Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Entre 2006 e 2010, o Egito conquistou três vezes seguidas a Copa das Africanas de Nações. Mas não conseguiu se classificar para nenhuma Copa do Mundo. E, de repente, nem mesmo para o torneio continental, em meio ao caos que tomou conta do futebol do país, na repercussão do massacre de Port Said. Após assistir a mais um Mundial do sofá, a seleção egípcia começou o novo ciclo com outra decepção, ao ficar sem vaga para a CAN de Guiné Equatorial, em 2015. O treinador Shawky Gharieb foi obviamente demitido. A surpresa, na verdade, foi o nome do seu sucessor: Héctor Cúper. O experiente argentino de 62 anos, duas vezes vice-campeão europeu com o Valencia, não estava na lista de favoritos da imprensa egípcia.

Cúper revitalizou a seleção. Em seus dois primeiros anos no cargo, foi derrotado apenas três vezes, duas em amistosos. O outro revés, porém, foi um baita susto: Chade ganhou o jogo de ida da segunda rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo, por 1 a 0. Mas o Egito respondeu com uma goleada em casa (4 a 0) e avançou à fase final. O primeiro retorno foi à Copa Africana de Nações. Após três ausências seguidas, os Faraós estiveram no Gabão, em 2017, e chegaram longe. Perderam a final para Camarões. O segundo retorno foi à Copa do Mundo. O Egito caiu no grupo de Uganda, Gana e Congo. Liderou com folgas, com quatro vitórias, um empate e uma única derrota. E conseguiu vaga ao Mundial pela primeira vez desde 1990.

Como joga

O Egito de Cúper é sólido na defesa. Os números corroboram isso: apenas 18 gols sofridos em seus primeiros 32 jogos no cargo – até o amistoso contra a Grécia, em 27 de março. No entanto, há um ponto fraco muito constante: 13 desses tentos surgiram de cruzamento, segundo levantamento do site King Fut.  E isso porque os principais zagueiros do time Ahmed Hegazi (1,95 metros) e Ali Gabr (1,94m) são bem altos. O sistema tático favorito é o 4-2-3-1, com os volantes Mohamed Elneny e Tarek Hamed formando a primeira linha do meio-campo mais recuada.

A chave para o Egito ter sucesso na Rússia é fazer com que a bola chegue a Salah em boas condições de finalizar. A opção pelo contra-ataque como principal arma pode fazer com que o atacante encontre situações familiares às do Liverpool. Muitos dos seus 44 gols nesta temporada foram marcados ao fim de transições rápidas da defesa para o ataque, em que Salah encontrou-se com campo para correr ou precisando bater apenas um marcador antes de finalizar. No entanto, há menos qualidade técnica na seleção egípcia para deixá-lo nessa posição de liberdade.

Não que haja cabeças de bagre na linha de armadores. Trezeguet teve uma temporada de ascensão na Turquia, e Abdallah Said é experiente. A dúvida está no comando de ataque. O favorito para a camisa 9 era Ahmed Mahgoub Hassan, mas o jogador do Braga não chegou à lista final. Kouka, como é conhecido, não é muito artilheiro (tem 24 gols em 101 partidas pelo clube português), mas consegue brigar com os zagueiros, prender a bola e abrir espaços para os meia-atacantes. Sem ele, as opções são Marwan Mohsen, do Al Ahly, e Kahraba (eletricidade, em árabe), do Al-Ittihad, emprestado pelo Zamalek. Os dois, juntos, têm apenas sete tentos pela seleção egípcia.

Time base: Essam El-Hadary; Ahmed Fathi, Ali Gabr, Ahmed Hegazy e Abdel Shafy; Mohamed Elneny, Tarek Hamed, Trezeguet, Abdalla Said e Mohamed Salah; Marwan Mohsen (Kahraba). Técnico: Héctor Cúper

