Uma pequena ilha no oeste do Oceano Pacífico, com quase 160 mil habitantes, perto de Filipinas e Indonésia, finalmente tem esperança. Guam é considerado território não-incorporado dos Estados Unidos, ou seja, os guameses têm como presidente Barack Obama, mas o governador é um político local. Isso porque Guam – e outros, como Porto Rico – não é reconhecido como estado dos Estados Unidos, não podendo enviar deputados e senadores e nem participar de tratados internacionais, mesmo aplicando a constituição estadunidense.

Envolvida em várias guerras, como a que resultou na tomada de controle da Espanha pelos Estados Unidos em 1898, a ilha de Guam demorou a desenvolver o futebol. Na Segunda Guerra Mundial, em 8 de dezembro de 1941, os japoneses capturaram o território (ataque sobre a base estadunidense de Pearl Harbor, tema de filme) e governaram-no por dois anos e meio, até que os Estados Unidos recuperassem o poder, em 21 de julho de 1944 – até hoje a presença militar dos ianques é constante, sendo a segunda fonte de receita de Guam, mas pelo menos há investimento no futebol.

Devastador

 

Quando foi possível formar um time que representasse o país e fundar a federação local, Guam entrou em campo. O primeiro torneio oficial foram os Jogos do Pacífico Sul, espécie de olimpíadas da região. A equipe atuou em casa, mas acabou sendo goleada por 11 a 0 por Fiji, em agosto de 1975, também perdendo para Ilhas Salomão, de 5 a 1.

Quatro anos mais tarde, o país enviou um time para Fiji, para nova disputa do torneio regional. Os resultados, no entanto, foram piores, com duas derrotas (11 a 0 para Nova Caledônia e 5 a 0 a favor de Vanuatu), sem gols marcados. Nos 12 anos seguintes, a seleção não jogou nenhuma partida, num período de efervescência política na ilha, com pelo menos dois referendos que versavam sobre o relacionamento político com os Estados Unidos.

O futebol só voltou em 1990, com a disputa da primeira edição da liga nacional, vencida pelo University of Guam, que ficaria no topo da tabela nas três temporadas seguintes – são 20 times no país, segundo a FIFA. A seleção participou dos Jogos do Pacífico Sul de 1991, também perdendo todos os jogos, para Taiti (15 a 1), Fiji (14 a 1) e Nova Caledônia (8 a 0).

Mais oportunidades

Um ano mais tarde, Guam passou a fazer parte da confederação asiática, não dando tempo de jogar as eliminatórias para a Copa da Ásia 1992. A estreia ocorreria quatro anos depois, com 9 a 0 para a Coreia do Sul – Guam ainda perderia de 9 a 0 para o Vietnã  e por 9 a 2 a favor de Taiwan. A equipe nunca venceu um jogo sequer na competição, sofrendo goleadas nas duas edições seguintes [19 a 0 para a China (2000) e incríveis 6 a 0 para Butão e 5 a 0 a favor da Mongólia (2004), pasme-se!].

Em 1996, a ilha do Pacífico finalmente tornou-se membro da Fifa, mas não estreou no qualificatório para o Mundial da França 1998. O debute só ocorreria em 2002, obviamente acompanhado de goleadas. Além dos 19 a 0 para o Irã, Guam conseguiu levar 16 gols do Tadjiquistão. Quatro anos depois, o país chegou a passar de fase, graças à desistência de Nepal, mas também desistiu das eliminatórias, assim como em 2010 e 2014. A partir daí, a seleção nacional só jogaria torneios regionais, como a AFC Challenge Cup, que reúne as piores seleções do continente e dá vaga à Copa da Ásia, e a East Asian Cup, que conta com países do leste asiático. O que não impediu o aumento das derrotas…

Convenhamos, não é para qualquer um sofrer 11 gols da Palestina e perder de 9 a 2 para o Paquistão. E a tão esperada vitória contra um membro da Fifa (Guam já goleou Pohnpei por 16 a 1, em 1998; imagina-se a qualidade da referida seleção)? Ela aconteceu na primeira fase preliminar da East Asian Cup, 3 a 0 sobre Macau, em casa, em 22 de julho de 2012, diante de mil torcedores, depois de 37 anos de fundação da entidade local – na etapa seguinte, lanterna da chave, levando de 9 a 0 da Austrália.

