Pensando no impacto da paralisação do futebol sobre a preparação física dos jogadores e também no menor intervalo entre partidas, a Fifa permitiu que cinco substituições sejam realizadas até o final do ano. A mudança na regra pode ser um caminho sem volta e influencia bastante a dinâmica do jogo. Estratégias dos treinadores mudarão, enquanto as equipes com elencos mais recheados (consequentemente, as mais ricas) poderão ter certa vantagem sobre os seus adversários. Será interessante acompanhar os efeitos de tamanha modificação dentro dos próximos meses.

E as histórias de outras tantas partidas seriam diferentes com mais alterações. A partir de uma sugestão do amigo Paulo Junior, aproveitamos para fazer um exercício de imaginação: quais duelos poderiam ver seus rumos realmente transformados com mais substituições? Consideramos jogos de mata-matas por Copa do Mundo, Eurocopa, Olimpíadas, Libertadores e Champions League. Além disso, foram levados em conta apenas os compromissos ocorridos a partir de 1995, quando as três trocas (sem qualquer limitação relativa aos goleiros) já estavam estabelecidas.

A ideia era analisar diferentes circunstâncias que mudaram a direção dos jogos: expulsões, lesões, jogadores sem as melhores condições físicas, desgaste ou mesmo o peso do placar. A presença de atletas renomados no banco de reservas também orientou parte das escolhas. Além do mais, em alguns casos o olhar não se limita ao lado perdedor ou mesmo ao fato de que todas as alterações não foram gastas. A intenção é pensar um pouco mais na maneira como as estratégias adotadas pelos treinadores seriam diferentes com mais cartas na manga, podendo alterar suas táticas ou melhorar as condições de sua equipe.

Pensou em mais alguma partida? Discorda de alguma das menções? A caixa de comentários está aí para ampliar a discussão.

França 4×2 Croácia (2018)

A Croácia chegou à final da Copa do Mundo com várias pequenas lesões entre os seus titulares. Nomes como Ivan Perisic, Mario Mandzukic e Ivan Strinic não estavam 100% para encarar a França. No entanto, a maior preocupação ficava ao goleiro Danijel Subasic. Embora tenha sido herói contra a Inglaterra nas semifinais, o arqueiro machucou a coxa e ficou com sua mobilidade visivelmente afetada. Talvez por isso o técnico Zlatko Dalic só tenha usado duas substituições naquela partida – Andrej Kramaric no lugar de Ante Rebic e Marko Pjaca na vaga de Ivan Strinic. Mais trocas poderiam ter possibilitado uma reação no segundo tempo, quando os Bleus abriram vantagem. Mateo Kovacic (que também não estava 100%) e Milan Badelj eram opções entre os reservas.

Argentina 0x0 Holanda (2014)

A Holanda conquistou sua classificação nas quartas de final da Copa do Mundo, contra a Costa Rica, muito graças a Tim Krul. O goleiro saiu do banco de reservas durante a prorrogação e liderou a Oranje na disputa por pênaltis. Contra a Argentina, porém, Louis van Gaal não pôde repetir a artimanha. Os holandeses queimaram duas substituições no segundo tempo, com as entradas de Daryl Janmaat e Jordy Clasie. Já durante a prorrogação, Van Gaal optou pela troca de Robin van Persie por Klaas-Jan Huntelaar para dar mais gás ao ataque. Jasper Cillessen ganhou um voto de confiança no gol, mas não pegou qualquer penal da Argentina, que avançou à decisão. Vale lembrar ainda que Javier Mascherano jogou os últimos minutos no sacrifício, também pelas três trocas já realizadas por Alejandro Sabella.