Dono do time

Mohamed Salah

Salah, do Liverpool

Mohamed Salah é o dono do time e só não é também do país porque não quer. A idolatria que os egípcios cultivam pelo jogador do Liverpool pode ser medida pela maneira como o país segurou a respiração em angústia pela lesão que ele sofreu na final da Champions League. Felizmente, para o Egito e para a Copa do Mundo, não foi nada sério, e Mo Salah estará na Rússia normalmente. Ele conquista seus seguidores com duas vias de comportamento. A primeira: fazendo gols. Marcou 44 em 52 partidas pelos Reds. Bateu recordes e se tornou uma estrela do futebol mundial. A segunda é com doações, para o vilarejo onde nasceu, para um hospital de câncer infantil, ou para famílias de ex-jogadores egípcios, além de um admirável engajamento político. Deixou seu nome no placar cinco vezes em oito partidas das Eliminatórias, e muito da sorte do Egito na Copa do Mundo dependerá da pontaria do seu pé esquerdo.

Bom coadjuvante

Mohamed Elneny

Elneny pode não ter explodido desde que, como Salah, saiu do Basel para a Inglaterra. Soma apenas 27 partidas de Premier League pelo Arsenal, ao longo de duas temporadas. Mas tem bastante importância na seleção. Foi o único jogador que atuou nos oito jogos das Eliminatórias Africanas. Mais do que isso: sequer foi substituído. Seus 720 minutos fazem com que lidere com sobras o tempo em campo do elenco na campanha que levou o Egito à Rússia, à frente dos 509 do companheiro de meio-campo Tarek Hamed. O volante de 23 anos, ao lado de Hamed, tem a missão de reforçar o sistema defensivo de Héctor Cúper, dando início aos combates já no meio-campo.

Fique de olho

Trezeguet

Trezeguet (Foto: Getty Images)

Seu nome na verdade é Mahmoud Hassan. O apelido de “Trezeguet” vem da semelhança física com o antigo atacante da França. O estilo de jogo, porém, é diferente. Enquanto Mo Salah corre pela ponta direita, Trezeguet faz o mesmo pela esquerda. Cria do Al Ahly, deu sequência ao sonho do futebol profissional ao sair para o Anderlecht, em 2015. Sem muito tempo de jogo, foi emprestado ao Mouscron. Chegou à Turquia para defender o Kasimpasa, na última temporada, e finalmente conseguiu mostrar serviço. Marcou 13 gols e deu seis assistências pelo oitavo colocado do Campeonato Turco. Seu grande jogo foi na goleada por 5 a 2 sobre o Trabzonspor, quando deu três passes decisivos e marcou duas vezes. Uma delas foi essa pintura de Trivela. Ele ainda tem o saudável hábito de publicar os próprios gols no Twitter.

Personagem

Essam El-Haddary

Faryd Mondragón entrou em campo, aos 40 minutos da goleada da Colômbia por 4 a 1 sobre o Japão, na Arena Pantanal, para, aos 43 anos, bater o recorde de jogador mais velho a disputar uma Copa do Mundo. Mas o seu reinado no topo da lista corre um sério risco. Outro goleiro, dois anos mais velho, estará na Rússia, e com boas chances de não somente entrar em campo, como também de ser titular. Essam El-Hadary esperou muito tempo por este momento. A sua estreia pela seleção egípcia foi em 1996. Sentiu na pele as consecutivas decepções, vendo seu país não conseguir vaga para os Mundiais de 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014.  

Por outro lado, também como poucos, sabe o que é a glória. Tem quatro conquistas da Copa Africana de Nações e uma estante recheada de troféus pelos seus doze anos defendendo o Al Ahly (oito títulos egípcios e quatro da Champions africana). Foi identificado por Didier Drogba como o adversário mais difícil que o marfinense enfrentou na carreira. Aos 45 anos, ainda queima sua lenha no Al Taawon, disputando 25 das 26 partidas do time na primeira divisão saudita. Foi titular em cinco dos oito jogos das Eliminatórias que levaram o Egito à Copa. Seu principal rival pela camisa 1 seria Ahmed El Shenawy, mas o jogador do Zamalek sofreu uma séria lesão no joelho e não viaja à Rússia. El-Hadary, de grandes e calejadas mãos, tem grandes chances de jogar. Só não é uma boa ideia insistir nessa história de idade com ele.

