A torcida do Borussia Mönchengladbach foi vítima do autoritarismo da polícia turca nesta quinta-feira, durante compromisso do clube pela Liga Europa. Os alemães enfrentaram o Istambul Basaksehir, no Estádio Fatih Terim, em duelo que terminou empatado por 1 a 1. Porém, antes mesmo que a bola começasse a rolar, os visitantes presentes no local sofreram com a truculência e a intransigência das autoridades. Por causa de símbolos e palavras presentes em camisas ou bandeiras, parte dos torcedores acabou impedida de entrar nas arquibancadas. Além disso, ocorreram tumultos na porta do estádio.

Segundo os relatos na imprensa alemã, o problema começou pelo mau planejamento feito pelas autoridades turcas. Os 1,5 mil torcedores visitantes em Istambul deveriam comparecer ao centro da cidade, antes de serem levados ao estádio num comboio de ônibus que percorreria 40 quilômetros. Entretanto, a preparação teve atrasos e a torcida chegou ao local apenas minutos antes do pontapé inicial. Em meio às longas filas nos portões, algumas catracas passaram a não funcionar, o que gerou a insatisfação dos alemães e certo tumulto. A polícia turca reagiu agressivamente, ameaçando usar seus escudos e cassetetes, o que resultou em empurra-empurra. Alguns torcedores, acusados de atacar os policiais, foram detidos.

No entanto, o pior seria a postura da polícia ao proibir a entrada de outros torcedores por causa de seus adereços. Os policiais turcos barraram alemães com bandeiras, camisas ou cachecóis que faziam referências ao movimento dos ultras. Além disso, também houve uma proibição a faixas que traziam o brasão da cidade de Mönchengladbach – que possui símbolos cristãos. Em solidariedade às pessoas contidas pela polícia, alguns torcedores se recusaram a entrar no estádio. Funcionários do clube tentaram mediar a situação, sem sucesso. Os alemães detidos e os impedidos de entrar no estádio terminaram liberados pela polícia ao final da noite.

Diretor esportivo do Gladbach, Max Eberl foi contundente em suas críticas à postura da polícia: “Não é assim que conheço a Turquia. Conheço o povo turco de uma forma diferente: são bacanas e educados. Mas, se assim posso dizer, o que aconteceu foi uma ditadura policial. Eu fico triste que, em 2019, tenhamos essas condições na Europa – que a polícia decida quais bandeiras entrarão no estádio ou não. Estava claro que nossos torcedores queriam fazer sua festa em paz e se divertir. Nossos torcedores enriqueceram a atmosfera deste estádio. No entanto, foram intimidados desde o início, sem poder transitar livremente. Foram cenas grotescas, para mim. Isso não tem nada a ver com futebol”.

Já nesta sexta-feira, o chefe-executivo Stephan Schippers assinou um comunicado no qual o clube promete acionar a Uefa sobre o ocorrido: “É uma vergonha como algumas coisas aconteceram antes de uma partida tão bonita e pacífica. Nossos torcedores tiveram muitos problemas em se dirigir ao estádio e entrar. Alguns que vestiam a camisa do Borussia foram expulsos – com o argumento que você não deveria usar certos símbolos. Isso não foi anunciado. A maneira como lidaram com nossa torcida não foi boa. É por isso que realmente queremos sentar com a Uefa e analisar isso”.

Além disso, Schippers falou sobre a intolerância religiosa na ação policial: “É desrespeitoso rejeitar o emblema da cidade de um time visitante. Essa atitude está tão distante do que acreditamos que nunca poderíamos imaginar algo assim acontecendo, nem mesmo fora de casa. É a primeira vez que ouvimos dizer que isso ocorreu. Com todo o respeito, mas está fora da realidade. É por isso que vamos analisar o assunto e entrar em contato com a Uefa. Também vamos analisar o que aconteceu no estádio. Não é certo”.

O Basaksehir é um clube de torcida inexpressiva em Istambul, que registra média de 3,9 mil pagantes por jogo na atual temporada – a terceira menor média do Campeonato Turco e um percentual ínfimo se comparado aos três grandes da cidade, que superam os 29 mil por partida. O clube, contudo, possui o apadrinhamento do autoritário presidente Recep Tayyip Erdogan e se impulsionou através do patrocínio de empresas ligadas ao governo. A equipe se localiza em um bairro de forte presença islâmica e conservadora, usado como modelo por Erdogan.

Também vale lembrar que, ao longo dos últimos anos, o governo da Turquia ampliou o autoritarismo e o controle sobre os ultras no país. Torcedores de Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray chegaram a formar um movimento chamado “Istambul United” durante os protestos contra Erdogan na Praça Taksim, em 2013. Desde então, as autoridades implementaram um sistema de controle ao acesso dos torcedores nos estádios, acusado de exercer uma vigilância política sobre os opositores, o que causou impacto nas médias de público há alguns anos. A ação contra o Borussia Mönchengladbach parece mais um episódio de um entreve conhecido às demais torcidas do país.