Certa vez, numa transmissão de um jogo na Holanda – a memória não lembra direito se era entre clubes do país ou da seleção holandesa -, falou-se da “grande escola de goleiros que o futebol holandês tem”. Claro, não é bem assim. Já até se escreveu aqui que a história batava tem destaques na posição, sim, mas o fato é que a Holanda se notabilizou muito mais por nomes isolados (como Eddy Pieters Graafland, Jan van Beveren, Hans van Breukelen e, sobretudo, Edwin van der Sar) do que por ser um centro que revela constantemente arqueiros de confiança, como a Alemanha.

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Todavia, o cenário atual mostra certa mudança nisso. Desde que Van der Sar fez fama, há um certo padrão de goleiros sendo criado na Holanda. Em geral, são longilíneos e muito altos, mesmo com algumas exceções. E obviamente, sabem jogar com os pés – item sine qua non para um guarda-redes do país desde que Rinus Michels preferiu Jan Jongbloed para ficar debaixo dos três paus na Copa de 1974. Além do mais, dá para dizer que grande parte dessa geração está aproveitando o espaço aberto pelo ex-goleiro e atual diretor geral do Ajax nos centros mais competitivos do futebol europeu.

Uma grande mostra disso foi dada a partir do que se viu nesta quinta-feira. No começo, o boato parecia desses inacreditáveis – pessoalmente, até coloquei em minha conta pessoal no Twitter que era “a melhor piada do dia”: o jornal Mundo Deportivo, famoso por sua linha editorial pró-Barcelona (e sempre à procura de um possível reforço para o elenco dos Culés), noticiou que Jasper Cillessen era a escolha barcelonista para substituir Claudio Bravo, virtual contratado do Manchester City.

Pois bem: não era mentira nem boato. Por mais que também seja vinculado ao Ajax – talvez até por isso -, o diário De Telegraaf também cravou que o goleiro do time de Amsterdã passou à frente de Diego Alves e Pepe Reina como o grande favorito para chegar a Les Corts e ser reserva de Marc-André ter Stegen no gol. Mais do que isso: cravou até o valor da oferta do Barcelona (entre 10 e 12 milhões de euros). Mais equidistante das duas partes negociantes, a revista Voetbal International noticiou que as negociações estão muito avançadas.

Por mais que, de fato, a eventual transferência pareça inesperada (e parece), também não dá para ignorar que Cillessen ganhou alguma segurança nos cinco anos que tem de Ajax. Quando nada, porque foi quem aproveitou melhor a chance que teve na seleção holandesa, em 2013, para tornar-se o titular da Oranje – posição que segue dele, mesmo sob contestação. E há contestação porque Jeroen Zoet, titular absoluto do PSV, mostra mais regularidade do que Cillessen, às vezes. E há Tim Krul, que pode muito bem voltar às convocações caso retome a forma que exibia antes da lesão sofrida ano passado, no ligamento cruzado anterior do joelho direito.

Sem contar os mais velhos: se Kenneth Vermeer (30 anos) lesionou gravemente o tendão de Aquiles e só volta em 2017, Maarten Stekelenburg (33, a fazer 34 em setembro) ganhou grande chance no Everton para reagir na carreira. Assim como Michel Vorm (32, a fazer 33 em outubro): com a lesão muscular que tirará Hugo Lloris dos titulares do Tottenham por algumas semanas, caberá ao reserva de Cillessen na Copa de 2014 segurar a barra. Com a confiança de Mauricio Pochettino, já que o treinador dos Spurs elogiou Vorm: “É sempre ruim quando nosso capitão não está disponível, mas confiamos em Michel. Ele tem muita experiência na Premier League. Não duvido de suas qualidades”.

Cillessen, Zoet, Krul, Stekelenburg, Vermeer, Vorm: seis nomes que podem muito bem ser escolhidos nas convocações de Danny Blind para a Laranja. E seis nomes que conseguem, mais ou menos, aliar o que o precursor deles, Van der Sar, equilibrou perfeitamente em certos momentos de sua carreira: jogar bem com as mãos e com os pés. Não é sem razão que Cillessen é cogitado pelo Barcelona: tem certa habilidade com a bola no chão. A ponto de até se arriscar dando cortes secos nos atacantes antes de sair jogando – fez isso com Gonzalo Higuaín, na semifinal da Copa de 2014.

Todavia, se a Holanda tem (agora, sim) uma “geração de goleiros”, algo que indica o desenvolvimento de uma escola, ela peca pela falta de um símbolo. Algum protagonista, alguém que represente a fama dos guarda-valas dos Países Baixos por toda a Europa. Enfim, sente falta de alguém que traga o respeito que Van der Sar impôs por boa parte de sua carreira, descontados a má fase na Juventus e o ostracismo no Fulham. E nenhum dos citados consegue fazer isso, estar “acima de qualquer suspeita” para imprensa e torcida.

Até por isso, a negociação de Cillessen com o Barcelona foi recebida com espanto na Holanda. Principalmente porque o arqueiro do Ajax não iniciou bem a temporada 2016/17: falhou no jogo de ida contra o PAOK-GRE, pela terceira fase preliminar da Liga dos Campeões, numa saída de gol atabalhoada. E também teve colocado em sua conta o gol de Christian Noboa pelo Rostov-RUS, no 1 a 1 da ida dos play-offs da Champions. Pior: ao deixar um canto aberto demais numa cobrança de falta, Cillessen repetiu erro que cometera no amistoso entre Holanda e França, em março passado. Ele reconhece: “Não estou na minha melhor fase”.

Pior é que o nativo de Groesbeek também não é o último de seus compatriotas a sofrer com irregularidades ou deficiências. Zoet é muito promissor, mas ainda precisa melhorar com os pés; Krul sofre com muitas lesões, e deverá penar na segunda divisão inglesa com o Newcastle, frustrando as expectativas de decolar na carreira; Stekelenburg era tido e havido como sucessor definitivo de Van der Sar após a boa atuação na Copa de 2010, mas perdeu a chance de se estabilizar definitivamente, com as falhas e lesões nos tempos de Roma; Vorm também perdeu terreno na carreira ao deixar a titularidade no Swansea para ser reserva no Tottenham.

E assim seguem os goleiros holandeses. Com algum talento, atraindo atenções aqui e ali na Europa… mas sem ninguém que consiga eliminar a lembrança de Edwin van der Sar.