A situação deste grupo é curiosa. Todos conseguiram o direito de disputar a Champions League com boas credenciais, mas, desde o fim da temporada passada, quase tudo mudou, e a incerteza permeia as possibilidades dos quatro integrantes.

O Chelsea foi campeão da Liga Europa com Maurizio Sarri, dando um baile no Arsenal na decisão de Baku, mas perdeu Eden Hazard, seu principal jogador, e aposta em Frank Lampard e uma legião de jovens das categorias de base, que finalmente ganham chances porque o clube está sob embargo de transferências. Por enquanto, tem sido um time que oscila ótimos momentos com muitas dificuldades nas transições defensivas e conseguiu apenas duas vitórias em seis partidas oficiais.

O Valencia recebeu na semana passada a notícia de que o treinador Marcelino Toral, responsável por tirar o time da mediocridade do meio da tabela, levá-lo duas vezes à Champions League e conquistar a Copa do Rei, havia sido demitido. A decisão nada tem a ver com resultados, mas com desgastes entre ele e o dono Peter Lim, nutridos por ego e divergências no mercado de transferências. Os jogadores teriam ficado chocados e, por enquanto, ainda é muito difícil saber como reagirão ou como o time será organizado sob o comando de Albert Celades, ex-treinador da Espanha sub-21.

O grupo tem um semifinalista da última Champions League, embora, pelo coeficiente da Holanda no ranking da Uefa, o Ajax tenha disputado as fases preliminares. Sofreu um pouco mais do que o desejado para superar o PAOK, da Grécia, e o Apoel, do Chipre. Normal para um time que se remonta depois de perder peças importantes como Matthijs de Ligt, Frenkie de Jong e até mesmo o veterano Lasse Schöne, outro titular da campanha passada. Com perda de qualidade em setores importantes, o clube holandês terá que se superar para chegar longe novamente.

Em menor medida, o mesmo aconteceu com o Lille. O surpreendente segundo lugar no Campeonato Francês cobrou o seu preço, com as saídas de Nicolas Pépé e Rafael Leão, que juntos combinaram para 31 gols na última temporada. Thiago Mendes e o lateral Youssouf Koné foram embora para o Lyon. O dinheiro das vendas foi gasto em dez novos reforços, o mais famoso dos quais é Renato Sanches, e cabe ao treinador Christophe Galtier encaixá-los rapidamente para aproveitar o vácuo deixado pelas transições dos outros três teoricamente favoritos.

Porque o grande trunfo deste grupo é justamente a imprevisibilidade.

Ajax: 4 (1971, 1972, 1973 e 1995)
Chelsea: 1 (2012)

Chelsea

2018/19 – não participou (campeão da Liga Europa)
2017/18 – oitavas de final (eliminado pelo Barcelona)
2016/17 – não participou
2015/16 – oitavas de final (eliminado pelo PSG)
2014/15 – oitavas de final (eliminado pelo PSG)

Ajax

2018/19 – semifinal (eliminado pelo Tottenham)
2017/18 – terceira fase preliminar (eliminado pelo Nice)
2016/17 – terceira fase preliminar (eliminado pelo Rostov)
2015/16 – terceira fase preliminar (eliminado pelo Rapid Viena)
2014/15 – fase de grupos

Valencia

2018/19 – fase de grupos
2017/18 – não participou
2016/17 – não participou
2015/16 – fase de grupos
2014/15 – não participou

Lille

2018/19 – não participou
2017/18 – não participou
2016/17 – não participou
2015/16 – não participou
2014/15 – playoffs (eliminado pelo Porto)

Frank Lampard é apresentado como técnico do Chelsea (Getty Images)

Chelsea

Difícil cobrar muito de um time com vários jovens, um técnico novato e que acabou de perder sua principal referência, sem poder acessar o mercado para substitui-la, mas, em termos relativos, o Chelsea ainda é quem tem mais recursos para avançar de fase e talvez vencer o grupo. Conta com o elenco mais caro e jogadores experientes como Kanté, Giroud, Pedro e Willian, embora tenha conseguido apenas três oitavas de final nos últimos cinco anos. Lampard, porém, precisa encontrar rapidamente uma maneira de tornar o seu sistema defensivo mais seguro.

Ajax

Com os problemas do Valencia, o Ajax sai na frente por uma vaga nas oitavas de final, o que seria a segunda participação seguida no mata-mata pela primeira vez desde o título e o vice-campeonato dos anos noventa. Apesar de ter perdido dois pilares importantes da equipe semifinalista, e do sofrimento nas preliminares, Erik ten Hag segue tirando bastante desempenho coletivo da sua equipe, que emendou três goleadas pelo Campeonato Holandês depois de estrear empatando com o Vitesse. Mas a defesa, com Lisandro Martínez no lugar de De Ligt, ainda preocupa.

