Este é o terceiro capítulo da minissérie sobre o fictício novo país criado a partir da separação do Nordeste. Quer ler os outros capítulos? Clique aqui e veja mais sobre a URSA.

(Nota do editor: o texto original foi publicado em 2014 e, por isso, algumas informações sobre jogadores estão desatualizadas. Mantivemos como no original, que é o que faz sentido na narrativa da época)

Por Arthur Chrispin*

O jogo contra o Uruguai parou a Bahia. A Arena Jorge Amado estava superlotada, lembrando os tempos da elegância sutil de Bobô. O time da URSA estava pressionado, precisando de duas vitórias e um empate contra as três maiores forças do continente. A imprensa internacional não levava muita fé na classificação, embora a recuperação da “seleção cangaceira” estivesse sensacional.

As equipes se perfilaram para a execução dos hinos nacionais e “Asa Branca” foi cantada a plenos pulmões pela massa ensandecida. A Celeste Olímpica era experiente e acostumada à pressão, mas o estádio do bairro de Nazaré tinha virado uma panela de moqueca e isso se refletiu no jogo. Jogadas duras e ríspidas que exigiram muito da arbitragem no começo da partida.

Palito Pereira se aproveitou da única avenida baiana com trânsito livre na hora do rush – Avenida Daniel Alves – e cruzou na medida para Luisito Suarez abrir o placar: 0 a 1, aos 25 minutos de jogo. Um pouco antes do apito final do primeiro tempo, Edinson Cavani chutou cruzado, a bola desviou em Wallace e enganou Tiago Cardoso: 0 a 2.

No intervalo, Cristóvão Borges falou, esbravejou e bem nordestinamente deu um RELA no elenco, que voltou ligado para o segundo tempo. A catimba uruguaia começava a se mostrar e os nervos dos jogadores da U.R.S.A estavam à flor da pele, numa equação explosiva. Em um escanteio na área nordestina, Suárez relembrou seus momentos de Mike Tyson e mordeu Pepe, que revidou com um tapa na cara do uruguaio.

Na confusão, o atacante charrúa xingou a mãe do zagueiro. O capitão Hulk, transtornado, chegou no bololô e desferiu um direto contra Luisito, que perdeu os dois dentes da frente, se tornando um Tião Macalé cisplatino. Godin chegou na voadora, dando um chute nas costas do Hulk. No meio da pipoca do circuito Barra-Ondina que se transformou aquele momento, Suarez, Pepe, Godin e Hulk foram expulsos.

Cristóvão não acreditava no que via e decidiu fazer uma alteração. Olhou para o céu, como se pedisse uma ajuda aos orixás, e sacou Daniel Alves para a entrada de Chicharito Hernane. Em uma substituição que ninguém entendeu, tudo mudou. Numa jogada tipicamente baiana, como caruru, vatapá e acarajé, Gabriel tabelou com Talisca, que encontrou o Brocador cheio de volúpia, dando seu primeiro toque na bola. Muslera nada pôde fazer. A URSA diminuía e voltava para o jogo.

A torcida fez o papel de lateral-direito e zagueiro e o esquadrão nordestino se lançou ao ataque. O Uruguai se entrincheirava na defesa, evocando os espíritos de 1930 e 1950, mas quem é dos orixás não se intimida com ectoplasmas.

Um pouco antes dos 40 do segundo tempo, Wallace enxergou Gabriel na meiúca. Gabirobinha dominou a bola, entortou Abel Hernandez e partiu como uma flecha, de cabeça levantada. Deu um tapa de sinuca na redonda, que rolou macia e reanima até encontrar Talisca. Ali, tão perto do Dique do Tororó, o “Neymar com Dendê” emulou Xangô e deu um corte seco em cima de Jose Maria Gimenez, que virou oferenda na entrada da área uruguaia.

Quando Muslera sai do gol, recebeu um toque de cobertura tão sutil quanto o amor de Iemanjá. O gosto amargo da desilusão invadiu a boca cisplatina. A URSA empatava o jogo mais “Libertadores” daquelas eliminatórias. Hulk, nas arquibancadas depois da expulsão, vibrou com o desempenho do time.

