A mania da Conmebol em depreciar os seus principais produtos tira o peso da Copa América. É lamentável o que a entidade fez com a competição nos últimos anos, em busca de dinheiro. Transformou o torneio, que voltava a se valorizar com suas edições quadrienais, em um caça-níquel praticamente anual. Não é isso, porém, que tira totalmente o peso do certame. A Copa América permanece como uma competição bacana por sua história, pelas tradições que levanta e pela força de seus times.

A partir desta sexta-feira, publicaremos o Guia da Copa América. Tratemos análises das 12 seleções, grupo a grupo, apresentando as equipes no dia de abertura de cada chave. Abaixo, as informações do Grupo A, encabeçado pelo Brasil, mas que também traz Peru, Bolívia e Venezuela tentando fazer um bom papel na disputa. Confira:

Brasil

As reticências em relação à Seleção se dão mais por enfado do que necessariamente pelo aproveitamento do time. Sendo pragmático na análise dos resultados, o Brasil permanece invicto desde a Copa do Mundo, com direito a vitórias contra adversários difíceis e a goleadas sonoras. Porém, sempre se espera mais. E fica difícil criar uma identificação maior com a Canarinho olhando tudo o que a envolve. Tite se apega às teimosias e a empolgação pela arrancada nas Eliminatórias já se encerrou faz tempo. Muitos jogadores não tem identificação com a torcida. E mesmo o ambiente ao redor, regido pelas maracutaias da CBF, não ajuda a aliviar as críticas. Mais difícil que conquistar o título será reconquistar o público.

A seu favor, o Brasil possui um histórico invejável nas edições da Copa América que aconteceram no país. A Seleção ganhou todas as vezes em que o torneio ocorreu em seu quintal, com menção especial ao título de 1989, que serviu de preparativo ao tetracampeonato mundial. E a obrigação aumenta, pensando no tempo de seca que a equipe atravessa. O país não ergue uma taça desde a Copa das Confederações de 2013, com decepções consecutivas, especialmente pelo rendimento baixíssimo nas últimas edições do torneio continental. Não à toa, Tite preferiu se agarrar a alguns de seus medalhões para buscar a taça.

Tema inescapável, a ausência de Neymar tem sua valia. Obviamente, é uma perda técnica incomparável, por toda a qualidade que o camisa 10 possui. Mas seu rendimento em grandes competições não vinha sendo tão alto assim, da mesma maneira como a postura intempestiva só aumentava o desgaste ao redor da Seleção. Até pela acusação de estupro que tomou conta dos noticiários, o corte do lesionado atacante faz os holofotes se reduzirem – ou focarem àquilo que importa, a bola. O time perde sua referência, mas, ao mesmo tempo, as responsabilidades divididas oferecerão um amadurecimento coletivo. O problema maior será lidar com a dependência da mídia quanto a Neymar, especialmente se os resultados não forem imediatos.

De importante, é bom notar uma renovação pontual no elenco. É menor do que o imaginado após a Copa do Mundo, mas alguns jogadores já parecem nomes certos ao ciclo rumo a 2022. Richarlison correspondeu muito bem nas chances que teve, virou um novo xodó da equipe. Marquinhos finalmente ganha o moral que merece, após a boa temporada com o Paris Saint-Germain. Arthur virou dúvida no meio após se lesionar, enquanto Allan surge como uma opção para acompanhar Casemiro. E na ponta esquerda, David Neres tende a ser o escolhido para substituir de Neymar. Seja em qualidade ou em mentalidade, é um jogador que se mostra preparado aos grandes níveis, mesmo como um novato na seleção principal. A vontade de alguns desses caras é que pode dar um clima diferente ao time, melhorar a percepção ao redor da campanha.

Coletivamente, Tite permanece com uma equipe bastante funcional, que toma poucos gols e tem boa mobilidade ofensiva. Preocupa a idade de alguns jogadores na defesa, bem como o meio-campo transmite a impressão de que está em formação. Ainda assim, é um time que chega com a pecha de favorito ao torneio, como não poderia deixar de ser. E será particularmente interessante observar o protagonismo de Philippe Coutinho. Neste momento, é sobre ele que recai a responsabilidade de ser a referência técnica no setor ofensivo. Apesar da fase ruim no Barcelona, o meia se saiu bem nos últimos amistosos. Será o fio condutor e o cara a bater no peito nos momentos de pressão, que invariavelmente acontece quando o Brasil joga em casa. Este, aliás, tende a ser o maior desafio.

