Durante a primeira metade da década de 1980, Flamengo e Grêmio costumavam medir forças no mais alto nível, em duelos titânicos que serviram para dizer quem era o time mais forte do Brasil – e da América do Sul. Ainda assim, o imaginário do confronto acaba impregnado pelas memórias daquilo que se viveu ao longo dos anos 1990. Num intervalo de nove anos, as duas equipes chegaram a se enfrentar seis vezes em mata-matas, quatro delas pela Copa do Brasil. Até o título do torneio nacional os oponentes chegaram a definir.

Pelo peso das ocasiões e pela sequência de algumas daquelas vitórias, o Grêmio chegou a chamar o Flamengo de “freguês”. Os rubro-negros, no entanto, também possuem seus triunfos para resgatar. Enquanto os gaúchos se deram melhor na Copa do Brasil em 1993, 1995 e 1997, os cariocas conseguiram sua revanche na Copa do Brasil de 1998, além de avançarem na Supercopa Libertadores de 1992 e na Copa Mercosul de 2001.

Abaixo, recontamos brevemente este passado. Por conta do intervalo sempre menor que dois anos entre os jogos, a lista abaixo considera os confrontos ocorridos entre 1992 e 2001 – com “licença poética” de extravasar a década de 1990. Naquele entorno, ainda ocorreram as semifinais da Copa do Brasil de 1989 (com goleada gremista) e as quartas de final da Copa do Brasil de 2004 (vencidas pelo Flamengo), que acabaram desconsideradas por se inserirem em outros contextos. Os seis duelos selecionados, de qualquer maneira, já servem para representar bem o tamanho da rivalidade naqueles tempos. Eram partidas repletas de gols, confusões e ótimas lembranças aos vencedores.

1992, oitavas da Supercopa Libertadores

No ano em que o Flamengo conquistou o Campeonato Brasileiro, também superou o Grêmio nas oitavas de final da extinta Supercopa. Os rubro-negros contavam com a maestria de Júnior, liderando uma equipe que também tinha Gilmar, Gaúcho e Zinho, além de garotos como Paulo Nunes e Júnior Baiano. O eterno Carlinhos era o técnico. Já o Grêmio também possuía uma equipe renovada, sob as ordens de Cláudio García, mas de pouco prestígio, na temporada em que os tricolores disputaram a Série B pela primeira vez. Nomes como Jairo Lenzi, Alcindo, Mabília e João Marcelo compunham o plantel.

Na partida de ida, em Porto Alegre, prevaleceu o empate por 1 a 1. Paulo Nunes abriu o placar ao Flamengo, mas um gol contra de Júnior Baiano permitiu que o Grêmio igualasse pouco depois. Já a volta aconteceu em Moça Bonita, durante a interdição do Maracanã – por conta da queda da grade da arquibancada na final do Brasileirão, em tragédia que matou três pessoas. O zagueiro Rogério Lourenço fez o gol da classificação, em chute mascado que determinou o triunfo por 1 a 0. Após a vitória sobre o Estudiantes nas quartas, os rubro-negros cairiam nas semifinais, eliminados pelo Racing.

1993, semifinal da Copa do Brasil

De volta à primeira divisão do Campeonato Brasileiro (com a controversa ampliação no número de participantes), o Grêmio dava sinais de sua reconstrução em 1993. Prova disso aconteceu com a classificação à semifinal da Copa do Brasil após superar o poderoso Palmeiras nos pênaltis. Treinada por Sérgio Cosme, a equipe possuía uma nova cara, com Luciano, Carlos Miguel, Pingo, Jamir e até mesmo de Dener, recém-emprestado pela Portuguesa. Enquanto isso, o Fla mantinha sua base, desta vez com as participações de Djalminha, Nélio e Marcelinho Carioca nos duelos contra os tricolores. Renato Gaúcho, outrora Portaluppi, voltava à Gávea naquele ano e reforçava o ataque após passar meses se recuperando de lesão.

