Mundo teve as suas turbulências. Didi não teve pedidos atendidos pela federação, o que gerou atritos. Da mesma maneira, a rigidez insistente de seus métodos começou a gerar incômodo em algumas estrelas do grupo. Entretanto, quando a Copa do Mundo chegou, os resultados vieram. O Peru venceu Bulgária e Marrocos, apesar da derrota para a Alemanha Ocidental. Conquistou a classificação às quartas de final. O problema? Passar ao outro lado da história e enfrentar justamente o Brasil.

Antes do duelo, Didi demonstrava confiança à imprensa. Reiterava seu profissionalismo e acreditava que seus jogadores pudessem surpreender os brasileiros. Quando a partida começou, porém, os nervos do maestro ficaram evidentes. Fumava um cigarro atrás do outro, sem parar. Gesticulava como um louco, quase entrando em campo para resolver a situação ao seu time. E vestia um casaco de lã pesadíssimo, mesmo sob um calor escaldante em Guadalajara. Tomou um calor também em campo, derrotado por 4 a 2.

“O pior momento daquela partida foi a hora em que o hino nacional foi executado. Eu fiquei paralisado, com a boca seca, imaginando que estava com a camisa oito do Brasil. Pensava se os brasileiros iriam me chamar de traidor, caso o Peru vencesse, e os peruanos poderiam pensar que eu facilitaria a vitória do Brasil”, contou Didi, anos depois. Entre uma promessa à esposa e as rusgas internas, Didi deixou a seleção peruana logo depois da Copa. O tempo fez questão de exaltar seu legado.

Como o futebol explica o país
Torcedores do Peru comemoram volta à Copa (Foto: Getty Images)

Não sei se é por causa da cordilheira no meio do caminho ou por qualquer outra barreira geográfica, mas o Peru costuma ser um país tratado com certa distância pelos brasileiros. Ok, há Machu Picchu, mas isso acaba sendo apenas um estigma a uma nação múltipla, seja em suas cidades ou em sua gente. E nisso a Copa do Mundo dá um belo empurrãozinho. O Mundial ajuda a abrir os olhos dos outros países, indo além do lugar-comum. Uma história como a da classificação peruana, ainda mais, expõe estes traços e predicados. Foram 36 anos de anseios guardados, que ajudam a escancarar a identidade peruana – a sua gente, a sua cultura, os seus cantos.

O que aconteceu a partir da reta final das Eliminatórias Sul-Americanas merece um estudo sociológico profundo, e renderia livros sobre. Afinal, o Peru exibiu uma face que muitos não conheciam: o seu orgulho. As diferenças ficam para trás diante do sentimento de unidade. E a comoção foi imensa a cada momento, especialmente na batalha contra a Argentina na Bombonera e na recepção à Colômbia em Lima. Formou-se uma legião de torcedores. A nação saiu às ruas, de cara pintada e bandeira na mão.

Apesar de tudo, nada supera o que ocorreu na repescagem contra a Nova Zelândia. Uma multidão cruzou o pacífico, em duelo que teve os seus atritos diplomáticos. Quando os adversários chegaram a Lima, descobriram o que é pressão, com a força aérea “convocada” para desempenhar o seu papel. A classificação veio. A catarse aconteceu. O Peru voltava à Copa, mas até parecia que a Copa ganhava muito mais com a volta do Peru.

Em meio à empolgação, as cenas de êxtase coletivo se repetiram a cada amistoso. A suspensão de Paolo Guerrero mobilizou mais uma vez os milhões, no apoio ao atacante e na luta pela absolvição. E não dá para dizer que o futebol causa alienação no povo, pelo contrário. Poucas vezes a consciência coletiva esteve tão aflorada. Não à toa, em março, a pressão popular ajudou a derrubar o presidente Pedro Pablo Kuczynski, após denúncias de corrupção ligadas à Odebrecht e a insatisfação pelo indulto a Alberto Fujimori – uma manobra política que tentou garantir governabilidade, mas, na verdade, se tornou um tiro no pé. Além disso, desde o segundo semestre de 2017, o governo teve que lidar com greves de diferentes classes, como professores e trabalhadores rurais.

Apesar das instabilidades internas, não é isso que alija o Peru de seu ânimo rumo à Copa do Mundo. Resiste o orgulho. É o que se viu no mar de torcedores na Suíça, durante amistosos recente contra a Arábia Saudita. É o que deve se repetir na Rússia, por ao menos três partidas, com esperanças de que aconteça mais. Na tradução do significado do Mundial, o vídeo produzido pela própria federação não poderia ser mais definitivo:


O que a Copa de 2018 significa para a seleção

Os parágrafos logo acima são bastante significativos. A seleção peruana tem uma razão para estar na Copa do Mundo, e isso vai muito além dos meros aspectos esportivos. Ainda assim, há três jogos a se disputar, e as perspectivas são boas. Com a confiança lá em cima, os Incas entram com totais condições de buscarem a classificação, até por aquilo que apresentaram nas últimas partidas. Podem novamente fazer história.

Jogos na Copa

Sábado, 16/06 – 13h – Peru x Dinamarca

Quinta-feira, 21/06 – 12h – França x Peru

Terça-feira, 26/06 – 11h – Austrália x Peru

Ficha técnica