A referência

Não há setor mais bem servido na seleção brasileira do que o gol. Dois dos melhores da posição atualmente estão à disposição de Tite. E o momento de Alisson o favorece. Decisivo ao Liverpool na Liga dos Campeões, além de brilhar também na Premier League, pode ser considerado o melhor jogador brasileiro da temporada. Uma confiança que tende a contribuir à Seleção durante a Copa América, especialmente em instantes de pressão. Além do mais, sua reposição é uma arma extra. Há quem desdenhe do talento de Alisson, até por não fazer milagre nos raros momentos em que foi exigido no Mundial de 2018. O torneio continental é uma nova oportunidade para se firmar como uma peça essencial ao futuro da equipe.

Bom coadjuvante

Richarlison sentiu gosto pela Seleção desde que ganhou suas primeiras chances. É daqueles jogadores que valorizam a grandeza da equipe nacional. E, por outro lado, também não sentiu o peso da camisa, acumulando várias atuações brilhantes nos últimos meses. Foi o melhor jogador da Canarinho desde a eliminação na Copa do Mundo, o que não é pouco. Atuando pelo lado direito do ataque, aproveita bem os espaços e finaliza bastante. Além do mais, é um acréscimo para o jogo aéreo. Um talento que certamente terá bons anos de convocações pela frente.

Fique de olho

É difícil não se tornar fã de David Neres. O futebol do ponta resgata um pouco a essência que se espera do futebol brasileiro. Dribles, vontade de partir para cima, lances ousados. O Ajax confiou uma fortuna no garoto mal aproveitado pelo São Paulo e ganhou um dos protagonistas na campanha até as semifinais da Champions. Agora, a Seleção desfruta. O fardo de substituir Neymar não é pequeno, mas as cobranças não recaem sobre o jovem. Melhor para exibir seu futebol mais solto, na posição onde rende mais. As participações nos amistosos desse semestre foram positivas, mas é na Copa América que precisa mostrar como veio para ficar.

Treinador

Tite possui um impacto grande na seleção brasileira e o que fez nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 precisa sempre ser lembrado com respeito. Mas entre seus dogmas inquebrantáveis, seu apego a certos jogadores e seus discursos professorais, os aplausos cessaram aos poucos. A Copa América é uma chance de recuperar seu moral antes da maratona nas Eliminatórias. Ele não ajudou muito sua imagem, entre algumas declarações infelizes e a manutenção de medalhões que não rendem tão bem na equipe nacional. É difícil imaginar que uma eliminação custe seu emprego, a não ser que ocorra uma hecatombe. De qualquer maneira, o título (e o bom futebol) são necessários se quiser recuperar a consideração ao seu trabalho, antes de realmente empreender a renovação pensando no Mundial de 2022.

O que a Copa América já ensinou

De um torneio ao qual a Seleção era pouco afeita, a virada do século contribuiu para que o Brasil se tornasse uma força dominante na Copa América. Os títulos de 1999, 2004 e 2007 apresentaram times focados. Foram firmes em busca dos resultados, mesmo quando se prescindiu dos maiores craques. Já as aparições na última década acumularam decepções. O Brasil não tratou o torneio com a mesma leveza e acumulou tropeços, com menção especial à queda na fase de grupos em 2016. É muito difícil imaginar outra campanha tão fraca, até pelos fatores envolvidos. Mas os brasileiros terão que aproveitar o ambiente a seu favor, o que sempre se mostra um problema quando a equipe é anfitriã. Chegar com o pé na porta é a melhor forma de crescer em busca da taça.

Bolívia

Raramente a Bolívia possui boas perspectivas na Copa América. Exceção às edições que acontecem em seu próprio território, e pode contar com a altitude a seu favor, La Verde não têm tantos predicados para buscar grandes resultados. É um time geralmente fraco tecnicamente, em um país de horizonte limitado no futebol, que muitas vezes depende de trabalhos táticos mais encaixados para triunfar. E este não é bem o caso da seleção, há mais de duas décadas fazendo campanhas mornas nas Eliminatórias e com somente uma aparição nos mata-matas da competição continental desde 1999.

