Muita gente pode torcer o nariz para um grupo que não possui favoritos ao título ou a campanhas longas na Liga dos Campeões. E exatamente nesse ponto está a graça do Grupo G. Dentro das muitas previsibilidades existentes na fase principal da Champions, esta chave parece desprovida de certezas. Qualquer combinação de classificados é possível. Se Zenit e Benfica possuíam o pior ranqueamento em seus respectivos potes, o Lyon era o mais bem colocado do Pote 3, enquanto o RB Leipzig surgia como o mais temível do Pote 4, apesar de sua experiência limitada nos torneios continentais.

Cada time exibe suas credenciais e seus poréns. O Zenit vem como campeão russo e possui um elenco competente em todos os setores, que ainda precisa se provar além das fronteiras. O Benfica se recuperou nos últimos meses e retomou a coroa em Portugal, a despeito da modesta campanha na Champions passada. O Lyon atravessa um processo de reformulação, mas com vários remanescentes do bom desempenho visto na temporada anterior. Já o RB Leipzig ficou devendo em sua estreia na Liga dos Campeões há dois anos e agora apresenta um time mais preparado, até para almejar a Bundesliga.

É possível que as decisões comecem desde a primeira rodada. A princípio, todos os times surgem com chances muito parecidas de classificação. A falta de craques pode ser um problema a quem gosta de ver a Champions mais por badalação do que por futebol. A quem olha além, o Grupo G será dos mais legais de se acompanhar.

Benfica: dois títulos (1960/61, 1961/62)

Zenit

2018/19 – não participou
2017/18 – não participou
2016/17 – não participou
2015/16 – oitavas de final (eliminado pelo Benfica)
2014/15 – fase de grupos

Benfica

2018/19 – fase de grupos
2017/18 – fase de grupos
2016/17 – oitavas de final (eliminado pelo Dortmund)
2015/16 – quartas de final (eliminado pelo Bayern)
2014/15 – fase de grupos

Lyon

2018/19 – oitavas de final (eliminado pelo Barcelona)
2017/18 – não participou
2016/17 – fase de grupos
2015/16 – fase de grupos
2014/15 – não participou

RB Leipzig

2018/19 – não participou
2017/18 – fase de grupos
2016/17 – não participou
2015/16 – não participou
2014/15 – não participou

Nagelsmann é o novo técnico do RB Lepzig (Foto: Getty Images)

Zenit

O Zenit reconquistou o Campeonato Russo após um breve hiato e, por isso, se credenciou como cabeça de chave na fase de grupos. Apesar da exposição no sorteio, os celestes não possuem necessariamente uma obrigação de classificação, mas podem se considerar candidatos à próxima fase. A equipe vem de bons desempenhos nas etapas iniciais da Liga Europa e também possui qualidade para bater de frente com os concorrentes no Grupo G. Só que há uma exigência paralela no Campeonato Russo, com o Krasnodar se colocando de vez como candidato ao título. Conciliar as duas frentes poderá ser um problema ao clube de São Petersburgo.

Benfica

O Benfica anda devendo na Champions. As duas últimas campanhas dos encarnados no torneio continental foram ruins. Em 2017/18, a equipe não saiu da lanterna de sua chave, com direito à goleada por 5 a 0 aplicada pelo Basel. O resultado melhorou um pouco mais em 2018/19, mas nem tanto, com o Ajax sublinhando sua superioridade. A classificação aos mata-matas se transforma em uma natural cobrança dentro do Estádio da Luz. Para dar confiança, Bruno Lage conduz um bom trabalho e há um elenco jovem, propenso a evoluir. Causar impacto na Liga dos Campeões seria uma excelente marca ao novo momento dos benfiquistas.

Lyon

De todos os times da chave, o Lyon é o que possui uma casca maior na Champions e pode usar isso a seu favor. A base que chegou às oitavas de final em 2018/19 permanece, apesar de perdas importantes. Ainda assim, isso não parece suficiente para minar o potencial dos Gones, sobretudo no ataque. Persiste uma reticência sobre o rendimento de uma equipe que consegue bater de frente com potências, mas sofre na hora de exibir uma sequência de resultados mais consistente. E os tropeços recentes criam certa cobrança sobre Sylvinho e Juninho, a dupla que inicia sua carreira no comando dos franceses. Almejar a classificação é o mínimo, já que a Liga dos Campeões pode representar um carimbo ao futuro do projeto.

