“A vida é como um viaduto: num dia você está por cima, no outro, por baixo.” Ditado muito velho, mas que resume perfeitamente as trajetórias no futebol. O atacante elogiado atualmente poderá ser cornetado tão logo perca um gol fácil, assim como o goleiro criticado pela insegurança poderá fechar a meta num dia feliz. É do jogo.

Assim como é do jogo que atletas aparentemente normais, sem nenhuma característica, física ou técnica, que os torne destacados, se aproveitem de uma boa temporada, uma boa sequência, ou mesmo um bom jogo, para darem um salto na carreira, mudarem de patamar, podendo voltar ou não ao antigo. É sobre eles que a Trivela fala, neste TOP 10.

 

10 – Emmanuel Amuneke

Quando 1994 começou, o atacante nigeriano Emmanuel Amuneke era apenas um novato de 23 anos, atuando pelo Zamalek, do Egito, e não tinha sequer um ano de atuações pela seleção de seu país. No Mundial daquele ano, porém, tudo mudou: junto de Amokachi, Okocha e Yekini, ele foi um dos destaques da surpreendente campanha das Super Águias nos Estados Unidos. E conseguiu se transferir para o Sporting, logo depois da Copa.

Finalmente, em 1997, Amuneke foi-se para o Barcelona. Ficou três anos em Les Corts, e só não teve mais oportunidades por causa de renitentes lesões. A carreira acabou discretamente, com passagens por Albacete e Al Wihdat-JOR, mas o ex-jogador nigeriano poderá se orgulhar do fato de ter tido passagem por um clube graúdo europeu – coisa que Amokachi e Okocha não tiveram.

 

9 – Dimba

Até chegar ao Botafogo, Editácio Vieira de Andrade era um atacante cuja carreira se concentrava no Distrito Federal, com passagens por Sobradinho (duas), Brasília e Gama. Mas Dimba chegou a General Severiano, em 1997. E virou talismã: mesmo sem ser titular absoluto, caiu nas graças da torcida ao marcar o gol do título do Campeonato Carioca, no ano de sua vinda.

Desde então, o atacante conseguiu oportunidades em alguns clubes tradicionais, como América-MG, Portuguesa e Bahia. Mas seria no Gama, em 2002, e no Goiás, em 2003, que o jogador teria a melhor fase de sua carreira – com destaque para a passagem pelo Esmeraldino, quando foi artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2003, com 31 gols, maior marca de um goleador no torneio nacional até então. Aí, a carreira ganhou novo impulso: Dimba jogou no Al-Ittihad, e depois chegou ao Flamengo, com status de salvador da pátria. Fracassou, e foi-se para o São Caetano.

Hoje, já às vésperas da aposentadoria, Dimba retornou aos clubes do DF – está no Legião. E terminará sua carreira conseguindo escapar da discrição com que a iniciou.

 

8 – Renaldo

De chegada ao Atlético, em 1993, o baiano de Cotegipe sequer era a principal aposta no clube – papel ocupado por um quase homônimo, a revelação Reinaldo. Que logo caiu no ostracismo. E deu uma oportunidade que seria amplamente aproveitada pelo atacante vindo do Atlético-PR. Renaldo foi crescendo, aos poucos, até explodir de vez, em 1996: foi artilheiro do Campeonato Brasileiro, junto de Paulo Nunes, conseguiu uma partida pela Seleção Brasileira e, finalmente, se transferiu para o Deportivo.

E Renaldo desembarcou em A Coruña cheio de otimismo, dizendo: “Sou como um Ronaldo, mas com um 'e'”. Mas logo a promessa se revelou injustificada: em quatro anos no Depor, o atacante não passou de 23 jogos e cinco gols. Foi emprestado ao Corinthians, já em 1997, e também não se destacou. Depois, passou a perambular por pequenos clubes espanhóis, como Las Palmas, Lleida e Extremadura. Voltou ao Brasil, sem se destacar em Palmeiras, Paraná e Coritiba. E hoje, já com 40 anos, anda no Itaúna, da segunda divisão mineira. Sem ter conseguido dar sequência à explosão que teve, há quinze anos.

 

7 – Keisuke Honda

Provavelmente, desde Junichi Inamoto o futebol japonês não testemunhava um caso de ascensão tão vertiginosa. Há não mais do que um ano e meio, Keisuke Honda começava a temporada 2009/10 sendo a principal aposta do VVV para, quem sabe, conseguir evitar o rebaixamento no Campeonato Holandês. O meio-campista fez muito mais: foi um dos destaques do primeiro turno da Eredivisie. E começou 2010 já vestindo outra camisa, a do CSKA Moscou.

