Getafe e Bordalás: As ideias do antigo fã de Cruyff que atormentou a Johan Cruyff Arena

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Quando criança, José Bordalás sonhava em ser Johan Cruyff. O garoto nasceu dez anos antes da eclosão da Laranja Mecânica na Copa de 1974. E a adoração pelo camisa 14 não se limitava a uma mera idolatria juvenil. O espanhol de Alicante gostava de imitar e até mesmo de analisar as habilidades da lenda. Mas, para sua infelicidade, o valenciano esteve distante de sequer se aproximar das competições onde neerlandês figurava. Em sua trajetória como atacante, não passou de um jogador semi-profissional que sofreu com lesões e vagou pelas divisões de acesso.

A carreira de Bordalás, entretanto, desabrocharia de outra forma. Ele não desistiu do futebol, muito menos de Cruyff. As ideias do gênio também serviram de inspiração à beira do campo, por mais que a fragilidade dos times que o espanhol treinasse não permitisse beber tanto de sua fonte. Passou 19 anos dirigindo clubes exclusivamente da Comunidade Valenciana, até ser notado fora da região pelo modesto Alcorcón. E quando alcançou sua primeira conquista, à frente do Alavés, levando os bascos de volta à primeira divisão, ouviu da diretoria que não era técnico para a elite e terminou demitido logo depois do acesso.

Bordalás deu a volta por cima no Getafe, recomeçando a partir da segundona. Aos 55 anos, comanda um time que pratica um futebol oposto àquele pregado por Cruyff, distante de valorizar a posse de bola. Em compensação, as ideias do mestre, de extrair o melhor de cada jogador e pressionar ao máximo sem a bola, são marcantes no trabalho do aprendiz. E, nos últimos dias, os Azulones se tornaram antídoto ao cruyffismo. Foram capazes de desbancar o Ajax na Liga Europa, com uma classificação inapelável. Registraram mais um grande feito entre os muitos encadeados pelo clube sob as ordens de Bordalás.

Mais de três anos depois da chegada do treinador, não dá para chamar o Getafe de surpresa. O sarrafo colocado por Bordalás no Coliseum Alfonso Pérez aumenta semana após semana. De ameaçada pelo rebaixamento na segunda divisão quando o técnico assumiu, em setembro de 2016, a equipe agora vislumbra a classificação inédita à Champions League, enquanto ainda desbanca um gigante como o Ajax na Liga Europa. Os Azulones fazem história e parecem ter ambição para muito mais. Façanhas que têm muito a ver com a capacidade de Bordalás, aquele que sequer pôde comandar o Alavés na primeira divisão.

Dentro de campo, o Getafe não costuma ser o time mais refinado. Pratica um futebol que, sem posse de bola, sufoca o adversário na base da pressão e, através dela, tenta encurtar ao máximo o caminho até o gol. Além disso, entre o excesso de faltas e um toque de catimba, há um quê de “antijogo” nos Azulones. Mas se o estilo é um tanto quanto rudimentar, admitindo as limitações de um clube que não pode contratar estrelas, a ideia não deixa de analisar a linha evolutiva do esporte. O Getafe é o suprassumo de uma modalidade cada vez mais intensa, em que os espaços se tornam escassos à medida que a preparação física evolui. Bordalás tira proveito desse conceito. E foi assim que ele derrotou o Ajax, bem como conquistou vitórias inesquecíveis nas últimas semanas contra Athletic Bilbao e Valencia.

O impressionante neste Getafe é como não deixa de crescer um instante sequer. Quando aceitou o desafio, Bordalás tinha nas mãos uma equipe que temia o segundo rebaixamento consecutivo, após 12 temporadas na primeira divisão. Montando uma base defensiva sólida, o treinador levou os Azulones do penúltimo lugar na segundona à terceira colocação, subindo através dos playoffs de acesso. Uma temporada depois, quando se previa o clube como candidato ao descenso, a oitava posição na elite saiu muitíssimo em conta. E se no último ano o Getafe sonhou com a Champions, mas deu-se por satisfeito com a Liga Europa, agora se dispõe a abraçar duas epopeias de uma só vez.