RB Leipzig

O Leipzig possuía um grupo igualmente acessível em sua estreia na Champions e naufragou, superado por Porto e Besiktas na ocasião. Agora, os Touros Vermelhos parecem mais preparados para encarar o desafio continental. Vão para a sua terceira campanha consecutiva além das fronteiras e com um elenco que segue a sua curva ascendente, como bem se nota na Bundesliga. Até por aquilo que pode pintar no Campeonato Alemão, diante das boas apresentações, o time de Julian Nagelsmann deve concentrar suas forças na corrida pela Salva de Prata. Entretanto, falhar pela segunda vez na Liga dos Campeões geraria uma pressão desnecessária na Red Bull Arena. O desafio será dosar essa energia, já que o futebol exibido nestas primeiras semanas de temporada deixa o RasenBallsport um passo à frente como favorito à primeira colocação.

Pizzi, do Benfica (Foto: Getty Images)

Zenit

O Zenit possui um elenco bem balanceado, talvez o mais qualificado da chave neste sentido. Há uma força uniforme em seus diferentes setores. A defesa, que possui boa experiência, ainda ganhou reforços importantes com as contratações de Douglas Santos e Yordan Osorio. No meio-campo, a proteção é garantida por Wilmar Barrios, que ainda vê boas companhias em Yuri Zhirkov e Aleksandr Erokhin. Já na frente, o técnico Sergey Semak pode montar diferentes combinações. Há força no apoio pelos lados, com Emiliano Rigoni, Malcom e Sebastián Driussi, além do faro de Artem Dzyuba e Sardar Azmoun. Pode não ser time para a primeira prateleira da Europa, mas os celestes contam com um bom nível para almejar os mata-matas.

Benfica

Desde que Bruno Lage assumiu o comando da equipe, o Benfica prima por um jogo de intensidade e eficiência. Com muita pressão, os encarnados exibem um estilo mais direto e que rende um futebol atrativo, com muitos gols. Não à toa, desde que o treinador chegou, a média dos benfiquistas beira os três tentos anotados por partida. E a chave para o funcionamento dessa dinâmica recai principalmente no meio-campo de seu 4-4-2. Andreas Samaris e Gabriel Pires são o ponto de equilíbrio pelo centro, enquanto Rafa Silva e Pizzi dão o escape pelas pontas. Os dois jogadores mais abertos, aliás, costumam contribuir significativamente para o número de gols e assistências.

Lyon

Ofensivamente, o Lyon possui um dos elencos mais qualificados entre os médios da Europa. A linha de ataque dos Gones conta com talentos em ascensão e isso costuma render muitos gols à equipe. Memphis Depay, Bertrand Traoré e Moussa Dembélé formam o trio principal, enquanto Maxwel Cornet e Martin Terrier são boas opções no banco. Além do mais, o meio-campo tem outros jogadores de qualidade, com menção especial ao promissor Houssem Aouar. Encontrar o equilíbrio nem sempre é uma missão simples e o goleiro Anthony Lopes costuma ser bastante exigido. Porém, as esperanças de classificação residem principalmente no estrago que o time de Sylvinho pode realizar na frente.

RB Leipzig

Coincidentemente, todos os quatro times do Grupo G contam com treinadores bastante jovens. Sylvinho é o mais velho deles, aos 45 anos, ainda que realize o seu primeiro trabalho como comandante principal. Bruno Lage e Sergey Semak têm 43 anos. E o mais jovem é, por ironia, o mais tarimbado. A experiência precoce no Hoffenheim torna Julian Nagelsmann, aos 32 anos, o técnico com mais partidas realizadas por uma equipe principal entre os quatro. Surge como um trunfo ao Leipzig neste início de trabalho. As bases da equipe continuam as mesmas, apesar da tendência ofensiva aplicada por Nagelsmann. A defesa funciona bem e o saldo inicial na Bundesliga é bastante positivo. Suas primeiras jornadas com o Hoffe na Champions não guardaram sucessos. Assim, também existe uma expectativa na forma como ele corresponderá com o Leipzig.

