Jorge Jesus não assistiu à vitória do Flamengo contra o Fortaleza ao vivo neste sábado. Ele estava presente no Wanda Metropolitano e acompanhou a final da Champions League ao lado do presidente do Flamengo, Rodolfo Landim. De qualquer maneira, o lusitano terá tempo de se preparar ao novo trabalho. Confirmado pelos rubro-negros, ele assumirá a equipe durante a pausa à Copa América. Poderá moldar o elenco antes que a exigência aumente, com o segundo semestre recheado de competições – e de cobranças. Após a demissão de Abel Braga, é um nome de peso que parece suficiente para satisfazer as ambições do clube e para blindar a diretoria, após seguidos erros nos últimos meses. Tem virtudes e defeitos muito bem definidos, ainda que seu futuro próximo seja uma incógnita.

Antes de falar sobre Jorge Jesus, é necessário questionar os processos internos do Flamengo. O anúncio deste sábado corrobora a teoria de Abel Braga, ao afirmar que “sofreu uma traição” da diretoria por não saber das negociações que corriam por baixo dos panos. De fato, o trabalho do antigo comandante estava desgastado e sua saída era iminente. Nada que justifique a postura pouco honesta da direção do clube. O atrito desnecessário criado nesta troca de comando aumenta as críticas sobre a direção, em um ano de recorrentes erros em posicionamentos públicos e tomadas de decisões.

Diante desta pressão, até pelo investimento feito no elenco, era natural que o Flamengo buscasse um treinador de renome. A diretoria precisava investir em uma cartada para evitar mais críticas. O mercado brasileiro não apresentava opções de grande nível, além de medalhões em baixa ou outros comandantes mais jovens. Os rubro-negros poderiam olhar aos vizinhos sul-americanos, com algumas boas alternativas surgindo, mas não o fizeram. Após uma viagem de dirigentes à Europa, trataram de encaminhar a vinda de Jorge Jesus, um técnico extremamente experiente e qualificado, apesar dos poréns que o rodeiam.

Aos 64 anos, Jorge Jesus possui uma trajetória bem reconhecida. Rodou muito por pequenos e médios de Portugal, com a passagem mais relevante pelo Felgueiras, que fez seu nome após garantir a permanência dos estreantes na elite. “O Jorge Jesus foi um jogador regular e, na opinião de quem o conheceu nessa qualidade, era bem menos determinado e com espírito de vencedor do que depois, como treinador”, contou João Almeida Moreira, correspondente no Brasil do jornal A Bola, em conversa com a Trivela. “Ainda no Estrela da Amadora foi apelidado de ‘Cruyff da Reboleira’ [Reboleira é o bairro onde fica o estádio], porque se dizia um mestre da tática. Sempre foi muito fanfarrão, ao ponto de ser ridicularizado e isso até o prejudicar. Mas porque ele era mesmo bom”.

O auge de Jorge Jesus se deu ao longo dos últimos dez anos. Assumiu o Benfica em 2009, conquistando o Campeonato Português logo no primeiro ano, após quatro títulos consecutivos do Porto. Ainda viu os Dragões serem tricampeões, mas iniciou a hegemonia encarnada pouco depois, emendando o bicampeonato nacional. Também empilhou taças em copas. Montou um time com muitas apostas, fez campanhas internacionais de relevo e construiu uma boa reputação no Estádio da Luz. Até que, sem mais clima nos bastidores benfiquistas, resolveu acertar sua mudança para o Sporting – seu clube de coração e também de seu pai. Uma troca bastante ousada e polêmica. Mesmo sem faturar a liga, grande obsessão dos leoninos, Jesus renovou os ares no José Alvalade e fez temporadas interessantes, mas não suficientes a marcas profundas. Saiu em meio ao turbulento final de temporada de 2017/18, com a invasão do CT coordenada pelo próprio presidente sportinguista, antes de dirigir o Al-Hilal por breve período.

Jorge Jesus não é necessariamente um treinador inovador. Ele mantém o seu padrão tático, calcado no 4-1-3-2, e realiza suas adaptações a partir desta base. Em compensação, ele é arrojado. Costuma produzir equipes agressivas e com uma postura incisiva. Sem a bola, seus times geralmente pressionam bastante os adversários. Enquanto isso, quando recupera a posse, partem para cima, de forma objetiva e veloz. Ainda não é o padrão que se notava no Flamengo até antes da chegada de Abel Braga. De qualquer forma, parece ser possível encaixar esses ideais dentro do elenco que os rubro-negros oferecem atualmente. Além do mais, o técnico valoriza bastante o senso tático e coletivo, o oposto do que aconteceu neste primeiro semestre, quando os resultados dependeram basicamente de lampejos individuais dos flamenguistas.