Talvez o futebol pouco vistoso também seja uma proteção ao Getafe. Mesmo subindo degraus ano após ano, seus principais jogadores não atraíram tanta atenção no mercado. A espinha dorsal do elenco se mantém praticamente intacta desde o retorno à elite. Aconteceram perdas pontuais, é claro, mas o clube também teve a estabilidade para fazer as suas contratações cirúrgicas. E de um time que recomeçou na primeira divisão pautado em se proteger na defesa, pouco a pouco aprimorou-se um jogo disposto a abafar os oponentes o mais próximo possível da própria área adversária. À medida em que houve um complemento às peças, o aperfeiçoamento das ideias em campo também se tornou palpável.

Comparando as estatísticas entre as cinco grandes ligas nacionais da Europa, o Getafe transita entre os melhores ou os piores em diferentes fundamentos. Não há meio termo. Posse de bola? A décima menor entre 98 clubes, sendo ainda o que menos executa passes curtos. Aproveitamento dos passes? O menor de todos, com míseros 61% de acerto. O 12° que menos chuta a gol, o campeão em faltas cometidas, o vice-campeão em impedimentos. Mas, em compensação, os Azulones também exibem uma eficiência impressionante.

Dentre as cinco grandes ligas, apenas o Manchester City permite menos chutes por jogo dos adversários. O Getafe também é a equipe que deixa os oponentes darem menos passes até que uma ação defensiva (desarme, interceptação) seja executada. A linha defensiva atua, em média, mais alta do que qualquer outra da Espanha – cerca de 40 metros longe de seu gol. O Getafe é o que mais força os adversários a jogarem com bolas longas nas grandes ligas, enquanto aparece em segundo como o que mais executa esse tipo de jogada. É o terceiro com maior percentual de sua própria posse de bola concentrada no campo adversário. Em média, os Azulones precisam de apenas 15 passes certos para cada finalização. O time está entre os líderes em gols de bola parada no Campeonato Espanhol e entre os que menos sofreram tentos desta maneira.

A fórmula do Getafe pode ser considerada simplória, por não priorizar o trato com a bola. Porém, necessita de um trabalho coletivo extremamente sofisticado e bem encaixado. O nível de fôlego dos jogadores precisa ser bastante alto, para pressionar tanto os adversários na marcação. Além disso, os Azulones exigem uma atenção constante de seus atletas para apertar o portador da bola. Em consequência, conseguem forçar muitos erros. Facilitam a recuperação da posse no campo de ataque. E, mais perto da área adversária, o gol realmente precisa de menos toques para acontecer.

“Nunca gostei de defender perto do próprio gol. Do jeito que jogamos, assumimos menos riscos. O elenco acredita nisso, porque percebeu que fica mais confortável marcando alto. As partidas contra Valencia e Athletic foram exemplares neste sentido, porque você vê como em nenhum momento deixamos eles manobrarem. Recuperamos a bola muito rápido. Logicamente, somos uma equipe sem tanto talento, falta qualidade com a bola. Mas se você vê como defendemos o meio-campo e pressionamos, isso é de uma grande dificuldade técnica”, justifica Bordalás, em entrevista ao jornal El País. “Temos muitas virtudes, mas falta esse talento dos outros. Só que não deixamos de assumir riscos. No campo adversário é onde você precisa assumir os riscos”.

O Getafe se aproveita da tecnologia para manter a melhor forma física. A preparação é baseada em uma plataforma chamada Zone 7, que monitora também o desgaste dos jogadores nos treinos e prevê lesões. Criado por antigos funcionários da inteligência israelense, o software possui clientes importantes – incluindo outros clubes da Champions League. Os Azulones estão na primeira prateleira, através desse investimento. O preparador físico Javier Vidal possui grande importância dentro do planejamento, indicando a Bordalás quais os melhores momentos para rotacionar seus jogadores e reencaixar as peças.

Bordalás, por si, também possui uma fama de ser extremamente exigente. O treinador costuma pesar seus jogadores todos os dias e multar aqueles que saem da linha. A carga de trabalhos físicos é imensa, para manter o nível de intensidade que se pede nas partidas. E a aplicação dos atletas no dia a dia costuma se refletir além. As atividades moldaram uma equipe que consegue manter uma compactação maior do que qualquer outra na Espanha, segundo as bases de dados da Liga. Os movimentos treinados à exaustão durante a semana ocorrem naturalmente nos jogos. “O mister nos pede para estarmos vivos, intensos. Se formos mais ágeis e despertos que o adversário a cada instante, as circunstâncias se voltam a nosso favor”, conta o meia Marc Cucurella, também ao El País.