Técnico

Héctor Cúper

Héctor Cúper, técnico do Egito (Foto: Nikolas Giakoumidis)

O argentino de 62 anos conquistou a Copa Conmebol pelo Lanús, em 1996, e um par de Supercopas da Espanha, mas tem um cruel histórico de bater na trave. Levou o Mallorca a duas finais na década de noventa, mas perdeu a Copa do Rei para o Barcelona, e a Recopa, para a Lazio. O pior, porém, ainda estava por vir. No Valencia, Cúper chegou duas vezes seguidas à decisão da Champions League, mas a maior glória do futebol de clubes da Europa escapou pelos seus dedos em ambas, contra Real Madrid e Bayern de Munique (nos pênaltis). O pior, porém, ainda estava por vir. O treinador trocou o Mestalla pela Internazionale. Chegou à última rodada de 2001/02 na liderança da Serie A, em busca do primeiro scudetto do clube desde 1989. Mas perdeu por 4 a 2 para a Lazio, viu a Juventus ser campeã e nem teve o vice para se consolar porque ainda foi superado pela Roma. Foi terceiro colocado. Para jogar um pouco de sal na ferida, na sua passagem por San Siro, ganhou a alcunha de ser o “eterno desafeto” de Ronaldo, sendo um dos pivôs da saída do Fenômeno para o Real Madrid.

Em seguida, veio uma lista longa de trabalhos curtos e demissões velozes, com uma passagem rapidinha pelo futebol internacional treinando a Geórgia, até chegar à Grécia. Com o Aris, alcançou a final da Copa da Grécia de 2009/10 contra o Panathinaikos e….perdeu de novo. Cúper ainda passou por Racing Santander, Orduspor, da Turquia, e Al Wasl, dos Emirados Árabes, antes de ser convocado pelo Egito. Conseguiu o seu principal objetivo, classificação para a primeira Copa do Mundo do país desde 1990. Mas, no caminho, outro vice: a Copa Africana de Nações de 2017. A boa notícia para os Farós é que bater na trave na Rússia, ou mesmo um bom chute para fora, já significaria uma campanha histórica.

Uma história da seleção em Copas

O Egito não tem uma trajetória rica em Copas do Mundo. São apenas quatro partidas, em duas edições, separadas por 56 anos. Mas detém um marco histórico: foi a primeira seleção africana a disputar o Mundial, na Itália, em 1934. O time egípcio foi um dos 32 que jogaram uma fase eliminatória. Estava em um grupo com Turquia e Palestina, representando a Ásia e, na época, sob administração do Reino Unido e cheia de britânicos na equipe. O Egito passeou, com 7 a 1 no Cairo e 4 a 1 em Tel-Aviv.

A viagem para a Itália durou quatro dias, a bordo de um barco chamado Helwan. Estavam presentes o capitão Mahmoud ‘El Tetch’ Mokhtar, que havia anotado uma tripleta contra a Palestina, e Mohamed Latif, que seria levado ao Rangers pelo técnico escocês daquela seleção egípcia, James McCrae. Além do goleiro Mustafa Kamal Mansour. “Eu tive a honra de jogar aquela partida histórica, mas, na época, não percebemos o quão importante ela era, tratamos como qualquer outro jogo. A Copa do Mundo não tinha a importância que teria mais tarde, nem mesmo na imprensa italiana daquela época”, disse, à revista Four Four Two. A partida histórica a que Mansour se refere foi a única do Egito no Mundial de 1934.

Os 16 times foram divididos em uma chave simples de mata-mata. Coube ao Egito enfrentar a Hungria, que já tinha uma boa dose de jogadores profissionais. Pal Teleki abriu o placar para os húngaros, em Nápoles. “Avançamos em busca do empate, lembrando que o último encontro entre nós havia terminado em vitória em um amistoso por 3 a 0 para o Egito, em 1931. Mas nossa falta de cuidado nos custou o segundo gol, aos 27 minutos, marcado por (Geza) Toldi”, contou Mansour. O Egito empataria antes do intervalo, com dois gols de Abdel Rahman Fawzi.

