Poucas vezes se viu (e se ouviu) Pep Guardiola tão aberto quanto nesta semana. O treinador concedeu uma íntima entrevista a Jorge Valdano na televisão espanhola e repassou a sua trajetória no futebol analisando diferentes etapas da vida. Falou sobre os primórdios nas categorias de base do Barcelona ao auge no clube, até o ostracismo como meio-campista. Também sobre aquilo que pensa e desenvolve como treinador, do Camp Nou ao Estádio Etihad. Abaixo, destacamos os principais trechos da conversa, que traz muito sobre o que o comandante é:

Cruyff

“Não se entende a minha vida profissional sem a presença de Cruyff. Ele foi determinante na academia de futebol. Bastava sua presença, com seus óculos escuros e você se cagava. Tinha muito de poder e consciência. ‘Você não concorda? Ali está a porta’. Talvez quando você tem 16 anos e todo mundo já te diz que é o melhor, acredita. Sempre pensei que muitas das coisas que ele dizia, nem ele acreditava. Mas ele te fazia crer que era daquela maneira. Não tinha método de preparação, outros se encarregavam dos treinamentos. Mas sim método de jogo. Não ia ao Plano B, mas fortalecia o Plano A. Tudo era novo. E como sempre estava em forma, não explicava, ele fazia. Cruyff não me convenceu, eu me apaixonei por aquilo. Quando falava que você jogou bem, dizia: ‘Venha à minha sala e vamos ver o jogo’. A primeira vez que entrou em contato comigo, falou que joguei mais lento que a avó dele. Ele me dizia que se eu jogasse com dois toques era lento, com três era ruim e com um poderia chegar a ser bom”.

O Real Madrid que admirou

“O Real Madrid da Quinta del Buitre, com todo o respeito aos outros, é o melhor que vi. Era uma delícia assisti-los jogar. Nós ficávamos mais contentes porque o Milan de Sacchi os eliminava da Champions. Cruyff sempre nos dizia que éramos os melhores. Antes da partida contra o Tenerife, na rodada final em que conquistamos o título do Espanhol, dizia com muita segurança que o Real Madrid iria perder”

Os craques com quem atuou

“Cruyff foi o primeiro a assinar com Ronald Koeman, a pagar mais para contratar um defensor do que um atacante. Já nos meus primeiros anos, quando chegava a bola, eu sempre buscava a Laudrup. Depois, com o tempo, quando a coisa ficava feia, bola em Figo. Romário tinha a nata… quando queria. Além disso, joguei com Roberto Baggio, um dos jogadores mais incríveis com quem compartilhei o campo. Tinha duas cirurgias de ligamento cruzado, ia meio manco. E sempre estava onde eu imaginava que deveria estar. Não sei dizer o que devia ser estando bem e rodeado de bons jogadores”

A passagem pela Itália

“Com 26 ou 27 anos, surgiu a vontade de ser treinador. Fui à Itália para me provar como técnico. Tentei jogar na Inglaterra, mas não aconteceu. A Itália culturalmente era assim, nós defendíamos para que o 10 resolvesse. Entendi por lá que treinar o físico não é estar melhor fisicamente. La Liga te agarra, eu passei muito bem na Serie A”

Busquets

“Se eu não tivesse passado pela base, talvez seu destino não fosse o mesmo. Depois de dois ou três dias treinando com a gente, Messi me disse sobre Busquets: ‘Este cara é bom’. Eu disse a Lionel que, quando tivesse problemas, Sergio estaria adiante. Esse é o tipo de meio-campista que faz jogar, é como o seu pai, trabalha muito pelos outros”

 

Simeone

“Quando estava na Argentina, antes que chegasse ao Atlético, Diego veio ao Barcelona nos ver treinar uns dias. E ele me encantou. Falamos, comentamos sobre futebol. Então ele me disse: ‘A mim, esse tipo de jogo do Barcelona não me agrada, não o sinto’. Disse: ‘Ótimo, que bom’. É disso que se trata, de sentir o jogo. Minhas equipes vão tentar jogar como eu quero e as de Cholo, como ele quer. Sou orgulhoso que, do início até agora, moldando algumas coisas, não mudei o padrão de jogo”

Estilos diferentes na Bundesliga e na Premier League

“Com os jogadores que tive no Barcelona, nem assassinados eles perdiam a bola. Na Alemanha, tive que controlar mais os contra-ataques dos rivais porque não podíamos ter tanta posse, não havia tanta qualidade. Há jogadores bons de todos os lados. Há mais conduções, mais espaço, menos bola no pé. Mas as equipes com treinadores jovens atuam como os espanhóis. Na seleção alemã, todos são muito bons. É uma liga bem organizada, campos cheios, e não só no futebol há essa cultura, mas vão ao teatro, vão ao cinema. Os torcedores vão ao estádio juntos, há uma torcida fiel, nisso são muito bons. Já a Premier League parece melhor do que é pela maneira como se vende e se transmite o produto. O estádio condiciona muito. Parece que se passou muita coisa e, quando vê o vídeo, não aconteceu nada. Mas ao final, dá para chegar e controlar os jogos”

Manchester City

“A tática são os jogadores. Olhe quais os jogadores você tem e a partir daí você precisa se adaptar. Você aprende muitas coisas com o tempo. Na Premier League, investimos muito nos jogadores, precisávamos de energia. Muitas das coisas que se passaram na última temporada, foi por causa da primeira. Às vezes o primeiro ano não flui e o segundo sim. Eu me sinto bem no Manchester City. Muito protegido no futebol. Estou no clube que me interessa, com Soriano e Begiristain que conheço desde que estávamos no Barcelona B. Não me sinto julgado por uma derrota ou por uma vitória. Em campo, temos De Bruyne, que faz tudo e tudo bem, mas ainda tem margem para crescer. Faz pouco tempo, conheci os seus pais e entendi muitas coisas de por que é um rapaz fantástico”

Sua relação com futebol

“Vejo pouco futebol. Muito pouco. O que eu gosto é ver a partida que jogamos e ver que podemos avançar, e também o rival com quem vamos jogar. Na Inglaterra, como durante oito meses a partir das quatro da tarde já anoiteceu, agradeço poder estar ao lado da minha família”

Futuro e passado no Barcelona

“Eu acabarei outra vez onde comecei, meus últimos passos serão nas categorias de base e tomara que sejam as do Barcelona. É o melhor, não tem a imprensa e ao final acaba sendo a mesma coisa com as crianças. Depois de estar no Barcelona tudo é mais tranquilo. A maldade e a crueldade que existem na imprensa espanhola não se vê na Inglaterra ou na Alemanha. O mesmo passa com o elogio, que é desmedido. Ali te criticam, aqui vão te machucar”


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