Como define João Almeida Moreira: “Os treinadores portugueses atuais são muito preparados, falam três idiomas, são super tecnológicos. Ele é meio boleirão ainda, mas estudioso, ao mesmo tempo. Não dá para encaixar muito bem em um padrão. Sim, ele tem qualquer coisa de Vanderlei Luxemburgo, mas ainda não entrou na espiral de queda do Luxa, ainda tem crédito, mas se aproxima da personalidade do Vanderlei. É bom, mas se acha o melhor e tem um grande ego”.

O grande ponto sobre Jorge Jesus é exatamente a sua mentalidade. É um treinador conhecido por sua postura firme e exigente com os jogadores. Diferentemente de Abel, não tende a ser o “paizão” que vinha protegendo o elenco das críticas. A princípio, está é uma mudança favorável ao Flamengo. Considerando a comodidade de outros tempos da equipe, acomodada mesmo diante das exigências dos resultados, o lusitano pode ajudar a transformar este espírito. O problema é que há uma linha tênue entre a dureza do comandante e seu temperamento explosivo. As atitudes intempestivas do veterano muitas vezes minaram seu ambiente.

Este é o seu principal desafio, além da própria adaptação. Jorge Jesus não é um treinador que costuma aceitar tão bem as críticas e já teve alguns problemas de relacionamentos. Considerando o ambiente já conturbado na Gávea e a natural pressão que existe no clube, há uma bomba-relógio que pode ser armada. Além disso, por vezes ele também comete suas gafes em entrevistas coletivas, o que aumenta um pouco este desgaste. Parece algo mínimo, mas já atravancou Abel Braga em resultados ruins, considerando a exposição excessiva que existe ao redor dos rubro-negros.

Outro ponto a se observar será o trato de Jorge Jesus com as categorias de base. O Flamengo possui uma tradição natural de aproveitar os seus jovens e os resultados recentes impulsionam os garotos do Ninho. Porém, o treinador português não costuma promover pratas da casa. “É uma fraqueza grande dele, não aposta muito em jovens. Em Alvalade, isso é heresia. Na Luz também, porque o Benfica apostou muito na academia e ele deixou escapar o Bernardo Silva, entre outros, sem aproveitar. Ele prefere medalhões a moleques”, conta João Almeida Moreira.

Não quer dizer, todavia, que a vinda de Jorge Jesus é apenas temerosa. Pelo contrário, em um momento que se pede novas ideias ao futebol brasileiro, o lusitano pode agregar bastante com sua experiência. A reputação dos treinadores portugueses no futebol europeu não é sem motivo e o veterano integra esta elite do país, a ponto de acumular passagens significativas por dois gigantes nacionais. Será uma mudança de padrões. Um acréscimo cultural importante e que, por essa reputação, pode conquistar alguns jogadores mais experimentados do elenco.

Vale dizer, Jorge Jesus não cairá de para-quedas no futebol brasileiro. É consenso que o treinador possui um vício gigantesco por futebol, daqueles que vivem o dia a dia do esporte apaixonadamente. E costumava acompanhar as equipes do país antes mesmo de seu nome surgir no mercado de treinadores por aqui. “Ele é super fã do Brasil. Daqueles que consomem até um Brasil de Pelotas x Guarani na TV, jogos que passam lá no começo da madrugada. Muito é por dever profissional: ele pegou muitos jogadores assim, principalmente quando treinava equipes de orçamento mais curto”, afirma Almeida Moreira.

O salário alto de Jorge Jesus, um dos mais bem pagos do mundo em seus tempos de Benfica e Sporting, aumenta a pressa sobre o que fará no Flamengo. Da mesma maneira, a curta paciência da imprensa com treinadores no Brasil costuma ser pior com os estrangeiros. Terá que lidar com isso, algo menor diante do que se vive dentro do próprio Fla. Considerando as contratações e a bonança financeira, só o desempenho não basta. É preciso ter desempenho, jogar um bom futebol e ainda erguer taças. As chances de título ao clube na temporada ainda são razoáveis, considerando a Libertadores e a Copa do Brasil, além das possibilidades de reduzir as distâncias no Brasileiro. Mas certamente ocorrerá um turbilhão de vivências ao veterano, até maior que o frequente no Fla.

Pelo que representa e pelo peso que possui, é difícil imaginar que Jorge Jesus tenha uma passagem morna pelo Flamengo. As chances de ser avaliado como um grande sucesso ou um fracasso são grandes, especialmente pelas relações que constrói por sua personalidade. O resultado dependerá do que se ver em campo. O material humano é favorável e o currículo do comandante fala por si. Mas as condições de temperatura e pressão serão determinantes para moldar as impressões que deixará na Gávea.

* Colaborou Bruno Bonsanti