O atacante Moise Kean está imparável. Aos 19 anos, o jogador está em uma fase goleadora, tanto pela Juventus quanto pela seleção italiana. Depois de marcar o seu primeiro gol na temporada no dia 12 de janeiro diante do Bologna, pela Copa da Itália, ele tem sido mais usado nas últimas semanas e permitido que Cristiano Ronaldo descanse. No dia 8 de março, marcou dois gols contra a Udinese na vitória por 4 a 1. Voltou a balançar as redes no dia 17 de março, diante do Empoli. Pela Itália, marcou nos dois jogos do time pelas Eliminatórias da Eurocopa, contra Finlândia e Liechtenstein. Nesta terça, dia 2 de abril, ele balançou mais uma vez as redes na vitória por 2 a 0 sobre o Cagliari, fora de casa. Infelizmente, porém, o jogo foi marcado mais uma vez por racismo.

O gol de Kean despertou a ira de alguns torcedores, que proferiram xingamentos de cunho racial no jogo, mais uma vez emergindo esse tipo de problema na Itália. A forma como os torcedores lidaram com o seu gol, o presidente do Cagliari minimizou e até mesmo a forma como os próprios companheiros de Juventus falaram do episódio ressalta o quanto é preciso repensar as coisas para efetivamente combater o racismo no futebol italiano.

A Juventus estava bastante desfalcada na partida, sem poder contar com Cristiano Ronaldo, Paulo Dybala, Leonardo Spinazzola, Andrea Barzagli, Sami Khedira, Juan Cuadrado, Douglas Costa e até Mario Mandzukic, uma baixa de última hora por causa de uma gripe. Com isso, o técnico Massimiliano Allegri definiu uma formação no 3-5-2, com Emre Can formando a primeira linha defensiva ao lado de Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini. O Cagliari, por sua vez, tinha de volta o centroavante Leonardo Pavoletti, que inclusive marcou gol pela Itália na data Fifa, diante da frágil seleção de Liechtenstein.

O primeiro gol saiu aos 22 minutos do primeiro tempo. Federico Bernardeschi cobrou escanteio e Leonardo Bonucci subiu livre para cabecear e marcar 1 a 0 para os líderes da Serie A. O segundo gol saiu já nos minutos finais, aos 39, quando Rodrigo Betancur recebeu pela direita e cruzou rasteiro para o outro lado da área, encontrando Kean entrando em diagonal e se antecipando à marcação para marcar 2 a 0 e definir o placar.

Kean comemorou o gol abrindo os braços e olhando fixamente para a torcida, parado, olhando para os torcedores que estavam atrás do gol onde ele marcou. Objetos como garrafas foram atirados em sua direção, mas ele pareceu impassível. Jogadores do Cagliari foram retirá-lo dali. Os insultos racistas incomodaram também Blaise Matuidi, da Juventus, que ficou inconformado em campo, reclamando.

O companheiro de clube, Leonardo Bonucci, foi muito mal ao comentar o assunto. Em vez de condenar os racistas por seus gritos, preferiu dizer que Kean não deveria ter provocado os torcedores – mesmo que o atacante só tenha aberto os braços, sem se mexer, depois de ouvir insultos racistas em boa parte do jogo. “Kean sabe que quando ele marca um gol, ele tem que focar em comemorar com seus companheiros. Ele sabe que ele poderia ter feito diferente também”, afirmou Bonucci, após o jogo, à Sky Sport Italia.

“Houve gritos racistas depois do gol, Blaise ouviu e estava furioso. Eu acho que a culpa é 50% a 50%, porque Moise não deveria ter feito isso e a Curva não deveria ter reagido daquela forma”, continuou Bonucci. “Nós somos profissionais, nós temos que dar o exemplo e não provocar ninguém”.

O presidente do Cagliari foi ainda mais longe ao defender a própria torcida. “Se Bernardeschi tivesse comemorado assim, ele seria tratado exatamente da mesma forma pelos torcedores. Se Dybala Se Dybala tivesse feito as mesmas palhaçadas de drama que Matuidi fez depois do gol, ele seria tratado exatamente do mesmo modo”, afirmou Tommaso Giulini. “Nós não podemos chamar a torcida inteira do Cagliari de coisas ofensivas. Se houve gritos racistas, então nossos torcedores entenderam errado, mas isso aconteceu por causa da comemoração e teria acontecido mesmo se o marcador do gol tivesse outra cor de pele”, continuou o presidente, que em vez de procurar resolver os problemas de gritos racistas, decidiu minimizar o episódio.

“Tudo que ouvimos foram vaias e gritos, mas se os seus microfones captaram alguns insultos racistas isolados, então é claro que foram errados, mas não há necessidade de ser hipócrita e lançar uma sombra sobre toda a torcida do Cagliari”, disse ainda Giulini. Esse tipo de atitude não ajuda a resolver o problema do racismo. Normalmente, insultos racistas são uma minoria, mas em vez de refutar, é preciso trabalhar para identificar os infratores e puni-los adequadamente, acima de tudo.

O Massimiliano Allegri também comentou o episódio depois da partida, ao falar sobre a atuação de Moise Kean, e pediu punição aos responsáveis, mas assim como Bonucci, acha que não se deve provocar, deixando a entender que o atacante foi um dos responsáveis pelo episódio – quando o responsável pelo racismo são os racistas, apenas e tão somente eles.

“Ele marcou outro gol e foi melhor no segundo tempo”, disse o treinador da Juventus. “Eu não ouvi nada das arquibancadas, já que estava muito focado no jogo. Você precisa de muita inteligência para lidar com essas situações e não deve provocar as pessoas. Isso, é claro, não significa que idiotas na arquibancada e o modo como eles reagiram deveria ser justificado”.

“Como sempre na vida, há idiotas que fazem coisas estúpidas e arruínam tudo para os outros. Eu não acho que falar sobre isso o tempo todo ajude. Eu não acho que parar de jogar ajuda, já que nem todos no estádio fizeram isso. Nós precisamos usar as câmeras, encontrar aqueles que estão fazendo isso e puni-los. É muito simples, identifica-los e não um ano de punição, ou dois, que eles sejam banidos pela vida inteira. Nós temos a tecnologia, isso pode ser feito se as autoridades quiserem. O problema é que eles realmente não querem”.

Enquanto a Itália tratar o racismo como um problema de provocação de quem nada fez além de comemorar com os braços abertos depois de ouvir provocações o tempo rodo, será difícil combater de verdade o racismo no país. Allegri, porém, tem razão: é simples resolver o problema do ponto de vista penal: é só identificar e punir severamente os infratores, aqueles que gritaram insultos racistas. Só que as autoridades precisam querer. Aparentemente, muito mais gente precisa querer resolver o problema em vez só de ficarmos olhando para um jovem de 19 anos que comemorou o seu gol de forma absolutamente normal.