Todo reinado tem um rei. Este é Pelé. Na linha sucessória, é preciso um príncipe. Este era Coutinho. Antônio Wilson Honório foi a “segunda voz” da dupla com Pelé. Discreto, avesso aos holofotes, mas igualmente goleador tal qual seu companheiro, Coutinho fez história no Santos, na Seleção e no futebol brasileiro. Ainda sem causa conhecida, Coutinho nos deixou nesta segunda, 11, aos 75 anos.

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Nascido em Piracicaba em 11 de junho de 1943, Coutinho brilhava nas ruas da cidade e chamava a atenção. Já havia sido convidado por grandes clubes brasileiros, como Flamengo, São Paulo e Corinthians. Mas o pai de Coutinho era avesso à ideia do filho se tornar um mero jogador de futebol. Para Coutinho era o sonho. Assim como fugia dos pontapés dos defensores, o pequeno garoto fugiu de casa. O Santos não podia escapar. 

Dois anos depois da descoberta de Pelé, o Santos tinha mais um raio caindo no mesmo lugar. Aos 14 anos, sendo assim o jogador mais novo a jogar pela equipe do Santos, Coutinho estreou em 17 de maio de 1958, contra o extinto Sírio Libanês, de Goiânia. Coincidentemente, o placar inaugural foi o mesmo da primeira partida de Pelé: 7 a 1. Foi também neste jogo que Coutinho marcou seu primeiro dos 368 gols que assinou com a camisa santista: é o terceiro maior artilheiro da história do clube, atrás apenas de Pepe (403) e Pelé (1.091). Além dos gols, acumulou seis Campeonatos Paulistas, cinco título da Taça Brasil, quatro títulos do Rio-São Paulo, um Robertão, duas Libertadores da América e dois Mundiais de Clubes, além de outros troféus levantados em torneios amistosos mundo afora. Extremamente técnico, Coutinho era conhecido pelos dribles curtos e por ser frio dentro da área. Tanto para finalizar a gol quanto para deixar o companheiro – geralmente Pelé – em boas condições de marcar. 

Com Pelé, a afinidade foi instantânea. “Quando atuamos pela primeira vez, ele antecipava tudo o que eu pensava. Era como se já tivéssemos jogado juntos antes”, disse o Rei, exaltando a sintonia entre os dois. “A gente se falava pelo olhar”, dizia Coutinho. Pela Seleção Brasileira, debutou em 1960, em jogo contra o Uruguai, em Montevidéu. Fez 15 partidas com a camisa amarela e marcou seis gols. Tinha tudo para ser titular na Copa de 1962. Dos seis jogos preparativos naquele ano, Coutinho foi titular em quatro, no lugar de Vavá, e marcou dois gols. A participação de Coutinho como titular da Seleção no Mundial do Chile era uma das grandes dúvidas que o técnico Aymoré Moreira tinha. No fim das contas, no último amistoso antes de embarcar para o Chile, contra o País de Gales, no Pacaembu, Coutinho sofreu uma forte pancada que o tirou do páreo. “Fui para a Copa, mas infelizmente não deu pra recuperar. Essa Copa eu tenho ela na cabeça até hoje, porque eu acho que, pra mim, ia ser o prêmio do século essa Copa do Mundo”, disse em entrevista ao Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas. Do banco, viu o Brasil levar o bi. Poucos meses depois, já recuperado, conquistou o Mundial de Clubes contra o Benfica, em uma das maiores apresentações coletivas da história. Na ida, Coutinho fez o segundo da vitória de 3 a 2, no Maracanã, e na volta, marcou mais um gol nos 5 a 2 aplicados no Estádio da Luz.

Ainda na época de jogador, Coutinho passou a usar esparadrapos nos punhos, o que logo passou a ser visto como uma forma de se diferenciar de Pelé, algo sempre negado por Coutinho. Sempre relacionado a Pelé, Coutinho chegou a evitar o parceiro. “Passei doze anos fazendo tudo ao lado de Pelé. Não aguento mais falar sobre ele”. Mas ele entendeu que Pelé, apesar de toda a bajulação da imprensa mundial, passava pela mesma situação. ‘Não tem como falar de Pelé sem falar de Coutinho e vice-versa”. 

Coutinho ao centro com Dorval, Mengálvio, Pelé e Pepe, no lendário Santos dos anos 60.

Mas a partir de 1966, Coutinho passou a sofrer com muitos problemas físicos, principalmente pelo fato de ter facilidade para engordar. Em 1968, foi contratado pelo Vitória, em um ousado movimento do clube baiano. Estreou com gol contra o São Cristóvão local, mas foi afastado pelo treinador da época para entrar em forma. Acabou sendo transferido para a Portuguesa em 1969, e voltou para o Santos em 1970. Sem conseguir mais jogar em alto nível, Coutinho ainda rodou pelo Atlas, do México, pelo Bangu e encerrou a carreira em 1973, no Saad, de São Caetano do Sul.

Embora avesso às entrevistas, quando as dava, Coutinho era a simpatia em pessoa, sempre com o sorriso aberto. Recentemente, Coutinho e Pelé puderam reviver uma última vez a mítica parceria. No videogame. O Santos reuniu os dois ídolos para uma partida de futebol virtual. Os dois tentaram juntos vencer a máquina, mas acabaram sendo derrotados com um gol do Pelé virtual. A vitória não aconteceu como nos anos 60, mas a sintonia entre os dois ficou evidente e deu às novas gerações um gostinho do que eles aprontavam pelos gramados.