As perspectivas da Bolívia não são muito melhores desta vez. Poucos jogadores realmente chamam a atenção e os resultados não servem para referendar. Vice-lanterna nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018, La Verde não somou um ponto sequer nos jogos fora de casa. Além do mais, o time conquistou apenas uma vitória em seus últimos 16 compromissos, contra a irrisória seleção de Myanmar. Neste primeiro semestre, perder de pouco foi o grande lucro. Por isso mesmo, os bolivianos até celebraram o revés por apenas 2 a 0 na visita à França, em resultado garantido pela ótima atuação do goleiro Carlos Lampe.

Entre as seleções sul-americanas nesta Copa América, o elenco da Bolívia é o único baseado na liga local. Dos 23 jogadores, apenas três não atuam por clubes do país. Alejandro Chumacero e Marcelo Moreno são dois destes, grandes diferenciais por sua técnica. O toque de qualidade no meio-campo e o centroavante tarimbado na linha de frente. Já o outro é uma promessa, o zagueiro Luis Haquin, de 21 anos. A formação da equipe atual reflete muito o momento do futebol no país. Não à toa, as potências Bolívar e The Strongest recheiam o grupo, enquanto o Blooming vem premiado pelo bom Apertura.

Técnico de trabalhos bastante elogiados no país, Eduardo Villegas assumiu o time apenas em janeiro. Substituiu o venezuelano César Farías, que passou interinamente pelo posto em 2018. O novo comandante tenta montar um time mais compacto, baseado no 4-2-3-1, mas há claras dificuldades no ataque. Se não é um grupo tão difícil para La Verde, ainda assim a equipe precisa se superar para alcançar a classificação.

A maior preocupação da Bolívia no momento é desencadear uma renovação. Muitos dos convocados possuem parca rodagem na seleção principal e oito têm menos de 23 anos. É um trabalho de médio prazo, tentando se aproveitar das realizações do futebol local para aprimorar a seleção e melhorar os resultados, sobretudo nas Eliminatórias. A Copa América será mais um teste do que um objetivo aos andinos.

A referência

Alejandro Chumacero já atravessou momentos de maior destaque na carreira. Durante seu ápice no Strongest, quase sempre terminava entre os principais jogadores da fase de grupos da Copa Libertadores. Saiu do país para defender o Puebla, onde não é tão letal, perdendo um pouco de espaço entre os titulares. Mas, por sua qualidade técnica, é o cara em quem os torcedores confiam. Pode descolar um passe decisivo, chega bem no apoio e se empenha demais ao longo dos 90 minutos. Pode ajudar Marcelo Moreno, atualmente anotando seus gols na segunda divisão chinesa.

Bom coadjuvante

Ter um goleiro confiável costuma ser privilégio na seleção da Bolívia. Por isso mesmo, La Verde agradece bastante a presença de Carlos Lampe. O veterano de 32 anos demorou para estourar na equipe nacional, assumindo a titularidade no último ciclo mundialista. Garantiu uma participação mais digna aos bolivianos, com atuações firmes. A influência é tamanha que ele assumiu a braçadeira de capitão nos últimos amistosos. E a ótima partida contra a França mostra como ele pode ser um diferencial durante a Copa América. Com boa estatura e ótimo tempo de reação, vem bem no San Jose de Oruro. Uma participação relevante na Copa América pode confirmá-lo como um dos melhores arqueiros da história de sua seleção.

Fique de olho

Luis Haquín parece ser um jogador moldado para defender a seleção boliviana por muitos anos. Revelado pelo Oriente Petrolero, transferiu-se ao Puebla em janeiro e ainda tenta conquistar seu espaço no clube. Já por La Verde, assumiu a titularidade no último ano e chegou a ser capitão da equipe nacional em algumas partidas. Aos 21 anos, com boa imposição física, tende a render bastante na equipe nacional. Além do mais, vale mencionar Erwin Saavedra, de 23 anos. O versátil jogador, que pode atuar em diferentes posições pelo lado direito, teve uma apagada passagem pelo Goiás em 2017. Em compensação, virou o craque do Bolívar na conquista do último Apertura.

Treinador

Eduardo Villegas está em sua segunda passagem à frente da seleção boliviana. Não durou mais do que uns meses entre 2009 e 2010, mas adquiriu grande experiência desde então. Dirigiu um Strongest muito capacitado no início da década, dominando a liga nacional, e também levou o San José de Oruro ao título em 2018. É um comandante que preza por um estilo mais defensivo, algo útil neste momento. Sua principal incumbência será formar um time mais consistente, pensando nas Eliminatórias.