Memphis Depay, do Lyon (Foto: Getty Images)

Zenit: Sardar Azmoun

Depois de estourar com o Rostov, Azmoun não causou o impacto esperado no Rubin Kazan. Porém, poucos meses bastaram para se tornar nome constante no ataque do Zenit. O iraniano possui qualidade técnica e capacidade de finalização, combinação que o transforma em peça versátil ao ataque celeste. E, com boas companhias, ele consegue se sobressair. Azmoun anotou 9 gols em 12 partidas no último Campeonato Russo, que permitiram a arrancada do time. Os números na atual campanha não impressionam tanto, com o protagonismo recaindo sobre Dzyuba, mas a Champions pode ser uma boa oportunidade para despontar. Aos 24 anos, ele já chegou a comandar uma vitória sobre o Bayern no torneio, pelo Rostov.

Benfica: Pizzi

Pizzi é daqueles jogadores que possuem menos cartaz do que a bola que realmente jogam. Aos 29 anos, é difícil imaginar que o meio-campista dará um salto muito grande nos próximos anos da carreira. Pouco importa: ele marca o seu nome com a camisa do Benfica. O rendimento nas últimas temporadas tem sido alto e ele foi preponderante ao time na conquista do Campeonato Português em 2018/19. Muito ativo nas construções ofensivas, anotou 13 gols e ainda contribuiu com 19 assistências. Fome de bola que se nota também neste início de temporada, com mais cinco tentos e duas assistências do camisa 21 na liga nacional. Seu histórico na Champions é bem mais tímido e, por isso mesmo, esta parece a ocasião perfeita para estourar.

Lyon: Memphis Depay

O Lyon possui diferentes destaques com pesos parecidos e um ataque relativamente homogêneo. Entretanto, quando se espera que alguém vá resolver os jogos, essa incumbência geralmente recai sobre Depay. O atacante pode não ter vingado no Manchester United, mas se encontrou desde o desembarque na França e já brilhou em grandes partidas, inclusive na Champions. O começo de temporada também o referenda, com quatro gols em quatro aparições pela Ligue 1. A potência e o chute venenoso pelo lado esquerdo são um diferencial aos Gones.

RB Leipzig: Timo Werner

A primeira participação de Timo Werner na Champions não guarda lembranças tão boas. Pelo contrário, o atacante ficou marcado por “amarelar” na visita ao Besiktas – quando, na realidade, teve um problema circulatório. Desta vez, terá uma oportunidade melhor para conseguir brilhar. O começo de temporada é suficientemente promissor, com cinco gols em quatro partidas pela Bundesliga. Atuando mais aberto pela esquerda, poderá apresentar o seu poder de fogo também além das fronteiras. A velocidade do ponta é uma das chaves ao jogo praticado pelo Leipzig neste início de novo ciclo com Julian Nagelsmann.

Branislav Ivanovic é o capitão do Zenit (Foto: Getty Images)

Zenit: Branislav Ivanovic

Aos 35 anos, Ivanovic continua como uma engrenagem primordial na defesa do Zenit. O veterano foi titular em absolutamente todas as partidas do Campeonato Russo e também na Supercopa da Rússia. Exerce a sua liderança para tornar os celestes mais competitivos. Dono da braçadeira de capitão, o sérvio vai para a sua terceira temporada em São Petersburgo, atuando centralizado na zaga. E agora poderá disputar a Champions pela primeira vez com uma camisa que não seja a do Chelsea. Ivanovic somou 58 partidas pelos Blues na Liga dos Campeões, anotando sete gols. Dono da lateral direita durante o título de 2011/12, anotou o gol da agonizante classificação contra o Napoli, mas se ausentou na final por estar suspenso.

Benfica: André Almeida

Os benfiquistas não possuem em seu elenco um grande medalhão de Champions. O atleta que mais vezes disputou o torneio é o lateral André Almeida. Aos 28 anos, são 36 partidas divididas em oito edições do torneio continental. A melhor lembrança veio em 2014/15, quando o lusitano participou de oito partidas e auxiliou os encarnados em sua classificação rumo às quartas de final. Lesionado durante os primeiros jogos da temporada, retomou a posição nas duas últimas rodadas do Campeonato Português e é uma liderança importante dentro do Estádio da Luz.

