A indignação é inescapável diante da agressão ocorrida nas arquibancadas do Beira-Rio após o Gre-Nal do sábado. Ainda que alguns tentem “grenalizar” o debate, seja por clubismo ou por outras motivações, nada justifica a violência. Que possam alegar certa “imprudência” da mãe gremista, não cabe relativizar. As vítimas são claras e a situação poderia ser manejada de inúmeras outras maneiras. Portanto, repito: nada justifica a violência. Nada. Os responsáveis pela agressão precisam arcar com as consequências, é o óbvio. Nada justifica a violência.

Ao longo das últimas horas, as duas principais personagens do episódio vieram a público. Taís Dias, a torcedora gremista agredida ao lado do filho, preferiu aguardar um ‘momento oportuno’ para dar a sua versão. De qualquer maneira, através de seu Instagram, agradeceu as palavras de força direcionadas às suas redes sociais e o auxílio prestado pelo Grêmio. Enquanto isso, a torcedora do Inter conversou com a reportagem da GaúchaZH, sob a condição de não ser identificada. Deu sua versão, afirmando ter realizado “um ato impulsivo” e declarando que “não gostaria de ter agredido, nem assustado ninguém”. Diego Camargo, outro colorado também filmado, se disse com “a consciência tranquila” à GaúchaZH.

Ante o episódio, Grêmio e Internacional tomaram posturas exemplares. E não poderia se esperar nada diferente. Apesar da incompreensão demonstrada nas arquibancadas do Beira-Rio, os dois clubes têm trabalhado em conjunto diante de causas justas. No início do mês, enquanto o Inter abriu os portões do Gigantinho para abrigar moradores de rua, o Grêmio doou cobertores e mantimentos para a ocasião.  As ações contaram com a participação das diretorias e também das torcidas. Além disso, antes do clássico deste sábado, os dois clubes fizeram uma ação com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol para combater as manifestações preconceituosas no esporte e na sociedade. Infelizmente, a cena da agressão foi seguida por insultos racistas, o que necessita de igual responsabilização, apesar dos esforços contínuos dos gremistas.

Nesta segunda-feira, o Inter anunciou a suspensão temporária da torcedora envolvida na confusão. A agressora foi identificada e os colorados confirmam que ela pertence aos quadros sociais do clube. Além dela, outros dois envolvidos foram denunciados à ouvidoria e terão seus casos analisados pela Comissão de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo. “Ressaltamos, mais uma vez, que o Clube do Povo não compactua com nenhum tipo de violência ou discriminação”, enfatizou a nota dos colorados.

Mais importante, o Inter também colaborará com a devida apuração da justiça. O clube forneceu as imagens e a identidade dos envolvidos à Promotoria Especial do Torcedor, parte do Ministério Público, que iniciou as investigações nesta segunda-feira. A questão esportiva abrange boa parte do debate público, mas é necessário levar adiante as imputações criminais ligadas a qualquer tipo de agressão ocorrida dentro de um estádio de futebol. A impunidade recorrente é o que, tantas vezes, motiva a repetição de cenas tão grotescas.

A Polícia Civil também intimou dez pessoas, que prestarão depoimento sobre a agressão. Serão ouvidos a mulher colorada e outros dois homens que participaram da intimidação, além de um funcionário do Internacional. “Pretendemos ouvir as pessoas já identificadas hoje à tarde, as que conseguirmos intimar. A ideia é tomar os depoimentos possíveis primeiro e depois dar um panorama da investigação”, declarou o delegado Miguel Mendes Ribeiro, ao Globo Esporte, explicando que, mesmo sem o registro do Boletim de Ocorrência, o Estatuto do Torcedor exige que este tipo de manifestação seja investigada. “As questões referentes ao âmbito das práticas desportivas, na forma do Estatuto do Torcedor, são de interesse público e devem ser investigadas independentemente de manifestação ou interesse pessoal dos envolvidos”.

