Quando o Flamengo anunciou Gerson como reforço em julho, existiam mais dúvidas do que certezas sobre o jogador. O primeiro ponto de interrogação surgia ao redor dos polpudos €11,8 milhões desembolsados na contratação. Além disso, o jovem de 22 anos não rendera na Europa e sequer parecia possuir uma posição tão definida. Três meses depois, impressiona como Gerson pulverizou tantos questionamentos. Há poucas certezas maiores do que o meio-campista na equipe de Jorge Jesus. O novato encontrou seu espaço e se tornou imprescindível à fluidez do time. Contra o Grêmio, protagonizou outra de suas grandes partidas pelo clube. Se uma incerteza paira sobre o camisa 15, é justamente o temor da torcida por sua ausência.

Gerson chegou ao Flamengo para ser o “camisa 8” da equipe, mas a sequência na Europa não depunha a seu favor. Não jogou bem quando foi utilizado assim na Roma e tinha um pouco mais de proteção quando emendou uma sequência na Fiorentina, sem se sobressair tanto. Parecia um jogador disperso e inconstante para ocupar uma função tão importante ao funcionamento no meio-campo, apesar do talento demonstrado em certos momentos da carreira. Tornou-se um dos atletas redescobertos por Jorge Jesus.

Pensar no jogo de Gerson com a camisa do Flamengo é também elogiar o encaixe de Willian Arão, outro que se transformou nestes últimos meses. Há tanto tempo na Gávea, o camisa 5 não parecia nada confiável para se tornar o vértice na cabeça de área rubro-negra. Passou a emendar grandes partidas, deixando de ser apenas aquele jogador que vale como elemento surpresa nos seus avanços à área. Pelo contrário, o ímpeto de Arão passou a ser usado a seu favor, seja para morder na marcação, seja para facilitar a saída de bola.

Gerson contribuiu ao companheiro e ocupa um espaço perfeito às suas características. O jovem parece ter entendido que, depois de decepcionar na Europa, o Flamengo deu um (caro) voto de confiança e ofereceu uma grande chance para sua carreira decolar. O nível de concentração do camisa 15 nas partidas é um de seus pontos fortes, constante para preencher a faixa central. O meio-campista possui uma leitura de jogo privilegiada, aliada à sua capacidade física e ao seu bom passe. Virou pau pra toda obra.

Ao longo desses três meses, Gerson jogou em diferentes faixas do meio-campo. Por vezes, parecia se sentir mais à vontade aberto pela direita. Entretanto, ali pelo centro que tem sido mais funcional. Chamar Gerson de “segundo volante” é limitar um pouco o seu papel, assim como não dá para simplesmente classificá-lo como “meia”. Ali, à frente de Arão, o meio-campista circula e contribui para que o Flamengo funcione – se complementando com a maestria de Everton Ribeiro, com os estalos de Arrascaeta, com a velocidade de Bruno Henrique, com a inteligência de Gabigol. O camisa 15 ajuda demais.

Na Arena do Grêmio, Gerson fez um excelente primeiro tempo. A atuação feroz do Flamengo durante os primeiros 25 minutos contou bastante com o meio-campista, que pressionava sem a bola e sufocava a saída tricolor ainda no campo de defesa adversário. Quando os rubro-negros recuperam a posse, têm no camisa 15 um jogador que se desloca para ocupar os buracos na defesa, ao mesmo tempo que possui uma qualidade para descolar um grande passe – ou uma finalização. Ele participou de boas jogadas em meio ao sufoco imposto pelo Fla.

Gerson também precisou lidar com as botinadas, e até deu sorte de não sofrer nada mais grave na solada de Michel ao final do primeiro tempo. Já na segunda etapa, precisou recuar um pouco mais e ajudar a defesa em meio à reviravolta do Grêmio. Mas não deixaria de contribuir decisivamente no lance do gol. Em meio à troca de passes que vai de um lado ao outro do campo, o camisa 15 primeiro apareceu na esquerda para auxiliar na construção. Quando a bola girou para a direita e o Fla concentrou seus homens por ali, Gerson percebeu a fresta deixada por Kannemann ao perseguir Everton Ribeiro. O meio-campista se projetou, recebeu o passe de Rafinha e abriu para Arrascaeta cruzar de primeira a Bruno Henrique.

O lamento ao Flamengo aconteceu na comemoração do gol, quando Gerson sentiu a coxa em meio à festa dos jogadores e precisou ser substituído. Ficou claro como Piris da Motta não dá conta do recado, por mais que Arão tenha ficado mais livre para avançar. Hoje, Gerson não tem um companheiro que cumpra seu papel em campo. Os rubro-negros sentiram isso quando poderiam ter aproveitado melhor os contragolpes na segunda etapa e sabem que sua ausência tende a ser um porém para o duelo no Maracanã. A avaliação médica fica para os próximos dias.

Em gols ou assistências, o Flamengo possui outros tantos jogadores mais efetivos que Gerson. O peso do camisa 15 acaba percebido quando se vê as partidas dos rubro-negros. E, vendo as partidas dos rubro-negros, fica difícil não se render ao excelente momento do meio-campista. Mostra-se o jogador vaticinado quando surgiu no Fluminense, e com uma regularidade que talvez poucos previssem naqueles tempos. A dinheirama despejada pelos flamenguistas, hoje, soa como um preço muito mais justo pela bola que o meio-campista exibe.