É difícil esperar que alguma surpresa venha do Grupo B da Liga dos Campeões. Poucas chaves parecem tão propícias a uma definição logo nas primeiras rodadas, com duas forças evidentes despontando aos mata-matas. Se há algum mistério, aparentemente, ele se concentra na definição do líder e do repescado à Liga Europa. Os dois sorteados de potes inferiores não exibem força suficiente para desafiar os favoritos Bayern e Tottenham. Mas podem intimidar.

Olympiacos e Estrela Vermelha, afinal, têm dois estádios inegavelmente pulsantes e torcidas fanáticas como pouquíssimas da Europa. Além dos espetáculos que prometem contra os “pesos pesados” do Grupo B, também há uma curiosidade especial em acompanhar os embates entre eles. Para quem esperava tensões homéricas com os possíveis cruzamentos da fase de grupos, a amizade entre os alvirrubros de Pireu e Belgrado tende a prevalecer – o que deverá render grandes espetáculos em conjunto. O Olympiacos foi o primeiro adversário estrangeiro do Estrela Vermelha após o fim da Guerra da Iugoslávia, o que aproximou os ultras.

No mais, também existe um interesse óbvio por saber quais cartas Bayern e Tottenham colocarão à mesa durante este início de Champions. Os bávaros estão devendo na competição e precisam de um desempenho mais consistente, em queda visível em relação ao que faziam no começo da década. Já os londrinos, depois do sucesso retumbante da temporada anterior, carregarão certas expectativas sobre a capacidade de repetir uma campanha tão boa. Os dois primeiros confrontos diretos serão bons testes quanto o trabalho atual.

Bayern: 5 (1973/74, 1974/75, 1975/76, 2000/01, 2012/13)
Estrela Vermelha: 1 (1990/91)

Bayern

2018/19 – oitavas de final (eliminado pelo Liverpool)
2017/18 – semifinal (eliminado pelo Real Madrid)
2016/17 – quartas de final (eliminado pelo Real Madrid)
2015/16 – semifinal (eliminado pelo Atlético de Madrid)
2014/15 – semifinal (eliminado pelo Barcelona)

Tottenham

2018/19 – finalista (derrotado pelo Liverpool)
2017/18 – oitavas de final (eliminado pela Juventus)
2016/17 – fase de grupos
2015/16 – não participou
2014/15 – não participou

Olympiacos

2018/19 – não participou
2017/18 – fase de grupos
2016/17 – não participou
2015/16 – fase de grupos
2014/15 – fase de grupos

Estrela Vermelha

2018/19 – fase de grupos
2017/18 – não participou
2016/17 – não participou
2015/16 – não participou
2014/15 – não participou

Coutinho, Lewandowski e Perisic, do Bayern (Divulgação)

Bayern de Munique

Impor-se na fase de grupos pode ser uma motivação a mais para o Bayern de Munique na sequência de sua campanha na Liga dos Campeões. Durante a última temporada, os bávaros possuíam um grupo teoricamente nivelado mais abaixo e deixaram algumas reticências que terminaram expostas durante a eliminação precoce nas oitavas de final, contra o Liverpool – no pior desempenho do clube em oito anos. Até por encontrar uma concorrência mais pesada nesta Bundesliga, a Champions ajudará o time de Niko Kovac a manter seu embalo. Também será importante a alguns jovens do elenco que possuem talento, mas não uma tarimba tão grande na competição internacional. Decidir contra o Tottenham valerá ouro.

Tottenham

O Tottenham parece pronto a repetir ao menos uma caminhada segura até os mata-matas da Champions. Entretanto, por aquilo que se apresentou em 2018/19, há um nível de exigência a se repetir. Os Spurs possuem um elenco mais recheado em relação ao último ano e tendem a não ser tão desgastados na frente dupla desse primeiro semestre. Dificuldade maior será manter a toada que se cobra na Premier League, quando a Liga dos Campeões pode ser empurrada um pouco mais com a barriga. O interesse estará nos embates com o Bayern, não só por oferecer outra chance aos Spurs de desafiarem um gigante continental, como também de evitarem um chaveamento mais duro nas oitavas. Até por certos riscos vividos na dura fase de grupos passada, os londrinos podem aproveitar a caminhada inicialmente mais branda desta vez.

Olympiacos

Lá se vão cinco anos desde a última vez que o Olympiacos apareceu nos mata-matas da Champions. Na ocasião, o chaveamento ajudou os gregos a lutarem por uma vaga nas oitavas de final, coisa que não acontece agora. Nos últimos anos, aliás, os alvirrubros se contentaram em usar a principal competição continental como um atalho às fases mais agudas da Liga Europa. Não deve ser muito diferente desta vez. A mera presença nesta etapa já é importante para a Thrylos retomar sua hegemonia no Campeonato Grego, visto que o campeão PAOK caiu nas fases eliminatórias de ambas as competições continentais nesta temporada. O clube de Pireu permanece como principal representante do país, mesmo atravessando um período de reformulação.

Estrela Vermelha

Consolidação é a palavra de ordem no Marakana. O Estrela Vermelha reviveu a Champions com enorme êxtase durante a campanha passada, de volta ao torneio após quase três décadas longe das fases principais. No entanto, os sérvios demonstraram que o feito anterior não foi um ponto fora da curva e repetiram o patamar, para delírio de sua inflamada torcida. Estar na fase de grupos significa ter mais dinheiro e ser mais competitivo não somente a nível nacional, como também entre os países periféricos da Europa. Repetir a fase de grupos foi algo que o rival Partizan não conseguiu viver nem mesmo durante seu hexacampeonato nacional na virada da década. Ao Estrela Vermelha, a rodagem internacional pode impulsionar justamente uma dinastia doméstica.

Pochettino, técnico do Tottenham (Foto: Getty Images)

Bayern de Munique

Em termos de elenco, nenhum concorrente do Grupo B se equipara ao Bayern de Munique. E, que algumas posições careçam de reposições à altura, não é isso que diminui a força dos alemães para darem um passo à frente dentro da chave. Há uma renovada defesa, mas ainda bastante qualificada; um meio-campo para dar qualidade ao trato com a bola; e um ataque com pontas velozes, que acabam sendo vitais. Após as saídas de Arjen Robben e Franck Ribéry, parece fazer falta certa “grandiosidade” no elenco de Niko Kovac. Em compensação, há vários jogadores de extrema qualidade e que podem se afirmar na Champions. Thiago Alcântara, Joshua Kimmich, Serge Gnabry e Kingsley Coman formam uma espinha dorsal talentosíssima, em busca deste salto.

Tottenham

Faz toda a diferença contar com um dos melhores técnicos do mundo. O Tottenham sabe disso e pode se sentir orgulhoso pelo casamento vivido com Mauricio Pochettino, que preserva o argentino, apesar das tentações. Ele foi o principal responsável por elevar o patamar dos Spurs e por possibilitar uma campanha muito acima das expectativas rumo à inédita final de 2018/19. Seu estilo de jogo bem definido e ofensivo contribui para os sucesso dos londrinos. Além disso, o comandante também foi o principal responsável por lapidar diversos jogadores e por permitir que evoluíssem como referências do futebol mundial. Harry Kane encabeça este processo, ao se transformar em um dos melhores centroavantes do planeta com o apoio do treinador.

Olympiacos

Mesmo sem conquistar o Campeonato Grego há duas temporadas, um hiato inédito desde a década de 1990, o Olympiacos vem crescendo de produção. Terminou a campanha passada com uma boa sequência de resultados e o início do novo ano é muito positivo. Além dos 100% de aproveitamento na Super League, a Thrylos passou com certo conforto em preliminares da Champions que se prometiam capciosas. E espanta o equilíbrio dos alvirrubros nestas partidas. Enquanto aplicou goleadas em casa, também construiu bons resultados fora, contando com uma defesa bem protegida. São 19 gols marcados e apenas um sofrido nas primeiras nove partidas da temporada. Resta saber se isso poderá preponderar também contra adversários tão superiores nesta fase de grupos.

Estrela Vermelha

Poucos estádios no mundo possuem a atmosfera do Marakana em jogo do Estrela Vermelha. E a torcida evidenciou uma relação especial com a Champions durante a campanha passada, resgatando as memórias do título de 1990/91. Não à toa, mesmo cotado como saco de pancadas em um grupo duríssimo, os Crveni conseguiram arrancar pontos dos favoritos. Só o Paris Saint-Germain conseguiu golear por lá, na partida que fechou a chave. Antes disso, o Napoli empatou e o Liverpool perdeu. O alçapão poderá custar pontos a outros gigantes e é o que se sustenta a espera dos sérvios em buscar ao menos a terceira colocação, que vale vaga nos mata-matas da Liga Europa.

