Os deuses do futebol parecem ter separado este final de semana para caprichar no desfecho dos campeonatos nacionais nas antigas repúblicas soviéticas. O Bate Borisov, dominante no Campeonato Bielorrusso, conquistou seu 12° título consecutivo de uma maneira bem mais emocionante que a monotonia no topo da tabela pode sugerir: um gol aos 50 do segundo tempo foi determinante para o sucesso. Uma taquicardia que se viveu de maneira parecida, mas ainda mais intensa, na Geórgia. O confronto direto pela taça aconteceu justamente na última rodada. E o Torpedo Kutaisi, que precisava de uma vitória fora de casa contra o todo-poderoso Dinamo Tbilisi, conseguiu a façanha da maneira mais épica possível.

Potência local desde os tempos soviéticos, o Dinamo Tbilisi possui 16 títulos do Campeonato Georgiano (em 29 disputados desde 1990) e parecia pronto a retomar a hegemonia nacional depois de duas temporadas. A equipe da capital assumiu a liderança na sétima rodada e se mantinha soberana desde então. O problema é que os tropeços recentes se combinaram com a ascensão do Torpedo Kutaisi, principal perseguidor ao longo da competição. Antes da última rodada, o clube da segunda cidade mais populosa da Geórgia vinha de sete vitórias nas oito partidas anteriores. Fariam o tradicional clássico do país, encarando o Estádio Boris Paichadze, em Tblisi.

Dois pontos à frente na tabela, o Dinamo apenas precisava segurar o empate diante de sua torcida. E ia confirmando a taça até os 29 do segundo tempo, quando o Torpedo abriu o placar. Cruzamento na área que Tornike Kapanadze arrematou com firmeza, levando a torcida visitante à loucura. Entretanto, era de se esperar que a arbitragem fosse um tanto quanto “caseira” para a ocasião. E assim aconteceu aos 46 do segundo tempo. O juiz assinalou um pênalti inexistente para o Dinamo, depois de um mergulho escandaloso dentro da área. A definição do campeonato aconteceria naquela cobrança – que, entre confusões e reclamações, aconteceu só depois dos 51 minutos.

A responsabilidade estava nos pés de Otar Kiteishvili. Aos 21 anos, o meio-campista é o capitão de seu clube, além de defender a seleção principal da Geórgia. Mas o chute rasteiro, no meio do gol, não teve o destino que os torcedores do Dinamo esperavam. Seu companheiro na equipe nacional, o goleiro Roin Kvaskhvadze caiu para o lado direito, mas conseguiu bloquear a cobrança com as pernas – em defesa que lembrou bastante a lendária de ‘São Victor’ contra o Tijuana. O arqueiro sequer precisou se preocupar com o rebote. A rebatida foi tão forte que a bola saiu para fora da área. Já se levantou com o punho erguido, para celebrar a façanha com os companheiros. Ao final, o herói também teve o gosto de, como capitão, erguer o troféu.

Segundo time da Geórgia com mais participações no antigo Campeonato Soviético, o Torpedo Kutaisi também é o segundo maior campeão nacional desde a independência. São quatro títulos, os três primeiros faturados de maneira consecutiva, entre 1999/00 e 2001/02. Assim, o feito deste final de semana ainda teve um sabor diferente, encerrando um jejum que durava 15 anos. O clube também garantiu o seu retorno à Liga dos Campeões 2018/19, e entrará nas etapas preliminares. A lenda, de qualquer maneira, perdurará por décadas em Kutaisi. Não seria surpreendente se Kvaskhvadze ganhasse uma estátua em frente ao Estádio Ramaz Shengelia. O épico que protagonizou é digno de todas as honrarias.


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