O que a Copa América já ensinou

A última grande alegria da Bolívia na Copa América aconteceu em 1997. Em casa, o time terminou com o vice-campeonato. Desde então, La Verde se acostumou a tomar pancadas, mas sabe que uma vitória é o que basta para mudar o seu destino. Foi o que aconteceu em 2015, quando derrotou o Equador (no seu primeiro triunfo pelo certame desde 1997) graças a um primeiro tempo arrasador e assegurou a passagem às quartas de final. Manter a honra é o objetivo=, o que dá para buscar diante de Peru e Venezuela.

Peru

A seleção peruana chega à Copa América com uma confiança acima do comum. O ciclo rumo à Copa do Mundo de 2018, sem dúvidas, fortaleceu a Blanquirroja. Mas também é necessário ressaltar que, empolgação superada, os peruanos mantêm seus predicados para fazer um bom papel na competição continental. As ansiedades vistas na Rússia tendem a não se repetir, da mesma maneira como os imbróglios de outros tempos ficaram no passado. Ainda é uma equipe de segundo escalão no continente, só que já provou potencial competitivo. Agora, o embalo será testado.

Esta será a terceira Copa América de Ricardo Gareca, desde que assumiu a seleção peruana. Antes, sem tantas expectativas, realizou ótimas campanhas. E os elementos ao redor contribuem para a estabilidade de El Tigre. Possui um elenco interessante e que se conhece há tempos; jogadores capazes de assumir o protagonismo; tarimba em grandes competições. Diante do que não aconteceu no Mundial de 2018, certamente as condições são melhores para os Incas se reerguerem. E sem necessariamente a mesma comoção nacional, que também aumentou a pressão pelos resultados.

As virtudes do Peru seguem as mesmas. É um time disciplinado e coeso taticamente, o grande mérito do trabalho de Gareca. Costuma ser definido no 4-2-3-1, com um jogo muito forte pelos lados do campo. Também é uma equipe vertical, ainda mais com o retorno de Paolo Guerrero ao comando de ataque. O jogo direto costuma ser um caminho à Blanquirroja, se valendo da capacidade do centroavante, sobretudo no pivô. De qualquer maneira, a longa suspensão do ídolo local serviu para que os peruanos também encontrassem outras alternativas ao seu jogo, com o protagonismo se tornando difuso.

Existem problemas, claro. Apesar do trabalho tático, a linha de zaga costuma ser vulnerável, principalmente pelo alto. Há uma renovação maior no setor, sem as mesmas garantias que se vê à frente. Luis Advíncula é praticamente o único nome indiscutível por ali, enquanto o goleiro Pedro Gallese garante resultados. Outro ponto que se observou na Copa do Mundo foi a dificuldade para aproveitar os bons momentos e resolver as partidas. Nem sempre o ímpeto incaico se converteu em gols, o que custou caro diante das falhas pontuais atrás.

Ao longo dos últimos meses, os resultados do Peru foram mais modesto. Pegou seleções fortes, é verdade. Deu trabalho a Alemanha e Holanda. Porém, também acumulou deslizes contra oponentes latinos. A derrota por 3 a 0 para a Colômbia no último amistoso preparatório, com dois tentos em bolas cruzadas na área e uma expulsão, deixa os seus poréns. Em compensação, o resultado mais saboroso foi um contundente 3 a 0 contra o rival Chile em outubro. A Copa América será a chance de não perder o fio da meada, após o 2017 fantástico vivido pelos Incas, e tentar conduzir um processo que mantenha a força rumo à próxima edição das Eliminatórias.

A referência

Paolo Guerrero é o nome óbvio da seleção peruana. Aos 35 anos, o capitão permanece como grande diferencial da Blanquirroja. O que não é demérito, pensando na maneira como o centroavante brilha no Internacional. Sua fase é impressionante desde que chegou ao Beira-Rio e pode beneficiar o time de Ricardo Gareca. A questão é lidar um pouco mais com a dependência que se cria do camisa 9. Para tanto, a linha de frente possui outros bons jogadores, com menções especiais a Jefferson Farfán, Raúl Ruidíaz e André Carrillo – especialmente jogadores de lado, quando Christian Cueva transmite mais dúvidas do que certezas na armação dos Incas.

