Poucos treinadores estudam um duelo como Pep Guardiola. Ele passa horas e horas analisando o adversário em busca de detalhes que possam lhe dar uma vantagem aqui ou outra ali. Por outro lado, foi muitas vezes acusado de exagerar nas mudanças, fugir demais do convencional, quando o desafio são os jogos mais difíceis do mata-mata da Champions League, especialmente fora de casa. Nesta quarta-feira, porém, a escalação diferente do catalão foi recompensada com a excelente atuação de Gabriel Jesus na vitória por 2 a 1 do Manchester City sobre o Real Madrid no Santiago Bernabéu, pela primeira perna das oitavas de final.

Cada jogo tem uma história, a aleatoriedade de um mata-mata é muito grande para tirar lições muito concretas e, no caso da Champions League, os jogos eliminatórios fora de casa são teoricamente os mais difíceis que um time enfrenta. Natural que seu retrospecto neles não seja excelente. Mas a vitória desta quarta-feira foi a mais relevante de um time de Guardiola como visitante na fase eliminatória do torneio europeu desde aquele 2 x 0 diante do mesmo Real Madrid, no mesmo Santiago Bernabéu, em 2011, com dois gols de Lionel Messi.

Nesse período, Guardiola participou de 17 duelos de mata-mata da Champions League e ganhou apenas quatro das partidas fora de casa. E tirando o Arsenal em 2013/14, que ainda assim estava longe de ser favorito contra o Bayern de Munique, os adversários foram bem acessíveis: o Leverkusen (1 x 3) em 2012; o Basel (0 x 4) em 2018; e o Schalke 94 (2 x 3) ano passado.

E todas essas vitórias vieram nas oitavas de final. Quando passa às quartas e às semis, fases mais agudas da competição, a última fora de casa ainda é aquela contra o Real Madrid. Nesses duelos, houve alguns tropeços difíceis de entender, como a derrota para o Porto e o empate contra o Benfica, ainda quando era comandante dos bávaros. Não quer dizer que Guardiola inventou em todos esses 17 jogos ou que suas mudanças não deram certo em todos eles, mas há um padrão de dificuldades nesse tipo de partida que dura quase 10 anos.

Nesta quarta-feira, Guardiola escalou Gabriel Jesus pelo lado esquerdo do campo, o que não é incomum. Ele atuou algumas vezes assim recentemente pela Premier League, mas geralmente porque Sergio Agüero estava no comando de ataque. Quando o argentino ficava no banco de reservas, Jesus assumia a posição central do setor ofensivo.

Contra o Real Madrid, foi diferente. Agüero ficou no banco de reservas, Jesus continuou pela esquerda e, na prática, Kevin de Bruyne e Bernardo Silva foram os dois jogadores mais avançados, em uma espécie de 4-4-2 completada por Mahrez pelo lado direito. A ideia era basicamente usar a primazia física e tática do brasileiro para fechar o corredor esquerdo, com Silva e de Bruyne livres na frente e iniciando a pressão.

Isso implicou, também, deixar Sterling e Fernandinho, ainda sem plenas condições físicas, e David Silva no banco de reservas. Questionado se havia dado um nó tático em Zidane, Guardiola respondeu: “Porque vencemos. O importante é a maneira como jogamos. Tentamos vir aqui para ganhar o jogo e fizemos isso”, afirmou, antes de elogiar Jesus. “Ele é tão rápido e tão bom. Você precisa ampliar o gramado. Eles são muito agressivos e sofremos nos primeiros minutos, mas, depois, encontramos mais fluidez”, acrescentou.

O City basicamente anulou o Real Madrid no primeiro tempo e teve duas grandes chances de abrir o placar com Jesus. A primeira parou em Courtois e a segunda levou a uma furada espetacular de Sergio Ramos, quase em cima da linha. A bola entraria se Casemiro não estivesse próximo para afastar de vez. Os ingleses voltaram melhor para a etapa final, mas levaram o primeiro gol em uma bobeada na saída de bola muito bem aproveitada por Vinícius Júnior e Isco.

Curiosamente (ou não), o gol de empate saiu depois de Guardiola restaurar um esquema tático mais convencional, com Sterling no lugar de Bernardo Silva. O ponta inglês foi à esquerda, e Jesus voltou para o meio. De Bruyne fez a linda jogada na grande área e cruzou para o brasileiro, dentro da pequena área, cabecear de curta distância. Depois, pela esquerda, Sterling sofreu o pênalti que gerou o segundo tento do City.

Jesus ainda cavou a expulsão de Sergio Ramos nos minutos finais e se destacou muito nas estatísticas individuais. Foi o jogador do City que mais finalizou (4), que mais driblou (4), ao lado de De Bruyne, e que mais fez bloqueios (3). Foi um dos seis jogadores do City com duas interceptações e o segundo que mais tentou desarmes (4), atrás de Mahrez. E apesar de importante no trabalho defensivo, não cometeu faltas.

Os toques na bola que Jesus deu contra o Real Madrid (Foto: Reprodução/Who Scored)

A estratégia de Guardiola deu certo no Bernabéu, embora arriscada. Seu time foi superior ao do Real Madrid na maior parte da partida, mas os frutos práticos surgiram da excelente atuação de Gabriel Jesus, que pode não ser o melhor finalizador do mundo, mas tem atributos muito importantes a quem souber usá-los. E paciência para esperar a sua chance sem reclamar e brilhar na hora certa.

Os jogos fora de casa dos times de Guardiola nos últimos anos: 

2018/19:

Schalke 04 2 x 3 City
Tottenham 1 x 0 City

2017/18:

Basel 0 x 4 City
Liverpool 3 x 0 City

2016/17:

Monaco 3 x 1 City

2015/16:

Juventus 2 x 2 Bayern de Munique
Benfica 2 x 2 Bayern de Munique
Atlético de Madrid 1 x 0 Bayern de Munique

2014/15:

Shakhtar Donetsk 0 x 0 Bayern de Munique
Porto 3 x 1 Bayern de Munique
Barcelona 3 x 0 Bayern de Munique

2013/14:

Arsenal 0 x 2 Bayern de Munique
Manchester United 1 x 1 Bayern de Munique
Real Madrid 1 x 0 Bayern de Munique

2011/12:

Bayer Leverkusen 1 x 3 Barcelona
Milan 0 x 0 Barcelona
Chelsea 1 x 0 Barcelona

2010/11:

Arsenal 2 x 1 Barcelona
Shakhtar Donetsk 0 x 1 Barcelona
Real Madrid 0 x 2 Barcelona

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