Valencia

O Valencia não deu muita sorte de cair no grupo de Manchester United e Juventus na edição passada, mas teria uma boa possibilidade de alcançar as oitavas de final pela primeira vez desde 2012/13, não fosse a repentina ruptura do projeto liderado por Marcelino. Agora, com um novo técnico e todas as incógnitas que cercam o Mestalla, a missão ficou mais difícil e uma vaga, qualquer uma delas, se torna um ótimo resultado.

Lille

São poucas participações na Champions League (seis) e a última visita à fase de grupos foi em 2012/13, quando perdeu cinco jogos. O Lille é franco-atirador neste grupo. Perdeu peças importante, mas está acostumado a constantes revoluções. O objetivo é fazer um bom papel e, dependendo do contexto, ir além, como em 2006/07. Naquela ocasião, foi derrotado pelo Manchester United nas oitavas de final.

Christophe Galtier, técnico do Lille (Foto: Getty Images)

Chelsea

A amostragem do trabalho de Frank Lampard ainda é muito pequena, mas o Chelsea mostrou ser um time que começa as partidas marcando pressão com muita intensidade e tem menos dificuldades para colocar as bolas nas redes do que o time de Sarri. São 13 gols nos últimos cinco jogos, e Tammy Abraham tem sido um artilheiro competente, marcando sete deles.

Ajax

Claro que a venda de Frenkie de Jong faz com que a qualidade, principalmente da saída de bola, diminua, mas, mesmo com peças entrando e saindo, o Ajax mantém firme a sua identidade. Tem jovens que partem para cima e, com o DNA de Johan Cruyff, tentam assumir a iniciativa da partida mantendo bastante posse de bola. O setor ofensivo segue competente, com 15 gols em quatro rodadas da Eredivise e mais sete nas fases preliminares da Champions League.

Valencia

A resposta sincera é: não sei. Houve apenas um jogo com o novo treinador e foi contra o Barcelona, que ganhou por 5 a 2. Nem há muito o que tirar de trabalhos passados de Albert Celades porque este é o primeiro como técnico principal de um time adulto, após passagens pela base da Espanha e como assistente do Real Madrid. Na sua entrevista de apresentação, disse que “encorajaria” as coisas boas do time de Marcelino, e a principal era a forte defesa. Teve a segunda melhor do último Campeonato Espanhol ao lado do Getafe, com 35 gols sofridos, atrás apenas do ferrolho do Atlético de Madrid. Mas também estreou levando cinco do Barça.

Lille

Galtier herdou de Marcelo Bielsa uma equipe talentosa e em frangalhos, extremamente frágil na defesa. Conseguiu terminar a temporada fora da zona de rebaixamento, por pouco. A principal missão foi fortalecer a retaguarda, com uma linha defensiva mais baixa, sem tanta pressão à saída de bola adversária. Deu certo: o Lille teve a melhor defesa da Ligue 1, com apenas 33 gols sofridos em 38 jogos. O ataque teve problemas para furar adversários fechados, mas foi letal quando teve espaço para contra-atacar, como o Paris Saint-Germain descobriu em primeira mão na goleada por 5 a 1, em abril.

Tadic, do Ajax (Foto: Getty Images)

Chelsea: N’Golo Kanté

Sem Hazard, o cargo está vago. Há os candidatos da renovação, como Mason Mount, Tammy Abraham e Christian Pulisic, e os da continuidade. Com todo mundo jogando o que pode, a eleição deve pender para N’Golo Kanté, craque da Premier League que o Chelsea conquistou com Antonio Conte. Estava um pouco deslocado no estilo de Sarri, mas deve voltar à sua posição de origem com Lampard, como o motorzinho do meio-campo. Uma lesão no tornozelo atrapalhou seu começo de temporada.

Ajax: Dusan Tadic

De Jong e De Ligt podem ter ganhando milionárias transferências, mas o craque do time na temporada passada foi Dusan Tadic. Retornou à Holanda após uma passagem meramente razoável pela Inglaterra e rapidamente assumiu o protagonismo, com 38 gols e 23 assistências. A mudança tática para o comando de ataque foi uma das chaves que liberou o potencial do Ajax. O sérvio começou a temporada com o faro artilheiro em dia, marcando oito vezes em dez jogos.

