O Flamengo viveu uma semana movimentada no mercado de transferências. Jorge Jesus ganha reforços ao seu elenco, tentando solucionar algumas carências dos rubro-negros. Pablo Marí desembarca como um negócio relativamente barato à zaga, mas que depende da adaptação ao futebol brasileiro. A transação mais midiática (e cara) é mesmo a do meia Gerson. O antigo prata da casa do Fluminense estava na Itália e, apesar das expectativas criadas, não deu muito certo por lá. Retorna ao Rio de Janeiro, em polpudo investimento de €11,8 milhões, segundo o Transfermarkt.

De certa maneira, a transferência de Gerson se assemelha à de Vitinho. São dois jogadores jovens, que construíram sua reputação no país antes de se transferirem à Europa. Retornam ainda em idade de seguirem sua curva ascendente na Gávea. Vitinho, diferentemente, ainda construiu certo sucesso na Rússia. Vinha bem com o CSKA Moscou, embora o interesse do Flamengo tenha preponderado. E até agora não emplacou. Já não dá para dizer o mesmo de Gerson. Aposta cara da Roma, o meia não vingou em sua empreitada pela Serie A.

Gerson demorou um bocado para se firmar na Roma. Durante a primeira temporada, em 2016/17, era apenas uma peça na rotação. Jogou principalmente pela Liga Europa, na qual os giallorossi utilizavam um time repleto de reservas. Ganharia mais espaço a partir do segundo ano, em 2017/18, mas não aproveitou tão bem as chances. Geralmente escalado a partir do banco de reservas, não agradou como meio-campista central. Teve um pouco mais de sucesso entrando nas pontas, especialmente pelo lado direito. Mas o único jogo em que impressionou foi em uma vitória sobre a Fiorentina, em que fez seus únicos dois gols pelo time.

Qual o destino de Gerson na temporada passada? Sim, a própria Fiorentina resolveu dar uma chance ao garoto que tanto agradara em 2017, assegurando seu empréstimo. O impacto inicial foi ótimo, com um gol e uma assistência na vitória por 6 a 1 sobre o Chievo. O meia permaneceu como uma peça recorrente entre os titulares, usado em diferentes funções do meio para frente – sobretudo como um dos meio-campistas centrais, à frente do volante, no 4-3-3 utilizado por Stefano Pioli antes de sua demissão. A demissão do comandante custaria também sua condição como titular. Mas, apesar de participar bastante na Serie A, não seria exatamente um destaque do time.

Gerson tem muito talento a ser aproveitado, obviamente. É um jogador incisivo, com sua dose de habilidade e uma boa visão de jogo. O Flamengo, porém, precisa pensar qual será a sua melhor utilização. A princípio, deverá ocupar o lugar de William Arão no meio-campo, atuando ao lado de Cuéllar. Ainda que sejam esquemas diferentes, vinha fazendo isso na Fiorentina, em partes. Mas as virtudes do novato não se diferem tanto assim em relação à maior cobrança sobre Arão: sua dispersão na hora de recompor e marcar. Precisará evoluir neste sentido para dar a consistência que se aguarda há tempos no setor.

Defensivamente, os números de Gerson pela Fiorentina não foram muito exuberantes. Aliás, acabou perdendo a mão pelo excesso de cartões amarelos.Pode render mais no Brasil, claro, onde sobra espaço para os meio-campistas avançarem. Mas é necessário analisar com um pouco mais de cautela a vinda do novato. O momento da Viola não ajudou muito, com a queda vertiginosa que deixou o time sob riscos durante o segundo turno. Dentro de um coletivo que não funcionou, algumas peças individuais resgataram os violetas. O meio-campista não foi uma delas.

Aos 22 anos, Gerson possui uma considerável margem de recuperação e evolução. É nisso que o Flamengo aposta, em uma transação cara, mas que ainda assim não compensa o investimento inicial da Roma. Apesar da pressão natural que se sente na Gávea, o jovem estará de volta à sua cidade e em um ambiente favorável para reencontrar o seu melhor futebol. A interrogação maior se concentra em como será esse futebol, já que a necessidade não corresponde totalmente à expectativa de entrega. Um time bem estruturado depende de uma boa dupla de volantes. Resta saber como Gerson se encaixará. O porte físico e a qualidade por si não bastam, dependendo do empenho e do foco na função. Dentro de um elenco repleto de meias, vale esperar um pouco mais para analisar sua adaptação.

*****

Estamos também no YouTube! Confira nosso último vídeo e se inscreva no canal para fortalecer o jornalismo esportivo independente em mais um meio: