A condenação de líderes separatistas catalães foi o estopim para uma segunda-feira (14) de protestos na Catalunha, com estradas fechadas e confronto entre policiais e manifestantes no aeroporto de Barcelona – causando a inusitada cena de um Ivan Rakitic andando por uma via, após desembarcar de seu voo. Os protestos foram convocados pelo novo grupo Tsunami Democrático, um movimento ainda sem líder claro, mas desde esta segunda-feira com um rosto famoso: Pep Guardiola.

O treinador do Manchester City emprestou sua imagem para virar porta-voz do Tsunami Democrático em um vídeo em que as demandas do grupo eram feitas e um apelo visava a comunidade internacional: intervenha no conflito para encontrarmos uma solução democrática.

Guardiola diz no vídeo, publicado pela conta do Tsunami Democrático no Twitter e veiculado por meio da BBC e da AFP, que a sentença aos líderes catalães era uma afronta direta aos direitos humanos, “incluindo o direito de se reunir e protestar, o direito à liberdade de expressão e o direito a um julgamento justo”. “Isso é inaceitável na Europa do século XXI.”

O movimento exige uma solução política e democrática do governo espanhol, que se sente para conversar. “Nem o governo de Pedro Sánchez e nem um outro governo espanhol foi corajoso o bastante para lidar com esse conflito com diálogo e respeito. Em vez disso, escolheram a repressão como única resposta”, diz Guardiola.

“Pedimos à sociedade civil internacional que pressione seus governos a intervir neste conflito, para encontrar soluções políticas e democráticas. Pedimos que a comunidade internacional se posicione claramente a favor de uma solução neste conflito, com base no diálogo e no respeito”, pediu o treinador no vídeo.

O Tsunami Democrático é um grupo recente, que tem convocado manifestações por meio de aplicativos de difícil acesso e sem líderes expressos, para dificultar reações por parte do governo espanhol.

Não é necessariamente uma surpresa que Guardiola tenha assumido essa posição de rosto do movimento. O treinador utilizou durante um tempo uma fita amarela, em demonstração de apoio aos ativistas e líderes políticos detidos por seu envolvimento no movimento separatista. Ao longo dos anos, juntou-se ao coro pelo referendo e, desde a prisão preventiva dos líderes agora condenados, defendeu sua inocência.

A manifestação por meio da voz de Guardiola não foi o único envolvimento de um personagem do futebol na questão neste início de semana. Após a sentença, o Barcelona publicou um comunicado afirmando que a solução do conflito só virá com diálogo, e não com prisões.

“O Barcelona, como uma das principais entidades da Catalunha, e em acordo com seu histórico pela defesa da liberdade de expressão e do direito de decidir, afirma que (…), da mesma maneira que a sentença de prisão preventiva não ajudou a resolver o conflito, a sentença de prisão de hoje também não irá ajudar, porque a prisão não é a solução. (…) Agora, mais do que nunca, o clube pede a todos os líderes políticos que conduzam um processo de diálogo e negociação para resolver este conflito.”

Nesta segunda-feira, a Suprema Corte da Espanha condenou nove líderes separatistas por sua participação na tentativa fracassada de independência catalã em 2017. Os réus receberam penas de nove a 13 anos por sedição, uma forma de motim contra a autoridade.

Em um breve resumo dos últimos anos, o governo do então presidente catalão Artur Mas organizou um referendo simbólico pela independência em novembro de 2014. Mais de 80% dos votantes optaram pela independência, mas vale apontar que apenas 2,3 milhões dos 5,4 milhões de eleitores foram às urnas – na Catalunha mesmo, a questão é divisiva: o apoio à independência está em 44%, com 48,3% dos catalães se opondo à separação.

Três anos depois, o sucessor de Mas, Carles Puigdemont, ignorou os avisos do governo espanhol e conduziu um referendo unilateral. Mariano Rajoy, então primeiro-ministro, enviou milhares de policiais à Catalunha, que tentaram evitar o referendo por meio de violência, com as cenas dos ataques policiais rodando o mundo.

Puigdemont assinou uma declaração de independência nove dias depois daquele referendo, suspendeu os efeitos da votação por dois meses para tentar o diálogo, mas o senado espanhol aprovou uma medida prevista na constituição para tomar controle da Catalunha e demitir Puigdemont de seu cargo e convocar eleições locais antecipadas – neste pleito, o partido Ciudadanos, pró-Espanha, foi o maior vencedor.

Após essa tentativa de independência, líderes catalães foram alvos de diversas acusações, incluindo rebelião, mas as sentenças acabaram acontecendo, na maioria, por sedição. Oriol Junqueras, vice-presidente, recebeu a maior pena, de 13 anos, por sedição com desvio de fundos públicos. Jordi Turull, Dolors Bassa e Raül Romeva, ex-conselheiros, foram condenados a 12 anos por sedição e peculato; Joaquim Forn e Josep Rull, outros ex-conselheiros, receberam 10 anos e meio de sentença. Carme Forcadell, ex-presidente do Parlamento, enfrenta pena de 11 anos e meio. Uma sentença foi também imposta aos líderes da Assembleia Nacional Catalã e da organização Òmnium Cultural, Jordi Sànchez e Jordi Cuixart, de nove anos. Por fim, o foragido Carles Puigdemont teve sua ordem de detenção reativada.

O movimento separatista catalão sempre foi caracterizado por sua natureza sem violência – assim foram convocados os protestos da segunda-feira. Entretanto, não dá para prever como a situação irá evoluir após essas condenações. Atores do futebol internacional com laços catalães, ainda que não tenham poder efetivo algum, podem contribuir na construção da percepção pública sobre o assunto, e o movimento Tsunami Democrático consegue um apoiador dos mais pesados em Pep Guardiola.