Enquanto isso, Grêmio e Inter se aproximam justamente para prestar solidariedade à torcedora agredida e ao seu filho. Em suas redes sociais, jogadores de ambos os clubes se manifestaram espontaneamente. Everton Cebolinha pediu a identificação de Taís e afirmou que os jogadores tricolores estão “bolando algo bem especial” para confortar a família. Já entre os colorados, as principais mensagens vieram de Nico López e Edenilson. O atacante escreveu uma postagem pedindo desculpas em nome do Internacional. “Nós ficamos muito tristes com o que aconteceu ontem no Beira-Rio. Sempre recebemos bem as pessoas na nossa casa e peço desculpas. Sou pai e fiquei triste mesmo. Gostaria de mandar uma camisa minha, do Inter, para seu filho como pedido de desculpas”, declarou o uruguaio.

Enquanto o Grêmio assessora as vítimas, o Internacional estuda fazer uma ação em conjunto com o Tricolor. Quer unir os jogadores que se manifestaram, de ambos os times, para um encontro com a família. Enquanto Taís e o garoto agredido são gremistas, o marido da torcedora e seu outro filho são colorados. Segundo o relato do Departamento do Torcedor Gremista, a família estava no setor destinado ao Inter por não conseguir ingressos para a torcida mista e o menino tricolor queria ficar mais próximo de sua torcida. Taís retirou a camisa do Grêmio da bolsa cerca de 15 minutos após o clássico, para acenar a outros gremistas, quando não notou que alguns colorados permaneciam próximos. A intenção é transmitir outra mensagem.

Neste primeiro momento, o objetivo é claro: confortar o menino diante do trauma sofrido. É o mínimo, para que a lembrança do Gre-Nal não acabe marcada apenas pelas lágrimas e pela agressão que sofreu, nem que isso o impeça de continuar frequentando estádios de futebol. No entanto, é preciso ir além. As imagens do clássico reforçam o discurso de que as “famílias não são bem-vindas nas arquibancadas”, ainda mais em um jogo de rivalidade. E o trabalho para mudar essa impressão é bem mais delicado. É algo que depende não apenas da solidariedade e da responsabilização, mas de uma conscientização que vai além.

A violência, seja física ou verbal, não está restrita no futebol a determinadas torcidas, a determinadas regiões, a determinados grupos políticos. É um problema bem mais amplo, afinal, correspondente a uma sociedade com sérios problemas educacionais e de relacionamento. O episódio do Gre-Nal se torna um caso restrito, mas que pode ser observado de maneira mais abrangente. Por isso mesmo, é necessária uma resposta contundente. Ela é feita a partir da fraternidade de Grêmio e Internacional, assim como pela ação contra os agressores. Neste primeiro momento, é o que acaba sendo o palpável.

O menino e a mãe receberão uma dose de apoio, mas ainda mais difícil é reparar os efeitos que as imagens continuarão provocando – seja no garoto, seja em quem a assistiu. Quando se pensar na segurança de levar uma criança ao estádio, a agressão virá antes à mente do que qualquer outro gesto solidário. Nisso, dissolve-se uma geração de torcedores que ficará em casa, diante da televisão ou do videogame, a “correr o risco” de se dirigir ao estádio. Perde o futebol brasileiro e perde a sociedade como um todo.

Felizmente, a indignação ainda impera diante de cenas tão repugnantes, mesmo que alguns prefiram utilizá-las para interesses específicos. Mas não se pode ver isso apenas como reflexo de uma rivalidade, e sim como a enfermidade de um país onde a “grenalização” vai muito além dos estádios. Nesta frente, as soluções passam longe dos simplismos e das caças às bruxas. O futebol precisa ser uma ferramenta contínua para promover o diálogo e impedir que o diferente seja visto como inimigo. É o que Grêmio e Inter também vêm tentando fazer, em ações que não podem se restringir apenas aos clubes, mas que precisam ser sentidas também nas arquibancadas.

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