Um dos mais bem-sucedidos jogadores brasileiros da Premier League não é um jogador de ataque. Gilberto Silva, volante de 36 anos, teve uma passagem marcante pelo Arsenal entre 2002 e 2009, sendo inclusive capitão do time. Atualmente no Grêmio, depois de passar pelo Panathinaikos, da Grécia, o jogador falou sobre a mudança da função de volante no Brasil, a contratação de jogadores experientes como ele e o momento da seleção brasileira.

“Esse conceito [de volante] mudou, sobretudo aqui no Brasil, onde você sempre ouve, nos programas de televisão, gente falando de ‘volante moderno’. Quem não participa do ataque, não faz gol, não é moderno. Muita gente acha isso. Eu fui muito criticado por essa função que sempre fiz, de se preocupar sobretudo em roubar a bola”, analisou o volante em entrevista ao site da Fifa, que atualmente joga como zagueiro do Grêmio.

“Mas a questão é observar quantas vezes os meias da equipe adversária deixam de trabalhar por conta de um jogador assim. Acho que antes havia, sim, mais volantes com essa incumbência de fazer o ‘trabalho sujo’: realizar a cobertura defensiva, sem prejudicar o lado ofensivo da equipe. Tanto que hoje a gente vê um movimento de se utilizarem zagueiros nessa função, como o Palmeiras fez com o Henrique, por exemplo. No futuro, talvez a gente veja mais isso: zagueiros assumindo esse papel quando a equipe precisar”, explicou o jogador, campeão do mundo pela seleção brasileira em 2002.

Perguntado se ele montaria a equipe com um “volante moderno” ou alguém com suas características, Gilberto defendeu o jogador marcador, mas ressaltou que esse tipo de jogador precisa ser formado e no Brasil há dificuldades para fazer isso.

“Claro que varia de acordo com a situação, mas a princípio montaria com um jogador com essas condições: de saber marcar e passar a bola. Só que o jogador precisa ser treinado desde cedo para exercer essa função, e nem sempre o brasileiro é obediente e disciplinado para fazer isso. Basta você assistir a uma partida aqui no Brasil: como as linhas ofensivas e defensivas se desmontam o tempo todo. Se você vê um jogo na Inglaterra ou na Itália, isso não acontece”, disse.

Campeonato Brasileiro

Gilberto voltou ao Brasil no meio de 2011, saindo do Panathinaikos para defender o Grêmio. Aos 36 anos, o mineiro de Lagoa da Prata se mostrou surpreso com o bom nível do futebol local.

“Foi melhor do que eu esperava. Quando eu cheguei, escutava falar muito da decadência do nível do futebol brasileiro, mas não é verdade. E, na medida em que vai chegando mais gente com experiência internacional – como o Forlán e o Seedorf -, isso vai dando ainda mais motivação aos clubes daqui e aos jogadores para que se animem a jogar no Brasil”, analisou.

Gilberto ainda defendeu a contratação de jogadores com mais de 30 anos para as equipes e citou a experiência do Grêmio em levar Zé Roberto, que, aos 37 anos, tem feito um grande Campeonato Brasileiro.

“Pois é, fiquei muito feliz por ele [Zé Roberto] ter chegado a um acordo com o Grêmio. Conversamos e eu falei para ele vir, por causa do grupo que temos, do ambiente do clube. Ele chegou e logo virou uma peça importante do time – o que não me surpreende em nada, pelo profissional que ele sempre foi. É mais um caso para mostrar que a contratação de jogadores de mais de 30 anos pode valer a pena; esses exemplos vão quebrando o receio dos clubes. É preciso acabar com essa história. Se o cara tiver profissionalismo, pode não só chegar a essa idade jogando bem como ser uma referência para o grupo”, analisou.

Seleção brasileira

A experiência, para Gilberto Silva, é algo que tem faltado também à seleção brasileira, ainda que Neymar tenha conseguido ir bem no papel de protagonista, além da dificuldade para quem é técnico da seleção.

“Tem sido difícil, claro. Não só para os jogadores, mas para o Mano, que está tendo que aprender tudo por conta própria. Lembro bem do Dunga, quando chegou: mesmo tendo vivido tudo e mais um pouco como jogador, a situação é diferente. E o Mano não tem tantos jogadores assim que possam assumir responsabilidade. Essa é uma grande dificuldade”, disse Gilberto.

“É importante para que os mais jovens, num momento de pressão, olhem para o lado e tenham alguém que transmita: “tranquilo, vai dar certo. Vamos fazer assim e assim.” É importante ter isso para dar tranquilidade nos momentos de pressão e para orientar quando as cosias vão bem, para que não haja relaxamento. São coisas do dia a dia fora de campo: estar na retaguarda, lembrar ao pessoal para deixar de lado a vaidade. Isso é importante tanto num clube quanto numa Seleção”, analisou o ex-jogador do Arsenal.

Gilberto Silva acredita que os jogadores como Neymar podem assumir papel de protagonistas, mas eles não podem ser os responsáveis pelo time com apenas 20 anos. E, para ele, isso é algo que tem acontecido na seleção brasileira.

“É, na Seleção, sobretudo com o Neymar, acontece demais [de ser o responsável pela equipe]. A qualidade dele faz a diferença e deve mesmo fazer. Se ele tem 20 anos e, mesmo assim, dentro do campo consegue conduzir o time às vitórias, ótimo. Para mim, ele encara esse papel muito bem, pela confiança que tem. Mas a pressão é muito grande, e ajuda ter gente mais experiente para tirar o foco dele”, opinou o volante.

Para amenizar a falta de experiência do grupo de jovens talentosos na seleção, Gilberto Silva faz a recomendação de um companheiro de Grêmio e que também foi seu companheiro de seleção brasileira. “Claro que não tenho vivido o dia a dia, mas, assim, de fora, diria que levaria o Kaká para a Seleção. O Elano também tem reencontrado seu melhor futebol e poderia ajudar. Ou mesmo o Maicon”, disse.

Gilberto Silva começou no América Mineiro antes de defender o Atlético Mineiro e seguir para a Europa. Defende a seleção desde 2001 e sua última partida foi em 2010, na Copa do Mundo, quando o Brasil caiu diante da Holanda. O técnico do Grêmio, Vanderlei Luxemburgo, confirmou que Gilberto Silva irá defender o Atlético Mineiro em 2013.