Bom coadjuvante

Luis Advíncula costuma ser um lateral subestimado. É bem verdade que sua carreira nos clubes está bem distante do sucesso, mas o lateral é uma peça fundamental no time do Peru. Suas saídas pelo lado direito do campo quase sempre representam uma válvula de escape, chegando ao ataque com força e velocidade. Além do mais, a experiência internacional pesa a seu favor. Do elenco convocado à Copa América, é o quarto atleta com mais aparições pela Blanquirroja. Aos 29 anos, pode continuar rendendo.

Fique de olho

A seleção peruana possui um elenco com média de idade elevada. Os protagonistas já estão na casa dos 35 anos. Além disso, a espinha dorsal do time se aproxima dos 30. E quando se pede ares de renovação, o principal nome ao futuro é o de Jesús Pretell. O volante de 20 anos é um dos destaques do Sporting Cristal e fez boas aparições na última Copa Libertadores. Acabou reconhecido com a convocação ao torneio continental. Soma apenas uma partida com a Blanquirroja até o momento e deve ser reserva, mas pode ser um bom parceiro a Renato Tapia pensando no futuro da equipe nacional.

Treinador

A maior preocupação dos peruanos após a Copa do Mundo se concentrava sobre a permanência de Ricardo Gareca. A renovação de seu contrato não parecia tão certa e criou-se um clamor nacional para que El Tigre seguisse em frente. O fico foi muito bem recebido, e não é para menos. Desde 2015 à frente dos Incas, o argentino redescobriu a força de uma equipe quase sempre vista como coadjuvante nas competições internacionais. Merece os créditos pela maneira como montou o time e soube extrair o melhor de sua geração. É difícil imaginar um feito maior do que a classificação à Copa de 2018, mas a Copa América pode aumentar a idolatria ao redor do comandante.

O que a Copa América já ensinou

Mesmo acumulando campanhas fracas nas Eliminatórias, o Peru trata a Copa América de maneira séria. Não à toa, o time sempre avança aos mata-matas desde 1997. Também possui três semifinais no período, duas delas nesta década. Se em outros momentos os Incas não eram tão cotados, desta vez eles parecem ter mais experiência para chegar longe no certame. Tudo dependerá do chaveamento, mas não devem ser descartados para outra semifinal. Guerrero, em especial, exibe um apreço pela competição. São dez gols anotados, encabeçando a artilharia em 2011 e 2015.

Venezuela

Nenhuma seleção da América do Sul apresenta sinais mais concretos de uma evolução futura do que a Venezuela. Tudo bem, historicamente os patamares da Vinotinto não andam tão altos. Mas o time que flertou com a Copa do Mundo há alguns anos vinha sinalizando sua queda, até a guinada recente. Depois de um digno fim nas Eliminatórias, a seleção venezuelana vem de bons resultados nos amistosos preparatórios. A vitória por 3 a 1 sobre a Argentina, com Lionel Messi e tudo do outro lado, foi histórica. E despachar os Estados Unidos por 3 a 0 em seu último compromisso antes da estreia também serve para animar os torcedores.

O nome evidente no sucesso da Venezuela é Rafael Dudamel. O antigo goleiro se coloca entre os melhores técnicos do continente. Primeiro, por projetar uma geração talentosíssima desde as categorias de base, que alcançou um histórico vice-campeonato no Mundial Sub-20 de 2017. Depois, por dar continuidade a esses garotos no nível principal, também criando um time de grande senso coletivo e eficiência no ataque. O treinador chegou a ameaçar sua demissão, diante do uso político da vitória sobre os argentinos. Sua continuidade só contribuiu para as expectativas de uma boa campanha da Vinotinto.

Que a crise no país cause enormes consequências, ela não tem necessariamente atravancado o desenvolvimento do futebol. Os clubes locais fazem bom papel nas competições continentais, com um trabalho tático interessante. Já os atletas aparecem em grande número nas ligas estrangeiras – com menção especial aos Estados Unidos, à Colômbia e à Península Ibérica. Não é apenas uma questão de ir para o exterior em busca de uma vida mais estável, mas também um reflexo da própria capacitação que se oferece nas categorias de base do Campeonato Venezuelano.