Hora de evoluir

Não por coincidência, a primeira vitória importante de Guam aconteceu justamente depois de um jovem treinador inglês aceitar o desafio de comandar uma das piores seleções do mundo. Com 38 anos, Gary White tentou a carreira de atleta, mas o máximo que conseguiu foi jogar a sétima divisão de seu país e uma liga estadual da Austrália. Largou tudo aos 22 anos e dois anos mais tarde comandou sua primeira seleção, a de Ilhas Virgens Britânicas.

White também ficou à frente de Bahamas (nove anos), foi diretor técnico nos dois países em que trabalhou e também no Seattle Sounders (Estados Unidos). Em fevereiro de 2012, ele chegou a Guam com dez anos de experiência em seleções e em avaliação de jogadores, inclusive na federação dos Estados Unidos. Nas eliminatórias da AFC Challenge Cup 2014, a equipe falhou em avançar, mas venceu outra partida, 3 a 0 diante de Taiwan – perdeu de Mianmar (5 a 0) e Índia (4 a 0).

Gary White começou seu trabalho com Guam em 183º lugar no Ranking Fifa e em julho de 2013 deixou o time na 176ª posição, o melhor resultado da história do país: “Estou extremamente feliz com nosso trabalho. Nada disso teria acontecido sem o apoio dos dirigentes e da população. Esperamos evoluir ainda mais e estamos perto de alcançar o objetivo traçado no início”, disse o inglês a um jornal local. White planejou ser a quinta melhor seleção do leste asiático até 2022. Por enquanto, Guam é o sétimo colocado, atrás de Japão, Coreias do Sul e do Norte, China, Hong Kong e Taiwan, almejando ultrapassar os honcongueses, atuais 148º colocados.  Será que ele consegue?

Curtas

– Gary White é o técnico mais novo a trabalhar numa seleção, aos 24 anos, e o mais jovem a treinar um país em eliminatórias, aos 25. Sob seu comando, Ilhas Virgens Britânicas subiu 28 posições no período, enquanto Bahamas melhorou 55 colocações, em setembro de 2006.

– Em entrevista a BBC, White disse que deseja trabalhar nas ligas de Coreia do Sul e Japão nos próximos anos, mas tem vontade de treinar um time na Premier League. Seu grande objetivo na carreira é trabalhar na seleção da Inglaterra.

– A estrela de Guam é o atacante Ryan Guy, nascido nos Estados Unidos, mas com pais guameses. Ele tem 27 anos e joga no New England Revolutions, da MLS. Há outros atletas no futebol universitário estadunidense, o atacante John Matkin, na Índia, e quatro em Filipinas. Seis jogadores jogam no futebol local. O artilheiro é o meia e capitão Jason Cunliffe, com 13 gols. Ele atua no Pachanga, de Filipinas e é nascido em Guam.

– A seleção jogou 71 vezes, com 13 vitórias, quatro empates e 54 derrotas. Foram 84 gols marcados, mas 462 sofridos. Em 2009, a seleção perdeu de 12 a 0 para Hong Kong, mas três anos depois foi derrotada por apenas 2 a 1. A pior derrota é 21 a 0 a favor da Coreia do Norte, em 11 de março de 2005.

– O maior campeão da liga nacional é o Guam Shipyard, com nove troféus, seguido pelo Quality Distributors, com seis, que venceu cinco das últimas seis temporadas. Em 2004, o time sub-18 da seleção levou o caneco. E pasmem: tem segunda divisão. Em 2012-13, o Xtra Krispy foi o lanterna do torneio, com um ponto em 16 jogos (0v, 1e, 15d), 17 gols marcados e 103 sofridos. O time da Trivela ganha deles de goleada!


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