Taticamente, o Getafe preza pelo simples. Pepe Bordalás não abre mão de seu 4-4-2. Desde dezembro de 2018, o treinador não escala os Azulones em um sistema diferente. Nesta temporada inteira, não houve uma variação sequer no 11 inicial. Dentro desta ideia, a equipe depende de uma dupla de ataque muito entrosada, que por vezes fica isolada e precisa resolver os lances entre si. Também conta com uma linha de meio-campo vigorosa para pressionar a saída de bola dos adversários, muitas vezes com laterais deslocados como meio-campistas mais abertos. Já a zaga, para não se expor, depende de uma recomposição rápida e capacidade nos combates. Tudo isso se nota, pela própria forma como o elenco se montou.

A roda gira no Getafe a partir de seu ataque. Jaime Mata e Jorge Molina se conhecem por telepatia, enquanto Ángel Rodríguez sai do banco muito bem. O trio se combina para 32 dos 48 gols dos Azulones na temporada, preponderante à produção ofensiva. Além disso, com todos acima dos 30 anos, não há muitas perspectivas de perdê-los. Deyverson chegou como complemento. No meio, Marc Cucurella desempenha um papel fundamental na armação a partir da esquerda, também por sua intensidade nos combates. Mauro Arambarri e Nemanja Maksimovic são dois motores na faixa central. Já na zaga, Djené se firmou como uma liderança, enquanto David Soria passa segurança na meta. Que o futebol não seja bonito, há boas peças.

O mais interessante é a forma como o Getafe montou o seu elenco. Desde que retornaram à primeira divisão, os Azulones desembolsaram no total €62 milhões nas seis janelas de transferências. Outros dez clubes tiveram despesas maiores no período, nem todos com tal nível de desempenho. Além do mais, a folha de pagamentos dos madrilenos na última temporada era a quarta menor de La Liga, em valor que ficava abaixo até mesmo do salário de Lionel Messi.

Muitos dos destaques do Getafe vieram a custo zero, como Jaime Mata, que só estreou na primeira divisão aos 30 anos. Outras tantas soluções chegaram por empréstimo, a exemplo de Cucurella e Kenedy. Soria e Maksimovic estavam escanteados em clubes maiores da Espanha. E a observação também valeu bastante para descobrir reforços em equipes menores do exterior, como Arambarri (Boston River) e Djené (St. Truiden). Para aproveitar a baixa nos preços, uma prática recorrente é ir atrás de jogadores recém-rebaixados. O elenco inteiro soma 28 descensos, contra apenas nove títulos em ligas nacionais. Garimpo é um bom termo para descrever o trabalho minucioso do Getafe, e também cirúrgico às suas necessidades.

“Somos modestos e essa é a realidade. Você precisa se adaptar ao perfil dos jogadores que tem. É como se o Barcelona tentasse jogar um futebol direto. Seria absurdo, não funcionaria. Eu me encanto jogar com mais posse de bola, todos os técnicos gostam. Sempre fui um amante de um bom futebol. Quem dera tivéssemos mais capacidade de aumentar a posse de bola e ter mais controle. Assim, gerariam menos chances de gol contra nós”, afirma Bordalás.

O presidente do clube possui uma participação primordial neste processo. Ángel Torres é descrito como um dirigente que conhece em detalhes as virtudes de cada jogador da segunda e da terceira divisão, o que facilita bastante na procura de reforços. O empresário de 50 anos é o mandatário mais longevo da primeira divisão espanhola e também o homem responsável por estabelecer os Azulones na elite. Muito da ascensão da agremiação se deve a ele.

Em 2002, o Getafe atravessava uma séria crise. Figurando na terceira divisão do Campeonato Espanhol, o desconhecido time da região metropolitana de Madri era ameaçado pela falência. Conseguiu se safar por conta de Ángel Torres, que encabeçou um grupo de investidores locais, que compraram o direito de administrar a agremiação junto à prefeitura. Nascido em Toledo, o cartola mudou-se à cidade de Getafe para trabalhar em fábricas durante a juventude. Fez parte de sindicatos e montou uma cooperativa para a construção de casas nos subúrbios aos trabalhadores. Através da iniciativa, acumulou sua fortuna e teve condições de adquirir o Getafe.

