A bola tinha uma relação especial com Zidane. Era obediente. Parava quando ele mandava parar, ia para onde ele queria que ela fosse. Uma fidelidade tão absoluta que reservou para apenas um punhado de jogadores desde a primeira vez em que rolou na grama em partidas organizadas. Mas naquela noite de maio, exatamente 15 anos atrás, a bola estava rebelde. Subiu alto demais, caía rápido demais e, esperta, foi em direção ao pé mais próximo de ruim, ou menos excepcional, em uma descrição mais precisa, do camisa 5 do Real Madrid.

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Era a única chance de manter ativa a sua pequena (e breve) insurreição, cujos motivos ainda não foram esclarecidos. Afinal, foi sempre muito bem tratada. Durante o segundo que levou para percorrer uma parábola na noite de Glasgow, parecia que seria bem sucedida. É impossível vencer Zidane, as bolas saem de fábrica sabendo disso, mas esta achou que poderia pelo menos exigir algum trabalho do seu mestre. Fazê-lo suar para controlá-la.

Todos acharam. Os 21 jogadores em campo, as dezenas de integrantes das comissões técnicas, os árbitros, as 50 mil pessoas na arquibancada e as milhões que assistiam à final da Champions League de 2001/02 pela televisão. Por conhecerem Zidane, imaginaram que ele até poderia transformar o balão de Roberto Carlos em uma jogada relevante. Mas não com apenas um toque. Nunca com um único toque.

Zidane não teve trabalho. Zidane não suou. Zidane precisou de apenas um toque para sufocar a revolta da bola. Apenas um toque para, com seu pé menos excepcional, domá-la e criar um lance muitíssimo relevante, o lance que decidiu uma final de primeira categoria e deu ao Real Madrid o seu nono título europeu. Apenas um toque para enviar a bola ao local ambicionado por todos os finalizadores do mundo: ao ângulo.

O futebol tem momentos de alegria e de tristeza, de comédia, de tragédia e de tensão. De superação e de união. Tem momentos, sim, em que transcende o jogo, por mais que essa expressão esteja desgastada hoje em dia. Tem momentos épicos e tem momentos apoteóticos. Muitos momentos belos e plásticos. E tem alguns momentos, tão poucos que você consegue contar nos dedos, que são simplesmente sublimes.

Quando a bola entrou em contato com o pé esquerdo de Zidane, na final da Champions League de 2001/02, contra o Bayer Leverkusen, em Glasgow, há exatos 15 anos, o futebol tornou-se sublime.