Grêmio foi do 3º lugar em 1990 ao rebaixamento em 1991, e é difícil explicar por que

A longo prazo, o futebol é feito de ciclos. Por melhor que seja uma equipe, e por mais duradoura que sua fase áurea possa ser, uma hora os tempos de glória passam. Foi assim com o Real Madrid dos anos 1960, o São Paulo da segunda metade da década passada, o Lyon de Juninho Pernambucano e o Manchester United da era Premier League. Com o Grêmio da década de 1980 não foi diferente. Depois de um período de ouro entre 1981 e 1983, um hiato de alguns anos e o hexacampeonato gaúcho entre 1985 e 1990, o período glorioso passou. O duro daquela transição para o Tricolor foi a maneira drástica como aconteceu. Do terceiro lugar e melhor campanha na fase regular no Brasileirão de 1990 ao rebaixamento em 1991, em questão de seis meses. O pior de tudo: sem nenhum grande motivo que ajude a entender o declínio repentino.

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“A ordem é atacar.” Com essa manchete, o guia da Placar indicava o Grêmio como um dos favoritos na disputa pelo Campeonato Brasileiro de 1990. O time havia feito uma boa campanha na conquista de seu sexto título consecutivo de Gauchão. Na última rodada do quadrangular final, aplicara uma goleada por 4 a 1 sobre o Internacional, terminando a fase de maneira invicta, com três vitórias e três empates. Para o Brasileirão, Evaristo de Macedo manteve a base do time, fazendo algumas alterações pontuais, com as contratações de Donizete Oliveira para o meio de campo e de Maurício para o ataque, no qual sentira uma deficiência após a eliminação na Copa do Brasil daquele ano.

No Tricolor, Maurício reencontraria Nílson, com quem fizera a dupla de ataque do Internacional vice-campeão brasileiro de 1988. A montagem da equipe deu resultados na Série A daquele ano, e o Grêmio terminou a fase de classificação do torneio com a melhor campanha entre todos os 20 clubes. Depois de passar pelo Palmeiras nas quartas de final, não resistiu ao São Paulo no Morumbi, perdendo o primeiro jogo por 2 a 0, e o triunfo na volta por 1 a 0, no Olímpico, acabou não sendo suficiente para avançar à final. Mesmo sem chegar a disputar a decisão, terminou o ano com um saldo positivo – incluindo aí um triunfo sobre o Vasco, campeão brasileiro de 1989, na Supercopa do Brasil, no primeiro semestre – e a imagem de uma das melhores equipes do país.

De 1990 para 1991, a única mudança significativa havia sido a saída de Evaristo de Macedo, que deixou o comando técnico do time para assumir o Cruzeiro. Para seu lugar, chegou Cláudio Duarte. Fora isso, tudo seguia com pouquíssima alteração. Para se ter uma ideia, a única mudança da escalação do time que vencera o São Paulo, no Olímpico, em 8 de dezembro, para o que bateu o Goiás, por 3 a 2, na estreia do Brasileirão de 1991, em 4 de fevereiro, foi a entrada de China na lateral direita, no lugar de Alfinete.

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A equipe tricolor tinha bastante qualidade no papel: Donizete Oliveira e Assis no meio de campo, Maurício e Nilson no ataque. Embora o segundo não tivesse a maior das intimidades com a bola, se entendia muito bem com o primeiro. Posteriormente o alvo preferido da torcida gremista, Nílson, com dois gols, foi o grande destaque do triunfo sobre o Esmeraldino, que acabaria representando um terço de todos os do Grêmio naquele campeonato.

O primeiro pequeno choque de realidade veio logo na segunda rodada, com a derrota por 4 a 2 para o Atlético Paranaense, fora de casa, com a partida sendo definida rapidamente, já que o Furacão tinha conseguido abrir 3 a 0 ainda no primeiro tempo. Na sequência, o Tricolor teve um Gre-Nal pela frente, apenas empatou sem gols no Olímpico, e o tropeço, que na hora pode ter parecido ruim, acabou sendo um dos alívios de todo o torneio. Afinal, o que viria posteriormente era infinitamente mais decepcionante.

Após o encontro com o Inter, as derrotas para Atlético Mineiro e Fluminense, ambas fora de casa, levantaram o sinal de alerta no Tricolor. Com apenas três pontos conquistados e batendo à porta da zona de rebaixamento, figuras importantes do clube já discutiam o que acontecia com o hexacampeão gaúcho. Fábio Koff, então presidente do Conselho Deliberativo da agremiação, pedia reação imediata nas páginas do Zero Hora: “A verdade é que tem que se reverter esta situação sob pena dos adversários perderem o respeito pelo Grêmio. O futebol funciona como um tobogã: o time perde tanto que os adversários passam a jogar de igual para igual: se tornam grandes”.

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Com o time caro para os padrões da época com que contava o Grêmio, Paulo Odone também confiava plenamente na reação, achando injustificável a situação, enquanto outros dirigentes, ainda que admitindo a crise, não entendiam seu motivo. O que parece mais se aproximar é o nervosismo: a situação negativa foi crescendo como uma bola de neve, e a cada partida o resultado da semana interior voltava para assombrar os atletas e tornar mais pesadas suas pernas. Após a oitava rodada, com apenas a vitória na estreia e cinco pontos conquistados, o empate sem gols com o Flamengo no Olímpico foi o fim da linha para Cláudio Duarte. O eleito para tirar o time do buraco foi Dino Sani, campeão do mundo como jogador em 1958 e já treinador há mais de duas décadas. A passagem pelo Tricolor, inclusive, foi o último suspiro da carreira do técnico no Brasil.