Individualmente, a seleção não possui tantos destaques assim. Mas há setores inegavelmente fortes. O goleiro Wuilker Fariñez desponta para uma dinastia na meta da Vinotinto. Tomás Rincón é a grande liderança no meio-campo, por seu trabalho intenso e por sua voz de comando. E fica até difícil escolher o atacante titular, no 4-5-1 priorizado por Dudamel. José Salomón Rondón vem de ótima temporada no Newcastle, enquanto Josef Martínez empilhou gols no Atlanta United. Há alternativas, e isso sempre valerá muito a um time “emergente” como a Venezuela.

O empenho defensivo e a velocidade nas transições são virtudes. A questão maior ficará para um jogo no qual o time precisará ser mais propositivo, contra a Bolívia. Além do mais, o meio-campo nem sempre funciona tão bem e os espaços excessivos concedidos ao México foram um grande aviso durante a derrota por 3 a 1 nestes amistosos preparatórios. De qualquer forma, a Copa América pode ser passo a algo maior. É uma prova de fogo, antes do verdadeiro interesse dos venezuelanos nas Eliminatórias. O grupo com diferentes níveis de desafio mostrará o quanto a Vinotinto poderá ambicionar.

A referência

José Salomón Rondón sempre foi cotado como uma grande esperança da seleção venezuelana. O atacante de 29 anos possui 73 partidas pela equipe nacional, utilizado desde 2008. Além do mais, se tornou o maior artilheiro da história da Vinotinto durante o amistoso contra os Estados Unidos, superando o lendário Juan Arango. Sua boa fase se reflete na sequência de resultados da Venezuela e também foi ótimo ao Newcastle na Premier League, a ponto de ser eleito o melhor da temporada pelo clube. O porte físico e a capacidade para definir ajudam, mas também é importante por sua entrega ao time e a forma como abre espaços aos companheiros que chegam de trás.

Bom coadjuvante

Aos 21 anos, Wuilker Fariñez é um goleiro para jogar pela seleção venezuelana por décadas. A maior prova disso aconteceu na reta final das Eliminatórias, quando terminou promovido por Dudamel à titularidade e correspondeu com uma coleção de atuações magníficas. Não é muito alto, o que certamente será uma barreira à sua carreira em clubes. Compensa com muita explosão sob os paus, tornando os milagres corriqueiros. Parte da geração de ouro do sub-20, atualmente fecha o gol do Millonarios. Esta será sua terceira Copa América, ganhando experiência no banco em 2015 e 2016.

Fique de olho

Vestindo a camisa 6, Yangel Herrera é mais um talento formado no sub-20 por Dudamel. O volante recebeu a Bola de Bronze, como terceiro melhor do torneio, e descolou uma transferência ao Manchester City. Não defendeu os celestes no nível principal, mas ganhou rodagem no New York City e, neste semestre, virou titular do Huesca, contribuindo à reta final de temporada honrosa dos nanicos em sua estreia no Campeonato Espanhol. Intocável com Dudamel, é uma das referências por sua firmeza na marcação.

Treinador

Em seus tempos de jogador, Rafael Dudamel foi um símbolo da Venezuela que tomava pancada nas Eliminatórias. Rodou o mundo como goleiro, com idolatrado principalmente no Deportivo Cali. E a experiência de vida certamente contribui para o sucesso como treinador. A ligação com a seleção prevaleceu e, depois de levar a Vinotinto aos Mundiais Sub-17 e Sub-20, dá novas esperanças ao time principal. Não é um revolucionário tático nem um comandante de invencionices. Contudo, sabe transmitir as suas ideias e possui um moral inegável com os jogadores. Recém-empossado, já tinha levado o país aos mata-matas na Copa América Centenário. Agora, terá uma nova oportunidade com o trabalho consolidado.

O que a Copa América já ensinou

A Copa América de 2007 é um marco para a Venezuela, não apenas por ter sido realizada no país. Aquela também foi a primeira vez que o eterno lanterna passou de fase, encerrando um jejum de 50 anos sem vencer na competição. Desde então, sempre a Vinotinto consegue ao menos um triunfo. A caminhada até a semifinal em 2011 foi histórica e parece um patamar bem alto. Todavia, se é difícil repeti-lo, os venezuelanos já demonstraram que possuem uma boa mentalidade para encarar jogos duros. É um time que vai sedento para a competição, desde a fase de grupos.