Pois Honda não se diminuiu no Exército Vermelho. Também tomou rapidamente um posto na equipe titular. Cresceu de produção na seleção do Japão, tornando-se um dos protagonistas da boa campanha do Nippon Team na Copa do Mundo. E, aos 24 anos, o meia continua jogando regularmente pelo CSKA. Continuando assim, quem sabe, poderá ser mais um nipônico a fazer carreira regular no Velho Continente. Nada mal para quem apenas esperava ajudar um clube holandês a não cair.

 

6 – El-Hadji Diouf

Quando a Copa do Mundo de 2002 se aproximava, o desempenho de El-Hadji Diouf era visto com alguma ansiedade. Afinal de contas, se a seleção de Senegal disputaria o Mundial pela primeira vez, muito se devia às atuações daquele atacante atrevido, de apenas 21 anos de idade. E Diouf não decepcionou. Mesmo sem ter marcado gols naquela Copa, notabilizou-se pelos dribles rápidos e insinuantes. O Liverpool pagou, literalmente, para ver se aquela aposta resultaria em algo. E trouxe Diouf para Anfield, logo depois do Mundial.

Diouf tentou, mas, aos poucos, o desempenho fulgurante visto em campos japoneses e sul-coreanos foi se apagando. Em 2004, então, ele mudou de ares, sendo emprestado ao Bolton. Conseguiu melhor sorte, foi contratado em definitivo e passou três anos nos Wanderers, caindo nas graças da torcida, mesmo sem muitos gols. Em 2008, foi para o Sunderland, onde passou mais um ano. Logo depois, passou para o Blackburn. Não teve sucesso. Agora, emprestado ao Rangers, tenta, de novo, virar destaque. Como nunca mais foi, depois de 2002.

 

5 – Jonas

Não se pode dizer que o atacante era totalmente anônimo. Mesmo antes de chegar ao Grêmio, em 2007, Jonas começou bem, com atuações elogiáveis pelo Guarani. No Santos, só teve seu desenvolvimento interrompido por uma grave lesão no joelho. Teve, então, de começar novamente. E o reinício foi duro: um empréstimo à Portuguesa, em 2008, e os tragicômicos gols perdidos contra o Boyacá Chicó, pela Copa Libertadores de 2009.

Mas o paulista de Bebedouro persistiu. Em 2010, voltou a ser titular no Grêmio. E este foi o seu ano: Jonas começou a marcar gols. Muitos gols. Foi artilheiro do Campeonato Gaúcho, com 11 gols. Também teve bom desempenho na Copa do Brasil, com quase um gol por jogo. E, finalmente, o apogeu: o posto de principal goleador no Campeonato Brasileiro, com 23 gols. O Valencia se interessou. Apostou em Jonas. E caberá a ele mostrar, nos Ches, que está longe de merecer as galhofas de que foi vítima em 2009.

 

4 – Keirrison

Em 2007, o Coritiba amargava a Série B. Mas, como sói acontecer, das trevas fez-se a luz. Na forma de duas revelações. A dupla formada pelo atacante Keirrison e pelo meio-campista Pedro Ken foi uma das principais responsáveis (se não a principal) pelo acesso do clube do Alto da Glória à Série A. E 2008 deu destinos diferentes àqueles jogadores: enquanto Pedro Ken foi mais discreto, Keirrison continuou brilhando. E terminou o Brasileiro como artilheiro, empatado com Kléber Pereira e Washington. O mais jovem goleador da história dos Brasileiros.

O Palmeiras rapidamente se mexeu, e contratou o sul-mato-grossense. Keirrison não decepcionou: começou de modo fulgurante 2009, sendo o principal destaque do ataque palestrino. Era, junto de Alexandre Pato, a principal promessa de ataque do Brasil para os anos seguintes. Porém, uma decisão mudou o rumo de tudo. No meio de 2009, já sendo pressionado por uma crise, Keirrison soube de uma proposta do Barcelona. Aceitou. E se mudou para Camp Nou.

A decisão retardou a carreira do atacante. Sem espaço nos Blaugranas, Keirrison começou a ser emprestado. E, tanto no Benfica quanto na Fiorentina, passou em brancas nuvens. Agora, cedido ao Santos, procura recuperar o posto de destaque que teve há dois anos. O lado bom da história: ainda há tempo.