Paralelamente ao buraco sem fundo no Brasileirão, o Grêmio ia passando, aos trancos e barrancos, pelas fases da Copa do Brasil. Foi nela, contra o fraco Fluminense de Feira de Santana, que Dino Sani conseguiu sua primeira vitória, levando o time às quartas de final contra o Corinthians.

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O momento ruim não era superado com união de time e torcida. Com razão, os gremistas cobravam pesado o elenco e a diretoria. Presidente na conquista do Mundial Interclubes em 1983, Alberto Galia, no cargo de diretor de futebol, tinha sua saída exigida pelos coros vindos da arquibancada do Olímpico. Dentro de campo, o grande alvo era Nílson, ainda que Caio, artilheiro do time em 1990. tenha levado 13 rodadas para marcar seu primeiro gol na competição. “(Nílson) É o atleta que apresenta maior deficiência técnica, pois não consegue nem controlar a bola, tal seu nervosismo”, relatava a Folha em matéria no começo de abril.

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A relação estremecida com a torcida era uma via de mão dupla, e o zagueiro João Marcelo, por exemplo, atribuía parte da culpa pela péssima fase da equipe também aos torcedores, que “tiravam a calma da equipe com as vaias”. E levou um bom tempo para que os torcedores tivessem outra chance de aplaudir o time. Apenas na 13ª rodada, contra o Sport, o Grêmio venceu seu segundo jogo no Brasileirão. O triunfo que culminou no fim do jejum de vitórias foi precedido pelo desespero bastante explícito da diretoria gremista. Além de diminuir o preço dos ingressos para atrair os torcedores e ganhar apoio na reta final, o presidente Rafael Bandeira dos Santos já falava que, mesmo que fosse rebaixado, o Grêmio não disputaria a segunda divisão.

Naquela época, de fato, era difícil ver um time grande disputar a segundona. Sempre dava-se um jeito: a mesa era virada, o campeonato era inchado, o que fosse necessário. Mas 1991 foi um anto atípico. O Tricolor teve, sim, que descer de escalão, mesmo que posteriormente o acesso tenha sido conquistado com aquela maneira sui generis brasileira.

A empolgação e as esperanças renovadas com o triunfo não duraram nada, sobretudo por não terem sequer tirado o time da lanterna da competição, e uma sequência de três tropeços contra paulistas (derrotas para Santos e Corinthians fora de casa e empate no Olímpico com o Bragantino) manteve o terror da iminente queda bem vivo. Contra o Cruzeiro, já a três jogos do fim, também não conseguiu emplacar sua terceira vitória, que só viria na penúltima rodada, contra o Vasco. Um 3 a 0, no Olímpico, com direito a dois pênaltis desperdiçados pelo Cruzmaltino, só para manter a emoção.

Por pior que tivesse sido a campanha até o fim da 18ª rodada, a vitória contra os vascaínos levou o Grêmio ao jogo derradeiro contra o Botafogo, no Caio Martins, precisando de apenas um empate para se salvar da queda para a segunda divisão. O Alvinegro fazia uma campanha apenas razoável, na 14ª colocação, e arrancar um empate do time não parecia uma missão impossível. Era plenamente alcançável. Só precisava ter dito isso para Pichetti. O atacante marcou duas vezes, no começo do primeiro tempo e logo após o apito inicial da segunda etapa, e Bujica fechou o caixão tricolor a poucos minutos do fim do jogo. O gol do lateral Chiquinho, aos cinco da etapa complementar, foi muito pouco para um gigante que queria se salvar, e o 3 a 1 rebaixou o Grêmio. Ironicamente, no lado carioca do confronto estavam figuras importantes no título do Mundial de 1983: o técnico Valdir Espinosa, o lateral Paulo Roberto e o ídolo tricolor Hugo De León.

Ainda que com resultados magros, a campanha do Grêmio na Copa do Brasil era a prova de que aquela queda era demais para um time com o potencial que tinha o Tricolor. Tendo eliminado o Corinthians nas quartas, os gremistas bateram o Coritiba apenas uma semana após o revés para o Botafogo, se garantindo na final do torneio. Teve pela frente o Criciúma, treinado por Luiz Felipe Scolari. Esteve muito perto de, ao mesmo tempo, disputar a Série B e a Libertadores. Acabou com o vice-campeonato decidido pelos gol qualificado, já que empatara por 1 a 1, no Olímpico, na ida, e não saiu do 0 a 0 em Santa Catarina.

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O retorno para a elite no ano seguinte veio de forma controversa. Pouco antes do início da Série B de 1992, ficou determinado que, em vez de duas equipes, subiriam 12. O Grêmio, mesmo na nona colocação ao final da segundona, acabou promovido para a elite no ano seguinte. No Brasileirão de 1993, o inchado campeonato de 32 equipes foi dividido em quatro grupos de oito clubes cada. Nos dois primeiros grupos, A e B, não haveriam rebaixados para a Série B de 1994, e, dos 12 times promovidos no ano anterior, apenas o Grêmio ficou em uma dessas chaves protegidas, por fazer parte do Clube dos 13. Todos os outros 11 tiveram de brigar pela permanência.

A queda em 1991 foi a primeira de um dos 12 grandes clubes após a adoção de um sistema de promoção e rebaixamento minimamente estável. Não que ambas as situações tivessem sido já superadas, como as viradas de mesa seguintes viriam a provar. Até a queda do Palmeiras em 2002, o pensamento entre os clubes era aquele do presidente do Grêmio em 1991: de que time grande pode cair, mas não joga a Série B. O Grêmio jogou – e voltou de forma tão inexplicável quanto foi seu declínio técnico que culminou no rebaixamento. Não tinha time para cair, mas caiu. Não mereceu a promoção para a Série A em 1992, mas a ganhou.