No entanto, Torres está distante de ser o novo rico com perfil megalomaníaco. Pelo contrário, o Getafe mantém o seu caráter operário, mesmo ganhando nova projeção. Com a crise contornada, já em 2004 os Azulones estrearam na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Montaram bons times e chegaram a disputar duas finais de Copa do Rei, além de também alcançarem as quartas de final da Copa da Uefa, quando quase eliminaram o Bayern. Mas ainda era um time pautado em contratações pontuais, ações de marketing curiosas e uma estabilidade incomum a quem dava um salto tão grande em pouco tempo. Com apenas uma breve passagem de segundona nestes 16 anos desde o inédito acesso, os madrilenos possuem uma gestão exemplar. A visão de um treinador como Bordalás permite o salto.

E mesmo quando o sonho de disputar a Champions surge, o Getafe não perde o ambiente de clube das divisões menores. Às vésperas de um jogo importante contra o Real Madrid na temporada passada, por exemplo, era possível entrar no Coliseum Alfonso Pérez sem ser revistado e visitar os vestiários vazios, ou mesmo cruzar com o presidente tomando um suco de laranja. “O segredo do meu êxito é conseguir que os jogadores tenham tudo o que necessitam”, explicava Ángel Torres, à reportagem do jornal El País. Mentalidade retribuída com trabalho, conforme resumido por Bordalás: “Superamos as expectativas. Devemos isso ao trabalho e ao compromisso de um grupo muito importante. Não temos grandes estrelas. Somos modestos. Mas trabalhamos muitíssimo. Somos uma equipe que faz as coisas muito bem”. Uma cooperação que se torna essencial não apenas para superar as limitações no orçamento, como também para elevar o rendimento em campo.

Contra o Ajax, o que se viu foi o Getafe ao máximo. A pressão asfixiante é o preceito básico rumo às vitórias. Depende de uma disciplina tática enorme, de uma pujança física e de muito foco. Por vezes os Azulones perdem a mão na tentativa de também desconcentrar e anular os adversários. Ainda assim, mais do que a catimba, o que sufocou os Godenzonen foi mesmo a maneira insaciável como os espanhóis visaram a bola. O Getafe ganhou o primeiro jogo permitindo que os neerlandeses finalizassem apenas duas vezes em 90 minutos, e o primeiro chute veio só depois dos 37 do segundo tempo. Na volta, apesar da derrota, os Azulones tiveram um gol, um tento anulado e três bolas na trave. De novo, mal deixaram os Ajacieden arriscar.

“Se isso é uma equipe defensiva, eu não sei o que é futebol. Estou orgulhoso pelos rapazes, deram uma lição de entrega, trabalho, honestidade, bom jogo… Um humilde eliminando um histórico, que não precisava esquentar a partida assim”, afirmou um entusiasmado Bordalás, depois da classificação em Amsterdã. O estilo de jogo depende de convicção, e isso o treinador transmite plenamente aos seus jogadores. Se é realmente ofensivo, a falta de trato com a bola não permite falar tanto assim, mas é agressivo como raríssimos já vistos na Europa. E, bem ou mal, dá muito certo. Difícil encontrar atualmente um adversário mais chato para se encarar nas grandes ligas europeias, que tanto force os erros.

Antes da segunda partida contra o Ajax, Bordalás colou nas paredes de seu vestiário papéis com críticas de Frenkie de Jong ao Getafe, dizendo que os Azulones “não jogam para entreter o público” e que as partidas da equipe “são irritantes”. Se Cruyff ainda estivesse vivo, seria bem possível que o veterano endossasse tal visão. O conceito deste EuroGeta, entretanto, não deixa de ser uma leitura de um “Futebol Total” na marcação-pressão. E, sem entretenimento, mas com vitórias e competitividade, a equipe escreve sua própria epopeia. É o conto de fadas de um anti-herói, bem como o exemplo de superação daquele que encontra os próprios meios para fugir da mediocridade. Por tudo o que tem feito, o Getafe deixou de ser sinônimo de um clube insosso do Campeonato Espanhol. Ame-o ou odeie-o, a história se constrói.