 

3 – Kléberson

Na metade de 2001, Kléberson não passava nem perto de ser cogitado para a Seleção Brasileira que pelejava nas eliminatórias para a Copa do Mundo. Era apenas um meio-campista novato, que começava a virar titular no Atlético-PR. Tudo mudaria com o Campeonato Brasileiro: junto de Kléber (hoje Kléber Pereira), Adriano (o Gabiru) e Alex Mineiro, aquele jovem foi um dos jogadores-chave do título vencido pelo Furacão.

Kléberson, então, começou 2002 em alta. E fez parte de um grupo que recebeu algumas oportunidades de Luiz Felipe Scolari, nos poucos amistosos da Seleção Brasileira antes da Copa. Kléberson aproveitou a chance, aprovou e foi ao Mundial. Haveria mais: do jogo contra a Bélgica para a frente, tornou-se titular da Seleção. E muito mais: na final contra a Alemanha, teve performance elogiadíssima. Voltou pentacampeão. E muito badalado.

Após muita cobiça de equipes europeias, Kléberson, enfim, assinou com o Manchester United. Era o primeiro brasileiro a jogar nos Red Devils. Ainda assim, contusões impediram que as oportunidades viessem. Sem ter estourado em Old Trafford (ao contrário de Cristiano Ronaldo, com quem chegou em 2003), Kléberson foi-se para o Besiktas. Depois de atuações discretas, voltou ao Brasil, para o Flamengo. E conseguiu recuperar-se de fratura no braço, indo à Copa de 2010. Hoje, emprestado ao mesmo Atlético-PR onde despontou, fecha um círculo. Que, se não o transformou em destaque mundial, pelo menos garantiu seu lugar na história.

 

2 – Oleg Salenko

Nascido na ainda Leningrado, o atacante russo (que também tem a nacionalidade ucraniana) fazia uma carreira que até tivera relativo êxito, mas ainda não era especial. Salenko fora artilheiro do Mundial Sub-20 de 1989, pela União Soviética. Iniciara-se no Zenit, depois fora para o Dynamo Kiev, mas estava no Logroñés, um pequeno que disputava a primeira divisão da Espanha.

Só que vários jogadores cotados para estarem na seleção da Rússia que disputaria a Copa de 1994 brigaram com o técnico Pavel Sadyrin. Era a chance que Salenko esperava. Iniciando a Copa como titular, o atacante não pôde fazer muito para evitar a eliminação russa, ainda na primeira fase. Mas fez muito por sua carreira. Não com o gol marcado contra a Suécia, mas com os cinco contra Camarões. Um recorde em Copas, que fez dele artilheiro do Mundial.

Depois da Copa, Salenko foi para o Valencia. Era sua chance para conseguir um grande salto na carreira. A forma física não deixou: as contusões se avolumaram, e o jogador começou a andar de clube em clube, até parar, em 2001, no Pogon Szczecin, da Polônia. Ainda assim, Salenko continua lembrado. E, para isso, bastou apenas um jogo.

 

1 – Salvatore “Totò” Schillaci

Era um menino pobre, nascido no povoado de San Giovanni Apostolo, em Palermo, na Itália. Assim como na vida, também começou por baixo no futebol: em 1982, iniciou-se profissionalmente no pequeno Messina. Com muito esforço, o atacante Salvatore Schillaci conseguiu alcançar o topo: foi o atleta com mais jogos pelos Biancoscudati (256), e, por fim, foi artilheiro da Série B italiana, na temporada 1988/89. Ganhou, então, a transferência para a Juventus.

Na Velha Senhora, “Totò” também não se acanhou: rapidamente virou titular, e foi destaque nos títulos da Copa da Itália e da Copa Uefa. Algo bastante auspicioso, às vésperas de uma Copa do Mundo. E, em 31 de março de 1990, o atacante recebeu a primeira oportunidade de Azeglio Vicini na Squadra Azzurra, num amistoso contra a Suíça. Não marcou. Mas foi convocado para o Mundial, na Bota.

Começou na reserva de Andrea Carnevale. Mas entrou na estreia italiana, contra a Áustria. Em três minutos, um gol. Mais outro, contra a Tchecoslováquia. Contra Uruguai, Irlanda, Argentina, Inglaterra… Schillaci, de reserva, tornara-se artilheiro do Mundial. Depois dele, foi para a Internazionale. Não deu certo. Mandou-se para o Japão, sendo o primeiro italiano na J-League. Discretamente, encerrou a carreira. Decidiu mudar de área, virando participante de “reality shows” e ator numa série. Teve de se esforçar. O mesmo esforço que o tornou um personagem histórico para o futebol italiano. E mundial.


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