Grupo a grupo, o que podemos esperar da Copa Africana de Nações

Quem são os favoritos? Quais os possíveis destaques? Mostramos o que esperar da CAN 2015, que começa neste sábado

Estrelas do futebol mundial como Yaya Touré. Jogadores que estão se destacando na Europa como Bony, Gervinho, Aubameyang, Brahimi e tantos outros. Muita malemolência, bom futebol e a certeza de que nada é certo, afinal, uma das marcas da Copa Africana de Nações, que terá o início de sua edição 2015 neste sábado, é que sempre ocorrem surpresas no torneio. Em 2012, por exemplo, Zâmbia foi campeã, e na edição atual, a Nigéria, que venceu o último campeonato, foi eliminada logo nas Eliminatórias. Esses são apenas alguns dos vários motivos que fazem da CAN um torneio ímpar e muito interessante de se acompanhar, e escrevemos sobre eles nas linhas a seguir.

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Grupo A
Aubameyang, o craque do Gabão (Foto: AP)
Aubameyang, o craque do Gabão (Foto: AP)

Não é uma opinião, é um fato: um dos problemas do futebol africano é a falta de organização e profissionalismo. E a própria Copa Africana de Nações exemplifica isso. O torneio seria sediado pelo Marrocos, que desistiu de organizar o evento por conta do ebola. A Confederação Africana de Futebol, então, resolveu passar a bola para Guiné Equatorial. Os donos da casa, no entanto, não iriam participar da CAN inicialmente. Por usar um jogador ilegível, o país tinha sido banido das Eliminatórias, mas, mesmo com a punição, acabou sendo escolhido como anfitrião e ganhou vaga direta na competição.

Também existem fatos inusitados na equipe. Guiné Equatorial tem um time sem muita experiência internacional. Nenhum jogador convocado tem sequer 30 aparições pelo país, sendo que os dois nomes de maior talento no elenco são Emilio Nsue e Rubén Belima, dois meias que nasceram na Espanha, mas por serem filhos de pais equato-guineenses, optaram por defender os Nzalang. No entanto, mesmo sendo os principais expoentes técnicos do time, sequer existe a certeza quanto a titularidade de ambos, já que os dois atuaram poucas vezes pelo país. Nsue, de 25 anos, defende o Middlesbrough e jogou apenas duas vezes com a camisa de Guiné Equatorial, enquanto Belima, de 22, joga pelo Real Madrid Castilla e só defendeu a seleção uma vez.

Além disso, os Nzalang serão comandados por um treinador que só está no cargo a pouco mais de uma semana. O argentino Esteban Becker, que comandou a seleção feminina do país e levou o escrete ao título continental em 2012, assumiu o comando no dia 6 de janeiro, substituindo o espanhol Andoni Goikoetxea, demitido em 31 de dezembro por não ter acompanhado os jogadores durante uma sessão de treinos em Portugal.

O interessante é que Guiné Equatorial disputará apenas sua segunda edição da CAN, e na primeira, em 2012, aconteceu a mesma coisa: o técnico brasileiro Gilson Paulo substituiu o francês Henri Michel apenas 20 dias antes do início do torneio. O resultado quando co-sediou o torneio com Gabão, porém, foi bom, com o avanço até as quartas de final.

Mas os donos da casa terão vida complicada para avançar à fase final desta vez. O grupo dos anfitriões conta com Burkina Faso, Gabão e Congo. Finalista da última edição, vencida pela Nigéria, Burkina Faso tem uma seleção mais experiente e conta com jogadores mais talentosos e conhecidos do público, como Alain e Bertrand Traoré, Pitroipa e Kaboré. A seleção gabonesa, por sua vez, aposta suas fichas na estrela do Borussia Dortmund, o excelente atacante Pierre-Emerick Aubameyang, enquanto Congo tem uma equipe com mais experiência internacional que os Nzalang. A chave é muito equilibrada e imprevisível, com um leve favoritismo de Burkina Faso.

Grupo B
Kidiaba estará presente pelo Congo (Foto: AP)
Kidiaba estará presente pelo Congo (Foto: AP)

Campeã em 2012, Zâmbia não terá vida fácil para avançar à fase final. Apesar de um time experiente e com muitos jogadores campeões três anos atrás, como os destaques Mayuka, Sinkala e Kalaba, além do bom meio-campista Mulenga, os Chipolopolos terão pela frente três adversários complicados. O primeiro deles é a Tunísia, que conta com bons nomes como Hamza Younés, atacante que é um dos destaques do Ludogorets, além de Saber Khalifa, Ben Youssef e Msakni. Além disso, o técnico Georges Leekens conseguiu conciliar o talento e a experiência com a juventude: apenas três jogadores convocados têm mais de 28 anos: dois têm 30 e um tem 31.