Brasil 1×7 Alemanha (2014)

A semifinal no Mineirão seria a melhor maneira de saber o efeito que um “tempo técnico” teria no futebol. Quando o Brasil vivia o seu apagão de cinco minutos, Felipão deveria ter pedido um tempo. Ou, se tivesse mais alterações na manga, talvez já realizasse a primeira após o terceiro ou o quarto gol da Alemanha no 7 a 1. Evitaria a derrota? Muito provavelmente, não. Mas a pancada poderia doer bem menos. A Seleção gastou suas duas primeiras trocas na volta do intervalo, com Ramires e Paulinho nas vagas de Hulk e Fernandinho. Depois, a 20 minutos do fim, Willian suplantou Fred. Mas tinha muito mais gente ali para sair. David Luiz, Dante e Bernard seguiram em campo, mesmo com atuações desastrosas. Já no banco, nomes como Daniel Alves, Hernanes e Jô poderiam ser importantes para mexer com os brios da equipe.

Alemanha 1×1 Argentina (2006)

Muitos torcedores argentinos questionam a postura de José Pekerman na eliminação da Albiceleste na Copa do Mundo de 2006. Quando o time vencia em Berlim, Pato Abbondanzieri saiu machucado e Hernán Crespo deu lugar a Julio Cruz no ataque. O problema foi a escolha em tirar Juan Román Riquelme, um cara que prendia a bola, para colocar Esteban Cambiasso e fechar a casinha. Na pressão, a Alemanha empatou a dez minutos do fim, com Miroslav Klose. Os argentinos não puderam fazer mudanças na prorrogação, quando eram melhores. Lionel Messi, Pablo Aimar, Rodrigo Palacio e Javier Saviola estavam entre as alternativas no banco. Já nos pênaltis, o papelzinho de Jens Lehmann fez a diferença e o goleiro pegou as cobranças de Roberto Ayala e Esteban Cambiasso.

Brasil 1×2 Camarões (2000)

O Brasil caiu nas quartas de final dos Jogos Olímpicos de 2000, derrotado por 2 a 1 mesmo após a expulsão de dois jogadores camaroneses. Mais alterações poderiam ter ajudado Vanderlei Luxemburgo a evitar o drama. Os Leões Indomáveis saíram na frente aos 17 minutos da etapa inicial e a Seleção já tinha queimado suas três trocas antes dos 15 do segundo tempo. Lúcio e Roger Flores entraram na volta do intervalo, enquanto Geovanni substituiu Lucas Severino no ataque pouco depois. O banco limitado nas Olimpíadas deixava poucas opções, mas o meia Edu seria uma boa alternativa para dar mais gás no lugar de um dos volantes – Marcos Paulo ou Fabiano. Camarões teve a primeira expulsão a 15 minutos do fim, quando Geremi Njitap recebeu o segundo amarelo, antes que Ronaldinho empatasse nos acréscimos. Já no início da prorrogação, Aaron Nguimbat também foi expulso. Com nove atletas em sua equipe, Modeste M’Bami garantiu a classificação dos africanos aos oito minutos do segundo tempo extra.

Grécia 1×0 Portugal (2004)

Portugal bem que pressionou a Grécia, mas não conseguiu evitar sua derrota na final da Eurocopa de 2004. Mais substituições poderiam facilitar o caminho de Felipão naquela partida em Lisboa. O lateral Miguel precisou sair de campo aos 43 minutos, lesionado. No segundo tempo, logo após o gol de Angelos Charisteas, Rui Costa aumentou o poder de ataque no lugar de Costinha. Além disso, Nuno Gomes veio para dar novo fôlego à linha de frente, suplantando Pauleta. Seria difícil sacar Cristiano Ronaldo, Luis Figo ou Deco do time, mas, diante do desespero no fim, Simão Sabrosa ou Hélder Postiga poderiam entrar no lugar de algum homem da defesa. Todavia, o placar magro preponderou e coroou a enorme zebra grega.

Espanha 4×0 Itália (2012)

A Espanha deu um baile contra a Itália na decisão da Euro 2012, mas as circunstâncias poderiam ser mais favoráveis a Cesare Prandelli naquela noite. Quando os espanhóis venciam por um gol de vantagem, Giorgio Chiellini se machucou e deu lugar a Federico Balzaretti aos 21 minutos. A Roja ampliou pouco antes do intervalo e, na volta dos vestiários, Antonio Cassano deu lugar a Antonio Di Natale. Já a terceira troca aconteceu aos 12, com Thiago Motta na vaga de Riccardo Montolivo. O problema é que o volante substituto também se lesionou pouco depois e, por meia hora, a Azzurra atuou com um a menos. O time de Vicente del Bosque se aproveitou no fim, anotando seus dois últimos tentos após os 39. Sebastian Giovinco, Antonio Nocerino e Emanuele Giaccherini eram opções no banco.

