Era esperado. Os clubes já sabiam que não receberiam nenhum peso a mais no contrato do ano que vem, e o gasto de dinheiro público com futebol nunca foi uma das iniciativas preferidas do presidente Mauricio Macri, que busca enxugar o Estado. Uma reunião de Macri com o responsável pelo Futbol para Todos, Fernando Marín, colocou ponto final no programa que estatizou as transmissões de futebol na Argentina, segundo informaram fontes oficiais à agência de notícias Télam.

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Em 2009, os clubes argentinos passavam por uma grave crise financeira, e o presidente da AFA, Julio Grondona, negociava contratos de transmissão com empresas privadas, que se recusaram a pagar o que ele estava pedindo (720 milhões de pesos). Eis que surgiu Cristina Kirchner com uma oferta próxima (600 milhões) e arrebatou os direitos de TV do campeonato. Colocou todos os jogos na TV aberta, instaurou uma divisão igualitária a todos os times e usou o programa como plataforma política para seu governo.

Esse valor subiu com o decorrer dos anos e chegou a 1,8 bilhão de pesos em 2016, o que representa, segundo o La Nación, mais de 50% do faturamento anual da AFA. que segue sob o comando de uma “comissão normalizadora”, já que, após a morte de Grondona, os dirigentes argentinos não conseguiram sequer organizar uma eleição e a entidade sofreu uma intervenção da Fifa.

“É fácil querer que o Estado seja uma espécie de ambulâcia para o desperdício da AFA”, afirmou, semanas atrás, o secretário-geral da Presidência, Fernando De Andreis. “A solução e o problema estão na AFA. Em vez de gastar disparates, no melhor dos casos, porque há sérios indícios de corrupção, deveriam devolver o dinheiro para que tudo seja transparente. Se os clubes deixassem de se financiar por meio da dívida com a AFA, 80% dos problemas seriam solucionados”.

Já há rusgas sérias entre o comitê da AFA e os clubes. Alguns ameaçam greve por causa de um repasse do dinheiro de TV abaixo do esperado no mês de outubro. Segundo o presidente do Lanús, Nicolás Russo, o seu time deveria receber três milhões de pesos, mas levou apenas 1,9 milhões. O vice da comissão normalizadora, Javier Medín, afirmou à TyC Sports que a diferença refere-se a um acordo de ajuda financeira entre os clubes da elite e de diviões inferiores. “Essa história de protesto foi uma surpresa porque os presidentes que estão ameaçando greve foram os que assinaram o acordo”, afirmou. “Russo foi o primeiro a assinar”.

Os clubes, no entanto, exigem eleições imediatas para presidente da AFA e a saída da comissão normalizadora. Mas Medín afirma que, embora a convocação do pleito antes de janeiro seja um desejo, isso está “longe de ser uma chance real”, e a eleição deve ficar para junho. “A comissão normalizadora tinha compromissos específicos: reformular o regulamento interno e convocar novas eleições. Não é necessário esperar tanto. Demorou uma semana para criar as condições exigidas para uma eleição”, afirmou o presidente do Boca Juniors, Daniel Angelici, à TyC Sports. De acordo com ele, os clubes da elite estão recebendo menos dinheiro porque, neste momento, os únicos fundos disponíveis para a AFA são os pagos pela televisão.

Essa briga é relevante para os direitos de TV também porque o futebol argentino deve começar imediatamente a negociar com empresas privadas – segundo o La Nación, BeInSports, Turner e Fox já manifestaram interesse – e fica a questão: sem um presidente da AFA, quem liderará essas conversas? É um vácuo para a Superliga Argentina, criada pelos clubes para, entre outas coisas, negociar direitos de TV fechada e internacionais, assumir as rédeas de tudo e se fortalecer dentro do cenário político do futebol argentino. E a discussão tem que ser rápida porque, com o fim do Futbol Para Todos, o novo contrato já seria para o ano que vem.