Marcar gols é uma premissa importante (e óbvia) para um centroavante conquistar a idolatria de uma torcida. No Flamengo, balançar as redes é fundamental, claro. Mas a personalidade do goleador pode ajudar muito em sua popularidade. Tanto quanto pela bola, os rubro-negros têm uma paixão nítida pela zoeira. E Hernane, o “Brocador”, é o homem certo para fazer a alegria da massa. Um jogador em ótima fase, que tem marcado gols vitais. E que segue uma linhagem histórica de atacantes folclóricos da Gávea.

Alguns dos maiores centroavantes da história do futebol brasileiro já passaram pelo Fla, como Romário e Leônidas. Porém, nem sempre é preciso ser craque para se transformar em ídolo. Fio Maravilha talvez seja o maior exemplo disso. Dentuço, desengonçado e fazedor de gols. Homem de referência no maior Flamengo de todos os tempos, Nunes também se encaixa no perfil, embora fosse um artilheiro nato e crescesse em grandes jogos. Nos últimos tempos, Obina salvou o time do rebaixamento e se transformou em melhor que Eto’o. E mesmo Adriano, em seu retorno ao clube, foi tão festejado pelos gols no Brasileirão de 2009 quanto pelas lendas que circulavam de suas aventuras nas favelas cariocas.

Hernane precisa levar os rubro-negros à loucura muitas vezes se quiser se equiparar a Nunes ou Adriano. Mas sua trajetória já o credencia a ser um dos jogadores mais festejados pela torcida no elenco atual. Sem nunca ter jogado por um time grande, ele chegou rodado à Gávea, depois de ser artilheiro com o Mogi Mirim. O típico “atacante troglodita”, longe de primar pelo toque refinado ou pelos lances acrobáticos. Em compensação, um jogador voluntarioso e oportunista. Vale os aplausos tanto pela entrega quanto pelos tentos anotados. E que têm sido frequentes.

Com a chegada de Marcelo Moreno, Hernane teve que esquentar o banco em vários jogos. Uma injustiça, explicada apenas pela falta de grife. Porém, corrigida a tempo. O “Brocador” tem 13 gols no Brasileirão, além de ter dado seis assistências a seus companheiros. Nenhum outro jogador da competição foi tão produtivo, participando diretamente de 19 tentos. Para ajudar, o centroavante soma 11 gols em 11 jogos no Maracanã, o que aumenta seu impacto sobre a torcida.

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Se o Flamengo respira aliviado no Brasileirão, cada vez mais distante da zona de rebaixamento, deve muito a Hernane. São seis gols nos últimos seis jogos, ajudando os rubro-negros a conquistar quatro vitórias. Desde que Jayme de Almeida assumiu, o time mantém ótimo aproveitamento na competição, conquistando dois terços dos pontos disputados. O treinador, aliás, é outra figura comum a criar simpatia na Gávea: o treinador interino com história na casa, herdeiro direto de Carlinhos e Andrade – e personagem para um próximo texto.

O último ato digno de veneração protagonizado por Chicharito Hernane aconteceu nesta quarta. O gol no final do jogo contra o Bahia foi o responsável por transformar um tropeço dolorido, com um adversário direto no bolo da tabela e dentro de casa, em uma vitória. O suficiente para ser celebrado pelos rubro-negros, de convocável à Seleção a melhor centroavante do mundo. Uma dose brincadeira que mistura a cegueira de só ter o próprio clube em vista com a própria empolgação pela fase do goleador.

Tanto quanto pela numerosidade, é por essa alegria pueril que a torcida do Flamengo se caracteriza. Se os corintianos batem no peito ao dizer que são sofredores, os rubro-negros não escondem seu escracho. É o deboche, ao enaltecer exageradamente o próprio time para tirar sarro do rival, em que uma vitória basta para colocar o Fla “rumo a Tóquio”. Dentro das ressalvas da equipe atual, a piada é o que ajuda a empolgar – motivada pelas vitórias, é claro. E é por isso que Hernane vem se dando tão bem na Gávea. Sua limitação se transforma em vontade e em gols, mas também em folclore e festa.