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Contra a Argentina de Messi, sem o capitão Hulk

Flávio Caça-Rato, eterno
Flávio Caça-Rato, eterno ídolo

As semanas que antecederam o jogo contra a Argentina foram tensas. Cristóvão não resistiu ao clamor popular e convocou Pimentinha para o lugard e Hulk, suspenso. Para o lugar de Pepe, foi chamado Durval, para garantir a cota de experiência e catimba. Os jornais argentinos consideravam que a goleada seria algo normal. Em tom de deboche, o diário Ole colocou em sua capa “¿Messi o CR7?”, em alusão ao confronto entre o melhor do mundo e Flávio Caça-Rato, que nem titular seria. Os meios de comunicação da URSA se enfezaram com aquela manchete e Ronaldo Angelim, o coordenador da seleção, fez questão de colocar cópias por todo o vestiário.

Quando os times subiram para o campo da Arena Frei Caneca, o clima beligerante já estava formado em Recife, ou melhor, em São Lourenço da Mata. A Bombonera parecia brincadeira de criança perto da turba enlouquecida de torcedores, que cantaram o hino de Pernambuco à capela, saudando a nova Roma de bravos guerreiros. Os argentinos pareciam sentir o ambiente, exceto um: Lionel, que parecia – como sempre – alheio a tudo. Aquela cara natural de Messi, tão expressiva como Ricardo Macchi interpretando.

E Lionel deu o primeiro toque na bola para Pipita Higuaín, que devolveu e observou a Pulga enfileirar um, dois, três, quadro adversários da URSA, ajeitar o corpo na entrada da área e… Tomar uma traulitada de Wallace, que bateu com gosto, levantando o melhor do mundo a um metro do chão. Enquanto Messi rolava pela grama, ainda escutou o zagueiro filósofo esbravejar: “AQUI NÃO!”. De nada adiantou: na cobrança da falta, El Nuevo D10s abriu o placar, o gol mais rápido das eliminatórias: 0 a 1.

A torcida não desanimou e, enquanto a Argentina de Tata Martino jogava burocraticamente, a URSA ia crescendo em campo. Diego Costa e Hernane no ataque estavam batendo cabeça, mas tinham muita disposição. O jogo encaminhava-se para o intervalo com a vitória albiceleste, até que Hernanes acertou um chute de longa distância, tão longo que parecia ter sido desferido da sua cidade de Aliança, na Zona da Mata pernambucana. Um balaço que entrou no ângulo. Romero nem saiu na foto: 1 a 1 e o juiz apitou.

Cristóvão decidiu mexer. Tirou Diego Costa, apático, e colocou Pimentinha, o Messi do Nordeste. Uma aposta. E, movido pela intuição, tirou Hernane, herói do jogo contra o Uruguai, e colocou Flávio Caça-Rato. Ninguém entendeu nada, mas o Mourinho Afro não deu tempo para questionamentos, berrou um “Vamo!” e mandou o time voltar a campo. A torcida olhou Caça-Rato em campo de forma incrédula, mas resolveu dar um voto de confiança.

O jogo estava lá e cá, no segundo tempo – ou melhor, “lá e cá”, não, “lá e lô”, como se diz na URSA – e a grande personagem da partida era a trave, que havia salvo os nordestinos nos chutes de Higuaín, Di María e Rojo e bafejou a sorte dos argentinos em dois balaços de Hernanes e Daniel Alves. O empate tiraria as chances da classificação do novo país e isso seria frustrante.

De repente, o fenômeno meteorológico conhecido como “nuvi” ocorreu [nota da redação: “nuvi” é um forte temporal que dura aproximadamente três minutos e, quando você pergunta o que houve a um matuto sertanejo, ele responde calmamente: ‘foi uma nuvi no céu’]. No meio daquele temporal, Talisca espetou a bola na ponta esquerda para Pimentinha, que, malemolente, limpou Zabaleta e cruzou na medida para Caça-Rato. O tempo parou. Enquanto tomava impulsão, o menino Flavio lembrava das palavras de Hulk: “você ainda vai decidir pra gente!”. Abriu os olhos, fez pose e menção de goleador…

… Mas errou a cabeçada. A bola passou caprichosamente pela cabeça de Caça-Rato, que encontrou o vazio. Entretanto, a pelota bateu no ombro do artilheiro culposo, e esse desvio tirou Romero da jogada. Caprichosamente, a gorduchinha tocou no travessão, na linha fatal e entrou mansamente, sem sequer relar a rede. Foi um orgasmo só na coxinha, como se diria nos subúrbios. Mas só na coxinha também engravida e o gol nasceu. 2 a 1 e Caça-Rato saiu gritando “Eu tô aqui”, como se pudesse ser imperceptível aquela cabeleira lembrando Belo nos tempos de Soweto.