Barcelona 2×1 Arsenal (2006)

A decisão da Champions de 2006 foi condicionada pela expulsão de Jens Lehmann aos 18 minutos, o que forçou Arsène Wenger a trocar Robert Pirès por Manuel Almunia. O Arsenal abriu o placar com um jogador a menos e seguiu para o intervalo em vantagem. Durante o segundo tempo, Frank Rijkaard mudou a cara do Barcelona com as entradas de Andrés Iniesta (no lugar do lesionado Edmílson), Henrik Larsson (escolha tática, saindo Mark van Bommel) e Belletti (na cartada de sorte tirando Oleguer), enquanto Wenger trocou Cesc Fàbregas por Mathieu Flamini. Os dois gols blaugranas saíram depois disso, mas ainda restavam dez minutos no relógio para os Gunners tentarem a sua reação. Sobrou uma alteração, com José Antonio Reyes na vaga de Alexander Hleb. O veterano Dennis Bergkamp e o novato Robin van Persie sequer saíram do banco.

Barcelona 1×0 Internazionale (2010)

Após a derrota por 3 a 1 em Milão, o Barcelona tinha uma missão dura a cumprir nas semifinais da Champions League. E não conseguiu romper o ferrolho de José Mourinho dentro do Camp Nou. Pep Guardiola fez suas três trocas antes dos 20 minutos do segundo tempo. Maxwell entrou no lugar de Gabriel Milito na volta do intervalo, reconfigurando a defesa e dando mais qualidade no apoio. Yaya Touré recuou à zaga e Seydou Keita, inicialmente na lateral esquerda, passou ao meio. Bojan Krkic substituiu Zlatan Ibrahimovic na sequência, com Lionel Messi aberto na ponta desde o início. Depois, Jeffrén Suárez aumentou a mobilidade, com a saída de Sergio Busquets. O gol ocorreu apenas aos 38, quando Gerard Piqué estava improvisado como centroavante. Thierry Henry já havia passado seu melhor, mas era um nome experiente que terminou relegado ao banco.

Real Madrid 4×1 Atlético de Madrid (2014)

O gol de Sergio Ramos nos acréscimos do segundo tempo mudou a história da final da Champions. Não apenas por ter evitado o título do Atlético de Madrid nos últimos suspiros, mas também por ter dado sobrevida a um Real Madrid em condições físicas bem melhores. A escalação do lesionado Diego Costa foi um erro e Diego Simeone queimou sua primeira alteração logo aos nove minutos, com a entrada de Adrián López. Além disso, quando os colchoneros venciam, José Sosa e Toby Alderweireld foram trocas táticas do comandante no segundo tempo. Porém, os merengues forçaram o empate no finzinho e, durante os 30 minutos da prorrogação, tinham bem mais energia – mesmo sem mais trocas a fazer. Marcelo, um dos que saíram do banco, ajudou a desequilibrar. Ángel Di María foi outro que gastou a bola.

Manchester City 4×3 Tottenham (2019)

Em uma das melhores partidas da Champions passada, é curioso notar que o Manchester City fechou a noite com uma alteração a fazer. A equipe sufocou o Tottenham no segundo tempo e poderia ter saído com a classificação, não fosse a participação decisiva do VAR para anular corretamente o gol de Sergio Agüero no final. Ainda assim, Pep Guardiola poderia ter adotado outra estratégia (e, quem sabe, ter aumentado a pressão) caso o número de substituições fosse maior – quem sabe, soltando mais o time com um novo atacante para buscar o resultado favorável e depois aumentando a proteção defensiva com um zagueiro, se conseguisse a vantagem necessária. O comandante realizou duas trocas táticas, com Fernandinho e Leroy Sané nos lugares de David Silva e Benjamin Mendy. Ainda tinha à disposição no banco Gabriel Jesus e Riyad Mahrez. E vale lembrar que, contidos na defesa, os Spurs precisaram queimar a primeira troca antes do intervalo por lesão. Os celestes estavam mais inteiros fisicamente.