Lyon: Rafael

Com bons momentos durante sua chegada ao Lyon, o lateral direito Rafael perdeu espaço especialmente a partir da temporada passada e apenas esquentou o banco desde a chegada de Sylvinho. Ainda assim, sobra como o mais experiente do elenco em Champions. Aos 29 anos, o defensor possui 39 partidas pela competição continental, quase o dobro do segundo da lista. São nove campanhas no torneio, concentradas especialmente durante sua passagem pelo Manchester United. O brasileiro esteve em dois vices dos Red Devils, embora tenha participado apenas das semifinais em ambas as ocasiões.

RB Leipzig: Kevin Kampl

Num elenco essencialmente jovem, um dos raros jogadores com rodagem na Champions é Kevin Kampl. O meio-campista disputou o torneio por quatro clubes diferentes, se forem consideradas também as preliminares. Teve as primeiras oportunidades com o Red Bull Salzburg, mas não passou das tentativas de chegar à fase de grupos. Depois disso, estreou na etapa principal com o Borussia Dortmund e foi titular do Bayer Leverkusen em outras duas edições. Também inauguraria a história do RB Leipzig no torneio, antes de ganhar nova chance na atual temporada. O esloveno é importante na rotação, embora não seja titular absoluto.

Malcom, do Zenit (Getty Images)

Zenit: Malcom

Infelizmente, Malcom precisou lidar com a face mais repugnante do racismo em suas primeiras semanas no Zenit. Entretanto, se há um jogador para tornar os celestes mais competitivos na Champions, é exatamente o brasileiro. A diretoria já tinha realizado investimentos significativos no início do ano, que possibilitaram a conquista do Campeonato Russo – com menções principais a Wilmar Barrios e Sardar Azmoun. Já neste mercado de verão, o ponta trazido do Barcelona deveria se tornar o novo protagonista. Não é o que vem acontecendo. Além da discriminação sofrida, Malcom se lesionou e só voltará ao time em outubro. Quando recuperar a melhor forma, a Liga dos Campeões é o melhor caminho para justificar o investimento feito pelo clube. Sua capacidade de definição será essencial.

Benfica: Raúl de Tomás

Não foi um mercado de transferências badalado ao Benfica, que privilegia suas categorias de base. Diferentemente do Porto, os encarnados preferiram trazer reforços pontuais e apenas o ataque ganhou nova força com as movimentações. Além dos brasileiros Caio e Carlos Vinícius, outro a chegar foi o espanhol Raúl de Tomás. Depois de uma ótima passagem pelo Rayo Vallecano nas duas últimas temporadas, o atacante de 24 anos foi comprado por €20 milhões junto ao Real Madrid, onde iniciou nas categorias de base. Embora não tenha balançado as redes, vem sendo uma das referências ofensivas dos lusitanos neste início de trabalho. Terá a sua primeira oportunidade de disputar a Champions.

Lyon: Joachim Andersen

Apesar da saída do trio Tanguy Ndombélé, Ferland Mendy e Nabil Fekir, o Lyon não gastou tanto no mercado de transferências. Trouxe alguns reforços principalmente ao meio-campo, enquanto tentou achar soluções a outras carências do elenco. E, neste sentido, a compra de Joachim Andersen foi importante. O zagueiro de 23 anos vinha de um bom trabalho com a Sampdoria e custou €24 milhões. Titular absoluto nas primeiras rodadas do Campeonato Francês, ainda atravessa uma fase de adaptação na nova equipe. Contudo, possui presença de área e potencial para crescer na carreira. Será bastante exigido na Champions, ao mesmo tempo em que poderá fazer seu cartaz no cenário continental.

RB Leipzig: Patrik Schick

Um dos méritos do RB Leipzig nesta ascensão recente é a maneira como a diretoria consegue preservar os seus destaques. Desde que o clube chegou à primeira divisão, a única venda de um titular absoluto foi a de Naby Keita ao Liverpool. Por isso mesmo, o time usado no início da Bundesliga possui apenas velhos conhecidos da torcida. E os novos contratados tendem a ajudar a rotação para manter a competitividade na Champions. Patrik Schick desembarcou em Leipzig apenas no fechamento do mercado, sem causar o impacto esperado na Roma. Mas, aos 23 anos, é um jogador que parece se encaixar bem no ataque dos Touros Vermelhos, por sua mobilidade e por sua qualidade técnica. A Liga dos Campeões parece ser a deixa perfeita para que Julian Nagelsmann expanda suas possibilidades, dando espaço ainda a nomes como Ademola Lookman, Ethan Ampadu e Amadou Haidara.

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