Valbuena foi o principal reforço do Olympiacos nesta janela

Bayern de Munique: Robert Lewandowski

Nenhum outro jogador teve tamanha importância no Bayern de Munique durante as últimas temporadas quanto Lewandowski. No entanto, os gols que sobram na Bundesliga costumam minguar na Champions e existe uma cobrança natural sobre aquilo que o polonês produz nos grandes duelos do torneio europeu. Desde que chegou à Baviera, o centroavante fez 36 gols em 52 partidas pela Liga dos Campeões. Se não é uma média tão alta quanto no Campeonato Alemão, não deixa de ser um número notável. Só que, por mata-matas, esta quantidade cai para 11 tentos em 23 aparições. A maneira como Lewa desapareceu em confrontos decisivos recai sobre seus ombros. Por isso, se provar como artilheiro também no cenário continental é importante ao veterano.

Tottenham: Son Heung-min

Harry Kane merece todo o respeito pela imponência que possui no ataque do Tottenham. Todavia, o jogador mais propício a desequilibrar as partidas dos Spurs é mesmo Son. O sul-coreano merece o protagonismo pela quantidade de confrontos que conseguiu resolver nos últimos anos, em especial durante a ausência do centroavante. Foi uma figura recorrente nas principais campanhas dos londrinos e também preponderou na caminhada à final da Champions passada. O camisa 7 arrebentou nos encontros que derrubaram o Manchester City e, por si, isso já diz muito sobre a grandeza que representa.

Olympiacos: Mathieu Valbuena

O francês teria capacidade para preencher qualquer destaque individual do Olympiacos neste guia. É também um “Mister Champions” dentro do elenco e a principal contratação dos alvirrubros para a temporada. Entretanto, sua importância vai além e ele desembarca já com o selo de principal craque em Pireu. Aos 34 anos, a capacidade do baixinho em bater na bola e criar ocasiões aos companheiros permanece intacta. Não à toa, ele foi a principal figura do time durante as preliminares da Champions. Valbuena marcou um gol e distribuiu cinco assistências em seis partidas, vital para derrubar Istambul Basaksehir e Krasnodar na difícil empreitada dos gregos até a fase de grupos.

Estrela Vermelha: El Fardou Ben

Aos 30 anos, El Fardou Ben dificilmente jogará em um grande centro da Europa. O atacante que atua pela seleção de Comores também não possui muito cartaz, com uma carreira modesta que se resume às divisões de acesso do Campeonato Francês e ao Campeonato Grego. Ainda assim, virou um nome essencial nos sucessos recentes do Estrela Vermelha e possui uma média expressiva de gols, até por atuar majoritariamente na ponta. Foram 25 tentos na última temporada, incluindo um contra o Napoli na Champions. Em uma linha de frente com muita força física, consegue aproveitar os espaços deixados pelo centroavante Milan Pavkov – este, o carrasco do Liverpool, autor de dois gols na surpreendente vitória da campanha passada.

Lucas Moura comemora ao final do jogo em Amsterdã (Getty Images)

Bayern de Munique: Manuel Neuer

A principal ligação com o passado vitorioso do Bayern de Munique na Champions, sem dúvidas, é Manuel Neuer. O goleiro foi um dos protagonistas na conquista continental de 2012/13 e segue como um dos melhores goleiros do mundo, por mais que a sequência recente de lesões não sublinhe isso em campo. De volta à melhor forma, o veterano pode fazer a diferença às ambições dos bávaros. É um jogador com capacidade às grandes partidas e poderá fazer a diferença nos mata-matas. Conquistar o título continental, aliás, seria importante para reafirmar sua história. Até pelos problemas físicos, aos 33 anos, as chances se tornam cada vez mais escassas.

Tottenham: Lucas Moura

Você pode mencionar outros jogadores mais importantes no elenco do Tottenham. Entretanto, o que aconteceu contra o Ajax naquelas semifinais ardentes garantem um lugar perene a Lucas Moura na história do Tottenham. Mauricio Pochettino tomou a sua decisão de não escalá-lo entre os titulares durante a final e deve ser questionado por isso. Ainda assim, a torcida londrina certamente esperará que o brasileiro tire outros coelhos da cartola na nova jornada europeia. Virou um herói histórico aos Spurs. Além do mais, no elenco atual, apenas Hugo Lloris possui mais jogos de Champions que o ponta.

