Quando o Liverpool consumou a conquista da Premier League, muita gente certamente pensou em Steven Gerrard. Como nenhum outro personagem dos Reds, o antigo capitão simbolizou a travessia de 30 anos no deserto em busca do tão almejado título nacional – especialmente por recaírem sobre suas costas os maiores lamentos pela derrocada em 2013/14. Mesmo fora de Anfield, o atual treinador do Rangers compartilha a alegria com seus antigos companheiros. E confessa, como torcedor e ex-jogador, que o feito da equipe de Jürgen Klopp representa um alívio.

Nesta semana, Gerrard conversou com a BBC para a gravação do podcast do Match of the Day. O veterano abordou diversos assuntos, dos sentimentos vividos durante as últimas semanas às memórias de sua vida como jovem torcedor. Abaixo, destacamos alguns trechos da entrevista:

O alívio pelo título

“Antes de mais nada, para mim foi fantástico enterrar alguns demônios com este título. Não todos os demônios, obviamente, mas foi um grande alívio [após 2014] quando o Liverpool passou por essa linha. Olho para trás todos os dias e acho que para sempre pensarei que me faltou um título da Premier League. É o que me escapa como jogador e teria completado a galeria de troféus. Sendo torcedor e ex-jogador do Liverpool, sei como essa espera foi longa e demorada. Ainda sigo em contato com muitos jogadores que permanecem naquele vestiário, então muitos deles compartilharam essa dor comigo”.

A alegria permanece

“Foi fantástico para todos ligados ao clube, mas foi um misto de emoções de várias maneiras, por causa de minhas próprias experiências, sendo torcedor e ex-jogador, bem como porque boa parte de minha família também torce pelo Liverpool. Para ser honesto com vocês, ainda fico nas nuvens quando assisto a toda a cobertura da televisão e vejo todas as emoções pairando por aí”

A importância de Van Dijk e Alisson

“Acho que o Liverpool tinha um time bom e empolgante antes de Van Dijk e Alisson chegarem, mas eles simplesmente transformaram a equipe num nível mais alto e o quebra-cabeças se tornou completo com a presença dessas duas peças”.

A parceria com Suárez

“O melhor jogador com quem atuei foi Luis Suárez. Acho que vocês não ficarão surpresos com isso. Ele é absolutamente fenomenal. É uma máquina, alguém que nunca entrava na sala de tratamento e alguém com quem sempre senti, ao entrar em campo, que poderíamos vencer qualquer tipo de adversário, porque ele poderia fazer coisas que me impressionavam. Muitos atacantes que contratamos tinham respeito por jogadores como Carragher, mas Suárez não respeitava ninguém – no bom sentido. Ficava trombando com os zagueiros, dava umas mordidas, deixava o cotovelo e não é isso que normalmente você vê nos treinos. Suárez colocava qualquer defensor contra a parede”.

As lições de Rafa

“Rafa Benítez foi meu melhor técnico. Taticamente ele me melhorou. O relacionamento entre nós não era daqueles afetuosos, entre pai e filho, mas se você está falando sobre alguém que poderia armar um time para vencer uma partida ou melhorar seu jogo individual para atingir o próximo nível e ser um futebolista melhor, definitivamente é Rafa”

Istambul 2005

“Ganhar a final da Champions em Istambul, obviamente, foi meu melhor jogo. Sempre tenho que falar isso. Eu não estava dormindo bem nas semanas que antecederam o jogo. O Milan tinha alguns jogadores de primeira em todos os setores. A partida começou e deu errado depois de três ou quatro minutos, antes de sairmos perdendo por 3 a 0 rumo ao intervalo. Foi um dos vestiários mais difíceis em que estive na carreira. Entrei como capitão e estava pensando no que dizer. Meu próprio pai e meu irmão já estavam cogitando deixar o estádio. Até hoje você pensa como aquilo aconteceu. Tenho que me beliscar para acreditar que conseguimos esta virada”.

Ídolos da infância

“Tive alguns heróis no futebol. A primeira Copa do Mundo que realmente assisti foi a de 1990, então Lineker e Gazza são dois. Eu amava aquela seleção inglesa. Pensando no Liverpool, John Barnes, cresci assistindo-o. Depois, quando estava na base, era Robbie Fowler”.

O que deu errado com a geração de ouro

“Olhando para trás, precisávamos na seleção inglesa de um técnico maior que todos os jogadores individualmente. Havia treinadores disponíveis no momento, como Rafa Benítez, mas talvez ele não quisesse comandar uma seleção na época. Agora olho para técnicos que são maiores que o time: Klopp, Mourinho e Guardiola. Acho que alguém assim, acima da geração de ouro, estaria preparado para tomar decisões difíceis e para aproveitar melhor este grupo de jogadores”.

Zidane e Messi, os favoritos

“Preciso escolher dois jogadores como os melhores que enfrentei. No meu início foi Zidane. Eu tinha 20 poucos anos quando o encontrei e provavelmente foi a primeira vez que sai em choque de campo, porque fiquei o admirando. Era o tamanho, a capacidade física, a força, a habilidade, o tamanho de seus pés e a maneira como controlava a bola. O outro é Lionel Messi, certamente. Ele é uma aberração, joga em um planeta diferente de nós. É meu Maradona dos tempos modernos”.