Valencia: Dani Parejo

Dani Parejo teve uma grande temporada. O capitão do time atuou em 36 das 38 rodadas, fora apenas por suspensão automática e uma leve lesão. Nunca foi substituído. Anotou nove gols na campanha (dez por todas as competições) e deu sete assistências, contribuição importante para um meia de um time que marcou apenas 51 vezes em La Liga.

Lille: Jonathan Bamba

O famoso líder técnico era Nicolas Pépé, muito bem vendido para o Arsenal. Sem ele, e Thiago Mendes, importante no meio-campo, há um vácuo. A responsabilidade à frente recai nas costas do veterano Loic Rémy e, principalmente, do ponta-esquerda Jonathan Bamba. O francês de 23 anos foi o segundo artilheiro do time (13) na Ligue 1 e agora precisa ajudar a suprir a saída dos gols do seu antigo companheiro de ataque.

Pedro, do Chelsea (Foto: Getty Images)

Chelsea: Pedro

Willian e Pedro têm experiências parecidas na Champions League, com nove participações cada e um número similar de jogos, mas o espanhol leva a vantagem de já ter vencido uma. Três, na verdade, todas pelo Barcelona, com direito a gol na semifinal contra o Real Madrid e na decisão diante do Manchester United em 2010/11. Em um time que dependerá tanto de jovens e jogadores pouco rodados no principal torneio europeu, a vivência de Pedro será essencial.

Ajax: Klaas-Jan Huntelaar

O jovem elenco do Ajax tem mais ou menos a mesma experiência, a grande semifinal da última temporada, e, nesse contexto, Klaas-Jan Huntelaar destaca-se por ter ajudado o Schalke 04 a chegar à mesma fase em 2010/11, e ainda ter feito uns joguinhos pelo Milan, nas oitavas de final. São 35 partidas nas principais fases da Champions League. Apenas Daley Blind (38) o supera no elenco holandês.

Valencia: Ezequiel Garay

Ezequiel Garay tem cinco fases de grupo completas, atuando os 90 minutos em todas as partidas. Foram três pelo Benfica, em campanha que também incluiu uma aparição nas oitavas de final, e duas pelo Zenit. Além disso, teve a experiência de disputar a Champions League com a camisa do Real Madrid, o que não é para todo mundo. Soma 38 partidas da competição a partir dos grupos, líder do quesito no elenco.

Lille: Loïc Rémy

A verdade é que tem pouca gente já disputou a Champions no elenco do Lille. O mais experiente é Loïc Rémy, com 25 jogos. Esteve em campo nas quartas de final contra o Bayern de Munique pelo Olympique Marseille, em 2011/12. Ainda soma duas partidas pelo Lyon e sete pelo Chelsea.

Maxi Gómez, do Valencia (Foto: Getty Images)

Chelsea: Christian Pulisic

A sorte foi ter fechado com Christian Pulisic em janeiro, antes de entrar em vigor o embargo de transferências que impede o Chelsea de fazer contratações. Em termos de quantidade, o jovem americano ocupa a vaga deixada por Eden Hazard, como um jogador que atua em todas as posições da linha de armação. No entanto, ainda tem muito a evoluir em gols e assistências para se aproximar da produção do belga.

Ajax: Quincy Promes

Parte do dinheiro arrecadado com as boas vendas do verão serviu para repatriar Quincy Promes, revelação do Twente que havia se mudado para a Rússia, em 2014. Com a camisa do Spartak Moscou, marcou 66 vezes em 135 partidas. Teve uma passagem apagada pelo Sevilla e chega à Johan Cruyff Arena para acrescentar experiência ao ataque do Ajax.

Valencia: Maxi Gómez

O mercado foi parte da insatisfação de Marcelino que levou à ruptura com o dono Peter Lim, mas Maxi Gómez foi um bom negócio. Cobiçado por equipes como o West Ham da rica Premier League, o atacante uruguaio de 23 anos vem de uma temporada em que fez 13 gols pelo Celta de Vigo em La Liga e promete reforçar o poder de fogo do Valencia – que bem que está precisando de um pouquinho mais de ímpeto à frente.

Lille: Renato Sanches

Renato Sanches surgiu com tudo no Benfica, firmou-se titular da seleção portuguesa, com boas atuações na conquista da Eurocopa de 2016, e foi comprado pelo Bayern de Munique. A ascensão meteórica, porém, terminou com ele batendo a cabeça no teto. Não conseguiu atuar muito em um primeiro momento na Allianz Arena, nem emprestado ao rebaixado Swansea. Ganhou mais minutos com Niko Kovac e recuperou um pouco de brilho, suficiente para motivar o Lille a apostar em seu futebol, por um pouco mais da metade do que os bávaros pagaram para contratá-lo.

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