O jogo de ida guardou uma noite eletrizante no Maracanã, com muitos gols e tumultos. O Flamengo conquistou a vitória por 4 a 3, mas lamentava a reação do Grêmio no final. Djalminha deu um bolão para Nélio abrir o placar, enquanto Gaúcho teve um gol toscamente anulado por impedimento. O erro do árbitro permitiu o empate gremista antes do intervalo, com Juninho. O Fla retomou a vantagem no segundo tempo, com Djalminha, mas o estreante Dener incomodava e deu o passe para Gilson empatar outra vez.

A partida pegaria fogo de vez a partir da entrada de Renato Gaúcho. O atacante não demorou a forçar a expulsão de Jamir e também fez valer a Lei do Ex, desempatando para o Flamengo aos 29. O problema é que o próprio craque iria para o chuveiro mais cedo, após confusão com Geraldão, que também rendeu o vermelho ao gremista. Tinha mais? Tinha, com Djalminha, que anotou o quarto em mais uma linda construção pelo Fla. Mas um pênalti nos acréscimos permitiu a Eduardo descontar de novo aos gaúchos. Antes do fim, dirigentes rubro-negros descontentes com a arbitragem invadiram o campo e ameaçaram o homem do apito, em confusão generalizada.

O gol de pênalti marcado pelo Grêmio se provaria vital ao reencontro em Porto Alegre. Afinal, a vitória por 1 a 0 garantiu a classificação tricolor dentro do Olímpico, graças aos tentos fora de casa. O Flamengo até pressionou durante o primeiro tempo, mas Gilson anotou o gol decisivo logo no início da segunda etapa, aproveitando uma falha da zaga rubro-negra. Depois disso, os cariocas tentaram reagir, mas pecaram demais na pontaria. Além do mais, precisaram de grandes defesas do goleiro Gilmar, que deu sobrevida à equipe. Não adiantou. Já na decisão, os gremistas acabaram perdendo a taça para o Cruzeiro.

1995, semifinal da Copa do Brasil

O retorno do Grêmio ao topo do pódio aconteceu em 1994, ao faturar a Copa do Brasil daquele ano. Em 1995, os tricolores viviam o ápice sob as ordens de Luiz Felipe Scolari, vislumbrando a reconquista da Libertadores. E, enquanto o título continental ainda era uma ambição, a forte equipe gremista superou o Flamengo outra vez nas semifinais da Copa do Brasil. A base composta por Danrlei, Arce, Adílson, Dinho, Paulo Nunes, Jardel e outras grandes figuras inspirava respeito. Enquanto isso, o Fla vivia a ilusão de seu centenário, sob as ordens de Vanderlei Luxemburgo. Sávio e Romário eram os protagonistas, mas sem a companhia de Edmundo – contratado naquele momento. Branco e Válber eram outros medalhões naquele grupo.

A chegada de Edmundo ganhou manchetes maiores do que a excelente vitória do Flamengo por 2 a 1 na primeira partida, dentro do Maracanã. E isso porque Sávio inaugurou a contagem com um gol de placa, ao arrancar da intermediária e enfileirar quatro marcadores. Numa atuação de gala, o Anjo Loiro da Gávea ainda forçaria a expulsão de Dinho no segundo tempo. E seria ele a anotar o segundo tento, após driblar Danrlei, já aos 39. Contudo, o Grêmio possuía suas armas e o artilheiro Jardel garantiria uma desvantagem mais digerível, ao descontar com uma cabeçada aos 43. Para piorar, o Fla perdeu Romário, com uma torção no joelho.

A volta em Porto Alegre trouxe lições que o Flamengo já havia aprendido dois anos antes. O gol fora acabou fazendo total diferença ao Grêmio, com a vitória por 1 a 0. Os tricolores começaram pressionando, mas os rubro-negros tiveram boas chances de abrir o placar. No entanto, o Grêmio voltou forte ao segundo tempo e ia parando no goleiro Roger, até ver sua dupla de ataque brilhar. Jardel tabelou com Paulo Nunes e assegurou o resultado aos 23. Antes do fim, mais confusão. Os gremistas abusavam da violência e Roger Machado foi expulso. O lance gerou um enorme entrevero entre os times, no qual o rubro-negro Mauricinho acertou um adversário e também recebeu o vermelho direto. Após o jogo, Luxa ainda alegou que foi agredido por Felipão na beira do campo. Classificados, os gaúchos perderam a final para o Corinthians.

