“Se Messi está em sua melhor forma, nenhuma defesa pode pará-lo. Não existe sistema para brecar Messi, ele é muito bom”. As palavras de Pep Guardiola na véspera do reencontro com o Barcelona fazem todo o sentido agora. Messi acabou com o Bayern de Munique em 20 minutos fantásticos dos blaugranas. Chamou a responsabilidade durante os 90 minutos, mas sua genialidade só ficou latente no final. A precisão na finalização do primeiro gol, o drible desconcertante do segundo, o passe para Neymar no terceiro. Difícil questionar o camisa 10. Que, no final das contas, só fez ruir a noite infeliz de Guardiola. Pode não existir sistema tático para brecar o argentino. Mas o técnico errou feio em suas escolhas e insistiu na teimosia. Para Messi ressaltar isso no fim.

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Guardiola tentou não dar espaço para as tabelas de Messi, Neymar e Suárez. Adiantou a sua linha defensiva e pressionou bastante a saída de bola do Barcelona. Para este objetivo, deu certo. Só que o Bayern deixou as costas livres para as arrancadas do trio ofensivo. Um erro tremendo diante de uma equipe que, já desprendida do tiki-taka, atua de maneira mais vertical. Diante da lentidão dos companheiros, especialmente de Boateng, Manuel Neuer fez verdadeiros milagres duas vezes no primeiro tempo, além de algumas saídas providenciais. Só que o goleiro, que seja um “santo”, não é Deus. Não dá para salvar todas as bolas adversárias, ainda mais quando são tantas.

Durante os primeiros 15 minutos, Guardiola até se refez do erro em escalar três homens na linha defensiva – deixando quase sempre no mano a mano com o tridente do Barcelona. Depois da defesaça de Neuer no chute de Suárez, aos 12 minutos, acrescentou um homem a mais no sistema. Não ajudou tanto assim. Até porque, pelo cansaço, os bávaros começaram a ceder espaços em um meio-campo recheado de jogadores técnicos, mas veteranos. Enquanto isso, Javi Martínez esquentava o banco. Por mais que o espanhol não esteja 100% fisicamente, é um nome para ajudar nos minutos finais. As alterações, inclusive, demoraram a sair. Parecia até receio de se abrir ainda mais, diante da falta de opções mais defensivas.

O mapa de calor do Bayern: preso demais em seu campo de defesa

O mapa de calor do Bayern: preso demais em seu campo de defesa com a bola

Guardiola pode até reclamar das lesões. No baile que tomou nesta quarta, especialmente a de David Alaba, que fez muita falta fechando o lado esquerdo da defesa – Bernat, que é bom jogador, errou muitos passes e dribles, como no lance que originou o primeiro gol. Um perigo recorrente ao qual o Bayern se expôs pela filosofia de jogo do treinador. Sem chutões, os bávaros ganharam na posse de bola, mas perderam no placar. Um pouco mais de jogo direto poderia ajudar o time a não passar tanto sufoco, por mais que devolvesse a bola com mais frequência ao Barcelona. Só que, do jeito que estava, os blaugranas já dificultavam muito a cadência dos passes com sua pressão alta.

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Falar das falhas do Bayern, neste momento, fica até fácil. Mas alguns dos problemas já tinham sido exibidos há um ano, quando os alemães acabaram trucidados diante do Real Madrid nas semifinais. O Barcelona de Luis Enrique é menos vertical que o time de Carlo Ancelotti, mas também conta com jogadores velozes. Boateng sentiu na pele isso. Em uma noite na qual muitos jogadores estavam errando mais do que o costume, se expor tanto é uma temeridade. E se resguardar (entenda-se retrancar) um pouquinho não é pecado. Especialmente para tentar seguir vivo e decidir em casa. Agora, parece tarde.

Ninguém tira os méritos de Guardiola como técnico, especialmente pelas ideias novas que trouxe. Mas teimou em suas convicções diante de um adversário que pedia muito mais cautela. Ser fiel a um estilo pode ser legal, mas a cobrança sempre vem se os resultados não acontecem. E em um Bayern no qual conquistar a Bundesliga com sobras se tornou mais do mesmo, a expectativa é pela Champions. Competição na qual os bávaros se despediram de maneira melancólica em 2014 e correm riscos de fazer de novo desta vez.

Guardiola tem uma semana para pensar no que fazer. A virada sobre o Porto pode até ser exemplo, mas o Barcelona não é o Porto. Mais difícil do que fazer os gols que o clube precisa é não tomá-los, se expondo ainda mais a Messi, Neymar e Suárez. É delicado encontrar uma solução, ainda mais sem Robben e, provavelmente, Ribéry para ter um pouco mais de qualidade individual. Talvez seja útil para Guardiola ligar a Jupp Heynckes e tentar achar a fórmula (que agora parece mágica) para enfiar quatro gols nos blaugranas. Porque o time de seu antecessor podia não ter tantas variações de jogo ou recursos técnicos, mas sabia ser muito mais direto em seus objetivos. A verticalidade, a solidez defensiva e a força no jogo aéreo dos campeões de 2012/13 fizeram bastante falta desta vez.