Flamengo 2×1 River Plate (2019)

A histórica conquista do Flamengo na Libertadores de 2019 teve a participação ativa dos treinadores. Enquanto Jorge Jesus acertou a mão em suas alterações, Marcelo Gallardo não foi tão feliz em suas escolhas. E dado o desgaste do River Plate em Lima, depois de um primeiro tempo tão intenso e também sob o clima abafado dentro do estádio, mais alterações viriam a calhar para os millonarios. Lucas Pratto, Julián Álvarez e Paulo Díaz foram os escolhidos por Gallardo naquela tarde, em substituições que visavam preservar o placar favorável aos argentinos. O banco tinha as opções de Juan Fernando Quintero, Ignacio Scocco e Leonardo Ponzio. Nem todos estavam em suas melhores condições físicas, mas talvez controlassem melhor a bola nos minutos finais, antes que Gabigol começasse a escrever o épico rubro-negro.

Grêmio 1×2 River Plate (2018)

O River Plate teve sua virada espetacular em Porto Alegre, com os gols anotados durante a reta final para garantir a classificação à decisão da Libertadores em 2018. Mas ter mais substituições seria bem-vindo a Renato Portaluppi naquela ocasião. O Grêmio tirou o lesionado Maicon e botou Éverton Cebolinha no início do segundo tempo. Aos 26, Paulo Miranda sentiu câimbras e Bressan veio ao seu lugar. E quando o River já tinha empatado, Thaciano era uma alternativa mais recuada para a vaga de Jael. A expulsão de Bressan foi determinante à virada dos millonarios, permitindo que Pity Martínez anotasse o gol decisivo de pênalti. Nos minutos que restaram, Renato não pôde recorrer a Marinho, Douglas ou Léo Moura no banco.

Atlético Mineiro 2×0 Olimpia (2013)

No fim das contas, tudo deu certo ao Atlético Mineiro. Leonardo Silva anotou o gol que forçou a prorrogação e, mais uma vez nos pênaltis, o inacreditável se repetiu para garantir o título da Copa Libertadores. Mas, com um elenco melhor, talvez o Galo passasse menos sufoco se tivesse mais substituições contra o Olimpia. Rosinei entrou bem no lugar de Pierre logo na volta do intervalo e até participou do primeiro gol, anotado por Jô. Alecsandro veio para o lugar do lateral Michel e Guilherme, um dos talismãs na campanha, suplantou Diego Tardelli. Ainda restaram as alternativas no banco de Leandro Donizete, Gilberto Silva e, sobretudo, Luan – que havia sido titular na vaga de Bernard em Assunção e poderia ter bagunçado o Mineirão, para evitar o novo sofrimento nos pênaltis. Ao menos, havia São Victor.

Fluminense 3×1 São Paulo (2008)

O Fluminense renasceu para avançar às semifinais da Libertadores, com um gol de Washington aos 46 do segundo tempo. O São Paulo, que tinha a vantagem no placar agregado até então, encerrou a partida com as presenças do zagueiro Juninho, do lateral Júnior e do atacante Borges no banco – todos candidatos a entrar em campo, se Muricy Ramalho tivesse trocas a mais. Quando o Flu vencia por 1 a 0 e forçava os pênaltis, o São Paulo voltou do intervalo com Joílson na posição de Jancarlos. Aloísio Chulapa substituiu Dagoberto antes que Adriano Imperador empatasse. Já depois do tento de Dodô, que retomou a vantagem ao Flu e ainda não tirava a classificação dos paulistas, Hugo deu espaço a Jorge Wagner. A expulsão de Joílson aos 38 da segunda etapa aumentou a pressão contra os visitantes, até o gol histórico de Washington.