1997, final da Copa do Brasil

O jogo mais famoso desta sequência de mata-matas aconteceu, mais uma vez, na Copa do Brasil – mas valendo o título de 1997. O projeto megalomaníaco do Flamengo não havia dado certo. Ainda assim, o elenco de Sebastião Rocha tinha suas estrelas. Romário, Sávio e Júnior Baiano eram os figurões, ao lado de jogadores em ascensão como Athirson e Fábio Baiano. Já o Grêmio, que vira Felipão sair após o título do Brasileirão em 1996, estava sob as ordens de Evaristo de Macedo e seguia acumulando excelentes resultados. O plantel preservava a maior parte da histórica base, com Danrlei, Dinho, Carlos Miguel e Paulo Nunes. Dauri era a aposta no lugar de Jardel, enquanto Mauro Galvão assumira a braçadeira de Adilson Batista. O meio ainda via despontar o jovem Emerson.

O Flamengo vinha de imponentes classificações contra Palmeiras e Internacional. O Grêmio, por sua vez, despachou o Corinthians na semifinal e negou a revanche à Portuguesa após a final do Brasileiro de 1996, além de superar o Vitória. E, diferentemente dos embates anteriores na competição nacional, desta vez a primeira partida aconteceria dentro do Olímpico. Até pelo momento dos tricolores naquele período, a imprensa conferia todo o favoritismo a mais uma vitória da equipe sobre os rubro-negros.

Não seria tão simples assim. O Grêmio até começou a partida em Porto Alegre ameaçando mais, especialmente nas bolas paradas, e acertou a trave com Arce. Entretanto, os duelos entre Dinho e Sávio ganhariam mais um capítulo, e o volante recebeu o vermelho direto por uma entrada desleal sobre o atacante aos 35. Com um a mais, o Flamengo cresceu. Antes do intervalo, Júnior Baiano também acertou a trave e viu Danrlei fazer milagre. Já na segunda etapa, a partida permaneceu aberta aos dois times, mas os rubro-negros desperdiçaram mais. O empate por 0 a 0 parecia até lucro aos gaúchos, pela maneira como o duelo se desenhou.

Antes do segundo jogo contra o Grêmio, alguns dirigentes do Flamengo faziam abertamente planos para a Libertadores de 1998 – mencionava-se até a contratação de Giovanni, então no Barcelona. Mas, diante de 90 mil no Maracanã, o Tricolor garantiu a taça ao buscar o heroico empate por 2 a 2. Como de praxe, a partida foi repleta de entradas violentas. E, apesar do ambiente nas arquibancadas, os gremistas saíram na frente logo aos seis minutos. João Antônio chegou até a aplicar uma caneta em Fabiano, antes de mandar para dentro. Como se não bastasse, Sávio precisou ser substituído, contundido.

Lúcio, o substituto, entrou com sorte. Logo em sua primeira participação no jogo, após ótimo passe de Evandro, empatou aos 30 minutos. E o Flamengo viraria antes do intervalo, com um peixinho de Romário, após defesaça de Danrlei. O clima no Maracanã era bastante festivo, mas o Grêmio não se entregou. Emerson deu um aviso, ao carimbar o poste. Já o gol do título aconteceu aos 34. Após o cruzamento de Roger Machado, a defesa flamenguista parou e Carlos Miguel apareceu entre quatro adversários para marcar. Os gols fora, pela terceira vez, significavam a ruína dos rubro-negros. Os tricolores eram tricampeões da Copa do Brasil.

1999, oitavas da Copa do Brasil

Somente na quarta tentativa contra o Grêmio é que o Flamengo viveria a sua revanche na Copa do Brasil. O duelo pelas oitavas de final tinha um peso menor que os anteriores, mas a equipe que começava a construir o tricampeonato carioca finalmente daria um novo desfecho ao confronto. E, para não sofrer as consequências dos gols no Maracanã, os rubro-negros começaram a resolver a parada no Olímpico. Romário estava escaldado, liderando o time que ainda possuía Athirson, Iranildo, Beto e Caio Ribeiro. Carlinhos outra vez ocupava a casamata. Já no Grêmio, os únicos remanescentes das glórias anteriores eram Danrlei, Roger e Goiano. A equipe de Celso Roth tinha Palhinha, Macedo, Djair e o recontratado Arílson.