Já os outros dois times da chave não são forças do continente, mas podem complicar e mostrar que o favoritismo de Zâmbia e Tunísia é apenas teoria. Cabo Verde foi quadrifinalista na última edição, enquanto a República Democrática do Congo foi responsável por eliminar a atual campeã Nigéria nas Eliminatórias. A seleção tem o lendário Kidiaba com a camisa 1 e Bolasie, que faz boa temporada pelo Crystal Palace, como destaque.

Grupo C
Slimani, da Argélia (Foto: AP)
Slimani, líder do ataque da Argélia (Foto: AP)

É a chave que engana. Apesar de todas serem camisas pesadas no continente, o favoritismo de Gana e Argélia é considerável para cima de África do Sul e Senegal. O experiente treinador Avram Grant convocou o que tem de melhor para as Estrelas Negras: Asamoah Gyan, André Ayew, Atsu, Badu, Wakaso e companhia foram chamados. A grande ausência é Kwadwo Asamoah, mas nada que tire de Gana a condição de ser uma das favoritas ao título.

A outra favorita da chave, a Argélia, vem com praticamente o mesmo bom elenco que fez uma ótima Copa do Mundo no Brasil. As Raposas do Deserto de Brahimi, Slimani, Feghouli, Bentaleb, Lacen, Belfodil e Taïder contam com um dos melhores setores ofensivos do torneio, com um ótimo meio-campo e um ataque perigoso com Slimani em grande fase no Sporting, enquanto o meia Brahimi brilha no rival Porto. Além disso, o organizado setor defensivo e a boa Copa do goleiro Raïs M’Bolhi fazem da Argélia uma das principais candidatas para levantar o caneco.

Em contrapartida, África do Sul e Senegal decepcionam. Os Bafana Bafana estão em conhecida decadência, enquanto os Leões de Teranga não contam com a força de 2002. É verdade que Senegal tem uma boa dupla de ataque: Papiss Cissé e Moussa Sow, e outros bons jogadores, além da atração de ter Alain Giresse, um dos integrantes do Carré Magique da França na década de 80 com Platini, Tigana e Fernández, no comando técnico. Como treinador, porém, Giresse está longe de ter o brilhantismo dos tempos de jogador.

Grupo D
Conseguirá Bony levar a Costa do Marfim ao título? (Foto: AP)
Conseguirá Bony levar a Costa do Marfim ao título? (Foto: AP)

Costa do Marfim sem Drogba, Camarões sem Eto’o e Song, um bom time de Mali e Guiné querendo surpreender. O grupo D é muito interessante e promete ter bons duelos. Os Elefantes contam com o time mais experiente e talentoso: Yaya Touré, Gervinho, Bony e Doumbia são os destaques, além de nomes conhecidos como Kalou, Lacina Traoré, Kolo Touré, Barry, Tiéné, Tioté, Gradel e Aurier. A equipe mais forte, no entanto, nunca conseguiu conquistas mesmo quando Drogba ainda defendia a seleção. Foram seguidos fracassos em Copas do Mundo e desilusões na Copa Africana de Nações.

A luta para enfim ganhar o torneio e acabar com o jejum que perdura desde 1992, desta vez sem sua maior estrela, apesar ter o melhor jogador africano nos últimos anos, não será fácil. Mesmo com o timaço, os marfinenses estão em uma chave difícil e se classificaram no sufoco nas Eliminatórias, com um empate controverso no último jogo contra Camarões. A capacidade para jogar bonito e ser campeão é enorme, mas a fase não é das melhores.

Os Leões Indomáveis, por sua vez, surpreendem. Sem grandes sustos nas Eliminatórias, o time está longe de ser talentoso e jogar um futebol vistoso, mas Volker Finke tem conseguido resultados após o fracasso completo e esperado na Copa do Mundo. O panorama não era dos melhores com as aposentadorias das principais estrelas da seleção: Eto’o e Song – o último, por não ser convocado desde o fim da participação dos camaroneses no Mundial – e os problemas de estrutura e falta de profissionalismo no futebol do país, que prejudicam a revelação de novos talentos. No entanto, mesmo com tudo contra e a previsão da continuação de um desastre, Camarões, liderado por Mbia, Choupo-Moting, Aboubakar e Moukandjo, está conseguindo se virar bem. Resta ver se conseguirão o avanço com mais pressão e adversários mais fortes na CAN.

As seleções de Mali e Guiné, por outro lado, podem muito bem causar espanto. Comandada pelo polonês Henryk Kasperczak, Mali, que tem um meio-campo coeso e um time forte e veloz, aposta suas fichas na organização e experiência, algo bem retratado na figura de Seydou Keita, que ainda é o principal nome da equipe. Já as esperanças da seleção de Guiné estão nos gols do atacante Ibrahima Traoré e em um time jovem, mas com muita rodagem no futebol europeu.