O Maracanã pulsava no fim de tarde no Rio de Janeiro. É dia de Flamengo. É dia de futebol. É dia de Campeonato Brasileiro. É dia de duelo pela liderança. É dia de Gabigol. Um confronto de dois técnicos que causam repercussão, Jorge Jesus e Jorge Sampaoli. Uma partida que coloca frente a frente dois times que buscam o jogo ofensivo, buscam a bola e, assim, acabam contribuindo com algo que quem gosta de futebol aprecia: o espetáculo. O Flamengo recebeu o Santos em um jogo que tinha tudo para ser grande, e foi. O placar de 1 a 0 saiu de um momento de êxtase, de magia, de arte. Gabigol, em um tento contra o clube que o formou.

O rubro-negro foi a campo no estádio sagrado para jogar com o seu povo em busca de algo intangível, mas simbólico: o título de campeão do primeiro turno. Alguém perguntará sobre a utilidade, com alguma razão. Não há utilidade. É apenas simbólico de ter terminado em vantagem na metade do campeonato. Em um campeonato como o Brasileiro, um duelo entre primeiro e segundo na última rodada com o vencedor terminando em vantagem é por demais simbólico. E o futebol vive de simbolismos. Os clubes vestem escudos, repletos de significados, de representações. Em um ambiente com 68.243 torcedores (62.510 pagantes)

O Campeonato Brasileiro em formato de pontos corridos tem 16 edições. Em 12 deles, o time que terminou o primeiro turno como líder foi também o campeão. Esse tipo de estatística serve para sabermos se existe um parâmetro, ao menos uma tendência. Na prática, não significa nada além de uma estatística. Para o torcedor, porém, significa ter mais motivos para sonhar. E é o sonho que motiva, ainda mais em um clube que se alimenta deles, como é o Flamengo.

É como uma linha de produção onde o sonho faz mais do que os olhos brilharem. Move as engrenagens de uma torcida que se imagina chegar ao final do caminho no topo. Se imagina encerrar os 10 anos de espera pela taça do Campeonato Brasileiro, que veio quando Petkovic e Adriano venceram as desconfianças em um ano improvável, diante de um caos geral que o rubro-negro aproveitou para atropelar, vencer, comemorar. Uma festa que toda uma nação sente falta.

Todo título começa com o sonho. Ainda está muito longe de sabermos quem será o campeão, lá no dia 8 de dezembro, data da última rodada do Campeonato Brasileiro. Só que o time comandado por Jorge Jesus começa a tomar forma de uma equipe difícil de ser batida. Que vai colocando um ritmo forte. São 42 pontos em 19 jogos, com 13 vitórias, três empates e três derrotas. Líder por pontos, mas também por futebol.

O que se viu no Maracanã foi um duelo equilibrado entre Flamengo e Santos, com os dois times mostrando serem capaz de vencer. Só que fez a diferença a capacidade do Flamengo de decidir o jogo, graças também aos seus jogadores. Eduardo Sasha tentou um passe, foi interceptado por Éverton Riveiro, que só deu um toque na bola antes de fazer o lançamento rasteiro para Gabigol. Acionado na ponta direita, o camisa 9 tinha diante de si o zagueiro Gustavo Henrique. Ele fintou para o meio e mal deu tempo de alguém pensar: deu um toque com categoria e precisão, por cobertura, superando Éverson, que estava adiantado. Golaço.

Everton Ribeiro, do Flamengo (Alexandre Vidal & Paula Reis / Flamengo)

Gabriel Barbosa ganhou o apelido de Gabigol ainda na base do Santos. Logo o Santos, por quem jogou de 2013 a agosto de 2016, quando foi vendido à Inter. Voltou ao Brasil em janeiro de 2018, para atuar justamente pelo Santos. Foi o artilheiro do Brasileirão. Depois de um ano na Vila, foi emprestado pela Internazionale ao Flamengo em 2019. E tem sido um ano mágico para o atacante de 23 anos. São 30 gols no ano até aqui, contando todas as competições. Só no Brasileirão já são 16 gols.

O Santos mostrou qualidades e fez um primeiro tempo que poderia ter feito o seu gol também. Mas não fez. Foi uma batalha pelo controle do jogo, algo que os dois times costumam fazer com os adversários. O Santos conseguiu fazer isso em momentos do primeiro tempo e também do segundo, mas sem transformar em chances de gols. O Flamengo esteve bem posicionado e não cometeu erros. Mais do que isso, teve chances de ampliar o placar em alguns contra-ataques, que foram desperdiçados especialmente por Gabigol.

No final, o placar de 1 a 0 acaba premiando o time que conseguiu o lance de maior perigo no jogo, em uma partida que os dois times se anularam muito. Jogaram, trocaram passes, correram muito, mas que no equilíbrio, foi decidido por um lance individual, em um erro que o Flamengo soube tirar vantagem. E muita vantagem. Com a qualidade de poucos atacantes no Brasil, Gabigol fez um gol raro, que certamente marcará sua carreira.

Passado um turno do Campeonato Brasileiro, a liderança é pintada de vermelho e preto. Ainda está longe de ser definitivo. Mas é o suficiente para que os jogadores, o técnico e os torcedores saibam que é possível, que há condições, que há uma boa chance se o time mantiver o nível de desempenho. Isso, porém, é fácil de falar, difícil de fazer.

O Flamengo fecha o primeiro turno como líder e como o maior candidato ao título, com uma torcida que coloca mais de 50 mil pessoas por jogo para empurrar, gritar e celebrar. Afinal, em nove jogos como mandante o Flamengo venceu todos. O bólido rubro-negro lidera a corrida, depois de algum tempo em que parecia ter excelentes componentes, mas um carro que andava aos trancos. Jorge Jesus encontrou um time e fez os ajustes. E os rubro-negros sonham em, daqui 19 jogos, estarem comemorando. Chegaram à metade da maratona na liderança. Sabem que não podem deixar a bola cair. E a torcida, vibrante, não parece disposta a permitir que o time se desligue da responsabilidade e da busca pela glória tão almejada.

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