O Flamengo construiu uma excelente vantagem dentro do Olímpico, na partida de ida. Os rubro-negros venceram por 2 a 1, sob a inspiração de Romário. Após um caminhão de gols perdidos no primeiro tempo, inclusive com bola no travessão, o Fla não demorou a resolver o jogo na segunda etapa. Romário marcou de peixinho aos seis, após passe açucarado de Iranildo. Três minutos depois, o Baixinho atacou de garçom e entregou para Caio Ribeiro ampliar. O Grêmio só acordou depois disso, quando Zé Alcino fez grande jogada e Macedo descontou, mas não conseguiu ir além.

A preocupação à partida de volta se concentrava sobre o próprio Romário. O Baixinho havia defendido a seleção brasileira no dia anterior, em amistoso que comemorava o centenário do Barcelona. Para estar em campo, o craque pegou um jatinho e enfrentou 15 horas de voo, ainda assim escalado entre os titulares. Teve contribuição direta no empate por 2 a 2, agora suficiente ao Flamengo. Fabão abriu o placar e, depois que Zé Alcino empatou, Romário retomou a vantagem antes do intervalo. No segundo tempo, o empate de Scheidt se provou inútil. Em meio ao bombardeio tricolor, Clemer segurou a classificação ao Fla. A empreitada rubro-negra naquela Copa do Brasil, de qualquer maneira, não seria tão longa. A equipe cairia diante do Palmeiras na famosa virada estrelada por Euler.

2001, semifinal da Copa Mercosul

Dois anos depois, o Flamengo voltou a despachar o Grêmio, agora em uma competição continental. A Copa Mercosul surgia como um interessante objetivo a ambos os clubes. Além do tricampeonato carioca, os rubro-negros também haviam faturado a extinta Copa dos Campeões em 2001, que assegurou o seu retorno à Copa Libertadores. Petkovic, Edílson, Reinaldo, Beto, Juan e Júlio César eram destaques na equipe treinada por Carlos Alberto Torres. Na época, entretanto, o clube também encarava uma grave crise por salários atrasados e corria sérios riscos de rebaixamento no Brasileirão. Já o Grêmio vinha do título na Copa do Brasil, sob as ordens de Tite. Danrlei e Roger Machado seguiam como bastiões na equipe tricolor, ao lado de Luis Mário, Zinho, Fábio Baiano e Anderson Polga. O goleiro, inclusive, completou seu jogo 500 com a camisa gremista na volta.

Como de praxe naqueles anos movimentados entre os clubes, o primeiro embate contou com muitos gols no Maracanã. O empate por 2 a 2, porém, não representava tanto perigo ao Fla, sem a regra do gol qualificado. Arrasador, o Flamengo abriu dois gols de vantagem em 18 minutos. Pet cobrou falta para Juan marcar o primeiro e Beto aproveitou o passe de Reinaldo no segundo. Anderson Polga descontou aos 31, também de cabeça. Entretanto, Danrlei evitou uma diferença maior, em duelo particular com Petkovic. No segundo tempo, o Grêmio cresceu e fazia Júlio César suar. Foi depois de uma grande defesa do goleiro que Fábio Baiano arrancou o empate aos tricolores, aos 36. O Fla sairia ao abafa, sem conseguir o terceiro.

A volta em Porto Alegre terminou com o placar em 0 a 0, mas não deixou de ser intensa. Júlio César e Danrlei operaram milagres, enquanto Petkovic acertou a trave no primeiro tempo. Durante a segunda etapa, o duelo seguiu amarrado, com uma postura conservadora de Tite. A igualdade forçava a disputa por pênaltis. Então, os rubro-negros se deram melhor na marca da cal. Júlio César pegou as cobranças de Roger Machado e Luís Mario, garantindo a vitória por 4 a 2. Na decisão, que acabaria adiada por conta da crise econômica na Argentina, o Fla seria derrotado pelo San Lorenzo também nos penais. Ao menos, os cariocas se safaram do rebaixamento no Brasileirão, dois pontos acima do Z-4.