No segundo tempo, o Egito chegou a fazer 3 a 2. Mas a arbitragem anulou um gol que aqueles jogadores egípcios sempre consideraram legal. “Quando o jogo estava 2 a 2, meu colega Fawzi pegou a bola no meio e driblou todos os jogadores húngaros para marcar o terceiro. Mas o árbitro anulou o gol por impedimento”, disse, à BBC. Jeno Vincze fez o terceiro da Hungria logo na sequência, e Toldi marcou o quarto, também em circunstâncias duvidosas. “O quarto gols dos húngaros saiu de uma falta séria contra mim”, relembra Mansour. “Eu peguei a bola de um cruzamento, mas o atacante deles me acertou o peito com o joelho. O cotovelo dele quebrou meu nariz e eu fui até empurrado para trás da linha do gol. Em vez de penalizar os húngaros pela falta, o árbitro italiano apitou o gol, entre as vaias de 15 mil torcedores irritados. Todos os jornais italianos criticaram o árbitro no dia seguinte e admitiram que ele deu aos húngaros a passagem à próxima fase”.

O Egito foi eliminado da Copa do Mundo de 1934 e demoraria 56 anos para voltar a disputar o torneio. De novo na Itália. Caiu no grupo de Inglaterra, Holanda e Irlanda, aquele em que nenhum time fez mais de um gol em nenhuma partida. Perdeu por 1 a 0 dos ingleses e empatou os outros dois jogos. Mais uma vez eliminado na primeira fase, maldição que o Egito espera encerrar na Rússia.

Participações em Copa: duas (1934, 1990)
Melhor campanha: 13º lugar (1934)

Como o futebol explica o país
Sisi, presidente do Egito

Um dos resultados mais notáveis da Primavera Árabe, uma série de manifestações que eclodiram em países do Oriente Médio e do norte da África, foi a renúncia de Hosni Mubarak, após 30 anos no poder. O Egito nunca havia conseguido eleger livremente um presidente, até a vitória de Mohamed Morsi. Seu mandato, porém, durou pouco mais de um ano: no primeiro aniversário da posse, adversários organizaram protestos que levaram milhões às ruas exigindo sua saída. Abdul Fattah al-Sisi aproveitou a onda para assumir o poder com um golpe militar e, um ano depois, foi eleito para o seu primeiro mandato quadrienal, marcado por forte repressão a oponentes políticos, ativistas, críticos e imprensa. A reeleição saiu no último mês de março, sob condições duvidosas.

Não houve oposição. Todos os candidatos que poderiam desafiá-lo interromperam suas campanhas, citando intimidações e ameaças – um até foi preso. O único “adversário” foi Moussa Mustafa Moussa, dirigente pouco conhecido e que, na verdade, lidera um partido aliado da situação. Chapa rival só para inglês ver. E ele conseguiu o feito de ficar em terceiro em uma disputa entre duas pessoas. Com apenas 42% do eleitorado saindo de casa, os primeiros resultados da imprensa estatal deram 3% dos votos para Moussa, aproximadamente 750 mil. No entanto, mais de um milhão de eleitores, segundo a revista Economist, adulteraram as células para anular os votos em protestos, e muitos deles riscaram o nome dos dois candidatos e escreveram o de Mohamed Salah.

No mesmo dia, a imprensa estatal parou de mencionar as cédulas adulteradas, mudou o total de votos de Sisi, evidentemente o vencedor, de 92% para 97%, e apagou o jogador do Liverpool da história eleitoral do Egito.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A mera presença na Copa do Mundo já é uma vitória para o Egito, país apaixonado pelo jogo como poucos e que disputou apenas duas vezes o Mundial. Consolida a recuperação do futebol local, cujos campeonatos chegaram a ser proibidos depois do massacre de Port Said, e também serve para distrair um povo cheio de problemas internos, do clima político incessantemente turbulento, com tensões, repressões e atentados terroristas, a uma economia frágil. A Copa não apenas tem o potencial de unificar o país, como também a região. Salah tornou-se um ídolo além do Egito, admirado ao redor do Oriente Médio e do norte da África, e todos querem ver o que ele fará contra as melhores seleções do mundo.

Jogos na Copa

Sexta-feira, 15/06 – 9h00 – Egito x Uruguai

Terça-feira, 19/06 – 15h00 – Rússia x Egito

Segunda-feira, 25/06 – 11h – Arábia Saudita x Egito

Ficha técnica