A Argentina tentou pressionar, mas a zaga da URSA estava mais intransponível do que a Serra de Tianguá em dia de nevoeiro. Wallace e Durval distribuíram técnica em progressão aritmética e bordoada em progressão geométrica. Até hoje, as canelas de Messi, Higuaín e Di María tem autógrafos da dupla nordestina. Hernanes, pra complementar, bateu pelo novo e pelo antigo testamento, e acabou expulso no final do jogo. Aguentando a pressão, o futebol cangaceiro conseguiu uma vitória heroica contra Los Hermanos, que choraram mais a derrota do que a banda homônima cantando “O Vencedor”.

A euforia tomou conta da URSA após a vitória contra a Argentina. O Ole publicou no dia seguinte a manchete: “CR Siente”, uma alusão a CR7. A equipe embarcou para o Brasil ao som da zabumba, triângulo e sanfona, capitaneados por Hulk, que voltava de suspensão. Neto Baiano foi deixado de fora para que Pimentinha assumisse seu lugar, e Durval se manteve no elenco pelo apoio moral, no lugar de Hernanes, suspenso.

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O último desafio: O Brasil, em São Paulo

O glorioso uniforme da URSA (contribuição do leitor @Miauti)
O glorioso uniforme da URSA (contribuição do leitor @Miauti, do Twitter)

A chegada do selecionado nordestino no aeroporto de Guarulhos teve sentimentos distintos. Enquanto a alfândega atrasava os procedimentos, vários funcionários cumprimentavam os jogadores, mostrando os uniformes da seleção embaixo das fardas de trabalho. O técnico adversário, Dunga, pregava respeito ao rival, mas dizia que o Brasil era amplo favorito e esperava a torcida lotando o Morumbi.

Desde o início da venda de ingressos, já se sabia que o jogo teria lotação esgotada. O que ninguém imaginava era que muitos nordestinos imigrantes comprariam entradas no setor brasileiro. Assim, em vez da carga de 10% dos ingressos, a torcida URSA dividiu o Morumbi com os locais. Antes do cotejo, cenas de violência eram vistas ao redor do estádio. A polícia paulista, sempre prestativa e carinhosa, distribuiu confeitos de borracha aos torcedores, além de cacetadas a granel.

O hino nordestino foi apupado por parte da torcida brasileira presente, que recebia, por sua vez, vaias da outra parte de brasileiros. Os jogadores da URSA cantaram “Asa Branca” com toda eloquência possível, embora nenhum deles pudesse se vangloriar de concorrer em programas de calouros. Os brasileiros, de mãos dadas, cantaram seu hino a capella. Antes do início do jogo, um silêncio sepulcral até o trilar do apito pelo juiz. Deu pra ouvir inclusive o narrador oficial soltando um “haaaaaaaaaaaaaaja coração” da cabine de TV. Aliás, o narrador passou por uma saia justa: uma faixa se desfraldou na torcida nordestina, escrita “Um só Brasil”. Enquanto o locutor tecia loas e dizia que as nações não deviam ter se separado, a frase toda se revelou: “Um só Brasil é o cacete! Vai, URSA”.

O time do Brasil tentava partir pra cima da URSA, que não se intimidava. Gabriel e Talisca entortavam seguidamente Thiago Silva e David Luiz, que apelavam para a violência sem nenhuma cerimônia. Do outro lado, Neymar e Lucas apanhavam mais do que carne de segunda virando bife, cortesia de Pepe, que só deixava passar a bola ou o jogador, jamais os dois juntos. Muita confusão e falácia ao fim do primeiro tempo, marcado por uma confusão. Dunga se dirigiu à torcida nordestina e fez um gesto afofando a cabeça, como se dissesse “cabeça chata”. Ao ser interpelado por um repórter, disse que estava apenas ajeitando o cabelo. O profissional de imprensa ainda questionou o fato do treinador brasileiro utilizar gel e o cabelo ficar imóvel, ao que foi interpelado com uma expressão carinhosa: “cagão”.