Olympiacos: Vasilis Torosidis

Aos 34 anos, Vasilis Torosidis retornou ao Olympiacos, onde atravessou os melhores momentos da carreira. Após uma longa e modesta passagem pelo Campeonato Italiano, o lateral não vem atuando como titular. Ainda assim, é uma referência a tudo que os alvirrubros já puderam experimentar no torneio continental. Esta será a quinta vez que o medalhão disputará a fase de grupos pelo clube grego. Capitaneou a Thrylos em algumas destas jornadas e também ajudou a conduzir o time por duas vezes até os mata-matas. Se o físico não o permite manter seu lugar no 11 inicial, ao menos serve de referência dentro do plantel.

Estrela Vermelha: Marko Marin

O Estrela Vermelha tem um dos elencos mais inexperientes em Champions. Todos os jogadores somados chegam a 75 partidas na fase principal do certame – menos que Manuel Neuer, Thomas Müller ou Robert Lewandowski, por exemplo. E o único a superar as dez aparições é o meia Marko Marin. O alemão já foi uma grande promessa, a ponto de deixar o Werder Bremen para defender o Chelsea. Contudo, nunca se firmou em Stamford Bridge e rodou a Europa desde então. O currículo inclui passagens por Sevilla, Fiorentina e pelo próprio Olympiacos. Já nas últimas duas temporadas, se tornou uma peça importante no Marakana e serviu assistências essenciais para que o Estrela Vermelha repetisse a aparição na fase de grupos.

Coutinho em seu primeiro jogo com a camisa do Bayern (Divulgação)

Bayern de Munique: Philippe Coutinho

Os maiores investimentos do Bayern aconteceram na defesa, com as contratações de Lucas Hernández e Benjamin Pavard. Contudo, o jogador que realmente pode elevar o patamar dos bávaros dentro da competição continental é Philippe Coutinho. A diretoria precisava de uma resposta mais contundente no mercado e ela veio com um negócio de ocasião, ao aproveitar a falta de interesse do Barcelona em manter o brasileiro. Coutinho não se firmou entre os titulares durante o início da Bundesliga. Até por isso, a competição continental deverá ser importante para comprovar o seu lastro – já que o meia carece de uma boa sequência de partidas faz algum tempo.

Tottenham: Tanguy Ndombélé

O Tottenham finalmente realizou contratações notáveis no mercado de transferências. O problema é que o início da temporada não tem sido fácil aos novatos, diante das lesões. Apesar disso, o aumento das opções tende a preservar um pouco mais o elenco dos Spurs. E a fase de grupos oferecerá aos reforços uma oportunidade de adquirir tarimba, sobretudo no meio-campo. Giovani Lo Celso e Tanguy Ndombélé possuem parca rodagem na Champions. Os primeiros jogos garantirão uma boa mostra da pressão a ser encarada no torneio. O francês, principalmente, poderá lidar com as exigências defensivas das grandes partidas. Conseguirá se aprimorar, depois de uma boa experiência inicial com o Lyon na última Champions, em que também contribuiu com gols.

Olympiacos: Youssef El Arabi

El Arabi possui bons números em suas passagens pela Europa, a quem sempre atuou por clubes modestos. Chegou a anotar 17 gols na Ligue 1 pelo Caen no início de carreira e também foi uma das principais figuras do Granada na sequência desfrutada pelo clube em La Liga. Durante os últimos três anos, porém, o marroquino manteve média superior a um gol por jogo no Al Duhail, do Catar. É nisso que o Olympiacos aposta, ao oferecer uma nova jornada europeia ao centroavante de 32 anos. O início é positivo. El Arabi anotou os dois gols contra o Krasnodar, na vitória que confirmou a classificação dos alvirrubros para a fase de grupos da Champions.

Estrela Vermelha: Milos Degenek

Apesar do dinheiro que entrou nos cofres do Estrela Vermelha com a última Champions, a diretoria manteve os pés no chão e não realizou loucuras no mercado. Ainda assim, um importante negócio foi o retorno do zagueiro Milos Degenek. Presente na campanha continental anterior, o australiano havia sido um dos heróis da classificação nas preliminares, ao servir duas assistências na partida decisiva contra o Red Bull Salzburg. Passou o primeiro semestre de 2019 no Al Hilal, mas retornou à Sérvia para auxiliar a nova classificação. Desta vez, anotou o gol que iniciou a reação contra o Young Boys na última fase preliminar e novamente ajudou os alvirrubros a alcançarem a fase principal da competição europeia.

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