No intervalo, Hulk pediu a palavra. Lembrou aos companheiros a infância difícil, o quanto foram chamados de “paraíbas” e “baianos”, do preconceito e do povo sofrido. Recordou que as arquibancadas estavam divididas e que era necessário dar alegria àquele povo sofrido. Não quis tocar no assunto da seca, uma vez que São Paulo parecia cenário de Mad Max, mas lembrou do sertanejo, do matuto, do povo humilde e trabalhador. Cristóvão mais uma vez sacou Diego Costa para colocar Pimentinha. Porém, não quis abusar da sorte e deixou CR7 no banco.

O jogo começou frenético no segundo tempo. Neymar perdeu um gol daqueles que não se perde, dando uma caneta humilhante em Pepe que fez Angelim, atual auxiliar de Cristóvão, se lembrar daquele longínquo 2011. O escrete canarinho dominava o jogo e amassava os cangaceiros em campo, até que Pepe, na hora do sufoco, deu um bico pra frente e a bola caiu nos pés de Roberto Firmino, que matou a redonda a chamando de “meu amor”. De trivela, deu um tapa para Gabriel, que achou Daniel Alves na direita. O lateral da moda tabelou com Talisca e rolou para Pimentinha, que ergueu a cabeça e encarou David Luiz.

Pedalou pra lá, pedalou pra cá e deixou o zagueiro cacheado na saudade. Thiago Silva veio para acabar com a festa e tomou um elástico que saiu chorando. Pimentinha chegou à linha de fundo, dentro da área e cruzou pra trás, numa jogada típica de videogame dos anos 2000, aquele macete infalível. A bola encontrou Hulk, Givanildo, o orgulho de Campina Grande, que não perdoou e afundou Jefferson: URSA 1 a 0. Na comemoração, uma coreografia de WESLEY SAFADÃO feita pelo time inteiro.

O Brasil começou a se desesperar, uma vez que o resultado classificava a URSA e empurrava o maior vencedor de Copas do Mundo pela primeira vez para a repescagem. Pepe provocou Neymar e ambos se estranharam. O juiz achou melhor não expulsar ninguém. O sonic caiçara, com raiva, entortava seguidamente o zagueiro luso-alagoano. A bola, caprichosa, teimava em não entrar. Hulk saiu para a entrada de Hernane.

Os canarinhos já contavam com quatro atacantes em campo, e não conseguiam empatar o jogo. Em mais um contra-ataque, Gabriel achou Hernane, que driblou Jefferson, tocou pro gol e saiu comemorando com sinal de “acabou”, lembrando a Copa do Brasil de 2013: 0 a 2. Os jogadores brasileiros acharam uma provocação e começaram uma confusão, que envolveu todos os presentes em campo.

Brocador comemora
Brocador comemora

Ao mesmo tempo, na torcida da URSA partiu um drone com um chapéu de cangaceiro, que caiu placidamente no meio-campo. Não havia mais condições de jogo, o pau quebrou. A Conmebol declarou a U.R.S.A vencedora e o novo país se classificou para a primeira Copa do Mundo de sua história.

O Brasil ganhou do Bahrein na repescagem e manteve sua tradição de ir a todas as Copas, embora Dunga não fosse o técnico que iria conduzir o país no torneio. No sorteio, a URSA caiu no grupo A, junto com a Rússia, país-sede, e participando do jogo de estréia. O presidente Putin ficou tão feliz que, montado num leopardo, avisou que os russos jogariam com um uniforme retrô, lembrando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, na abertura do campeonato.

*Arthur Chrispin é gerente de logística, carioca com título de cidadão honorário da URSA, pai da Bubby e do Gabo, flamenguista e futuro escritor, com o primeiro livro a ser lançado em 2015. Escreve crônicas do dia-a-dia no Cotidiano e outras drogas.

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